Quando se iniciou o movimento de inserção dos
leigos na ação pastoral da Igreja, alguns padres saíram pelas paróquias da
Diocese de Sobral, fazendo pregações e explicações sobre aquele novo momento,
inspirado pelo Concílio Vaticano II.
Davam ênfase especial à participação dos
leigos. Até então, somente os padres, religiosos, seminaristas e os acólitos
tinham acesso ao altar e às ações litúrgicas. Aos padres, presidir os eventos.
Aos demais, apenas auxiliar. Nem mesmo a leitura de textos era permitida aos
leigos. Menos ainda às mulheres.
Numa das paróquias, o padre Fernando Frota, muito
entusiasmado, fez uma longa e detalhada preleção sobre a participação dos
leigos na igreja. Era algo novo. Falou da fundamentação teológica da decisão do
Concílio. Destacou a visão do papa João XXIII que, apesar da idade, tinha uma
forma moderna e revolucionária de agir. Uma delas era o envolvimento dos
leigos. Aquele era o movimento por Um Mundo Melhor.
Depois de muito falar sobre aquele assunto e,
bem convencido de que transmitira a ideia que lhe fizera ir àquela paróquia, o
padre Fernando, finalmente, pensou em conceder a palavra aos presentes. O
auditório estava composto de Congregados Marianos, Filhas de Maria, senhoras do
Apostolado da Oração e da Obra das Vocações Sacerdotais e mais alguns piedosos
fieis.
O padre então falou: - Depois
desta preleção inicial, onde destaquei a importância do papel dos leigos na
Igreja, gostaria de iniciar o exercício prático desta participação. Então eu lhes pergunto: O que acham desta
iniciativa da nossa Igreja Católica Apostólica Romana?
E fez-se um grande silêncio. As pessoas se
entreolhavam, esperando que alguém tomasse a iniciativa. E nada. Ninguém se
manifestava. Quando o padre olhava para alguém que lhe parecia mais capaz, logo
a pessoa mudava a vista. E o padre insistia.
- Caríssimos
irmãos, estamos em outro tempo da Igreja. Cada um pode se expressar para opinar
sobre este assunto de que falamos até agora. Alguém quer fazer alguma pergunta?
Timidamente, alguém fez um sinal de que ia
falar. O padre entusiasmou-se. Aquela primeira participação poderia fazer
surgir um bom debate. E, antes que o cidadão falasse, o padre exaltou-lhe a
decisão.
- Muito
bem! É exatamente isto que a nossa Igreja deseja. Que o leigo participe, opine,
apresente sugestões. Assim poderemos construir uma igreja mais viva e mais
ativa. O querido irmão que pediu a palavra, pode falar e estaremos todos muito
atentos. Fale, irmão!
Timidamente, quase sem olhar para o padre, o
cidadão perguntou: Padre,
quanto é que está custando uma missa?
Aquela pergunta nada tinha a ver com todo o
esforço que o padre fizera para ressaltar o novo papel do leigo na Igreja.
Foi exatamente o que vi acontecer ontem num
programa de televisão, em Fortaleza, em que um dos convidados era o ex-deputado
Iranildo Pereira (foto), um dos históricos
do MDB.
Depois de muito esperar que outros assuntos
fossem discutidos, finalmente, o apresentador principal, anunciou que o
ex-deputado seria o próximo entrevistado, após o intervalo. Era exatamente o
que me justificava esperar pela continuidade do programa.
O apresentador fez um breve relato da vida
política de Iranildo Pereira,
destacando a sua importância nas lutas pela redemocratização do país. Mostrou o
seu livro “Pau Pereira”.
Iranildo começou falando dos insanos que
querem a volta da ditadura. E falou, rapidamente, sobre a sua história em favor
da redemocratização e conquista da liberdade. Um apresentador que se demonstrou
ofendido, perguntou se o ex-deputado achava que tinha liberdade para andar pelas
ruas de seu bairro. Era uma prova de que não havia entendido nada da luta de
Iranildo Pereira. Fez exatamente como o cidadão que perguntou ao padre quanto
estava custando uma missa.
E eu fiquei pensando como é que um
profissional que vai receber uma personalidade histórica da política cearense,
não se prepara. Um âncora demonstrava saber de tudo sobre o entrevistado e suas
ideias. O outro entendeu que o deputado estava falando da violência das ruas
quando o experiente político falava das liberdades democráticas pelas quais
tanto lutara.
E o pior é que pela forma como o locutor se manifestava, no tom de voz e na gesticulação, parecia o dono absoluto da verdade.
Imaginei que poderia ser um bom programa. Mas
desisti. A paciência foi pouca para ver e ouvir tanto despreparo de um
entrevistador. O entrevistado, quem quer que seja ele, merece o respeito dos
entrevistadores. O tal entrevistador entende que o seu papel é fazer armadilhas
para o entrevistado. E, mesmo assim, não se prepara.
Imagine-se ter pela frente uma personalidade
como Iranildo Pereira e jogar fora a
oportunidade de uma entrevista histórica. Um apresentador queria. O outro
atrapalhava.
(*) Leunam
Gomes, professor e pró-Reitor aposentado da UVA, radialista, autor
dos livros “Professor com Prazer”, “Um Homem de Palavra” e “Seminário da Betânia -Ad Vitam
– 65 Declarações de Amor”.


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