Depois de uma fraca
adesão ao Programa de Desligamento Voluntário (PDV) em 2017, o governo insiste
na aposta e se prepara para reeditar uma nova Medida Provisória (MP) em janeiro
de 2018, após a anterior caducar no Congresso.
Na primeira rodada do PDV, concluída em novembro, 240 pessoas aderiram
ao programa - 76 ao chamado PDV stricto sensu, a demissão voluntária, e 164 a outras
modalidades, como redução de jornada e licença incentivada.
Quando lançou a iniciativa, o governo apresentou como parâmetro a adesão
ao PDV lançado no governo de Fernando Henrique Cardoso em 1999, que foi de 5
mil servidores. Caso tal participação se repetisse, a economia estimada seria
de R$ 1 bilhão. Mas o valor atingido em 2017 representa apenas 4,8% do
conquistado em 1999.
Ainda assim, em nota,
o ministro do Planejamento, Dyogo Oliveira, defendeu o PDV e sua aplicação
atual - classificando-o como um "instrumento moderno" e
"ajustado às condições fiscais atuais".
"O número de
adesões está em linha com as expectativas do governo, com destaque para a
adesão à redução de jornada, que é o primeiro passo do referido caminho.
Sabe-se também que, ao longo da tramitação da Medida Provisória pelo Congresso,
as condições originalmente propostas podem ser melhoradas", diz Oliveira.
O orçamento federal prevê que os gastos com pessoal cheguem a R$ 324,6
bilhões este ano, valor que inclui despesas com inativos, pensionistas e
contribuição patronal com o regime dos servidores - e que representa quase 10%
dos R$ 3,5 trilhões de receita previstos para 2018. O montante representa uma
alta de 5,8% em relação ao previsto para o ano passado, R$ 306,8 bilhões.
Prorrogações no
Congresso - As MPs, textos enviados pelo Poder Executivo, devem ser aprovadas em 60
dias na Câmara e no Senado - prorrogáveis por igual período - para terem sua
vigência mantida.
Mas não foi o que aconteceu com a MP do desligamento voluntário: ela
chegou a ser aprovada em uma comissão mista, mas não foi votada a tempo no
plenário das Casas.
O governo afirmou que irá reenviar ao Congresso uma nova Medida
Provisória com as mesmas regras. A ideia é que o Ministério do Planejamento
estabeleça anualmente períodos e critérios de abertura de novas rodadas do
programa.
Na modalidade principal, a da demissão voluntária, a MP que caducou
previa o pagamento de indenização de 1,25 salário por ano trabalhado para
aqueles que decidissem deixar o serviço público.
A preferência para
adesão ao programa era de servidores com maior tempo de exercício da função e
pessoas em licença para tratar de assuntos particulares. Por outro lado,
algumas condições impediam a participação, como o cumprimento de todos os
requisitos legais para aposentadoria.
Já a redução da
jornada, que teve adesão de 153 servidores, previu diminuição da carga semana
de 40 horas para 30 ou 20 horas semanais, com o benefício do pagamento
adicional de meia hora diária. Neste caso, foram priorizados servidores com
filhos de até seis anos ou a cargo de cuidados de pessoas idosas ou com
deficiência.
Por fim, a licença incentivada, escolhida por 11 funcionários públicos
federais, permite o afastamento por três anos consecutivos, prorrogáveis por
igual período, do serviço público. Como incentivo, o programa prevê o pagamento
de três remunerações em cada período.
Segundo o Ministério do Planejamento, com a perda de validade da MP,
alguns requerimentos de adesão ao programa que tinham pendências acabaram
suspensos - mas as 240 adesões divulgadas pela pasta estão asseguradas.
'Trauma' com
experiências anteriores - Por sua vez, Sérgio Ronaldo, secretário-geral da Confederação dos
Trabalhadores do Serviço Público Federal (Condsef), comemora a baixa adesão ao
PDV.
"Orientamos nossos filiados a não aderirem a este barco furado. A
experiência com o governo FHC deve servir de lição. Muitos continuam
desempregados e esperam na Justiça para receber seus direitos", diz.
O PDV de então previa, além de modalidades diferentes de desligamento
como no programa do governo de Michel Temer, estímulos para o empreendedorismo,
como linhas de crédito e cursos de capacitação. Mas muitos servidores afirmam
que o prometido não foi cumprido.
Diante disso, alguns
projetos em tramitação no Congresso vêm até mesmo tentando reintegrar o
servidores que aderiram ao PDV na década de 90. Um dos mais antigos deles, de
2008, foi apresentado pelo deputado Leonardo Picciani (PMDB-RJ), hoje ministro
do Esporte do governo Temer.
"É fato notório
que um significativo contingente de ex-servidores federais que se desligaram do
serviço público mediante adesão a programas de desligamento voluntário (...)
encontram-se em situação de penúria. (...) Infelizmente, o apoio do Estado, nos
termos estabelecidos pelas normas legais pertinentes, não se verificou na
medida necessária", diz um trecho da justificativa do projeto de Picciani.
Para Sérgio Ronaldo, além da experiência traumática do passado, a adesão
"pífia" ao PDV atual - que classifica de uma "cópia
piorada" do programa de FHC - pode ser explicada também pelo contexto
econômico desfavorável.
"Qual é a vantagem de se juntar a 13 milhões de brasileiros
desempregados? Estamos em plena recessão, com um campo de trabalho limitado e
pais de famílias sem perspectivas", aponta o representante da Condsef.
(BBC)

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