- Conte-me sobre esse carro do
vovô Batista?
- Não era do papai. Ele nem gostava de carro, preferia se locomover em sua carroça ou em sua burra.
Mas bem!
Nos anos 30, tio Raymundo
Gomes adquiriu em Fortaleza o que dizia ter sido uma barganha, um Ford Modelo
T, Ano 1929, já usado e com problemas.
Segundo o proprietário o carro era bom, mas precisava restaurar sua parte elétrica, bem como reconstruir o sistema de refrigeração do motor, trocando o radiador e a tubulação, defeitos facilmente reparáveis, que tio Raymundo imaginou seu amigo Sérgio Portela poder resolvê-los e por bom preço.
- Mas por que o tio Raymundo
comprou esse carro?
- Comprou, segundo ele, pelas seguintes razões:
Por precisar de um transporte
rápido, para que, quando na Palma estivesse, pudesse visitar seus familiares
que ainda viviam na casa onde nascera, na Fazenda Baixa Fria, sítio São
Domingos, bem como para ir a Canafístula e aos Urubus.
Comprou também para servir ao
papai, para nos esconder dos Revoltosos, soldados do Luís Carlos Prestes, que
eram comunistas. Dizia o tio Raymundo que eles iriam à Palma assassinar e comer
assadas as criancinhas.
O tio Raymundo parecia gostar
de azucrinar o papai. Na verdade, ele adorava brincar com seu irmão caçula.
Por último era para ajudar
Severo Malhada a cadastrar eleitores e fundar Diretórios do PA (Partido
Agrário), partido ao qual tio Raymundo pertencia e o incumbira dessa tarefa,
bem como de divulgar as ideias programáticas partidárias por todas as cidades
do noroeste do Estado do Ceará.
- E como esse carro chegou à
Palma?
- Foi transportado num barco cargueiro de Fortaleza para Camocim, onde foi
entregue a seu Sérgio, que dizia só Deus saber como conseguiu trazê-lo até sua
oficina na Palma.
- Seu Sérgio conseguiu
consertar o carro?
- Seu Sérgio, mecânico inteligente, ajeitou o problema elétrico da ignição.
Entretanto, persistiu o do aquecimento, mesmo substituindo o radiador pelo novo
que viera encaixotado, e com o carro.
- Como o tio Raymundo soube
que o carro estava pronto?
- Tio Raymundo foi à Palma, e da nossa casa onde ele se hospedava dirigiu-se à
oficina do seu Sérgio e encontrou o carro em estado melhor do que ele
imaginava.
Seu Sérgio completou com água
o radiador, deu partida e saíram os dois felizes no carro, andando pelas ruas
da minúscula Palma da época. Seu Sérgio temeroso, guiando sem se afastar muito
de sua oficina.
Diziam os palmenses mais
antigos que ao passarem em frente à casa do Seu Custódio, ele estava conversava
com seu Raimundo Leopoldo e tio Raymundo os convidou:
- Seu Custódio, o senhor quer
ir pra Barra agora mesmo?
- Não, Doutor Raymundo Gomes. Vim ontem de lá; amanhã vou ouvir o Sermão da
Ovelha Desgarrada, dito pelo Pe. Ivan.
- E você, Raimundo Leopoldo, quer ir para às Caraúbas ou para a Fazenda
Tauá?
- Também cheguei ontem de lá.
- E pra Manaus? Haverá um show no Teatro Amazonas, belas artistas francesas e
italianas estarão por lá.
- Eu estarei lá também, já comprei a passagem no Lloydes. Apanharei o navio em
Camocím um mês antes do show.
Dizem que quando tio Raymundo
falava o sisudo seu Sérgio Portela, morria de rir.
- Mas, mamãe, o tio Raymundo
gostou do carro?
- Ele sabia dos amigos dele de Fortaleza que o carro deveria ser usado a princípio
pouco acelerado e em pequenos percursos, para que o motor fosse “amaciando”, o
que não fizera seu dono anterior.
O papai, a convite do seu
irmão Raymundo, foi com ele nesse carro, dirigido por seu Sérgio, até o Sítio
São Domingos, tendo para tal que parar umas três vezes pelo caminho, para
colocar água no radiador e evitar o superaquecimento.
Decorrido uns seis meses,
fazendo curtas viagens e completando a água do radiador, o carro ficou melhor.
E nós íamos nele visitar o tio Joaquím e sua família e passar tempo na
Canafístula.
Mas nessas nossas viagens quem
dirigia era o Raimundo Rosa, um dos músicos da Banda do Pe. Ivan, que ao padre
era subserviente.
Certa vez, o Raimundo Rosa
falou com o papai, insinuando que deixasse ele levar nesse carro o Pe. Ivan a
Camocím. O papai ficou bravo, foi falar com o Pe. Ivan e lhe afirmou que o
carro não era de aluguel, que ele procurasse outra maneira de ir visitar sua
terra natal.
Passaram-se anos, o carro
dirigido pelo Raimundo Rosa, por falta de cuidados fundiu o motor em frente ao
Açude do Breguedó. Papai mandou que o rebocasse e o parqueasse na rústica
garagem que para ele construíra no quintal da nossa casa e de lá nunca mais ele
saiu, pois seu Sérgio comunicou ao tio Raymundo que, para consertar, teria que
trocar todo o motor, sendo melhor comprar um carro novo.
Diante das dificuldades
surgidas na utilização desse carro, Severo Malhada continuou seus trabalhos a serviço
do PA (Partido Agrário) e deu ciência ao tio Raymundo em mais um dos seus
jocosos telegramas.
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Dr. Raymundo Gomes,
Fortaleza - CE
..........................
Dr. Raymundo Gomes,
Fortaleza - CE
Sigo lambe-lambe.
Esqueçamos carro.
Burros da Palma nos
levarão à vitória.
Esqueçamos carro.
Burros da Palma nos
levarão à vitória.
Severo Malhada
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Quando nos anos 50 eu ia à
Palma, vi muitas vezes a carcaça desse carro na garagem que o vovô construíra.
A porta principal de nossa
casa, após aberta, era travada com uma meia esfera oca de bronze, com abas em
suas bordas laterais na qual haviam uns 8 furos, destinados à sua fixação no
carter, com parafusos.
Eu, ao chegar das caçadas ou
dos banhos no rio ou nos açudes na companhia do meu dileto primo Anésio, depois
do almoço, o sol a pino brilhando no infinito céu azul, impedia-me de sair
pelas ruas, pois o calor, segundo a mamãe, poderia cozinhar os meus miolos. E
eu pegava essa peça, levava-a para o chalé e passava horas a rodando em spin.
Depois fui saber que, na
verdade, eu brincava com a tampa inferior do carter do óleo do motor desse
pouco conhecido PRIMEIRO CARRO DA PALMA.
Alguém da família herdou essa
peça, digna de um museu.
Não fui eu !
Herdei do meu querido avô,
João Batista Gomes, seu patrimônio maior, imaterial e imperecível, constituído
pelo apreço que ele tinha por mim, das lembranças e recordações que dele guardo
e da imorredoura saudade que dele sinto.
- Meu filho, A SAUDADE É O
PASSADO QUE FICOU.


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