terça-feira, 20 de novembro de 2018

COLUNA WILSON BELCHIOR - O mais antigo carro da Palma

O papai se indispôs com o Padre Ivan por vários motivos, um deles foi pelo carro.

- Conte-me sobre esse carro do vovô Batista?

- Não era do papai. Ele nem gostava de carro, preferia se locomover em sua carroça ou em sua burra.

Mas bem!

Nos anos 30, tio Raymundo Gomes adquiriu em Fortaleza o que dizia ter sido uma barganha, um Ford Modelo T, Ano 1929, já usado e com problemas.

Segundo o proprietário o carro era bom, mas precisava restaurar sua parte elétrica, bem como reconstruir o sistema de refrigeração do motor, trocando o radiador e a tubulação, defeitos facilmente reparáveis, que tio Raymundo imaginou seu amigo Sérgio Portela poder resolvê-los e por bom preço.

- Mas por que o tio Raymundo comprou esse carro?

- Comprou, segundo ele, pelas seguintes razões:

Por precisar de um transporte rápido, para que, quando na Palma estivesse, pudesse visitar seus familiares que ainda viviam na casa onde nascera, na Fazenda Baixa Fria, sítio São Domingos, bem como para ir a Canafístula e aos Urubus.

Comprou também para servir ao papai, para nos esconder dos Revoltosos, soldados do Luís Carlos Prestes, que eram comunistas. Dizia o tio Raymundo que eles iriam à Palma assassinar e comer assadas as criancinhas.

O tio Raymundo parecia gostar de azucrinar o papai. Na verdade, ele adorava brincar com seu irmão caçula.

Por último era para ajudar Severo Malhada a cadastrar eleitores e fundar Diretórios do PA (Partido Agrário), partido ao qual tio Raymundo pertencia e o incumbira dessa tarefa, bem como de divulgar as ideias programáticas partidárias por todas as cidades do noroeste do Estado do Ceará.

- E como esse carro chegou à Palma?

- Foi transportado num barco cargueiro de Fortaleza para Camocim, onde foi entregue a seu Sérgio, que dizia só Deus saber como conseguiu trazê-lo até sua oficina na Palma.

- Seu Sérgio conseguiu consertar o carro?

- Seu Sérgio, mecânico inteligente, ajeitou o problema elétrico da ignição. Entretanto, persistiu o do aquecimento, mesmo substituindo o radiador pelo novo que viera encaixotado, e com o carro.

- Como o tio Raymundo soube que o carro estava pronto?

- Tio Raymundo foi à Palma, e da nossa casa onde ele se hospedava dirigiu-se à oficina do seu Sérgio e encontrou o carro em estado melhor do que ele imaginava.

Seu Sérgio completou com água o radiador, deu partida e saíram os dois felizes no carro, andando pelas ruas da minúscula Palma da época. Seu Sérgio temeroso, guiando sem se afastar muito de sua oficina.

Diziam os palmenses mais antigos que ao passarem em frente à casa do Seu Custódio, ele estava conversava com seu Raimundo Leopoldo e tio Raymundo os convidou:

- Seu Custódio, o senhor quer ir pra Barra agora mesmo?

- Não, Doutor Raymundo Gomes. Vim ontem de lá; amanhã vou ouvir o Sermão da Ovelha Desgarrada, dito pelo Pe. Ivan.

- E você, Raimundo Leopoldo, quer ir para às Caraúbas ou para a Fazenda Tauá?

- Também cheguei ontem de lá.

- E pra Manaus? Haverá um show no Teatro Amazonas, belas artistas francesas e italianas estarão por lá.

- Eu estarei lá também, já comprei a passagem no Lloydes. Apanharei o navio em Camocím um mês antes do show.

Dizem que quando tio Raymundo falava o sisudo seu Sérgio Portela, morria de rir.

- Mas, mamãe, o tio Raymundo gostou do carro?

- Ele sabia dos amigos dele de Fortaleza que o carro deveria ser usado a princípio pouco acelerado e em pequenos percursos, para que o motor fosse “amaciando”, o que não fizera seu dono anterior.

O papai, a convite do seu irmão Raymundo, foi com ele nesse carro, dirigido por seu Sérgio, até o Sítio São Domingos, tendo para tal que parar umas três vezes pelo caminho, para colocar água no radiador e evitar o superaquecimento.

Decorrido uns seis meses, fazendo curtas viagens e completando a água do radiador, o carro ficou melhor. E nós íamos nele visitar o tio Joaquím e sua família e passar tempo na Canafístula.

Mas nessas nossas viagens quem dirigia era o Raimundo Rosa, um dos músicos da Banda do Pe. Ivan, que ao padre era subserviente.

Certa vez, o Raimundo Rosa falou com o papai, insinuando que deixasse ele levar nesse carro o Pe. Ivan a Camocím. O papai ficou bravo, foi falar com o Pe. Ivan e lhe afirmou que o carro não era de aluguel, que ele procurasse outra maneira de ir visitar sua terra natal.

Passaram-se anos, o carro dirigido pelo Raimundo Rosa, por falta de cuidados fundiu o motor em frente ao Açude do Breguedó. Papai mandou que o rebocasse e o parqueasse na rústica garagem que para ele construíra no quintal da nossa casa e de lá nunca mais ele saiu, pois seu Sérgio comunicou ao tio Raymundo que, para consertar, teria que trocar todo o motor, sendo melhor comprar um carro novo.

Diante das dificuldades surgidas na utilização desse carro, Severo Malhada continuou seus trabalhos a serviço do PA (Partido Agrário) e deu ciência ao tio Raymundo em mais um dos seus jocosos telegramas.
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Dr. Raymundo Gomes,
Fortaleza - CE
Sigo lambe-lambe.
Esqueçamos carro.
Burros da Palma nos
levarão à vitória.
Severo Malhada
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Quando nos anos 50 eu ia à Palma, vi muitas vezes a carcaça desse carro na garagem que o vovô construíra.

A porta principal de nossa casa, após aberta, era travada com uma meia esfera oca de bronze, com abas em suas bordas laterais na qual haviam uns 8 furos, destinados à sua fixação no carter, com parafusos.

Eu, ao chegar das caçadas ou dos banhos no rio ou nos açudes na companhia do meu dileto primo Anésio, depois do almoço, o sol a pino brilhando no infinito céu azul, impedia-me de sair pelas ruas, pois o calor, segundo a mamãe, poderia cozinhar os meus miolos. E eu pegava essa peça, levava-a para o chalé e passava horas a rodando em spin.

Depois fui saber que, na verdade, eu brincava com a tampa inferior do carter do óleo do motor desse pouco conhecido PRIMEIRO CARRO DA PALMA.

Alguém da família herdou essa peça, digna de um museu.

Não fui eu !

Herdei do meu querido avô, João Batista Gomes, seu patrimônio maior, imaterial e imperecível, constituído pelo apreço que ele tinha por mim, das lembranças e recordações que dele guardo e da imorredoura saudade que dele sinto.

- Meu filho, A SAUDADE É O PASSADO QUE FICOU.






(*) Wilson Belchior é engenheiro civil, articulista, poeta e memorialista.  


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