Governada sob
visão diametralmente oposta à do presidente eleito brasileiro, Jair Bolsonaro,
a vizinha Bolívia se prepara "com cautela" para uma
"nova dinâmica" nas relações bilaterais e na negociação do gás,
principal item da pauta comercial dos dois países.
A avaliação é
de analistas e pessoas próximas ao governo de Evo Morales, presidente há 12
anos e único remanescente do grupo de líderes de esquerda eleitos no continente
sul-americano no início do novo milênio - Hugo Chávez, da Venezuela, Rafael
Correa, do Equador, José 'Pepe' Mujica, do Uruguai, e Luiz Inácio Lula da
Silva, do Brasil.
"Há um
presidente legalmente eleito e, apesar das diferenças ideológicas, devemos nos
interessar pela América do Sul", escreveu Morales no Twitter após a
vitória de Bolsonaro. Essas diferenças ficam claras não só nas redes
sociais como também nos discursos em que Morales costuma homenagear personagens
da política latino-americana como o ex-guerrilheiro argentino Ernesto 'Che'
Guevara; o ex-presidente chileno Salvador Allende, o socialista atingido pelo
golpe militar de Augusto Pinochet, em 1973; e Lula que, nas suas palavras, é
"vítima de perseguição judicial".
Morales se
prepara para disputar sua quarta eleição em 2019, após um polêmico aval da
Justiça à possibilidade que lhe havia sido negada pela população em um
referendo.
Crescimento - A
Bolívia tem cerca de 11 milhões de habitantes e, embora seja um dos países mais
pobres da América do Sul, é um dos que mais crescem no continente. De
acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), a economia boliviana crescerá
4,3% em 2018, muito superior ao índice de crescimento de 1,4% previsto para o
Brasil, da queda de 2,6% estimada para a Argentina ou da brutal recessão
histórica de 18% na Venezuela.
O crescimento
boliviano não apenas deverá ser o segundo maior da região neste ano, segundo o
FMI, (praticamente equiparado ao Paraguai, com previsão de 4,4%) como também
vem se mostrando constante ao longo das últimas duas décadas, apesar de uma
desacelaração em relação ao pico.
Segundo
observadores, uma das explicações para os destinos díspares da Venezuela e da
Bolívia, apesar das políticas socialistas adotadas nos dois países e da
dependência da exportação de uma commodity, é o controle de gastos. Na Bolívia,
o governo adotou um grau maior de prudência e não gastou além da conta nos
tempos de bonança, como fez Hugo Chávez.
Nacionalização
polêmica - Pouco depois de assumir a Presidência, em janeiro de 2006,
Evo Morales alavancou sua gestão econômica e social com a polêmica
nacionalização dos hidrocarbonetos (gás e petróleo), segundo o ex-ministro da
Economia e Finanças de Evo Morales, Luis Arce, entrevistado pela BBC News
Brasil. Arce é considerado "o pai" do modelo econômico boliviano.
"(A
nacionalização) foi a guinada. Com esse dinheiro foi iniciado o processo de
distribuição de renda, queda na pobreza e crescimento econômico sustentável no
país", disse Arce, que é professor de economia da Universidade Mayor de
San Andrés e consultor de organismos internacionais.
Na prática, a
nacionalização significou o desrespeito e cancelamento de contratos vigentes, e
a assinatura de novos, com as empresas petrolíferas estrangeiras instaladas no
país - prejudicando inclusive a Petrobras -, aumento no pagamento de impostos e
de royalties e maior controle do setor por parte do Estado boliviano, via
estatal YPFB, segundo especialistas do mercado.
Os novos
contratos reduziram drasticamente o valor retido pelas petroleiras estrangeiras
e com esse dinheiro o governo boliviano financiou bônus pagos diretamente para
famílias crianças que não faltem às aulas, para mulheres grávidas e para
idosos.
"Império" - Na
época, a nacionalização gerou forte reação negativa no Brasil. Na ocasião,
campos de produção da empresa brasileira foram ocupados pelo Exército boliviano
e refinarias da estatal brasileira foram nacionalizadas pelo governo de
Morales, mas, após novas negociações, Brasil e Bolívia passaram a declarar que
"não houve perdas" ou que "as perdas foram amenizadas".
O economista
Javier Gómez recorda, porém, que, além de perder terreno no setor, o Brasil
acabou pagando cerca de US$ 200 milhões de dívidas passadas exigidas pelo
governo Evo e o cenário "desestimulou" novos investimentos da estatal
brasileira na Bolívia. A reação brasileira contrária à medida de Morales
fez com o Brasil passasse a ser chamado em tom pejorativo de
"imperialista" nas ruas bolivianas.
Após várias
discussões, disputas e intervenções diretas do então presidente Lula, houve
entendimento e a Petrobras permaneceu no país. E o ambiente bilateral hostil
foi superado. A negociação garantiu o fornecimento de gás pela Bolívia que é
fonte de energia essencial à economia brasileira.
Agora,
analistas ouvidos pela BBC News Brasil disseram que a relação bilateral poderá
tomar um rumo diferente depois da posse do futuro presidente, em
janeiro. "O estilo de Bolsonaro vai gerar uma dinâmica diferente na
relação bilateral e na região. Será muito diferente daquela gestão de
Lula", disse Javier Gómez, diretor do Centro de Estudos para o
Desenvolvimento Trabalhista e Agrário (Cedla, na sigla em espanhol), de La Paz.
Para o
economista Roberto Laserna, ex-professor da Universidade de Princeton (EUA) e
da Universidade Mayor de San Simón (Bolívia), o governo boliviano está agindo
"com muita cautela" em relação à Bolsonaro porque sabe da importância
do Brasil, grande importador de gás do país.
O gás e o
setor de mineração representam cerca de 80% das exportações globais da
Bolívia. "Existem muitos temas de peso na relação bilateral. E não só
na área econômica, mas de segurança, como o tráfico de drogas", afirmou
Laserna, do Centro de Estudos da Realidade Econômica e Social (Ceres), de
Cochabamba.
Ritmo de
crescimento diminui - Em relação ao desempenho da economia, apesar da
situação superior à de vizinhos, Gómez e Laserna observam ambiente diferente
daquele do "boom" de anos atrás, quando o crescimento boliviano bateu
quase 7% em 2013.
Eles entendem
que o país vive uma desaceleração econômica. Para o jornalista de economia
Mauricio Vázquez, do jornal El Deber, de Santa Cruz de la Sierra, a percepção é
de maior cautela do consumidor na hora de gastar. Já Arce, mais
otimista, destacou que neste ano o país voltará a crescer num ritmo superior ao
da região. Para ele, a economia boliviana poderia superar o índice previsto
pelo FMI.
Cada vez que
a expansão atinge o patamar de 4,3%, que é exatamente a alta prevista pelo FMI
neste ano, os trabalhadores com carteira assinada recebem no ano 14 salários,
em vez de 13, estimulando o consumo e a economia.
Ele cita
também o que considera o impacto positivo dos planos sociais nas famílias
pobres bolivianas. "Lembro que, quando fiz as entregas (dos bônus aos
estudantes, feita no final do ano letivo), ouvi histórias que me emocionaram,
como a dos alunos da área rural que usariam o dinheiro para comprar galinhas,
vender ovos e ajudar na educação dos irmãos menores", disse Arce.
Para receber
o bônus, as crianças devem ter baixo índice de faltas na escola. Para as
mulheres grávidas, a exigência é que elas façam exames pré-natal e mantenham o
acompanhamento médico até que a criança complete dois anos de idade. No caso
dos idosos, "para muitos, é a única fonte de renda que possuem",
afirmou o ex-ministro.
Segundo ele,
a renda dos 10% mais ricos do país, que era 128 vezes maior que a dos mais
pobres em 2005, agora é 47 vezes maior. Arce cita também "queda na taxa de
desemprego, melhoria na arrecadação, consumo interno forte e inflação
controlada (cerca de 1,7% neste ano)".
A despeito
disso, porém, mais de um terço da população ainda é considerada pobre no
país. Acordo do gás em pauta A relação econômica bilateral é baseada
principalmente na exportação de gás natural da Bolívia para o mercado
brasileiro e de aço e do setor automotivo, entre outros, do Brasil para o
mercado boliviano.
A Bolívia,
disse ele, compra mais de 3 mil produtos diferentes do Brasil e vende somente
cem produtos para o mercado brasileiro. "Com a queda no preço
internacional do gás, a balança passou a ser deficitária para a Bolívia, a
partir de 2016-2017", afirmou.
O
gerente-geral do Instituto Boliviano de Comércio Exterior (IBCE), Gary
Rodríguez, afirma que "96% das exportações bolivianas para o Brasil são
vinculadas ao gás". Arce espera que as diferenças ideológicas não
afetem os laços com o Brasil, afirmando que "a Bolívia precisa do Brasil e
o Brasil da Bolívia".
O acordo do
gás foi assinado nos anos 1990 e, teoricamente, deve expirar no fim de 2019. A
assessoria de imprensa do Ministério de Hidrocarbonetos, em La Paz, informou à
BBC News Brasil que o acordo atual é baseado em volumes e que o ministro da
pasta, Luis Sánchez, estima que, por esse motivo, o entendimento atual deverá
terminar não em 2019, mas em 2024.
Segundo essa
visão, o Brasil não teria consumido ainda a quantidade total estabelecida no
contrato em vigor. No ministério, informou-se ainda que é um momento de
expectativas em relação à posse e gestão de Bolsonaro. Até antes da eleição no
Brasil, era esperado que a Petrobras e a estatal boliviana YPFB fizessem novas
negociações em junho do ano que vem, como estipula o acordo. "Mas agora
temos que esperar. Temos que ver como será após a posse", disseram.
"Hoje a
grande pergunta é qual o volume exato de gás já pago pelo Brasil, mas que ainda
não retirou. Isso não está claro", disse à BBC News Brasil o ex-ministro
de Hidrocarbonetos Mauricio Medinaceli.
Ele afirmou
ainda que quando o gasoduto Brasil-Bolívia começou a ser construído, nos anos
1990, o Brasil investiu dinheiro na obra e a Bolívia combinou pagar sua parte
com gás. Este entendimento, disse, ainda vai durar outros 20 anos.
Medinaceli se
debruçou sobre os planos do novo governo brasileiro e observou que o gás
natural aparece como um dos itens que teriam prioridade. "Mas acho que
independentemente do próximo presidente, a Bolívia já está em desvantagem
porque há 20 anos (quando o acordo foi firmado), o Brasil não tinha tanto gás
próprio como já tem hoje", disse. Ou seja, o Brasil foi se tornando menos
dependente do produto boliviano, segundo Medinaceli e outros especialistas
consultados pela reportagem.
O acordo é em
dólar, segundo valores do mercado internacional e, se os preços do petróleo e
do gás caem, a Bolívia recebe menos recursos pela venda do produto que é um dos
alicerces do programa econômico de Evo Morales.
Narcotráfico
e nova tentativa de reeleição - O economista Roberto Laserna opinou
que outro tema poderia entrar na pauta bilateral a partir da posse de Bolsonaro
é o tráfico de drogas. "A Bolívia é passagem para a cocaína produzida
no Peru e que segue para o Brasil. Como a segurança será um dos temas fortes do
novo governo, este problema deverá entrar no foco também", disse.
Quando
Bolsonaro tomar posse, Evo Morales estará a poucos dias de completar treze anos
de governo. Com apoio popular de cerca de 46%, de acordo com o instituto
CiesMori, o presidente poderia tentar disputar mais um mandato, em 2019, apesar
da rejeição registrada no referendo realizado em 2016 e dependendo dos próximos
passos da Justiça local sobre a medida que permite que ele concorra à
reeleições indefinidamente.
"O
presidente tem aprovação interessante após 12 anos de gestão. Porém, mais de
60% rejeitam sua intenção de buscar mais um mandato, principalmente depois do
resultado do referendo", disse José Luis Galvez, do CiesMori. (BBC)
Governada sob
visão diametralmente oposta à do presidente eleito brasileiro, Jair Bolsonaro,
a vizinha Bolívia se prepara "com cautela" para uma
"nova dinâmica" nas relações bilaterais e na negociação do gás,
principal item da pauta comercial dos dois países.
A avaliação é
de analistas e pessoas próximas ao governo de Evo Morales, presidente há 12
anos e único remanescente do grupo de líderes de esquerda eleitos no continente
sul-americano no início do novo milênio - Hugo Chávez, da Venezuela, Rafael
Correa, do Equador, José 'Pepe' Mujica, do Uruguai, e Luiz Inácio Lula da
Silva, do Brasil.
"Há um
presidente legalmente eleito e, apesar das diferenças ideológicas, devemos nos
interessar pela América do Sul", escreveu Morales no Twitter após a
vitória de Bolsonaro. Essas diferenças ficam claras não só nas redes
sociais como também nos discursos em que Morales costuma homenagear personagens
da política latino-americana como o ex-guerrilheiro argentino Ernesto 'Che'
Guevara; o ex-presidente chileno Salvador Allende, o socialista atingido pelo
golpe militar de Augusto Pinochet, em 1973; e Lula que, nas suas palavras, é
"vítima de perseguição judicial".
Morales se
prepara para disputar sua quarta eleição em 2019, após um polêmico aval da
Justiça à possibilidade que lhe havia sido negada pela população em um
referendo.
Crescimento - A
Bolívia tem cerca de 11 milhões de habitantes e, embora seja um dos países mais
pobres da América do Sul, é um dos que mais crescem no continente. De
acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), a economia boliviana crescerá
4,3% em 2018, muito superior ao índice de crescimento de 1,4% previsto para o
Brasil, da queda de 2,6% estimada para a Argentina ou da brutal recessão
histórica de 18% na Venezuela.
O crescimento
boliviano não apenas deverá ser o segundo maior da região neste ano, segundo o
FMI, (praticamente equiparado ao Paraguai, com previsão de 4,4%) como também
vem se mostrando constante ao longo das últimas duas décadas, apesar de uma
desacelaração em relação ao pico.
Segundo
observadores, uma das explicações para os destinos díspares da Venezuela e da
Bolívia, apesar das políticas socialistas adotadas nos dois países e da
dependência da exportação de uma commodity, é o controle de gastos. Na Bolívia,
o governo adotou um grau maior de prudência e não gastou além da conta nos
tempos de bonança, como fez Hugo Chávez.
Nacionalização
polêmica - Pouco depois de assumir a Presidência, em janeiro de 2006,
Evo Morales alavancou sua gestão econômica e social com a polêmica
nacionalização dos hidrocarbonetos (gás e petróleo), segundo o ex-ministro da
Economia e Finanças de Evo Morales, Luis Arce, entrevistado pela BBC News
Brasil. Arce é considerado "o pai" do modelo econômico boliviano.
"(A
nacionalização) foi a guinada. Com esse dinheiro foi iniciado o processo de
distribuição de renda, queda na pobreza e crescimento econômico sustentável no
país", disse Arce, que é professor de economia da Universidade Mayor de
San Andrés e consultor de organismos internacionais.
Na prática, a
nacionalização significou o desrespeito e cancelamento de contratos vigentes, e
a assinatura de novos, com as empresas petrolíferas estrangeiras instaladas no
país - prejudicando inclusive a Petrobras -, aumento no pagamento de impostos e
de royalties e maior controle do setor por parte do Estado boliviano, via
estatal YPFB, segundo especialistas do mercado.
Os novos
contratos reduziram drasticamente o valor retido pelas petroleiras estrangeiras
e com esse dinheiro o governo boliviano financiou bônus pagos diretamente para
famílias crianças que não faltem às aulas, para mulheres grávidas e para
idosos.
"Império" - Na
época, a nacionalização gerou forte reação negativa no Brasil. Na ocasião,
campos de produção da empresa brasileira foram ocupados pelo Exército boliviano
e refinarias da estatal brasileira foram nacionalizadas pelo governo de
Morales, mas, após novas negociações, Brasil e Bolívia passaram a declarar que
"não houve perdas" ou que "as perdas foram amenizadas".
O economista
Javier Gómez recorda, porém, que, além de perder terreno no setor, o Brasil
acabou pagando cerca de US$ 200 milhões de dívidas passadas exigidas pelo
governo Evo e o cenário "desestimulou" novos investimentos da estatal
brasileira na Bolívia. A reação brasileira contrária à medida de Morales
fez com o Brasil passasse a ser chamado em tom pejorativo de
"imperialista" nas ruas bolivianas.
Após várias
discussões, disputas e intervenções diretas do então presidente Lula, houve
entendimento e a Petrobras permaneceu no país. E o ambiente bilateral hostil
foi superado. A negociação garantiu o fornecimento de gás pela Bolívia que é
fonte de energia essencial à economia brasileira.
Agora,
analistas ouvidos pela BBC News Brasil disseram que a relação bilateral poderá
tomar um rumo diferente depois da posse do futuro presidente, em
janeiro. "O estilo de Bolsonaro vai gerar uma dinâmica diferente na
relação bilateral e na região. Será muito diferente daquela gestão de
Lula", disse Javier Gómez, diretor do Centro de Estudos para o
Desenvolvimento Trabalhista e Agrário (Cedla, na sigla em espanhol), de La Paz.
Para o
economista Roberto Laserna, ex-professor da Universidade de Princeton (EUA) e
da Universidade Mayor de San Simón (Bolívia), o governo boliviano está agindo
"com muita cautela" em relação à Bolsonaro porque sabe da importância
do Brasil, grande importador de gás do país.
O gás e o
setor de mineração representam cerca de 80% das exportações globais da
Bolívia. "Existem muitos temas de peso na relação bilateral. E não só
na área econômica, mas de segurança, como o tráfico de drogas", afirmou
Laserna, do Centro de Estudos da Realidade Econômica e Social (Ceres), de
Cochabamba.
Ritmo de
crescimento diminui - Em relação ao desempenho da economia, apesar da
situação superior à de vizinhos, Gómez e Laserna observam ambiente diferente
daquele do "boom" de anos atrás, quando o crescimento boliviano bateu
quase 7% em 2013.
Eles entendem
que o país vive uma desaceleração econômica. Para o jornalista de economia
Mauricio Vázquez, do jornal El Deber, de Santa Cruz de la Sierra, a percepção é
de maior cautela do consumidor na hora de gastar. Já Arce, mais
otimista, destacou que neste ano o país voltará a crescer num ritmo superior ao
da região. Para ele, a economia boliviana poderia superar o índice previsto
pelo FMI.
Cada vez que
a expansão atinge o patamar de 4,3%, que é exatamente a alta prevista pelo FMI
neste ano, os trabalhadores com carteira assinada recebem no ano 14 salários,
em vez de 13, estimulando o consumo e a economia.
Ele cita
também o que considera o impacto positivo dos planos sociais nas famílias
pobres bolivianas. "Lembro que, quando fiz as entregas (dos bônus aos
estudantes, feita no final do ano letivo), ouvi histórias que me emocionaram,
como a dos alunos da área rural que usariam o dinheiro para comprar galinhas,
vender ovos e ajudar na educação dos irmãos menores", disse Arce.
Para receber
o bônus, as crianças devem ter baixo índice de faltas na escola. Para as
mulheres grávidas, a exigência é que elas façam exames pré-natal e mantenham o
acompanhamento médico até que a criança complete dois anos de idade. No caso
dos idosos, "para muitos, é a única fonte de renda que possuem",
afirmou o ex-ministro.
Segundo ele,
a renda dos 10% mais ricos do país, que era 128 vezes maior que a dos mais
pobres em 2005, agora é 47 vezes maior. Arce cita também "queda na taxa de
desemprego, melhoria na arrecadação, consumo interno forte e inflação
controlada (cerca de 1,7% neste ano)".
A despeito
disso, porém, mais de um terço da população ainda é considerada pobre no
país. Acordo do gás em pauta A relação econômica bilateral é baseada
principalmente na exportação de gás natural da Bolívia para o mercado
brasileiro e de aço e do setor automotivo, entre outros, do Brasil para o
mercado boliviano.
A Bolívia,
disse ele, compra mais de 3 mil produtos diferentes do Brasil e vende somente
cem produtos para o mercado brasileiro. "Com a queda no preço
internacional do gás, a balança passou a ser deficitária para a Bolívia, a
partir de 2016-2017", afirmou.
O
gerente-geral do Instituto Boliviano de Comércio Exterior (IBCE), Gary
Rodríguez, afirma que "96% das exportações bolivianas para o Brasil são
vinculadas ao gás". Arce espera que as diferenças ideológicas não
afetem os laços com o Brasil, afirmando que "a Bolívia precisa do Brasil e
o Brasil da Bolívia".
O acordo do
gás foi assinado nos anos 1990 e, teoricamente, deve expirar no fim de 2019. A
assessoria de imprensa do Ministério de Hidrocarbonetos, em La Paz, informou à
BBC News Brasil que o acordo atual é baseado em volumes e que o ministro da
pasta, Luis Sánchez, estima que, por esse motivo, o entendimento atual deverá
terminar não em 2019, mas em 2024.
Segundo essa
visão, o Brasil não teria consumido ainda a quantidade total estabelecida no
contrato em vigor. No ministério, informou-se ainda que é um momento de
expectativas em relação à posse e gestão de Bolsonaro. Até antes da eleição no
Brasil, era esperado que a Petrobras e a estatal boliviana YPFB fizessem novas
negociações em junho do ano que vem, como estipula o acordo. "Mas agora
temos que esperar. Temos que ver como será após a posse", disseram.
"Hoje a
grande pergunta é qual o volume exato de gás já pago pelo Brasil, mas que ainda
não retirou. Isso não está claro", disse à BBC News Brasil o ex-ministro
de Hidrocarbonetos Mauricio Medinaceli.
Ele afirmou
ainda que quando o gasoduto Brasil-Bolívia começou a ser construído, nos anos
1990, o Brasil investiu dinheiro na obra e a Bolívia combinou pagar sua parte
com gás. Este entendimento, disse, ainda vai durar outros 20 anos.
Medinaceli se
debruçou sobre os planos do novo governo brasileiro e observou que o gás
natural aparece como um dos itens que teriam prioridade. "Mas acho que
independentemente do próximo presidente, a Bolívia já está em desvantagem
porque há 20 anos (quando o acordo foi firmado), o Brasil não tinha tanto gás
próprio como já tem hoje", disse. Ou seja, o Brasil foi se tornando menos
dependente do produto boliviano, segundo Medinaceli e outros especialistas
consultados pela reportagem.
O acordo é em
dólar, segundo valores do mercado internacional e, se os preços do petróleo e
do gás caem, a Bolívia recebe menos recursos pela venda do produto que é um dos
alicerces do programa econômico de Evo Morales.
Narcotráfico
e nova tentativa de reeleição - O economista Roberto Laserna opinou
que outro tema poderia entrar na pauta bilateral a partir da posse de Bolsonaro
é o tráfico de drogas. "A Bolívia é passagem para a cocaína produzida
no Peru e que segue para o Brasil. Como a segurança será um dos temas fortes do
novo governo, este problema deverá entrar no foco também", disse.
Quando
Bolsonaro tomar posse, Evo Morales estará a poucos dias de completar treze anos
de governo. Com apoio popular de cerca de 46%, de acordo com o instituto
CiesMori, o presidente poderia tentar disputar mais um mandato, em 2019, apesar
da rejeição registrada no referendo realizado em 2016 e dependendo dos próximos
passos da Justiça local sobre a medida que permite que ele concorra à
reeleições indefinidamente.
"O
presidente tem aprovação interessante após 12 anos de gestão. Porém, mais de
60% rejeitam sua intenção de buscar mais um mandato, principalmente depois do
resultado do referendo", disse José Luis Galvez, do CiesMori. (BBC)


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