O mundo avançou
pouco na igualdade de gêneros no último ano: menos mulheres do que
homens têm entrado no mercado de trabalho; sua participação na política e em
cargos privados sêniores ainda é inferior à masculina, e sua presença em
setores emergentes de tecnologia, como o de Inteligência Artificial, ainda é
irrisória.
As conclusões são de
um relatório recente do Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês), que
traçou um panorama pouco animador da igualdade de gêneros em 149 países sob os
aspectos político, econômico, educacional e de saúde.
O Brasil não está bem posicionado no
ranking do relatório: caiu cinco posições, para a 95ª, porque "o abismo
entre gêneros está em seu maior nível desde 2011", diz o WEF. Os motivos
disso são, sobretudo, as persistentes disparidades em participação e
oportunidade econômicas.
Aqui, segundo o Estudo de Estatísticas de
Gênero, do IBGE, as mulheres trabalham em média três horas por semana a mais do
que os homens (somando-se trabalho remunerado, atividades domésticas e cuidados
com outras pessoas), mas ganham apenas dois terços (76%) do rendimento deles.
Alguns estudos
recentes analisaram o tamanho dessa disparidade, suas causas e o impacto que
ela tem na economia inteira. A BBC News Brasil levantou os principais e mais
recentes.
Quanto mais filhos, menor o salário delas
O salário das mulheres brasileiras com
filhos é, em média, 35% menor que o das que não têm filhos, evidenciando o
impacto da maternidade na renda feminina. O levantamento foi feito pelo
pesquisador Bruno Ottoni, da empresa de análise IDados e do Instituto
Brasileiro de Economia da FGV Rio.
Ottoni comparou os rendimentos de mulheres
casadas, empregadas e com idades de 25 a 35 anos levantados pela Pesquisa
Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE, no terceiro
trimestre de 2018.
As mulheres desse grupo que não tinham
filhos recebiam, em média, R$ 2.182,06 por mês, contra R$ 1.618,47 das mulheres
com filhos. E quanto mais
filhos, menor era o rendimento médio delas. Uma mãe de três ou mais crianças
ganhava R$ 1.426,53 em média.
Para Anderson de Souza Sant'Anna, professor
da Fundação Dom Cabral e coautor de um outro estudo sobre disparidade salarial
de gênero, as carreiras das mulheres fazem "uma curva em U".
"Elas são mais escolarizadas, então
são promovidas mais rápido, mas a partir de um certo momento, por volta dos 35,
38 anos, isso se inverte, e os homens as ultrapassam. Como as empresas não têm
políticas para maternidade, as mulheres, ao voltarem ao trabalho, não conseguem
se reinserir e recuperar a posição. Esse conjunto de fatores, somados, vão
causando essas diferenças (salariais)", disse à BBC News Brasil em
outubro.
Elas gastam bem mais
tempo com os afazeres domésticos
Em 2016, as mulheres dedicavam, em média,
18 horas semanais a trabalhos domésticos ou a cuidados com pessoas (filhos ou
parentes idosos, por exemplo), contra 10,5 horas dos homens, de acordo com o
IBGE. Esse é um dos fatores que levam mais mulheres do que homens a buscar
empregos de jornada parcial, com remuneração inferior.
"Em função da carga de afazeres
domésticos e cuidados, muitas mulheres se sentem compelidas a buscar ocupações
que precisam de uma jornada de trabalho mais flexível", disse em
comunicado Barbara Cobo, coordenadora de População e Indicadores Sociais do
IBGE.
No entanto, "mesmo com o trabalho em
tempo parcial, a mulher ainda trabalha mais", agrega Cobo.
"Combinando-se as horas de trabalhos remunerados com as de cuidados e afazeres,
a mulher trabalha, em média, 54,4 horas semanais, contra 51,4 dos homens."
Elas são prejudicadas logo na entrevista de emprego
Para Souza
Sant'Anna, é possível que as entrevistas de emprego ajudem a perpetuar as
diferenças salariais. "Quando uma mulher é contratada, o RH
pergunta quanto ela ganhava. Como elas historicamente ganham menos, uma
hipótese é que já entram no novo emprego com um salário mais baixo do que um
homem. Têm salários de entrada mais baixos. E isso ainda é intensificado por
participação maior dos homens nos bônus. No caso de promoção, há uma tendência
maior a favor dos homens."
Quanto maior o cargo, maior a diferença salarial
As mulheres não apenas ocupam menos
posições sêniores (nem 40% dos cargos gerenciais são das mulheres, segundo o
IBGE) como também ganham menos em relação aos homens à medida que ascendem
profissionalmente.
A pesquisa de Souza Sant'Anna, da Fundação
Dom Cabral, analisou os salários de homens e mulheres em 12 grandes empresas
dos setores de indústria e serviços, abrangendo 50 mil trabalhadores.
Identificou uma diferença salarial média de 16% entre homens e mulheres que
exercem o mesmo cargo. Em cargos de chefia, a discrepância chega a
27%. A distância entre os maiores salários de homens e de mulheres do topo é de
38%.
Há discrepâncias também por setores.
"Áreas como PDI
(pesquisa, desenvolvimento e inovação) e engenharia de produção, são muito
masculinas. Elas ainda estão menos representadas nessas profissões que são mais
valorizadas", afirmou Sant'Anna.
"Existe o que
chamamos de polarização das profissões - mulheres em posições de cuidado, como
Recursos Humanos, que estão muito mais sujeitas à automação. Em todas as
posições funcionais, os homens ganham mais que as mulheres, à exceção de
posições administrativas e financeiras - supervisora de call center, por
exemplo. Nossa hipótese é que os homens saíram delas e foram para áreas mais
nobres."
Os benefícios da igualdade de gêneros: até US$ 28 tri
a mais no PIB global
Segundo o relatório do Fórum Econômico
Mundial, no ritmo atual, o mundo levará mais de 200 anos para alcançar a
igualdade salarial entre homens e mulheres, cenário que provoca perdas
econômicas para toda a sociedade.
Um levantamento de 2015 do Instituto
McKinsey Global calculou que a igualdade de gêneros poderia acrescentar, em um
cenário mediano - no qual os países alcancem o ritmo dos países mais
igualitários de suas regiões -, até US$ 12 trilhões ao PIB mundial em 2025.
Em um cenário ideal de igualdade plena, no
qual "mulheres participam na economia de modo idêntico aos homens",
os ganhos poderiam chegar a US$ 28 trilhões no PIB anual global - o
equivalente, à época, à soma das duas maiores economias do mundo, a dos EUA e
da China. Esse cenário permitiria que a metade feminina da população mundial
alcançasse seu potencial mais plenamente, aumentando por exemplo suas horas de
trabalho remunerado e seus rendimentos.
"Igualdade de gêneros não é apenas uma
questão urgente do ponto de vista social e moral, mas também um desafio
econômico", apontou o relatório.
Mais poder financeiro feminino melhora as famílias
Em 2018, o Fundo Monetário Internacional
(FMI) analisou pesquisas e dados de mais de uma centena de nações em questões
como acesso ao sistema financeiro (como crédito e contas bancárias) e ascensão
profissional feminina no setor bancário.
A conclusão foi de que mulheres mais fortes
financeiramente demonstraram maior probabilidade de investir no bem-estar
familiar e a tomar mais decisões financeiras mais inteligentes, que repercutem
na educação e na saúde de sua família.
"Isso se traduz em menos pobreza, mais
crescimento econômico e redução da desigualdade", disse à BBC News Brasil
Ratna Sahay, coautora do estudo e vice-diretora do Departamento Monetário e de
Mercado de Capitais do FMI.
"Há diferentes
exemplos: nas Filipinas, há evidências de que o empoderamento das mulheres
aumentava seu controle sobre decisões do orçamento e seu gasto com itens
simples, mas que melhoram a qualidade de vida de toda a família, como máquina
de lavar roupa e utensílios culinários; no Nepal, descobrimos que lares
liderados por mulheres gastavam 20% mais em educação do que os liderados por
homens, algo muito importante para as crianças", explicou Sahay, agregando
que, embora seu estudo não mencione nominalmente o Brasil, as conclusões
possivelmente se aplicam por aqui.
Mais participação feminina leva a mais eficiência e
estabilidade financeira
O levantamento do FMI analisou também um
outro ângulo: qual o impacto de se, além de usuárias de serviços financeiros, tivermos
mais mulheres provendo esses serviços - ou seja, ocupando posições de liderança
em bancos centrais e comerciais e em agências regulatórias financeiras?
E, novamente, a conclusão foi de que
"a maior representatividade das mulheres (em instituições financeiras)
leva a mais estabilidade financeira" - na prática, menor endividamento,
decisões corporativas mais cautelosas, mais eficiência e menos chance de crises
financeiras.
"E isso tem grandes implicações,
porque muitos países se preocupam com risco sistêmico e estabilidade. Em todos
esses aspectos, reduzir a desigualdade de gênero pode ter efeitos
macroeconômicos muito positivos", afirmou Sahay.
Segundo o FMI, menos
de 2% das CEOs de instituições financeiras globais são mulheres; elas também
são menos de 20% dos membros dos conselhos dessas instituições. "E isso é um contraste grande com a
oferta de mulheres com formação relevante (nessa área)", diz o texto do
Fundo. "As mulheres representam 30% dos formandos em economia e cerca de
50% dos formandos em administração e ciências sociais."
Segundo o estudo do Fórum Econômico
Mundial, a igualdade de gêneros "é boa para os negócios".
"Pesquisas feitas ao longo de três
décadas mostram que (...) empresas com mais mulheres líderes e nos conselhos
têm maiores lucros e performance financeira. Também têm menos relatos de
fraude, corrupção e erros financeiros. Na Noruega, onde é exigido que as
empresas reservem ao menos 40% de seus assentos de conselho a mulheres, as
pesquisas mostram que elas têm mais probabilidade de pensar em longo prazo, e
incluir cidadãos, em vez de apenas acionistas, em suas deliberações. As
mulheres estimulam os conselhos a focar mais na comunidade, no ambiente e nos
empregados." (BBC)


Nenhum comentário:
Postar um comentário