"O trabalho do Carlos Nadalim é a única alternativa aos 80% de
analfabetos funcionais das universidades brasileiras", exalta postagem de
2017 em uma das páginas oficiais de Olavo de Carvalho no Facebook.
Essas elevadas expectativas poderão agora
ser testadas na prática. Carlos Nadalim, coordenador pedagógico de uma pequena
escola em Londrina (PR) e autor do blog "Como Educar seus Filhos",
estará à frente da nova Secretaria de Alfabetização, criada pelo ministro da
Educação, Ricardo Vélez, outro nome elogiado por Olavo.
Para o novo secretário de alfabetização,
uma das causas principais do alto analfabetismo funcional (quando a pessoa
reconhece as letras, mas não consegue interpretar textos simples) no Brasil é a
prevalência nas diretrizes do Ministério da Educação de métodos de ensino
"construtivistas" - abordagem em que a criança é vista como
construtora do conhecimento e o aprendizado do alfabeto ocorre de forma
integrada com o uso social da leitura e escrita.
Nadalim defende como alternativa o
"método fônico", que apresenta as crianças às letras e aos sons da
fala antes de iniciá-las em atividades com textos.
Esse tipo de disputa em torno da melhor
forma de ensinar o alfabeto não é exclusiva do Brasil. Em países como Estados
Unidos, Reino Unido e Austrália, o conflito ficou conhecido como "reading
wars" (guerras da alfabetização) e acabou influenciando debates em outros
locais.
Mas o que dizem os
especialistas sobre o assunto?
"Vilão da
alfabetização" - Em um dos seus
vídeos no YouTube, onde tem um canal com mais de 5 milhões de visualizações, o
novo secretário Carlos Nadalim argumenta que o que chama de método
construtivista "demonstra uma preocupação exagerada com a construção de
uma sociedade igualitária, democrática e pluralista, em formar leitores
críticos, engajados e conscientes".
Por outro lado, diz
na gravação, as diretrizes do Ministério da Educação (MEC) não trazem "uma
orientação clara com base em evidências científicas comprovadas e atualizadas
de como alfabetizar as crianças".
"Há tanta preocupação em fomentar a
socialização e em promover uma visão crítica na criança que resta pouco tempo e
pouco investimento para ensinar o básico, o fundamental", conclui Nadalim,
após criticar a educadora Magda Soares, professora emérita da UFMG tida como
referência nacional em alfabetização.
Para o novo
secretário, o "letramento", conceito difundido no país a partir dos
anos 1980 pela educadora e usado nos documentos do MEC, é o "vilão da
alfabetização" no país.
Como saída, Nadalim
e outros adeptos da ênfase na fonética defendem o "método fônico".
Nele, a criança deve primeiro ser exposta a atividades que reforcem a relação
entre as letras e os sons da fala (grafemas e fonemas), pois assim aprendem a
decodificar e codificar a linguagem escrita, para depois evoluir aos textos.
Seus defensores argumentam que estudos internacionais já comprovaram a
superioridade dessa abordagem.
Em outro vídeo, Nadalim exemplifica como
usar o método usando o livro "O Batalhão das Letras", de Mario
Quintana, que traz grandes desenhos do alfabeto. Ao abrir a página do
"F", ele fala os nomes correspondentes a desenhos enfatizando o
início das palavras: "Ffffrades, ffffformigas, ffffiga, fffflor",
recita o secretário.
"Guerrinha de
métodos é perda de tempo" - Não se
sabe ainda como, mas a expectativa é que Nadalim tentará implementar grandes
mudanças nas diretrizes de alfabetização do país. A BBC News Brasil tentou
contato com o secretário em seu blog e no MEC, mas a assessoria do ministério
disse que a nova equipe ainda não está atendendo pedidos de entrevistas.
Pesquisas deixam
claro que há um problema a ser enfrentado. Numa lista de 70 países analisados
pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em
inglês), o Brasil está na 59ª posição em leitura e na 66ª colocação em
matemática.
Já um estudo realizado no ano passado pelo
Ibope Inteligência em parceria com a ONG Ação Educativa estima que 29% dos
jovens e adultos brasileiros de 15 a 64 anos (cerca de 38 milhões de pessoas)
sejam analfabetos funcionais.
Para estudiosos da alfabetização ouvidos pela
BBC News Brasil, no entanto, esse quadro não pode ser atribuído a uma questão
de método. Parte dos entrevistados considera, inclusive, que Nadalim tem
percepções equivocadas sobre o que seja construtivismo, letramento e a
abordagem fônica. E ressaltam que, na prática, o que se vê na sala de aula é um
mix de ferramentas teóricas e metodológicas.
"Eu acho uma perda de energia, tempo e
neurônios estabelecer essa guerrinha, essa oposição entre método fônico e um
método mais global ou construtivista. É absolutamente improdutivo", afirma
a professora Izolda Cela, hoje vice-governadora do Ceará.
Cela esteve à frente
do processo que, a partir de 1997, implementou um programa de alfabetização
extremamente bem-sucedido em Sobral (CE). No ranking de redes de ensino
municipais, a cidade tem os maiores nota no Ideb (Índice de Desenvolvimento da
Educação Básica) para o ensino fundamental. No caso dos anos iniciais (1º ao 5º
ano), o Ideb de Sobral é de 9,1, contra 5,5 da média de todas as redes
municipais de ensino do país.
Para a
vice-governadora, que coordenou o programa e depois se tornou secretária de
educação de Sobral e do Ceará, o sucesso do programa não decorre do método, mas
de um conjunto de fatores como a valorização e qualificação constante dos
professores, o planejamento detalhado das atividades em sala de aula com
alinhamento ao material didático, as metas claras de alfabetização e as
avaliações externas realizadas pelo município semestralmente para medir a
aprendizagem dos estudantes.
No caso de Sobral, disse ainda, o programa
aplica tanto princípios do letramento, de Magda Soares, como material didático
de abordagem fônica do Instituto Alfa e Beto, fundado por João Batista
Oliveira. Quando o modelo foi ampliado para outras cidades do estado, conta, o
governo pré-selecionou alguns materiais com diferentes ênfases metodológicas e
permitiu que as redes municipais escolhessem o que mais se adequasse as suas
necessidades.
Ex-secretário-executivo do MEC (1995) e
psicólogo com doutorado em educação pela Florida State University (EUA),
Batista Oliveira é um dos principais defensores do método fônico no Brasil, ao
lado de Fernando Capovilla, professor do Instituto de Psicologia da USP
(Universidade de São Paulo). Ambos são citados por Carlos Nadalim ao disparar
suas críticas contra Magda Soares.
"Se a escola usa um método ou outro,
não é determinante. O importante é se é bem organizado. O fator de fracasso (da
alfabetização no Brasil) é o baixíssimo nível de institucionalidade da escola
pública", acredita Cela.
"Fico apreensiva quando o novo
secretário coloca o método como grande questão da alfabetização", disse
ainda.
Mas, afinal, o que é
letramento? - A professora emérita da
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Magda Soares está indignada com o
que chamou de "forma equivocada e pouco respeitosa" como vem sendo
criticada por Nadalim. Aos 86 anos, se recuperando de uma cirurgia, ela ainda
assim tem atendido jornalistas para responder ao que classifica como
"disparates" do novo secretário.
Seu livro
"Alfabetização: a questão dos métodos", em que faz uma ampla revisão
dos estudos na área, ganhou o prêmio Jabuti em duas categorias em 2017: melhor
obra de não ficção e de Educação e Pedagogia. Desde 2007, a professora coordena
de forma voluntária o programa de alfabetização da prefeitura de Lagoa Santa
(MG). De lá pra cá, o Ideb para os anos iniciais do ensino fundamental da rede
do município passou de 4,5 para 6,4.
Soares refuta a
discussão em termos de "métodos fônicos" versus "abordagem
construtivista". Ela concorda que a "aprendizagem das relações
fonemas-grafemas" é essencial ao processo de alfabetização. Seu
entendimento, porém, é que o ensino não deve partir das letras, já que as
consoantes são "impronunciáveis isoladamente", mas primeiro da
consciência das palavras e sílabas. Além disso, Soares considera
"enfadonhos" exercícios fonéticos dissociados de textos escritos que
dialoguem com realidade das crianças.
"As crianças
aprendem com mais interesse e entusiasmo quando se alfabetiza com base em
palavras e frases de textos reais, lidos pela professora, e em tentativas de
escrever, de modo que aprender as relações fonema-grafema ganham sentido",
defende.
À BBC News Brasil Soares ressaltou também
que alfabetização e letramento são coisas distintas. O primeiro consiste na
"aprendizagem de uma tecnologia", o sistema alfabético escrito e
normas ortográficas, enquanto o segundo é o desenvolvimento de habilidades de
interpretação e construção de textos.
"Embora sejam diferentes os processos
de aprendizagem e de ensino, a criança se alfabetiza para ler e escrever
textos, portanto, é artificial levar a criança a aprender a tecnologia - as
relações fonema-grafema - desligada de seu uso. Por isso, a importância de
alfabetizar e letrar de forma integrada", defende.
Disputa
global - A disputa em torno da
melhor forma de ensinar o alfabeto não é exclusiva do Brasil. Em países como
Estados Unidos, Reino Unido e Austrália, o conflito ficou conhecido como
"reading wars" (guerras da alfabetização).
Em um amplo estudo
publicado no ano passado, pesquisadoras de universidades britânicas e
australiana tentaram por fim à disputa. Nele, as cientistas Anne Castles
(Macquarie University), Kathleen Rastle (Royal Holloway University of London) e
Kate Nation (University of Oxford) sustentam que a fonética é base essencial
para se tornar um bom leitor, mas não é suficiente por si só.
"Uma criança não é alfabetizada a
menos que possa entender o que está lendo, portanto, a alfabetização
bem-sucedida também exige a aquisição de habilidades sofisticadas de
compreensão de texto", disse à BBC News Brasil uma das autoras, Kathleen
Rastle.
"Isso não significa que as habilidades
devam ser ensinadas ao mesmo tempo. Há um forte consenso na pesquisa científica
de que a fonética é base necessária para as habilidades de leitura de alto
nível e, portanto, que a instrução inicial deve se concentrar em garantir que o
conhecimento fonético da criança seja sólido", acrescentou.
Já a professora de Harvard Catherine Snow,
referência no estudo de abordagens de alfabetização nos Estados Unidos, afirma
que o ensino do "princípio alfabético", ou seja, a compreensão de que
as letras representam sons previsíveis, não deve ocorrer dissociado de
atividades que insiram as palavras em frases e histórias com sentido.
"Esse processo
envolve lembrar o aprendiz que as palavras que ele pode decodificar pela
relação letra-som são reais e com significado, que a razão de ler é entender a
mensagem, não apenas pronunciar corretamente", argumenta.
Snow ressalta que os
diferentes grupos de pesquisadores em geral concordam "em 90%" do que
compõem um bom ensino de leitura e escrita, mas exageram a importância dos 10%
de discordância.
"Todos admitem que as crianças
precisam entender o princípio alfabético, que precisam ter fortes habilidades
de linguagem oral, que devem escutar leituras em voz alta antes que possam ler
(por conta própria) e que os materiais de leitura devem ser interessantes e
motivadores etc.", ressalta.
"Ignorar esses pontos de concordância
por causa de um nível diferente de ênfase na importância de ensinar
explicitamente o princípio alfabético teve efeitos muito negativos na instrução
de alfabetização nos Estados Unidos. Espera-se que o Brasil não repita essa
história", crítica. (BBC)


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