De olho na disputa para o
comando da Câmara e do Senado, a ordem do presidente Jair Bolsonaro aos
correligionários do PSL e a aliados de primeira linha dada em dezembro era a de
observar e não levantar, ao menos por enquanto, bandeira para nenhum candidato.
"É
como a gente brinca no quartel: ouvir muito, falar pouco e não assinar p***a
nenhuma", diz o recém-eleito senador Major Olímpio (PSL-SP), um dos
articuladores do PSL e aliado de Bolsonaro no Congresso.
Deputado
federal, Olímpio foi eleito senador por São Paulo e teve o nome lançado pelo
PSL para já estrear na nova Casa concorrendo à Presidência do Senado. Segundo Olímpio, na reunião com a bancada do PSL no
começo de dezembro, Bolsonaro alertou que a eleição no Congresso é um processo
dinâmico, que candidatos se retiram da disputa e novos nomes podem surgir até
1° de fevereiro – data da eleição para escolher os presidentes das duas Casas.
Por isso, Bolsonaro reiterou no encontro que não
pretendia, por ora, vincular o apoio do governo a um candidato específico. O
então presidente eleito dizia esperar o mesmo do PSL.
No entanto, um dia depois da posse de Bolsonaro, o
partido do presidente anunciou apoio à reeleição de Rodrigo Maia (DEM-RJ) para
presidência da Câmara e lançou o nome de Major Olímpio para comandar o Senado.
Em entrevista ao SBT na quinta-feira, Bolsonaro disse que
não queria se envolver na disputa, mas que esperava que o candidato apoiado por
seu partido ganhasse a eleição no Congresso para que 'coloque em pauta as
matérias que porventura viemos a apresentar'.
Em troca
do apoio do PSL, Maia teria prometido ao partido o comando da mais disputada
comissão permanente da Casa, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) - por
onde passam todas proposições para análise de constitucionalidade.
Disputa crucial - Apesar do distanciamento do presidente,
a disputa no Legislativo é considerada crucial uma vez que os presidentes da
Câmara e do Senado podem embalar ou atrapalhar o andamento do governo.
No comando das duas Casas, os presidentes têm autoridade
para, por exemplo, definir a pauta de votações, escalar relatores de
proposições importantes e até emperrar abertura de Comissões Parlamentares de
Inquérito (CPIs).
Além
disso, os presidentes da Câmara e do Senado estão, nesta ordem, na linha de
sucessão presidencial. Na ausência do titular e do vice-presidente, são eles
que assumem a Presidência da República.
Outro
ponto importante: é o presidente da Câmara quem aceita ou rejeita eventuais
pedidos de impeachment contra o chefe do Executivo - algo que a Dilma Rousseff
aprendeu após sua disputa com Eduardo Cunha.
Cientes da
importância do Legislativo para o funcionamento do governo Bolsonaro, muitos
postulantes ao comando da Câmara e do Senado ainda esperam por um aceno do novo
presidente às vésperas da eleição.
O próprio
PSL cogitou lançar candidato próprio ao comando da Câmara, mas preferiu um
acordo para investir na formação de um bloco majoritário que o apoiasse
Bolsonaro no Congresso para aprovar matérias de interesse do governo.
Considerada
prioridade, a reforma da Previdência deve ser apresentada já em fevereiro, com
o Congresso sob novo comando. Bolsonaro já declarou que quer ver o Congresso
votando propostas de interesse do governo relacionadas à Previdência e à
privatização de estatais nos seis primeiros meses do mandato.
Para isso,
o presidente depende não apenas da organização da base para acelerar a análise
das propostas, como dos presidentes das duas Casas - que têm autoridade para
priorizar votações.
'Velha política' no Senado - Oito nomes se movimentam em
cada Casa de olho na principal cadeira do plenário.
No Senado, Renan Calheiros (MDB-AL) é considerado o favorito se a eleição for secreta
No Senado, Renan Calheiros (MDB-AL) é considerado o
favorito para a presidência da Casa se a eleição for secreta - mas, em 19 de
dezembro, o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, determinou,
por meio de uma liminar, que a disputa para os cargos da Mesa Diretora do
Senado seja por meio de votação aberta.
Mas Calheiros, que articula para voltar a comandar o
Senado pela quarta vez, não é o nome preferido do governo, tampouco dos aliados
de Bolsonaro. O senador alagoano também enfrenta resistência da ala governista
e do próprio MDB.
De acordo com Major Olímpio, Calheiros é "a cara da
velha política". Dentro do MDB, o senador disputa a vaga com Simone Tebet
(MS), que quer ser a primeira mulher a comandar o Senado.
Há ainda
outros quatro senadores que tentam se colocar como representantes do espírito
de mudança e conservadorismo que marcou as eleições gerais de outubro. São
nomes como os Álvaro Dias (Podemos-PR), Esperidião Amin (PP-SC), Tasso
Jereissati (PSDB-CE) e David Alcolumbre (DEM-AP), que buscam se viabilizar como
candidatos com o apoio do governo Bolsonaro e do PSL.
No fim de
dezembro, Major Olímpio afirmou à reportagem da BBC News Brasil que a intenção
na Casa é construir um bloco de oposição à candidatura de Renan Calheiros. Ele
contou ainda que estava conversado com os demais postulantes sobre a
possibilidade de uma candidatura unificada.
'Missão dada é missão cumprida' - Mas logo após a posse
de Bolsonaro, Olímpio passou de articulador a candidato na disputa. A decisão
de lançá-lo está ligada à tentativa de não fortalecer ainda mais o DEM ou mesmo
legendas como o PSDB ou o PP, e atrair uma nova frente contrária a Calheiros e
mais alinhada com o novo governo. Isso também fortaleceria o PSL na negociação
de comissões importantes e assentos na Mesa Diretora numa possível candidatura
única contra Renan.
"Missão dada, é missão cumprida! Aprendi a vencer e
a perder. Desistir, nunca!", escreveu Olímpio no Twitter, ao comentando
uma reportagem do jornal Correio Braziliense - intitulada "Contra Renan,
PSL lança Major Olímpio à presidência do Senado".
Procurado
novamente pela BBC News Brasil para falar sobre a possibilidade de concorrer,
ele disse que o tema seria discutido em reunião do PSL em Brasília.
Pela
esquerda, o novato no Senado Cid Gomes (PDT-CE) também se movimenta para ser um
dos principais nomes da oposição no Senado. Mas o próprio irmão de Cid, Ciro
Gomes, deu uma declaração demonstrando apoio ao também político do Ceará o
tucano Tasso Jereissati, de quem já foi aliado.
'Favorito na Câmara' - Na Câmara, por onde passam
primeiro os projetos de autoria do Executivo, o atual ocupante do posto, Rodrigo
Maia (DEM-RJ), ainda não teria, segundo sua assessoria, se lançado formalmente
para disputar a reeleição. Mas já tem se movimentado pelos corredores do
Congresso e desponta como favorito.
Além de
ter fechado com o PSL e ter o chamado Centrão a seu lado, Maia conta com o
apoio de aliados de Bolsonaro que não veem o presidente da Câmara como a cara
da velha política e acreditam que ele compartilha a mesma agenda bolsonarista
para a economia - o que facilitaria a discussão das privatizações e da reforma
da Previdência, por exemplo.
No Twitter, a deputada eleita Joice Hasselmann (PSL-SP)
explicou a decisão do PSL em apoiar Maia, dizendo que se trata de uma
"aliança pela agenda econômica e governabilidade". "Não é o melhor, nem o mais bonito, nem o mais
simpático. Apenas é o que tem mais votos e maior viabilidade de ajudar na
agenda econômica do governo", respondeu ela a um comentário na rede
social.
"Qual
seria a opção? Afundar o governo? Não ter bloco para aprovar nada? Fazer
beicinho de criança birrenta e prejudicar milhões de brasileiros por
isso?", também escreveu Hasselmann, que chegou a criticar possibilidade de
reeleição de Maia, mas mudou de posição.
Mas, para
alguns bolsonaristas no Congresso, contra Maia pesa o fato de ele ser do DEM,
que já tem três ministérios (Casa Civil, Saúde e Meio Ambiente), e de ser um
nome que agrada integrantes de partidos da esquerda - ele contou com o apoio do
PCdoB e do PDT nas eleições da Câmara em 2017 e contemplou a esquerda com
relatorias importantes, além de ter emperrado a CPI da União Nacional dos
Estudantes (UNE).
Maia já
está no comando da Câmara desde o afastamento de Eduardo Cunha (MDB-RJ) em
2016, quando assumiu um mandato tampão e, no ano seguinte, foi reconduzido ao
cargo. Se reeleito, vai ser o deputado que mais tempo ficou na Presidência da
Câmara.
Na Câmara, atual ocupante do posto, Rodrigo Maia (DEM-RJ), ainda não se lançou
formalmente para disputar a reeleição, mas já desponta como favorito.
'Afastando' concorrentes - Maia tem, no momento, pelo
menos sete concorrentes, numa disputa em que simpatia e uma boa relação com os
colegas de plenário têm peso significativo. O atual presidente da Câmara,
contudo, tem costurado acertos importantes, oferecendo a legendas assentos na
Mesa Diretora e comissões permanentes.
Para tirar da disputa o delegado e pastor evangélico João
Campos (PRB-GO), Maia ofereceu ao PRB a vice-presidência da Casa. Campos tem,
contudo, a possibilidade de manter a candidatura avulsa, mas deve seguir a
orientação do partido de interromper a campanha. Na semana anterior à posse de
Bolsonaro, Campos se reuniu com a equipe de transição, disse ter reiterado o
interesse de participar da disputa e que apostava nos votos dos 243
parlamentares novatos.
Já o
deputado Capitão Augusto (PR-SP) deve concorrer de forma autônoma, mesmo com o
PR declarando apoio a Maia. Aliados de
Maia acreditam que Alceu Moreira (MDB-RS) desista de concorrer por não mais
poder contar com o apoio declarado do PSL. Uma semana antes da decisão do PSL
de apoiar o atual presidente da Câmara, Moreira apostava num blocão
alternativo, capaz de desidratar o grupo que hoje apoia Maia.
Moreira
contou à BBC News Brasil ter se aproximado de Bolsonaro durante a CPI da Funai
(Fundação Nacional do Índio), concluída em 2017. Afirmou ter ouvido do próprio
Jair Bolsonaro, durante a campanha do segundo turno, que era uma pessoa com
perfil para presidir a Câmara. "Sei
que ele não falou isso só para mim", diz Moreira, emendando que é
"uma das pessoas" que o presidente gostaria de ver no comando da
Casa.
Como
candidato, Moreira prega renovação. "Se a nova Câmara tem 50% de
renovação, não pode ser comandada por alguém que negocia com as mesmas armas e
nem querer um Parlamento arcaico", diz, criticando adversários que têm
organizado jantares de campanha e oferecido cargos na Mesa Diretora e
comissões. Também se
movimentam de olho na presidência da Câmara os deputados João Henrique Caldas
(PSB-AL), Fernando Giacobo (PR-PR) e Fábio Ramalho (MDB-MG).
'Amigo de todos' - No quesito simpatia, contudo, Ramalho,
o atual vice-presidente da Câmara, é visto por deputados de diferentes partidos
como um forte opositor a Maia. Representante do chamado baixo clero, o grupo de
parlamentares com menor projeção nacional, é chamado de "Fabinho" por
congressistas, funcionários e assessores.
Ramalho se
diz o "amigo de todos" e ganhou fama pelas festas que organiza no
apartamento funcional em Brasília. Das festas ele não gosta de falar.
"Quer falar da disputa ou das minhas festas?", pergunta à BBC News
Brasil, quando questionado sobre sua estratégia de campanha.
Ramalho
afirma estar conversando individualmente com cada deputado e diz ser "o
candidato da instituição".
"Não
vou ser líder do governo nem da oposição. Vou fazer com que a Câmara seja forte
e independente. Vou dialogar e respeitar a oposição. A Câmara merece
renovação", dispara, evocando o discurso de campanha.
Fabinho é
um dos poucos postulantes que diz não esperar o apoio declarado de Bolsonaro,
mas não perde a oportunidade para afagar o novo presidente. "Ele
tem falado que não vai interferir nas eleições para a presidência (da Câmara).
É um homem muito elegante e tem cativado a simpatia de todos nós, demostrando
que é um estadista".
Estratégia petista - O PT, por sua vez, ainda não definiu
se lançará candidato ou se vai compor com algum dos nomes já colocados. Integrantes da bancada se reúnem em meados de janeiro
para definir uma estratégia, mas não está descartada a possibilidade de não
lançar candidato para negociar algum cargo na Mesa ou mesmo presidência de
comissões de interesse do partido para ter uma participação mais ativa no
Legislativo.
O PSOL
anunciou que pretende participar da eleição na Câmara com Marcelo Freixo (RJ),
que tenta formar uma aliança com partidos mais à esquerda do espectro político
para reagir contra a agenda do ministro da Economia, Paulo Guedes.
"Sou
candidato à presidência da Câmara dos Deputados por um amplo campo republicano
e democrático que lutará p resgatar o espírito da Constituição. Vamos enfrentar
a agenda de Jair Bolsonaro e Rodrigo Maia q aprofundará ainda mais as
desigualdades no país (sic)", anunciou Freixo no Twitter. (BBC)



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