Que a mente desperte calma,
fiel recorde a memória,
fale certo o coração.
O Seminário de São José de Sobral – o querido Seminário da Betânia –
estará completando 90 anos de existência a 29 de fevereiro de 2014. Uma
efeméride extraordinária? Muito mais! Porque por sua história descontínua por
algum tempo e permanente de verdade, ele já é história, e tão importante, que
não é possível escrever a história do norte e para além do norte do Ceará, com
repercussão na história do Brasil, sem uma referência a ele, ao Seminário da
Betânia. A ele quem? A ele que? A ele qual? A ele quando? A ele como? Ao
grandioso conjunto de edifícios? Ao ambiente no qual foi instalado? À natureza
que o acolheu e o envolve? Às pessoas? Quais? Ao Sr. Bispo fundador? Aos padres
formadores, aos professores? Aos alunos? Aos empregados? Às empregadas? Às
copeiras? Às lavadeiras? Aos copeiros? Às Irmãs religiosas? Aos Seminaristas?
Aos pais (papai e mamãe?) Irmãos, Irmãs, dos dias da visita? Ora, cada um é um!
Cada uma é uma! Com virtudes e defeitos, com alegrias e tristezas, com vitórias
e desilusões. Às vestes litúrgicas. Às roupas diárias. Aos chapéus: a bacorinha,
o chapéu romano? Aos transportes: a bicicleta, a motocicleta, a charrete, o
jipe (jeep) da FAREC, ao carro. Aos meios de comunicação. Primeiro, o telefone,
um só para todo o Seminário. Aos esportes: a barra; o futebol, o voleibol, o
basquetebol. Ao regulamento, ao programa. Ao horário. À disciplina. Aos
estudos, uma hora antes de cada aula, mais uma à noite em silêncio, em grande
salão apropriado. À oração: o TE DEUM, ao despertar; o Miserere, ao deitar;
antes e depois das refeições; durante elas; ao DEO GRATIAS e a animação nos
dias santos e feriados. Às leituras de notas no fim do mês. Aos prêmios no fim
do ano. Às grandes celebrações litúrgicas, particularmente na Catedral. Tudo
isso é vida. Tudo isso é recordação. É lição proveitosa, formativa. Mais ainda
muito geral, muito ou às vezes pouco perceptível. Em casos mais raros
totalmente sumidos da memória, - até dos melhores – que o digam nossos
encontros! Tão importantes e enriquecedores quaisquer que seja a nossa idade
atual e as missões que nos couberam na vida.
Se descemos (e é indispensável fazê-lo) das generalidades ao particular, aí não há jeito. Sem o imaginar temos em mãos não sei quantos caleidoscópios, cada qual mais variado e belo, dependendo da pessoa que os tem nas mãos. Sim, mas ainda mais que na memória que ressurge das brumas de um passado que parecia inexistente e, mais ainda, bem mais do coração, pulsando agora com maior intensidade. Mas aí, cuidado! Cuidado com o excesso de emoções, com a incontida alegria, com os enlevos imprevistos, com as lágrimas ardentes, com a imensa saudade. Porque tudo isso é verdadeiro, passado que se faz presente, vida que renasce, emoção que reempolga, silêncio que clama por dentro, oração, céu na terra, mundo tão real e tão fantástico que só revivido e outra vez sentido se pode experimentar e bendizer. Das banalidades – palavra imprópria quando se trata do dia a dia da vida – aos momentos indelevelmente marcantes como aquele já distanciado oito de abril de 1938, segunda-feira de Páscoa, dia do passeio (pique-nique) após os trabalhos e cansaços da Semana Santa, das suas preocupações de envolta com a piedade e as grandiosas celebrações da Catedral, presididas por Dom José.
O passeio foi no açude Forquilha, ali
pertinho, na residência do superintendente engenheiro Sebastião de Abreu, irmão
do historiador famoso, este, um ex-seminarista do Seminário da Prainha. Bom
inverno. A barragem (melhor, as barragens) cheinhas quase até às bordas,
canoas, barcas (só uma a motor) canoeiros atenciosos à disposição, esportes, animação,
cânticos acompanhados à sanfona, ao violão, ao cavaquinho, ao violino (se bem
me lembro), Superintendente a irradiar alegria, animação e respeito; as piadas
do velho Souto, músico e poeta; frutas, doces, quitutes a fartar: - um céu, um
paraíso!
Vez por outra, para variar um passeio de
canoa. O último, pelas 12h30minh, o mais desejado talvez. Porém, quase
reservado aos que não tinham dado o seu passeio.
No barco a motor, lotação 12 pessoas entre
grandes e menores (divisão dos seminaristas). Em primeiro lugar, era natural, o
Pe. Reitor, Cônego José Osmar Carneiro, alto e corpulento, de óculos, de
sapatos, batina de casimira. Depois seminaristas, camisa de meia e calção. Está
completa a lotação. Mas foram chegando ainda alguns, entre eles, o último, o
Frotinha (meu colega de turma do segundo ano) de batina, sapatos. Queria tanto
ir. Fala o Reitor com o canoeiro. Poderiam arriscar? Ele era tão bem
comportado. “Entre, Frotinha!” Na popa, Antônio Thiers, praiano, de Chaval,
nadava que nem peixe! E eu, nem tanto, ao seu lado. O passeio foi a partir da
barragem secundária. Acionado o motor, uma beleza! Uns cinco minutos depois,
Thiers e eu na popa sentimos a água entrando. O barco afundando rapidamente.
Ele lança-se na água. Instintivamente eu trato de escapar. Uns 50 metros de
nado desajeitado e eu chegava à barragem são e salvo. Num instante, como por
milagre, câmaras de pneus cheias, latas de querosene vazias atiradas à água. Um
seminarista arranca instintivamente os óculos do Padre Reitor. Com outros procurava
atracar-se à sua pessoa. Um gesto vigoroso e extremo do forte barqueiro e eles
estavam salvo, mas exausto. E o Thiers? Dois seminaristas menores se grudaram
literalmente a ele, quase impossibilitando-lhe nadar. Alcança uma lata de
querosene e faz o possível e o impossível para os dois se segurarem nela mas em
vão! Num esforço último e quase exausto consegue desvencilhar-se dos dois que
foram afundando. Um deles, o Antônio Mozart, dos menores. Minutos depois, reunidos os sobreviventes à
beira do açude, diante da pequena multidão que vem chegando, ouve-se uma ordem.
Colocam-se em fila. Dos 16 faltavam três, o Mozart, do Ipu; o Frotinha, de
Sobral; José Morel, de Camocim. Agora, o silêncio, a desolação.
Ainda não havia a TV. Mas num instante o
Rádio comunicava a tragédia ao Brasil e ao mundo. Noutro instante Dom José em
pessoa chegava ao local. Agora, a volta. O senhor Bispo à frente no seu carro
em marcha lenta logo a seguir. A procissão: Padres, Seminaristas desolados,
tristes. A entrada em Sobral difícil de descrever. E bem mais difícil: as mães
na ânsia de ver cada uma o seu filho. Neste ponto fogem as palavras mas para
sempre ficou em mim a cena, cuja ressonância mal se pode imaginar. Sobral em
peso a viver a tragédia. No Seminário a tristeza, uma tristeza diferente, uma
tristeza que penetrou na vida.
E a angústia do Thiers! Sentia-se culpado
pela morte dos dois. Na capela menor se revezavam os seminaristas em oração. No
açude mergulhadores procuravam descobrir os corpos em águas profundas, treze
metros de profundidade. Pela 19:00 horas chegava o Mozart, o primeiro, logo
depois começa o velório. Pelas 10h30min, o segundo, o Frotinha. Mas o
terceiro, o Morel, não chegava. Amanhece o dia. Espera-se. Pelas 09h30min horas
dá-se início à procissão para o sepultamento no Cemitério de São José. Quando o
cortejo já se aproximava da Igreja do Menino Deus, aí vem chegando o último dos
mortos, o Mozart. A procissão recolhe-se à referida Igreja. Incorporado aos
dois o terceiro anjo, prossegue o préstito fúnebre, - o mais vivido e o mais
tocante da história de Sobral - até ao cemitério, onde os três inocentes
esperam a ressurreição. Depois de tantos anos, continuam eles no céu,
esvoaçando as leves asas, comunicando perpetuamente espiritualidade aos que
aqui ainda estamos. Isto tem um peso em nossa vida.
Demorei-me ao tratar reviver aquele momento.
Para fazer a apresentação que me foi solicitada? Parcialmente, sim.
Parcialmente, não. Ela é um momento marcante, mas não o único. Uma apresentação
às apresentações, quase uma centena que todos vamos ler.


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