
Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), mais de 11 milhões de
brasileiros sofrem com a depressão. Pelo mundo, são quase 300 milhões de
pessoas, números que fizeram a OMS chamar a doença de "mal do
século".
Tratamentos psiquiátricos e terapias diversas são apresentadas em textos
e programas de TV. Famosos e até youtubers têm falado muito mais da doença, mas
uma parte importante desta equação toda parece ficar de lado: o cuidador. Por
ser um conjunto de sintomas que podem estar presentes em aspectos variáveis em
cada pessoa, a depressão não é fácil de ser diagnosticada. E a pessoa que
convive com o doente rotineiramente também pouco sabe o que fazer.
Parceiros - O psiquiatra Roni Cohen, diretor do Centro Brasileiro de Estimulação
Magnética (CBREMT), aponta onde normalmente é o calcanhar de Aquiles do
parceiro: "Realmente aqueles que cuidam ficam em segundo plano. Cuidar de
uma pessoa com depressão requer uma sobrecarga emocional grande, principalmente
porque, além de absorver o sentimento do outro, advém uma sensação de
impotência quando se percebe que nem sempre a ajuda está sendo efetiva".
O arquiteto S. (que preferiu não se identificar), de 33 anos, conta como
aprendeu a se frustrar com a noiva, a médica I.. Ele revela que a maior
dificuldade disso é saber como lidar com ela em momentos críticos. "Você
sempre quer que a pessoa que você ama se sinta bem, feliz, quer fazer coisas
legais juntos e às vezes eu tinha que entender que não conseguiria isso, não
importa o que fizesse.
Saber diferenciar as doenças das emoções naturais são fundamentais para o tratamento
É muito frustrante", explica. "E algo que agrava isso é o fato
de que muitas vezes não havia nenhum motivo 'real' pra que ela se sentisse
triste. Então não há um problema que você possa resolver e fazer tudo ficar
bem". Um outro motivo para agravar o problema foi a negligência da
família, algo muito comum no mundo dos depressivos.
"Eles (os familiares) tinham um certo preconceito com tratamento
psiquiátrico e medicação. A depressão dela nunca me causou transtornos
diretamente, mas sim à ela. Mas como vivemos juntos me atingem de alguma forma.
Não procurei ajuda psicológica e tenho certeza que isso traria
benefícios.". A perda de compromissos importantes era um dos maiores
problemas. "Há dias que ela acaba dormindo o dia todo e perde
compromissos".
As dificuldades também são relatadas pelo administrador de empresas
Henrique Luiz, de 38 anos, que cuida do pai doente, de 74 anos, que preferiu
não ser identificado. Além da depressão, o pai foi diagnosticado com transtorno
bipolar: "A maior dificuldade realmente é se aproximar em tempos de
"mania", quando ele acha que está super bem e pode tudo. É neste
momento que ele acaba pisando em cima de todos", relata Henrique. "Já
colocamos remédios nos sucos e café para tentar conter ele - com orientação
médica ¬, até que a internação foi nossa última saída.
Minha mãe, hoje falecida, sofria demais com isto, e hoje vejo que meu
irmão sofre por morar com ele." Henrique acabou tendo que fazer um
tratamento psiquiátrico, onde foi diagnosticado com Depressão Pós Traumática e
ficou um bom tempo com remédios e terapia. "Infelizmente, o meu irmão,
apesar de demonstrar claramente desequilíbrio emocional devido a condição do
meu pai, não procurou ajuda."
Um dos grupos mais antigos e atuantes de ajuda a pacientes e familiares
é a Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos
Afetivos (ABRATA), situada atualmente na Vila Clementino, em São Paulo. Os
grandes centros universitários pelo país dispõem também de grupos semelhantes.
Há os "Neuróticos Anônimos" e grupos de portadores de transtorno
bipolar.
O psiquiatra Mauro Aranha, fala sobre a importância de se apoiar neste
tipo de pilar: "Esses grupos ajudam portadores e familiares em prevenção e
indicam rede de tratamento. Permitem também a expressão de um lugar de fala que
dá um sentido mais concreto e compartilhado ao sofrimento e aponta caminhos
possíveis de recuperação ou superação."
A psicóloga Melina Ferreira vai além: "O ideal seria que o cuidador
tivesse muito claro o que é a depressão, qual seu papel na contribuição do
tratamento, quando sair de cena e quando voltar, já que pode existir uma
'contaminação' dos sintomas depressivos, devido ao ambiente, preocupação,
atenção demasiada, além de suas próprias frustrações. Os profissionais da saúde
precisam estar atentos e abertos para dar este apoio aos cuidadores".
Há também que se separar um quadro de melancolia e tristeza com a
depressão.
Isso faz toda a diferença para o doente. Saber diferenciar as patologias
e emoções naturais são fundamentais para o tratamento e melhora da pessoa
tratada, aponta Melina: "A questão problemática desta relação é que a
depressão tem suas peculiaridades como doença e quem ajuda pode acabar cuidando
como uma tristeza, frustração ou qualquer outra emoção ruim comum ao ser
humano.
Isso gera conflitos e ambos sofrem com esta dinâmica: a pessoa com
depressão se sente não entendida ou vista e o cuidador frustrado por não
conseguir ajudar como gostaria. A depressão é uma doença muito autocentrada no
paciente".
A atriz e professora D., 38 anos, acabou procurando ajuda psicológica justamente
para não desistir do seu namorado B., de 45. "Vou a sessões
individualizadas com os médicos e analistas do meu namorado. Pedi ajuda da
família. O peso é muito grande e você precisa estar preparada para lidar com as
frustrações, que são muitas. Ter um grupo de apoio é fundamental".
O CVV faz um apoio emocional e de prevenção ao suicídio, atendendo voluntária
e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar
Já o arquiteto S. conta que leu bastante sobre o assunto e conversou com
a psicóloga da noiva algumas vezes, sempre com ela presente, pra ficar claro
que lidavam com aquilo juntos. E assim, com o tempo foi aprendendo, meio que na
tentativa e erro, os tipos de conduta que poderia tomar quando ela não estava
bem.
"Eu tento falar com ela de maneira muito lógica. Uma característica
dela é ser extremamente pessimista, ela vê todas as possibilidades das coisas
darem errado e vai desdobrando isso até chegar a consequências horríveis e fica
extremamente ansiosa. Então eu cito fatos parecidos onde tudo deu certo,
converso sobre como seria se algo ruim acontecesse, como iríamos resolver,
sempre tentando ser muito claro, pra que apesar da depressão ela veja que está
tudo bem. E isso sempre tem que ser feito com muita paciência e carinho, acho
que pra ela, estar perto de uma pessoa tranquila ajuda muito".
Mauro Aranha pede atenção especial à depressão que agrega angústia e
desinteresse por tudo e todos, isolamento social e desesperança. "São
ingredientes que podem levar o enfermo ao suicídio. E não se deve temer
perguntar, de maneira acolhedora, ao enfermo se ele deseja ou planeja matar-se.
Isso pode salvar uma vida".
Para casos mais agudos, O CVV - Centro de Valorização da Vida - realiza
apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente
todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, por
telefone, e-mail, chat e 24 horas todos os dias. A ligação para o CVV em
parceria com o SUS, por meio do número 188, são gratuitas a partir de qualquer
linha telefônica fixa ou celular. Também é possível acessar www.cvv.org.br para
chat, Skype, e-mail e mais informações sobre ligação gratuita. (BBC)


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