
Na manhã da
última quinta-feira (3), o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio
Moro, foi ao Palácio do Planalto para a cerimônia de lançamento de uma campanha
de marketing do governo federal. O objetivo é divulgar para a população as
medidas do chamado "pacote anticrime", um conjunto de projetos de lei
que o ministro entregou ao Congresso no
dia 4 de fevereiro deste ano.
A campanha, orçada em R$ 10 milhões, é
parte de um esforço mais amplo do governo para tentar salvar parte do conteúdo
do pacote — que já sofreu várias mudanças desde que começou a ser analisado no
Legislativo.
"Eu não sou publicitário,
evidentemente. Mas a ideia é lembrar que essa necessidade de enfrentar a
criminalidade é para proteger as pessoas", disse Moro a jornalistas,
depois do evento. "Isso se faz através de ações executivas (...), mas
precisamos também mudar a legislação. O pacote vai nesta linha. Vamos dialogar
com o Congresso, vamos tentar aprimorar o projeto, e aprová-lo no que for
possível", disse.
Na cerimônia do
Planalto, foram exibidos três filmetes de propaganda para a TV que farão parte
da campanha.
Com cerca de 30
segundos cada, eles mostram depoimentos de vítimas de crimes violentos e
terminam com um slogan. "Pacote anticrime. A lei tem que estar acima da
impunidade".
A tramitação do
pacote entrará na próxima terça-feira (8) numa etapa fundamental.
Esta é a data da
última reunião do grupo de trabalho (GT) formado na Câmara dos Deputados para
analisar o tema. Os deputados do grupo devem aprovar um texto consolidado, e o presidente
da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse que levará o resultado do grupo
diretamente para votação no plenário — sem passar por nenhuma outra comissão da
Casa.
Um levantamento
feito pelo relator, o deputado Capitão Augusto (PL-SP), mostra que até o
momento 18 pontos do projeto inicial já foram rejeitados pelo grupo de
trabalho. Vários outros foram alterados.
Alguns dos pontos
rejeitados estão entre os mais caros ao ministro da Justiça. É o caso das novas
regras para o "excludente de ilicitude" e a legítima defesa de
policiais; o chamado "plea bargain", no qual o réu confessa o crime
em troca de benefícios; e a previsão expressa de prisão após condenação pela 2ª
Instância da Justiça.
"Nós salvamos 75% do pacote. Mas os
25% que perdemos era estratégico, substancial", disse Capitão Augusto à
BBC News Brasil.
Para tentar reverter o provável revés no
grupo de trabalho, o governo aposta agora em dois caminhos: tentar recolocar
alguns itens durante a votação do projeto em plenário e, quando não for
possível, fazer avançar projetos independentes sobre cada um dos temas.
"Já era esperado. Eu falei para o
ministro Sergio Moro: 'olha, vamos tentar salvar o máximo possível lá (no GT)
e, aqui no plenário, tentar reverter'. Vamos tentar recompor alguns pontos
(...). No plenário podemos tentar propor destaques, emendas. E o que não
conseguir, a gente vai pela tramitação normal, ordinária. Tanto na Comissão de
Segurança (Pública e Combate ao Crime Organizado) que eu presido, quanto na CCJ
(Comissão de Constituição e Justiça)", diz Capitão Augusto.
"O que nós perdemos lá, não vamos
desistir. São pontos importantes", disse ele, que é o atual coordenador da
Frente Parlamentar da Segurança Pública, apelidada por adversários de
"bancada da bala".
Egio Almeida Andrade, um dos principais
técnicos da Câmara, explica que a reinclusão de propostas por meio de emendas é
possível no plenário. Para tanto, precisam ter o apoio de líderes partidários
que representem pelo menos 103 deputados — um quinto da Casa — e precisam
também ter relação com o tema do projeto, segundo ele.
Embora o número de apoios necessários para
apresentar uma emenda não seja tão alto, aprovar as alterações pode se mostrar
uma tarefa difícil: pelo menos dois líderes de partidos do chamado
"centrão" ouvidos pela BBC News Brasil disseram, sob condição de
anonimato, que apoiam o texto tal qual formulado pelo grupo de trabalho.
Em entrevista o jornal O Globo, o líder do
PP, Arthur Lira (AL) também manifestou opinião nesse sentido: "Na minha
opinião, tem que respeitar o trabalho do grupo (...). Do que a gente soube até
agora, está muito bom o trabalho. Não tem nada a recuperar", disse ele.
Um dos pontos mais
polêmicos do pacote de Moro era o que trazia regras mais amplas para o chamado
"excludente de ilicitude", aumentando as hipóteses nas quais
policiais não seriam punidos caso matassem alguém durante o trabalho. O agente
não seria punido, por exemplo, se provasse que agiu movido pelo "medo,
surpresa ou violenta emoção".
Este ponto é citado
por Capitão Augusto como um exemplo de iniciativa que pode avançar de forma
paralela: um projeto tratando do assunto está na pauta da Comissão de
Constituição e Justiça (CCJ) e deve ser votado esta semana.
O "excludente de ilicitude" foi
removido do texto após uma troca de farpas entre Moro e o presidente da Câmara,
Rodrigo Maia, nas redes sociais. No fim do mês passado, Maia lamentou a morte da menina Ágatha
Félix, de 8 anos, baleada durante uma operação policial no Rio.
"Qualquer pai e mãe consegue se
imaginar no lugar da família da Ágatha e sabe o tamanho dessa dor. Expresso
minha solidariedade aos familiares sabendo que não há palavra que diminua
tamanho sofrimento. É por isso que defendo uma avaliação muito cuidadosa e
criteriosa sobre o excludente de ilicitude que está em discussão no
Parlamento", escreveu Maia no Twitter.
Poucas horas depois, Moro usou a mesma rede
social para defender sua proposta. "Lamentável e trágica a morte da menina
Ágatha. Já me manifestei oficialmente. Os fatos têm que ser apurados. Não há
nenhuma relação possível do fato com a proposta de legítima defesa constante no
projeto anticrime", disse o ministro.
O ministro Sergio Moro entregou ao Congresso em fevereiro o chamado pacote anticrime
Derrotas sucessivas - Os defensores da proposta de Sergio Moro
vêm sofrendo derrotas praticamente desde o começo das atividades do grupo de
trabalho, em março deste ano - com alterações sucessivas no texto original. A
tal ponto que uma das defensoras do projeto, Carla Zambelli, acabou deixando o
GT.
Ela acusa os adversários da proposta de
terem usado a maioria que tinham no grupo para fazer uma "filtragem"
indevida do texto.
"A ideia era apresentar algo completo
para o plenário, que teria essa função de decidir em última instância. Só que
aí começaram a desidratar. 'Não, tira isso, tira aquilo'. Começaram a tirar
coisas, a deliberar. E o GT não tem função regimental deliberativa. E aí, eu
disse 'não vou ficar aqui, porque não vou compactuar com algo que está
errado'", disse Zambelli à BBC News Brasil.
O argumento é
rebatido por outro integrante do grupo, Marcelo Freixo (PSOL-RJ). "Foram 150 dias
de trabalho, 10 audiências públicas, todos os grandes especialistas da área
foram ouvidos. Então não se trata de 'tira isso, tira aquilo", disse ele à
reportagem.
O texto que está sendo discutido pelo grupo
não se baseia apenas nas propostas de Moro: a primeira versão foi confeccionada
por Capitão Augusto tendo por base também um projeto anterior do ministro
Alexandre de Moraes (do Supremo Tribunal Federal) e outras propostas que
tratavam de temas similares.
"Algumas coisas foram alteradas,
outras foram suprimidas, e outras foram acrescentadas. Esse relatório do
Capitão Augusto foi bastante alterado, então certamente vamos designar um outro
relator, que provavelmente será a Margarete Coelho (PP-PI, presidente do
grupo), que apresentará um relatório que irá diretamente para o plenário",
diz Freixo.
Capitão Augusto diz que os adversários do
projeto de Moro acabaram formando a maioria dos integrantes do GT.
Como foi possível? "Essa é uma
pergunta boa para o Rodrigo (Maia)", diz ele. "O que ele (Maia)
passou para nós é que quem tinha interesse ia integrar (o grupo). Então ele fez
um grupo misto, com o pessoal de esquerda, do centro, e da direita. Mas
infelizmente a composição foi desfavorável para o pacote. A maioria acabou se
revelando contrária", diz.
O que saiu do
projeto?
Um material explicativo elaborado
pelo GT detalha cada um dos pontos em debate no texto. O guia do Capitão Augusto mostra
quais deles foram suprimidos, e quais foram mantidos até agora.
Além do trecho que
ampliava o uso do "excludente de ilicitude", o grupo também removeu
outro dispositivo que ampliava o entendimento sobre ampla defesa no caso de
policiais. Entrariam nesta hipótese casos nos quais o policial age diante de
"iminente conflito armado" para prevenir agressões, ou para proteger
a vida de vítimas.
O grupo também
decidiu excluir a possibilidade do preso passar a cumprir pena logo depois de
condenado pela segunda instância da Justiça — o entendimento é o de que, para
isso, seria preciso mudar a Constituição, o que não pode ser feito com um
projeto de lei.
Vários outros dispositivos foram removidos
junto com este ponto: um deles exigia que o condenado pagasse multas impostas
pela Justiça logo depois de condenado na 2ª Instância (hoje, isto só ocorre
depois do trânsito em julgado, quando todos os recursos foram esgotados). Outro
permitia à Justiça vender bens apreendidos logo depois do início do cumprimento
da pena — novamente, hoje isto só ocorre após o trânsito em julgado.
Vários dos pontos suprimidos buscavam
endurecer a legislação penal. Um desses dispositivos criava regras mais rígidas
para a prescrição de crimes; outro ampliava o uso de videoconferências em
oitivas de presos. Um terceiro incluía mais crimes no rol de delitos hediondos,
como roubo qualificado e o porte de armas de calibre restrito; e um quarto
trazia o endurecimento das regras para a progressão de regimes dos presos.
Medidas que visavam aprimorar a capacidade
de investigação das polícias também caíram. Uma delas permitia quebrar o sigilo das
comunicações de investigados por "qualquer meio disponível" —
inclusive na internet. Outro trecho garantia aos investigadores o direito de
usar agentes disfarçados para investigar crimes como lavagem de dinheiro e
tráfico de armas. (BBC)

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