
O governo Bolsonaro tem buscado mudanças profundas na forma como o
Brasil se relaciona com o mundo. São guinadas na política externa que geram
oportunidades, mas também riscos.
Entre as
mudanças está o alinhamento quase automático com o governo Donald Trump, a
interferência, por meio de críticas contundentes a candidatos, nos processos
eleitorais de países vizinhos, o tom agressivo em organismos internacionais, e
o abandono da neutralidade em conflitos externos, como nas disputas
territoriais entre Israel e palestinos.
O discurso do presidente brasileiro na Assembleia das Nações Unidas,
no dia 24 de setembro, fugiu da diplomacia tradicional brasileira e confirmou
algumas das posições que Bolsonaro tem defendido junto à sua base eleitoral:
forte oposição do governo brasileiro ao regime de Nicolás Maduro na Venezuela,
a Cuba e ao que ele chama de ameaça do socialismo; reforço da política
ambiental baseada na ampliação de atividades econômicas na Amazônia, e ataques
à imprensa nacional e estrangeira.
A conduta do presidente no cenário internacional trouxe algumas
vantagens ao Brasil, como a decisão do presidente Donald Trump de tornar o
nosso país oficialmente um aliado estratégico extra-Otan (Organização do
Tratado do Atlântico Norte) -isso significa que o Brasil terá vantagens de
acesso a tecnologia militar americana -; a promessa de Trump de interceder
junto à OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) em favor
da candidatura do Brasil e a assinatura do acordo comercial entre o Mercosul e
a União Europeia cuja negociação se arrastava por mais de 10 anos.
Mas, como é
comum em negociações deste tipo, os ganhos obtidos até agora não foram
gratuitos - houve contrapartidas controversas. E, segundo especialistas ouvidos
pela BBC News Brasil, as apostas na política externa também geram riscos no
médio e longo prazo, como os listados a seguir:
- Possibilidade de isolamento do Brasil, caso governos aliados caiam
- Resistência da União Europeia em aprovar o acordo comercial do
Mercosul
- Restrições
dos europeus à entrada do Brasil na OCDE
- Potenciais
boicotes a produtos brasileiros
O risco de colocar 'todas as fichas' no político A
Desde que
tomou posse, Bolsonaro tem investido em se aproximar de Donald Trump, num
comportamento que especialistas em relações exteriores dizem caracterizar um
"alinhamento automático", quando uma nação passa a apoiar a outra em
todas as questões de conflito internacional.
O presidente
também tem fortalecido a aliança com outros governos e líderes conservadores ou
nacionalistas. Alguns exemplos são Benjamin Netanyahu, em Israel, Viktor Orban,
na Hungria, e Matteo Salvini, na Itália.
Fugindo da
tradição de neutralidade, Bolsonaro tem ainda opinado diretamente no processo
eleitoral da Argentina, defendendo a candidatura de Mauricio Macri e fazendo
críticas pesadas ao adversário dele, Alberto Fernandez, que tem a ex-presidente
Cristina Kirchner como vice na chapa.
Criticado por Bolsonaro, o peronista Alberto Fernandez está na
dianteira da disputa presidencial da Argentina
Mais de uma vez, o presidente brasileiro disse que a Argentina
poderá se tornar "uma Venezuela" se Fernandez vencer.
"Olhem o que está acontecendo na Argentina agora. A Argentina
está mergulhando no caos. A Argentina começa a trilhar o rumo da Venezuela,
porque nas primárias bandidos de esquerda começaram a voltar ao poder",
afirmou Bolsonaro em agosto, durante evento no Piauí.
O risco
dessa nova estratégia de política externa brasileira é o Brasil apostar fichas
demais em governos que podem, eventualmente, cair ou simplesmente não se
reeleger, aponta o professor de Relações Internacionais Marco Vieira, da
Universidade de Birmingham, no Reino Unido.
A relação
acaba sendo menos pragmática e mais pautada na identificação ideológica com
líderes estrangeiros. Ou seja, deixa de ser uma relação entre Estados, para se
tornar uma relação entre líderes.
"É uma
política arriscada, porque pode levar a um isolamento do Brasil. O governo está
apostando muito numa aliança bilateral com os Estados Unidos e é uma aliança
que pode não ter futuro, a depender do resultado das eleições no ano que
vem", disse Vieira à BBC News Brasil.
Trump vai
tentar a reeleição em novembro de 2020. Mas, antes disso, terá que enfrentar a
maior crise desde que se elegeu presidente em 2016. Ele virou alvo de um
processo de impeachment por ter pedido ao presidente da Ucrânia, Volodymyr
Zelensky, que investigasse o filho do Democrata Joe Biden, potencial adversário
do presidente americano na eleição do ano que vem.
Ou seja, se
Trump é afastado do cargo ou não se reelege, os benefícios que o Brasil
esperava obter com essa proximidade com Estados Unidos podem não chegar a se
concretizar.
Vale lembrar que o Partido Demcrata, de oposição a Trump tem tido
postura crítica ao governo Bolsonaro. Um dia depois do discurso de Bolsonaro na
ONU, um grupo de 16 parlamentares apresentou uma resolução à Câmara dos
Representantes para cancelar a designação do Brasil como aliado preferencial
extra-Otan e suspender todo o apoio militar e policial oferecido pelos EUA ao
governo brasileiro.
Se os democratas ganharem a eleição americana em 2020, a relação do
Brasil com os Estados Unidos pode mudar radicalmente.
Outros
aliados do governo Bolsonaro também perderam poder nos últimos meses. O partido
de Netanyahu, o Likud, deixou de possuir o maior número de cadeiras no
parlamento israelense: obteve 31 cadeiras, enquanto a coalizão Azul e Branca, liderada
por Benny Gantz, conseguiu 33 dos 120 assentos, tornando-se a maior força no
Legislativo.
Netanyahu
tenta se manter como primeiro-ministro, apesar de já não ser o líder do partido
mais votado. Mas, para isso, precisa conseguir o apoio de outros partidos ou da
Aliança Azul e Branca para formar um governo de união.
Já o líder
de ultra-direita Matteo Salvini, que já foi elogiado várias vezes por membros
do governo brasileiro, perdeu posto de ministro do Interior da Itália depois
que seu plano de se tornar primeiro-ministro por meio de uma eleição geral
antecipada fracassou.
Ele rompeu a
aliança de seu partido, a Liga, com o populista Movimento Cinco Estrelas, o que
derrubaria o governo do primeiro-minsitro Giuseppe Conte e forçaria a
realização de um novo pleito.
Mas foi
surpreendido pela decisão do Cinco Estrelas de se aliar ao Partido Democrático,
de centro-esquerda. Com isso, Giuseppe Conte permaneceu no poder e Salvini
perdeu a oportunidade de se candidatar, além de ser forçado a deixar o posto de
ministro.
Na Argentina, o peronista Alberto Fernandez, que tem sido duramente
criticado pelo presidente brasileiro, está na dianteira da corrida presidencial
com Mauricio Macri, aliado de Bolsonaro.
"O Brasil pode perder aliados importantes, como a Argentina, se
mantivermos a política de atacar e insultar o provável governo que vai assumir
no lugar do Macri", ressalta o professor de Relações Internacionais Marco
Vieira.
Mas as
opções de alianças feitas por Bolsonaro também produziram benefícios, como o
apoio dos Estados Unidos para a entrada do Brasil na OCDE, organização que
formula políticas públicas e que conta com a participação de algumas das
maiores economias do mundo.
O processo
ainda não foi concluído, mas fazer parte desse clube de países considerados
mais desenvolvidos funciona como uma espécie de selo de qualidade e pode atrair
investidores para o Brasil.
Em algumas
ocasiões, também foram aventados riscos nas estratégias de política externa de
Bolsonaro que acabaram por não se concretizar.
Havia grande
preocupação de que a proximidade de Bolsonaro com os Estados Unidos e com
Israel afastasse o Brasil de alguns de seus principais parceiros comerciais,
especialmente China e países árabes.
Mas, segundo Christopher Garman, diretor da consultoria
internacional Eurasia Group, isso não aconteceu— pelo menos por enquanto.
"Era uma preocupação que a gente tinha que a postura
antichinesa pudesse contaminar a relação bilateral, mas não é isso que está
acontecendo", disse Garman à BBC News Brasil.
"Temos
uma retórica muito forte, belicosa, polarizante. Mas a política externa está
sendo conduzida pelo lado mais pragmático, tanto com a China quanto na maneira
de negociar acordos de livre comércio."
Preocupação de que a relação do Brasil com os EUA pudesse afetar o comércio com a China não se concretizou, diz Christopher Garman, da consultoria Eurasia
Acordo do Mercosul com a União Europeia
Os analistas
entrevistados pela BBC News Brasil concordam na avaliação de que o acordo de
comércio do Mercosul com a União Europeia pode ser o primeiro a sofrer
concretamente com os efeitos colaterais da atual política externa brasileira.
O acordo,
que ainda precisa ser ratificado pelos parlamentos de todos os países
envolvidos, foi anunciado durante a reunião do G20 em junho, no Japão, como uma
das grandes vitórias do governo Bolsonaro.
A
expectativa é que ele gere um aumento de US$ 87 bilhões ao Produto Interno
Bruto (PIB) do Brasil em 15 anos, segundo estimativas do Ministério da
Economia.
No entanto,
desde a cúpula do G20, a relação entre Brasil e Europa estremeceu muito. A
situação se complicou quando os incêndios na Amazônia ganharam a atenção do
mundo.
Bolsonaro e
o presidente francês, Emmanuel Macron, se envolveram numa séria troca de
ofensas por causa desse episódio. Macron cobrou do governo brasileiro
providências na proteção da Amazônia, levou o assunto para ser debatido no G7,
sem a participação do Brasil, e sugeriu que a floresta é patrimônio de todos.
Bolsonaro rebateu acusando Macron de usar a Amazônia para proveito
político próprio. Dali em diante, as trocas de farpas desandaram para o ataque
pessoal, especialmente depois de o presidente brasileiro endossar um comentário
machista feito no Facebook sobre a primeira-dama francesa, Brigitte Macron.
Também gerou repercussão internacional negativa, especialmente na
Europa, o fato de Bolsonaro ter inicialmente culpado organizações
não-governamentais pelos incêndios na Amazônia.
Havia uma
expectativa de que, em seu discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU, o
presidente tentaria aplacar os ânimos, apresentando dados que demonstrassem o
compromisso do governo no combate ao fogo e na proteção da floresta.
"O que
eu esperava que ele pudesse fazer é tentar desmontar parte dos argumentos,
chamar atenção para as ações positivas, o compromisso do governo com a
biodiversidade e contra o desmatamento", diz Christopher Garman, da
Eurasia Group.
Em vez
disso, Bolsonaro disse que o Brasil estava sendo alvo de "ataques
sensacionalistas" da mídia internacional e fez referência indireta à
França e à Alemanha, dizendo que "um ou outro país, em vez de ajudar,
embarcou nas mentiras da mídia e se portou de forma desrespeitosa, com espírito
colonialista".
"Ele focou na questão do ataque à soberania do Brasil. Então,
externamente, não se passou a visão de que esse é um governo comprometido com o
combate ao desmatamento", avalia Garman.
Vários países europeus estão agora usando a questão ambiental para
tentar derrubar o acordo comercial com o Mercosul, que ainda precisa ser
ratificado pelos parlamentos.
O parlamento
da Áustria, por exemplo, aprovou uma moção contra o texto e parlamentares
franceses, irlandeses e alemães já manifestaram a intenção de rejeitar o
acordo.
"Obviamente
existem interesses outros. A França, por exemplo, sofre uma pressão muito
grande doméstica do setor agrícola, que não vê o acordo com bons olhos. Mas a
posição de Bolsonaro sobre meio ambiente permite que essa questão seja usada a
favor desses interesses", diz Marco Vieira, da Universidade de Birmingham.
"Macron
vai criar uma imagem na França de liderança na área ambiental para fragilizar o
acordo."
Perda de privilégios na OMC
Outro
aspecto da política externa brasileira afetada pela guinada nas estratégias
internacionais do governo é o comercial.
Como já foi
mencionado nesta reportagem, a parceria do governo com os EUA foi extremamente
importante para que o Brasil obtivesse o apoio para entrar na OCDE. E, se de
fato for aceito nessa organização, nosso país poderá ser mais atraente para
investimentos externos.
Mas o apoio
americano não saiu de graça.
Em troca, o
Brasil ofereceu retirar a exigência de visto de turista para americanos e abriu
mão do tratamento diferenciado, como país em desenvolvimento, nas negociações
da Organização Mundial do Comércio, a OMC.
O tratamento
diferenciado prevê benefícios para países emergentes em negociações com nações
ricas. O Brasil tinha, por exemplo, mais prazo para cumprir determinações e
margem maior para proteger produtos nacionais.
Abrir mão disso foi uma exigência do governo Trump para apoiar o
Brasil na OCDE. Além do impacto direto nas futuras negociações comerciais
brasileiras, essa decisão afetou a nossa relação com países dos BRICS- grupo
formado por Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul.
Isso porque essas nações vão acabar sendo mais pressionadas a abrir,
também, mão do tratamento diferenciado. E a Índia já está retaliando o Brasil.
"Na
OMC, a Índia já vetou outro dia a nomeação de um embaixador brasileiro para
negociar questões na área de pesca e foi um veto ligado exatamente a essa
negociação entre Estados Unidos e Brasil pela entrada na OCDE", explica o
professor Marco Vieira.
"Portanto,
o Brasil está se isolando não só no contexto de economias-chave na Europa e no
acordo do Mercosul, mas também com parceiros do Sul global: as economias
emergentes como a Índia."
Outro temor
é que o Brasil tenha perdido aliados importantes na Europa para o seu pleito de
entrada na OCDE.
"A
reprovação das políticas internas do Brasil na área ambiental e outras áreas,
como de proteção de minorias, vai ter um impacto claro na OCDE", opina
Marco Vieira, da Universidade de Birmingham.
"A ala
liderada pela França, mais radical, de tentar mudar o comportamento do governo
brasileiro através de sanções e boicotes, ganhou força com o discurso de
Bolsonaro na ONU. O pleito brasileiro na OCDE pode ficar inviável, apesar do
apoio dos Estados Unidos, porque a entrada precisa ser aprovada por
consenso."
O embaixador
Carlos Márcio Cozendey, representante do governo brasileiro na OCDE, discorda.
Segundo ele, países europeus não retiraram, pelo menos por enquanto, o apoio ao
Brasil.
"Nós
não temos ainda nenhuma indicação nesse sentido. Ao contrário, continuamos a
contar com o apoio da União Europeia nesse pleito e o fato é que a legislação e
as políticas do Brasil são bastante convergentes com as da OCDE", disse à
BBC News Brasil.
Boicotes a produtos nacionais
O setor
produtivo brasileiro também é impactado pelas opções de política externa. Desde
que os incêndios e o aumento do desmatamento na Amazônia passaram a receber
atenção mundial, algumas grandes marcas decidiram suspender a compra de
matéria-prima exportada pelo Brasil.
Foi o caso
da gigante varejista de fast-fashion H&M e da VF Corporation, multinacional
têxtil americana que é dona das marcas Kiplin e Timberland.
Essas
empresas suspenderam a compra de couro vindo do Brasil após suspeitas de que a
expansão da pecuária seria uma das razões por trás dos incêndios ilegais na
Amazônia. O Brasil já recebeu também pressão de fundos de investimento
trilionários para que desse mais atenção à proteção da Amazônia.
Esses
boicotes e alertas indicam que as empresas temem dano às suas marcas se
estiverem associadas de alguma forma ao Brasil.
Ou seja, as
opções de política externa do governo afetam não apenas a nossa relação oficial
com outros países, mas também a forma como consumidores, empresas e o público
em geral enxergam o nosso país.
E as
consequências positivas ou negativas vão além de acordos comerciais.
(Fonte: BBC)


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