De um lado "eu te amo". Do outro "ele é um bom
homem". A troca de afagos pública entre os dois atuais presidentes de
Brasil e Estados Unidos, Jair Bolsonaro e Donald Trump, é considerada sem
precedentes por estudiosos da relação entre os dois países.
Bolsonaro e Trump partilham o
posicionamento ideológico de direita, o conservadorismo nos costumes e o estilo
populista e online de fazer política. A promessa da política internacional
bolsonarista é que esse bom relacionamento ultrapasse o escopo pessoal e se
converta em investimentos americanos no país e no aumento do volume de negócios
de parte a parte.
"Qualquer país no mundo que queira ser próspero tem que ter uma
relação privilegiada com os Estados Unidos", defendeu o secretário
especial de comércio exterior Marcos Troyjo em conversa com investidores
americanos e brasileiros em Washington D.C. há duas semanas.
Apesar da retórica, no entanto, até agora, abraços e apertos de mão não
se converteram em aumento de investimentos ou negócios dos EUA no Brasil.
É o que mostram os dados de investimentos anunciados dos Estados Unidos
no Brasil entre janeiro e agosto de 2019, em relação ao mesmo período dos três
anos anteriores.
Em 2019, o valor foi de US$ 2,2 bilhões, menor que o de 2017, quando o
montante correspondeu a US$ 2,9 bilhões e ligeiramente maior do que os US$ 2
bilhões registrados em 2016.
Em 2018, os americanos investiram US$ 1,3 bilhão no Brasil, mas
economistas ouvidos pela BBC News Brasil afirmam que esse ano não é relevante
como comparativo, já que a disputa eleitoral altamente polarizada e
imprevisível afugentou investidores do Brasil.
Os dados são da FDI Markets, o monitor de investimentos internacionais
do jornal Financial Times e foram compilados pela Confederação Nacional da
Indústria (CNI), a pedido da reportagem (veja gráfico).
Já os números da Secretaria Executiva da Câmara de Comércio Exterior
(Camex), subordinada ao Ministério da Economia, são ainda mais desanimadores.
No primeiro semestre de 2019 não se chegou nem à metade do que foi investido
pelos EUA em 2018, já um ano atipicamente ruim, que representou menos da metade
do fluxo de investimentos em relação a 2017(veja no gráfico).
A BBC News Brasil pediu à B3 (antiga Bovespa) informações sobre o aporte
de investidores americanos em ações no Brasil, mas a Bolsa informou que não
divulga o investimento estrangeiro discriminado por país.
Só clima bom não aumenta investimentos - "Sem dúvida há um clima muito bom entre os dois países, uma janela
de oportunidades, mas vai ser muito difícil que os dois países ultrapassem os
patamares atuais de investimentos sem que medidas mais robustas sejam
tomadas", afirma Diego Bonomo, gerente executivo de comércio exterior da
CNI.
A avaliação de Bonomo coincide com a de Cássia Carvalho, diretora
executiva do Conselho de Negócios Brasil-Estados Unidos da Câmara de Comércio
Americana. "Há um potencial de comércio e investimento muito maior do que
a realidade e há ambição política dos dois lados para que isso avance. É um
momento único e oportuno, mas a gente sente que está sendo devagar, talvez
devagar demais. Certamente poderia andar mais rápido", afirmou Carvalho à
BBC News Brasil.
Os Estados Unidos já são o país que mais investe diretamente no Brasil.
De acordo com dados da Câmara Americana de Comércio no Brasil (Amcham), em
2015, empresas americanas eram responsáveis por 654 mil empregos no país e por
uma fração de US$ 37,2 bilhões do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, que à
época era de US$ 1,8 trilhão.
Ainda assim, o Brasil é apenas o 17º destino de dinheiro americano no
mundo. Além das projeções de crescimento ainda magras do país, isso se deve, de
acordo com os especialistas, à ausência de três mecanismos capazes de destravar
o potencial de negócios bilaterais: um acordo de livre-comércio entre os dois
países - que retire as barreiras protecionistas e subsídios aplicados pelos
governos, um acordo que evite a bitributação de lucros e dividendos do comércio
de produtos e serviços e um acordo de investimentos, que unifique as regras nos
dois países.
"A verdade é que os dois setores privados dos países já estão muito
mais avançados em termos de negócios do que os dois governos. Os dois lados privados
da história já concordam com os termos para facilitação dos negócios, falta os
governos concretizarem isso", afirma Bonomo.
Em condição de anonimato, um executivo do setor petroleiro que assistia
à palestra de Troyjo em Washington D.C. afirmou à BBC News Brasil que "os
negócios vão bem apesar dos dois governos, e não por causa deles".
Irritantes de comércio - Investidores dos dois lados da linha do Equador têm pressionado os
governos para que ao menos anunciem a abertura de negociações, tanto em relação
a tributos, quanto ao comércio. Há, no entanto, algumas dificuldades no
horizonte.
Embora o governo brasileiro já tenha deixado claro às autoridades
americanas a intenção de firmar acordos comerciais e tributários, os Estados
Unidos têm condicionado as negociações a mudanças na posição brasileira em
relação aos chamados "irritantes comerciais": etanol e trigo.
No primeiro caso, Bolsonaro já aceitou, durante visita aos EUA em março,
aumentar a importação de etanol americano sem impostos em 150 milhões de litros
. O decreto com a alteração foi publicado em setembro, e acabou mal recebido
por parte dos usineiros brasileiros, especialmente os do Norte e Nordeste, que chegaram
a tentar a derrubada da medida no Congresso. Já Trump comemorou a conquista com
um tweet:
"O Brasil vai permitir que mais etanol norte-americano entre no
país sem tarifas, uma decisão que está sendo comemorada por usinas brasileiras.
Essa reação, aparentemente contraintuitiva, vem do tom das negociações entre a
nação sul-americana por um tratado comercial. Estamos fazendo grandes
progressos por nossos fazendeiros. Uma grande lista adicional será submetida e
aprovada dentro de duas semanas. Será ainda melhor para o etanol e vamos salvar
nossas pequenas refinarias", escreveu o presidente americano.
Em contrapartida, há entre os ruralistas brasileiros a expectativa de
uma maior abertura comercial ao açúcar brasileiro e a retomada da importação de
carne bovina nacional pelos EUA. Concretamente, no entanto, a gestão Trump não
fez nenhum movimento que indique se e quando isso ocorrerá.
Em foto de março, Bolsonaro assina livro de visitas da Casa Branca; EUA têm condicionado as negociações a mudanças na posição brasileira em relação aos chamados 'irritantes comerciais', o etanol e trigo
No segundo caso, Bolsonaro aceitou criar uma cota isenta de imposto de
exportação extra Mercosul de 750 mil toneladas de trigo. Hoje, o principal
vendedor do grão ao Brasil é a Argentina, parceira comercial do Mercosul. A
medida representará um duro golpe à já combalida economia do país.
"Essa cota ainda não está totalmente implementada por conta do
delicado timing, em meio ao processo eleitoral conturbado dos argentinos. O
Brasil está estudando como colocá-la em vigor", afirmou Abrão Árabe Neto,
vice-presidente da Câmara Americana de Comércio no Brasil e ex-secretário de
comércio exterior no governo Temer.
"Mas a gente espera que a discussão bilateral não fique concentrada
apenas em questões específicas. A pauta precisa ser mais ampla", afirma
Árabe Neto.
Acordo bilateral ou em bloco? A Argentina e o Mercosul estão ainda no centro de outro entrave para a
negociação bilateral entre Brasil e Estados Unidos. Pelas regras do bloco
sulamericano, a negociação de tarifas de comércio com um país de fora do grupo
só pode ser feita conjuntamente pelos membros da união aduaneira.
Assim, a negociação entre Brasil e Estados Unidos depende da anuência da
Argentina ou de sua disposição de abrir mão de participar de um acordo, o que
não tem precedentes na história.
Integrantes do governo brasileiro admitem que havia uma boa oportunidade
de negociação enquanto Maurício Macri esteve sentado na cadeira presidencial na
Casa Rosada. No entanto, o peronista Alberto Fernandez acaba de ser eleito e
tomará posse em dezembro, mudando consideravelmente as relações políticas e de
força no Mercosul. Bolsonaro já disse que os argentinos "escolheram
mal" e adiantou tempos difíceis para o bloco:
"Não digo que sairemos do Mercosul, mas podemos juntar ali com o
Paraguai, não sei o que vai acontecer nas eleições do Uruguai, e decidirmos se
a Argentina fere alguma cláusula do acordo ou não. Se ferir, podemos afastar a
Argentina. Mas a gente espera que nada disso seja necessário. Que a Argentina
não queira, na questão comercial, mudar seu rumo", disse o presidente.
Contra o Mercosul conta ainda a indisposição dos Estados Unidos de fazer
negociações com blocos. Desde o início do governo Trump, os americanos têm dado preferência a
negociações bilaterais, nas quais podem fazer valer seu peso econômico. Os EUA
preferiram, por exemplo, fechar um acordo comercial com o Japão a negociar com
os demais países do Pacífico em bloco. E reviram seu principal acordo em bloco,
o antigo Nafta, com México e Canadá. O Novo Acordo Estados Unidos - México -
Canadá ainda depende da aprovação do Congresso americano para ser implementado.
Prioridade de quem? Se, para o Brasil, a relação com os Estados Unidos é uma prioridade
absoluta, para os americanos a urgência em fechar acordos com os brasileiros é
relativa. Hoje, os negociadores americanos estão dedicados a finalizar o acordo
com seus vizinhos, em fechar o miniacordo com o Japão, em encontrar soluções para
a guerra comercial com a China - que tem provocado instabilidade na economia
global - e rever suas posições em relação ao Reino Unido pós-Brexit e à própria
União Europeia.
"O que estamos fazendo é tentar encaixar o Brasil em primeiro lugar
na fila, logo depois de todas essas prioridades. É irreal achar que teremos
algum grande avanço nos próximos um ano e meio a dois anos", diz Carvalho.
Ela nota, no entanto, que os dois países poderiam tomar medidas de menor
complexidade que já trariam alterações relevantes ao cenário: finalizar o
acordo de facilitação de entrada de executivos brasileiros na imigração
americana, simplificar os tributos sobre produtos estrangeiros, reduzir a
burocracia para exportadores - hoje, uma empresa americana leva até 36 horas para
ser certificada e poder fazer a transação comercial com o Brasil, com a
mudança, o trâmite levaria apenas 4 horas.
"Eu sei que essas medidas não são politicamente sexy, mas são mais
viáveis no curto prazo", diz Carvalho.
Embora o discurso político sugira grandes mudanças de patamar entre os
dois países muito em breve, dentro do governo há o entendimento de que não se
avançará em uma agenda de livre comércio antes de 2021, quando talvez nem mesmo
Trump esteja mais na Casa Branca. O Republicano tentará reeleição no ano que
vem, no que deve ser um pleito acirrado. Se vencer um democrata, toda a
negociação atual poderá retornar à estaca zero, daí a urgência dos brasileiros
em ver algo concreto no horizonte.
"Precisamos aproveitar o momento para tentar arrancar resultados
concretos. Defendemos que os dois países lancem uma negociação estruturada,
ainda que a conclusão desses acordos leve tempo, mas vá trabalhando em conjunto
o que já pode ser decidido", diz Árabe Neto. (BBC)


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