sexta-feira, 4 de outubro de 2019

LITERATURA CEARENSE: O Seminário de Sobral -2ª PARTE (Antonio Silveira Bastos, de 1944 a 1949 *)


São inesquecíveis os passeios que realizávamos, na Semana da Pátria, à Meruoca. Uma das vezes, integrei um grupo que subiu a pé. Na passagem pela Palestina, fomos tentados a experimentar um vinho para renovar as forças. Aquilo era sigilo absoluto. Estávamos cometendo um pecado mortal. Eu só tive coragem de colocar a bebida na boca, mas não engoli. E foi esta, a história que tive que contar para monsenhor Osmar Carneiro que havia descoberto o nosso pecado.

Deixei o Seminário de Sobral em 1949 e no ano seguinte experimentei outra realidade no Seminário Maior de Fortaleza, a Prainha, como todos conheciam.  Ao concluir a Teologia fui ordenado sacerdote por ocasião da maior festa cívico-religiosa realizada em Sobral: As Bodas de Ouro Sacerdotais de Dom José Tupinambá da Frota. Era 23 de outubro de 1955. Comigo se ordenaram Belarmino Augusto Lopes, Francisco Lopes, José Linhares Ponte e José Moreira Catunda.

Um dos momentos mais marcantes de minha vida foi o Dia da Ordenação Sacerdotal. Desde o amanhecer do dia 23 de outubro, senti que uma mudança significativa aconteceria em minha trajetória marcada pela religiosidade. Cada momento daquele dia ainda guardo na lembrança. Participar de uma cerimônia de ordenação de cinco sacerdotes era algo extraordinário. Todas as atenções estavam voltadas para nós. A catedral de Sobral, superlotada de fiéis que queriam testemunhar aquele momento histórico, fazia o coração bater mais forte. Eram muitas as emoções. Prostrados diante do altar de Nossa Senhora da Conceição e perante D. José Tupinambá da Frota, enquanto a Scholla Cantorum entoava a Ladainha de Todos os Santos, os cinco candidatos ao sacerdócio faziam sérias reflexões e assumiam grandes compromissos. Cada um com as suas interrogações e com os seus propósitos.

No dia seguinte, pela manhã, acontecia a celebração de minha primeira Missa, no Colégio das Irmãs de Caridade, em Sobral, tendo como co-celebrante o Padre José Inácio Parente. Em minhas mãos o cálice que me fora ofertado pela prima Tacila Adriano Silveira. Minha irmã mais velha, Celina, freira da Congregação das Irmãs de Caridade, confeccionara os paramentos que estava usando naquela primeira celebração.

Em Cariré, a minha terra natal, celebrei uma Missa Solene na antiga Igreja de Santo Antônio, tendo como assistente o Mons. Sabino Guimarães Loiola que fora o principal responsável pela minha entrada no Seminário de Sobral, pois a ele cabia a tarefa de dirigir a Obra das Vocações Sacerdotais.  Aquele foi um momento especial para a vida religiosa de Cariré. Todas as atenções estavam voltadas para a Primeira Missa do conterrâneo recém-ordenado. Todos queriam cumprimentar-me para tocar as mãos ungidas pelo sacramento da Ordem. A cidade estava em festa. Ao meio dia houve um grande almoço de confraternização na residência do Coronel João Rodrigues dos Santos, pai da querida e virtuosa Maria José Rodrigues Ponte, então esposa do Eriberto de Sá Ponte
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Uma nova etapa se iniciou em minha vida. Era padre e várias missões me esperavam. Vigário Cooperador nas paróquias de Tianguá, Nova Russas, Reriutaba e Ipu. Fui vigário em Cariré, a minha terra natal e em Frecheirinha, onde fiquei por seis anos. Cada experiência com suas peculiaridades. E procurei dar o melhor que podia.

Depois de alguns adiamentos, finalmente deixei o ministério sacerdotal em 1973 e, mais uma vez, começou uma nova história. Bem diferente daquela que vivera até então. Por razões óbvias, engajei-me no magistério, em Fortaleza. Primeiro no colégio Genny Gomes e, em 1974, na Escola Técnica Federal, com ascensões sucessivas até aposentar-me em 1992.

Em 1976, casei-me com Lourdes Maria Frota de Moura Bastos, então professora na Universidade Federal do Ceará. De nossa união, nasceram Luzia Júlia, formada em Administração de Empresas e João Paulo, advogado que nos deu os netos João Vitor e Letícia.

Jamais abandonei os estudos. Como professor, a missão exigia isto de mim. E os hábitos do Seminário me impulsionavam para constantes atualizações. Procurei atualizar os meus conhecimentos de Filosofia e Teologia, no Shalon - Instituto Paresis. E procurei aprofundar-me nas Sagradas Escrituras para dar continuidade, mesmo sem as obrigações sacerdotais, à missão de disseminar a palavra de Deus onde estiver.  Fiz o Curso Superior de Música, sob a orientação da professora Dalva Stella, na Universidade Estadual do Ceará.

Posso concluir, dizendo que o Seminário de Sobral foi fundamental em minha vida e de todos quantos tiveram a felicidade de lá estudar. De lá, só guardei boas lembranças. Ao ter esta oportunidade de escrever sobre aquela importante passagem de minha vida, sinto-me rejuvenescido ao perceber que fui um privilegiado.

Tenho tido a oportunidade de andar em outros países e, nos dez por onde passei, é como se tivesse me encontrando com o que o Seminário me ensinou nas aulas de História e Geografia do Padre Lira, onde ele sempre repetia que quem não sabe História ou Geografia não tem cultura.  Vinham-me à mente as aulas de latim, grego e, especialmente de religião. Aqueles conhecimentos que, à época, me pareciam tão distantes dos meus interesses estavam ali servindo-me para ter uma outra visão do mundo.   Então eu me reencontrava com aquele matutinho da Soledade e via o quanto o estudo me fora tão importante e o quanto Deus me privilegiou tanto. Só tenho a agradecer.




(*) Antonio Silveira Bastos, de Cariré, Padre Casado. Seu depoimento para o livro SEMINÁRIO DA BETÂNIA, AD VITAM -65 DECLARAÇÕES DE AMOR, de Leunam Gomes e Aguiar Moura.






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