
"Muita gente se importa com a Amazônia. O gringo se importa, o
governo diz que se importa, mas será que eles sabem que a gente existe? Que
aqui não é só mato e água doce?", questiona a assistente social Glinda
Sousa Farias, de 25 anos. Ela nasceu e cresceu em Breves (PA), cidade de 92 mil
habitantes considerada a "capital" da Ilha do Marajó. Essa região,
cercada por praias e belezas naturais, tem um dos Índices de Desenvolvimento
Humano (IDHs) mais baixos do país.
Dias antes, a assistente social havia sido 1 dos 11 profissionais
que resgataram uma criança na zona rural de Breves após denúncia de abuso. Uma
menina teria sido violentada pelo próprio avô e mais um familiar, na casa dele.
Depois de viajar horas pelo rio em uma embarcação a motor, encontraram a menina
Sandra*, 13 anos, chorando sem parar em frente à casa de palafita. O irmão da
adolescente, também menor de idade, teria presenciado a cena.
As crianças estavam na casa do avô enquanto o padrasto trabalhava e
a mãe acompanhava a outra filha em Belém, a 220 quilômetros dali, em um
tratamento de saúde. A equipe volante, formada por por representantes do
Conselho Tutelar, Polícia Civil, secretaria de Saúde, Educação e Centro de
Referência de Assistência Social (CRAS), no qual Glinda trabalha como técnica,
levou a adolescente e o irmão para a cidade para serem atendidos.
Em outro dia de trabalho, a assistente social conta que a equipe
socorreu uma criança de quatro anos, também da zona rural, que foi abusada pelo
pai. A suspeita veio de familiares e professores, que comunicaram o Conselho
Tutelar. A criança recebeu atendimento especializado e passou por exames
sexológicos. O crime foi confirmado.
"Casos como estes são recorrentes no município", lamenta a
assistente social, cuja infância também foi marcada pela pobreza. Em Breves, de
acordo com dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan),
37,7% das crianças de até cinco anos de idade sofriam de desnutrição crônica em
2018 — percentual bem maior que a média brasileira, de 13,1%.
No Pará, 85% dos domicílios não têm acesso adequado à rede de
esgoto, e 2.157 crianças morreram antes de completar um ano em 2016.
"Depois da escola brincava na rua mesmo, no meio das poças d'água",
lembra Glinda. "Não senti falta de políticas voltadas à cultura, esporte e
lazer. Não dá pra sentir falta daquilo que não vivenciei."
Filha de pai madeireiro e mãe sacoleira em uma família de baixa
renda com quatro filhos, ela viu o pai ficar desempregado depois que a
madeireira em que ele trabalhava fechou as portas, em 2009. A família, que
morava no centro da cidade, mudou-se para um bairro mais distante e passou a
viver em um pequeno cômodo de madeira. Nesse período, sobreviveram basicamente
da renda do Bolsa Família, que transfere R$ 89 por pessoa a famílias que vivem
abaixo da linha de pobreza, mais R$ 41 por criança ou adolescente, limitado a
R$ 205 (cinco benefícios).
"As madeireiras fecharam por completo ou parcialmente, mas não
tínhamos um plano B. Não estou defendendo o desmatamento, só que ninguém disse
para o meu pai o que ele deveria fazer. Isso aconteceu com muitas famílias.
Papai depois conseguiu outro emprego, mas outros não tiveram a mesma
sorte."
Conseguiram, com muito esforço, manter os filhos na escola pública,
e Glinda e os irmãos, quando adultos, estudaram também na Universidade Federal
do Pará (UFPA). "Hoje, os filhos estão concluindo o ensino superior,
outros formados, concursados, empregados. Todos da família têm renda
própria", afirma, reconhecendo que, nas estatísticas da região, histórias
de sucesso como a dela são exceção.
"Depois da escola brincava na rua mesmo, no meio das poças d'água", lembra Glinda,
que cresceu em Breves e hoje acompanha denúncias contra violação de direitos de crianças
4 em 10 crianças são de famílias sem renda para cesta básica
Ao todo, 9 milhões de crianças vivem na Amazônia Legal, região
formada por Acre, Amapá, Pará, Amazonas, Rondônia, Roraima e parte dos Estados
de Maranhã, Tocantins e Mato Grosso. Os indicadores apontam que, de todas as
regiões do país, é ali o pior lugar do Brasil para ser criança, destaca
relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). São de lá os
mais altos níveis nacionais de mortalidade infantil.
Nos nove Estados da Amazônia Legal, cerca de 43% das crianças e dos
adolescentes vivem em domicílios com renda per capita insuficiente para
adquirir uma cesta básica de bens, contra 34,3% da média nacional. Além disso,
muitas meninas e muitos meninos amazônicos não têm atendidos seus direitos a
educação, água, saneamento, moradia, informação e proteção contra o trabalho
infantil.
Em 2016, 1.225 crianças morreram antes de completar 1 ano no Estado
do Amazonas. Além disso, desde 2010, os casos de sífilis congênita
diagnosticados em crianças menores de um ano de idade cresceram 710%, segundo
dados do ministério da Saúde reunidos pela Unicef. Foram 802 casos só em 2017.
A proporção de mães com acesso ao pré-natal foi de 46%, registrando um aumento
de 183% entre 2000 a 2016.
"A Amazônia é o pior lugar do Brasil para ser criança. Todos os
indicadores sociais estão apresentando valores piores que a média brasileira e
muitíssimo piores que os do sudeste do país. De criança fora da escola,
vacinação, mortalidade infantil, acesso à água, saneamento", resume a
coordenadora do Unicef na Amazônia Legal, Anyoli Sanabria. Ela explica que as
crianças vivem em um estado de "privação múltipla", em que, além de
viver na pobreza em termos financeiros, elas têm vários outros direitos
violados que prejudicam não só sua qualidade de vida, mas comprometem seu
futuro e limitam seu desenvolvimento.
As áreas rurais e dispersas ficam, em grande medida, sem acesso ou
com acesso limitado aos serviços básicos como saúde, educação e proteção
social. Vulneráveis e desassistidas, essas populações — principalmente,
crianças e adolescentes — enfrentam uma série de riscos, alerta a entidade.
'Sem social, não há ambiental'
A visão de educadores, agentes de saúde, ONGs e instituições
dedicadas à infância ouvidas pela BBC News Brasil é de que as crianças que
vivem na Amazônia, nas cidades ou na zona rural, enfrentam uma quase que total
escassez de serviços públicos — à exceção das que vivem nas capitais. Eles
alertam: não vai dar para salvar o meio ambiente sem preservar a população
local, cada vez mais vulnerável e dependendo de benefícios sociais.
"Sem social, não há ambiental", resume Caetano Scannavino,
coordenador da ONG Projeto Saúde & Alegria, que atua na Amazônia. "No
mundo inteiro as questões da pobreza e do meio ambiente estão ligadas",
afirma Scannavino, que diz que famílias pobres e sem assistência e serviços de
saúde são mais vulneráveis ao ilegalismo ambiental.
"Se eu tenho uma criança doente e eu preciso de dinheiro, de
remédio, e tem um madeireiro pedindo uma autorização para tirar uma árvore do
meu lote, muito provavelmente eu vou estabelecer um acordo com ele, porque a
vida do meu filho está em jogo. Situações como essa se repetem e impactam o
meio ambiente e favorecem a cultura do ilegalismo."
Para serem efetivas, as políticas públicas para a infância na região
precisam considerar as peculiaridades e desafios extras do chamado "fator
amazônico": as meninas e os meninos vivem com suas famílias em uma região
muito extensa territorialmente, mas pouco povoada em comparação às demais
regiões. Em média, cada quilômetro quadrado da Amazônia é habitado por apenas
cinco pessoas, enquanto que em outras regiões do País essa taxa é de 48
habitantes por quilômetro quadrado.
Às vezes em comunidades de difícil acesso vivem crianças indígenas,
quilombolas, ribeirinhos, mas também mais e mais em grandes cidades —
juntamente com populações tradicionalmente urbanas, afirma a Unicef no
relatório "Agenda pela Infância e Adolescência na Amazônia".
A principal privação a que meninas e meninos amazônicos estão
sujeitos é a falta de acesso a saneamento. Enquanto a média nacional de
crianças e adolescentes sem esse direito está em 24,8%, na maioria dos Estados
da Amazônia ela está próxima aos 50%, chegando a 89% no Amapá, em dado de 2017.
A única exceção na região é Roraima, com 11,5% de crianças e adolescentes sem saneamento,
segundo a Unicef.
"Os indicadores sociais mostram que as crianças na Amazônia têm
maior risco de morrer antes de um ano de idade e de não completar o ensino
fundamental. Além disso, a taxa de gravidez na adolescência é alta, e as
meninas e os meninos na região estão vulneráveis às mais variadas formas de
violência, incluindo o abuso, a exploração sexual, o trabalho infantil e o
homicídio", afirma relatório da Unicef divulgado em setembro e que analisa
os principais desafios para a infância na região.
Também é na Amazônia Legal que o assassinato de jovens e
adolescentes aumenta em ritmo mais acelerado no país. Entre 2007 e 2017, o
número de homicídios de jovens cresceu acima da média nacional em quase todos
os Estados que compõem a Amazônia Legal. Enquanto o homicídio de jovens de 15 a
19 anos aumentou 35,1% no Brasil na década, avançou muito mais no Acre
(312,5%); Amapá (107%); Amazonas (117,8%); Maranhão (78,5%); Pará (94,1%);
Roraima (112,8%); e Tocantins (222,3%). As exceções foram Mato Grosso (25,8%) e
Rondônia (8,6%), segundo dados do Atlas da Violência, elaborado pelo Fórum
Brasileiro de Segurança Pública.
"As altas taxas de homicídio de adolescentes mostram que a vida
de meninas e meninos das periferias é marcada por uma enorme falta de oportunidades
que os torna cada vez mais vulneráveis à violência letal. Além de manter os
investimentos na primeira infância, é necessário que o país invista igualmente
na segunda década de vida", defende a Unicef no relatório "Agenda
pela infância e adolescência na Amazônia".
No meio da água, sem água
A 1500 quilômetros de Breves (PA) no município de Tefé (AM), com
cerca de 60 mil habitantes na região do Médio Solimões, na Amazônia Central,
nenhum aluno pode beber água na escola, apesar de viverem na maior bacia
hidrográfica do mundo. Coliformes fecais foram detectados na água de todas as
19 escolas do município, levando a frequentes casos de giárdia, lombriga e
diarreias.
Também faltam banheiros e recursos para higiene pessoal, e qualquer
tipo de saneamento básico é praticamente inexistente. Em 52% das escolas
nota-se a presença ostensiva de moscas, segundo estudo realizado em 2015 pelo
Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, organização social ligada ao
Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações que atua em
reservas na região da Amazônia central, e trabalha com uma comunidade estimada
em 13 mil pessoas.
"A qualidade da água é uma questão relevante para as crianças,
as pessoas que moram na várzea não têm água de qualidade para beber. Reflete
principalmente a carência de serviços públicos, a falta de energia elétrica,
que inibe tanto o bombeador de água quanto tratamento de água", diz
explica Maria Cecilia Gomes, engenheira ambiental e pesquisadora e coordenadora
do programa qualidade de vida do Instituto de Desenvolvimento Sustentável
Mamirauá.
"Praticamente não existem esses serviços nas áreas rurais da
Amazônia. A gente pode dizer que as condições de saúde são bastante precárias,
principalmente na disponibilidade e a qualidade da água. Às vezes a água está
presente em quantidade, mas está contaminada", afirma a pesquisadora, que
cita que é comum a incidência na população de diarreia relacionada a lombriga,
giárdia, ameba.
Maria Mercês Bezerra da Silva, técnica de enfermagem que atua no
instituto há mais de 20 anos, diz que, apesar da precariedade, hoje nota-se
mais consciência da população em relação a medidas de higiene pessoal, por
exemplo, mas falta o reforço das políticas públicas que praticamente inexistem
para muitas comunidades.
Mesmo quando estão na escola, a saúde das crianças está em risco.
Pesquisa "Avaliação do cenário WASH (água, saneamento e higiene) em
escolas urbanas e rurais de uma pequena cidade na Amazônia brasileira",
publicada em 2018 com dados referentes a 2015, mostrou que as escolas de Tefé
não ofereciam condições sanitárias adequadas para seus alunos e não realizam
manutenção periódica de suas instalações.
"As irregularidades documentadas incluem a falta de sabão para
lavar as mãos em 84% das escolas, a presença de vetores de doenças e outros
insetos, bebedouros e banheiros insuficientes e com manutenção insuficiente,
inundações e entupimentos de banheiros, água potável contaminada com E. coli e
falta de manutenção regular de fossas sépticas. Com base em nossos resultados,
pode-se estimar que mais de 9.000 estudantes no município de Tefé estão
expostos a riscos resultantes das más condições sanitárias em suas
escolas".
A situação é ainda mais grave para as crianças indígenas, segundo a
Unicef. Do total da população autodeclarada indígena do país, 46,6% vivem na
Amazônia Legal, representando 1,5% da população da região. Enquanto o Brasil
registra 14 óbitos de menores de 1 ano por 1.000 nascidos vivos. Entre os
indígenas, na Amazônia, morrem aproximadamente 31,3 crianças menores de um ano
para cada 1.000 nascidas vivas. "É fundamental priorizar investimentos e
esforços naqueles grupos de crianças e adolescentes em situação de maior
vulnerabilidade", defende a entidade.
Moradores de comunidades ribeirinhas da região do Médio Solimões,
na Amazônia Central, onde atua o Instituto Mamirauá
Violência sexual e proposta de 'fábrica de calcinhas'
"Gente, será que o Brasil não descobriu que o paraíso é aqui?
Vocês têm uma ilha extraordinária. Eu vejo turista do mundo todo cruzando o
mundo para ir para o Havaí, pra colocar um colarzinho e dançar hola. Vamos ver
os turistas do mundo todo chegando aqui para dançar carimbó", disse, em
discurso no dia 18 de julho em Breves, a ministra da Mulher, da Família e dos
Direitos Humanos, Damares Alves. Naquele dia, Damares lançou o programa Abrace
o Marajó, com o objetivo de erradicar o abuso e a exploração sexual e a
violência contra a mulher no país. Cogitou, na ocasião, até criar um gabinete
próprio na cidade.
"O projeto é unir todos os ministérios pra agora. As crianças
do Marajó têm pressa. Inclusive eu estava conversando com a minha assessoria se
há a possibilidade de eu ter um gabinete aqui no Marajó. Eu sei o que é
violência contra criança. Fui estuprada aos seis anos e fui barbaramente
agredida por um homem hospedado na minha casa", disse a ministra, ao
participar de audiência pública sobre o tema na cidade.
"Por que os pais exploram [as crianças]? É por causa da fome?
Vamos levar empreendimentos para a ilha do Marajó, vamos atender às
necessidades daquele povo. Uns especialistas chegaram a falar para nós aqui no
gabinete que as meninas lá são exploradas porque não têm calcinha. Não usam
calcinha, são muito pobres. E perguntaram 'por que o ministério não faz uma
campanha para levar calcinhas para lá?'", questionou. "Nós temos que
levar uma fábrica de calcinhas para a ilha do Marajó, gerar emprego lá, e as
calcinhas saírem baratinhas para as meninas", disse a ministra, em
discurso disponível no Youtube.
A ministra escolheu Marajó para lançar o programa nacional porque a
região é emblemática quando se trata da exploração sexual infantil. A fama
começou em 2006, quando denúncias revelaram uma rede de exploração sexual de
crianças e tráfico de drogas no município de Portel (PA), vizinha de Breves,
que envolvia vereadores, empresários, autoridades policiais, servidores
públicos. Historicamente, os casos de exploração sexual comercial na região
ocorrem com o consentimento ou não dos pais, seja na área urbana, rural ou nos
rios, em balsas.
Procurado pela reportagem, o Ministério da Mulher, da Família e dos
Direitos Humanos afirmou que a Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do
Adolescente estará contribuindo com ações para a prevenção e o enfrentamento
das violações aos direitos de crianças e adolescentes da região, com especial
atenção ao abuso e a exploração sexual.
Além disso, informou que estão sendo firmadas parcerias com as
prefeituras de Soures e Breves para a realização de capacitação dos atores do
Sistema de Garantia de Direitos, de profissionais da educação, da saúde e da
segurança, "ainda durante este mês de novembro". Ainda de acordo com
a pasta, "está prevista para dezembro uma grande ação em parceria com a
iniciativa privada para a distribuição de brinquedos e material educativo para
alertar pais, responsáveis, crianças e adolescentes acerca do abuso e da
exploração sexual".
"A exploração sexual infantil, infelizmente, é uma mazela
social encontrada em diferentes municípios da região marajoara Ocidental,
destacando-se em Portel, Melgaço, Curralinho, Chaves, Afuá, Muaná e no
município de Breves que é considerado o mais bem estruturado e que concentra o
maior número de habitantes", explica estudo da pesquisadora Jacqueline
Tatiane da Silva Guimarães, doutora em educação e mestre em Serviço Social pela
Universidade Federal do Pará (UFPA).
Ela destaca que a exploração sexual, violência, educação precária,
fome e dentre outros problemas fazem parte da vida dessas infâncias. "O
quadro de pobreza atinge diretamente a infância marajoara, que se torna alvo de
exploração, violência e assédios, tendo os seus corpos vistos como simples
força de trabalho e mercadoria."
Para além das calcinhas, vulnerabilidade econômica e a pobreza das
famílias parecem ser os elementos mais determinantes para a falta de proteção
das crianças contra este tipo de crime. A economia do Marajó é marcada
historicamente por atividades predatórias de matérias-primas, que geraram renda
concentrada na mão de poucos extraem riqueza sem gerar bem-estar para a
população, como a exploração da borracha e da madeira, deixando um rastro de
desemprego que perdura até hoje.
No Arquipélago do Marajó, estão concentrados os municípios mais
pobres do Estado do Pará e do Brasil, com o menor PIB per capita do Estado. O
rendimento mensal das famílias gira em torno das vendas do açaí e mandioca na
feira do agricultor em Breves, juntamente com benefícios sociais, segundo
estudo das pesquisadoras Avelina Oliveira de Castro e Maria Angelica
Motta-Maués, da Universidade Federal do Pará (UFPA).
"Na cidade, só 6,1% de domicílios têm esgotamento sanitário
adequado. A água é distribuída só quatro horas por dia, e não para todos os
bairros. Por isso, uma cena comum é ver as crianças dedicando parte do dia a
levar em baldes a água que tiram diretamente do Rio Parauaú, o principal da
cidade, ou dos caminhões-pipa", diz a pesquisadora Jacqueline Guimarães, da
UFPA. "A realidade da infância está intimamente ligada à realidade das
famílias marajoaras, que refletem nas crianças as condições de vida que estão
sendo submetidas, a falta de emprego, baixa escolaridade", diz, em artigo.
"As crianças acabam por não ter seu desenvolvimento garantido, pois as
crianças no Marajó têm seus direitos violados porque suas famílias estão sendo
violadas, e sua luta diária acaba sendo pela própria sobrevivência."
Por que a riqueza dos grandes empreendimentos não chega às crianças?
A exploração da riqueza da região e os grandes empreendimentos,
diferentemente do que pode supor o senso comum, têm tornado mais pobres e
desprotegidas as vidas das crianças da Amazônia.
Pesquisa realizada pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e pelo
Centro de Pesquisa Aplicada em Direitos Humanos e Empresas da Fundação Getúlio
Vargas de São Paulo (FGV CeDHE), com o apoio financeiro do Fundo Nacional para
Criança e o Adolescente do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do
Adolescente, aponta diversos impactos e violações nos direitos das crianças e
adolescentes, analisando os casos das usinas de Belo Monte, em Altamira (PA),
Jirau e Santo Antonio, em Porto Velho (RO), e faz uma associação direta das
obras com o aumento dos casos de violação de direitos das crianças.
Um exemplo é o caso de Altamira, que em 2017 tornou-se o município
com a maior taxa de homicídio do Brasil — 114 homicídios para 108.382
habitantes —, atestando um crescimento da violência social associado ao
processo de implantação de Belo Monte e à expansão rápida, desordenada e mal
planejada da cidade, aponta o estudo.
Dados da Polícia Civil apontam que Altamira tinha taxa por 100 mil
habitantes de 52 homicídios em 2009, último ano antes do início das obras,
explica um dos coordenadores do estudo, pesquisador Assis de Costa Oliveira,
professor do campus Altamira da UFPA e doutorando pela Universidade de Brasília
(UnB).
"Um fluxo de milhares de pessoas de fora da cidade, buscando
emprego direto ou indireto nas obras com perfil majoritariamente masculino, e
que reconfigurou as dinâmicas de convivência e de conflito social", diz
Oliveira. Quando as obras terminaram, muitos ex-trabalhadores permaneceram no
município em situação de ociosidade e desemprego, levando, em alguns casos, que
também entrassem no mercado do tráfico de drogas para conseguir renda. "Os
danos sociais estão muito menosprezados na implantação das grandes obras e
empreendimentos."
Também atraiu moradores para Altamira o alagamento do rio Xingu,
decorrente do barramento da Belo Monte no município. Enquanto todas essas
pessoas se mudavam para lá, não houve nenhum reforço prévio ou contrapartida de
investimento a mais em segurança pública, por exemplo, para proteger a
população local.
O que se viu, no estudo dos casos de Belo Monte, Jirau e Santo
Antônio, foi um aumento vertiginoso de casos de abuso e exploração sexual no
período de implantação dos empreendimentos, que mantém patamar elevado, ainda
que menor, quando os empreendimentos começaram a funcionar. "No caso do
abuso sexual, constatou-se que existe um aumento de denúncias aos órgãos
públicos, mas existiu uma demora/dificuldade de judicialização e punição dos
acusados, muitas vezes decorrentes da inexistência de informações sobre a
localização dos mesmos."
Também houve um aumento de demanda por reconhecimento de paternidade
e pensão alimentícia quando as obras terminaram e os funcionários começaram a
ir embora, "diretamente ligada às relações afetivo-sexuais de funcionários
das obras com adolescentes e mulheres da região, com correlato descompromisso
em prover o sustento econômico aos seus filhos".
Tanto a Constituição Federal quanto o Estatuto da Criança e do
Adolescente (ECA) estabelecem que os direitos das crianças e adolescentes devem
ser considerados prioridade absoluta, destaca o estudo. "O que significa
que devem ter primazia na formulação de políticas sociais, de proteção e no
atendimento de serviços públicos, conforme prevê o artigo 4, parágrafo único,
do ECA".
Enquanto integrantes da sociedade, as empresas também são
responsáveis por fazer sua parte na responsabilidade pela proteção dos direitos
de crianças e adolescentes, alerta o estudo. Mas, nos casos de Belo Monte,
Jirau e Santo Antônio, a análise dos 891 documentos que compõem os processos de
tomada de decisão mostrou que os direitos das crianças e adolescentes só foram
considerados em 64 documentos, na etapa de licenciamento ambiental.
Quais são as soluções sugeridas?
Para melhorar a vida das crianças na Amazônia, destaca a
pesquisadora Jacqueline Guimarães, da UFPA, é preciso que as entidades que
trabalham com a criança e adolescente realizem um trabalho conjunto em forma de
rede, tendo em mente que cada região tem suas peculiaridades.
"Não basta a simples existência de Escolas, Conselhos
Tutelares, Conselho de Direito da Criança e adolescente, Centros de Referência
de Assistência Social. É fundamental a realização de ações de diálogos e agendas
que se comuniquem e articulem entre as diferentes instituições que pretendem
proteger a infância".
Na visão da Unicef, é fundamental identificar e acompanhar a
dispersão das populações indígenas e ribeirinhas, que emigram de suas terras
para as periferias das cidades. Em muitos casos, esses fluxos migratórios
acontecem em razão da implantação de grandes obras de infraestrutura - que, por
um lado, desalojam populações e, por outro, geram empregos, ou em busca de
outras oportunidades de trabalho, por questões de saúde, por causa de conflitos
fundiários ou em busca de educação. "A maioria da população indígena jovem
já se encontra na periferia das médias e grandes cidades da região".
Outro caminho, defende a Unicef, é fortalecer a capacidade dos
municípios, que representa o poder público mais próximo da população, para
atuar em contextos de grandes complexidades sociais, econômicas, sociais e
geográficas, como a Amazônia. "Em muitos lugares, as instâncias
municipais, estaduais e federal na Amazônia Legal não são capazes de garantir e
realizar sozinhas os direitos, especialmente das populações vulneráveis. Por
isso, União, Estados e municípios precisam investir na formação e qualificação
permanente dos serviços e agentes públicos. Isso pode ser feito por meio de
parcerias com universidades e escolas de governo e gestão, e demais
instituições públicas de pesquisa e ensino".
Para o coordenador da ONG Projeto Saúde & Alegria, que atua na
Amazônia, Caetano Scannavino, é preciso discutir um modelo econômico e de desenvolvimento
que, além de gerar riqueza, beneficie a população local de maneira
sustentável."
"Ao longo dessas décadas, desmatamos o equivalente a duas
Alemanhas para que 63% dessas áreas fossem ocupadas por pastos de baixíssimas
produtividade, níveis africanos. Estamos desmatando para ficar mais pobres? Não
para substituir por algo eficiente, que poderia gerar inclusão e
desenvolvimento para todos e não só para a geração atual, mas para a
frente", diz ele que, para isso, defende uma soma de esforços de todos os
setores da sociedade: governo, academia, ONGs e movimentos sociais, seguindo
modelos de iniciativas que já funcionam na região, em pequena escala.
"Isso que precisa ser debatido. Há décadas se extrai recursos da Amazônia,
e as pessoas não estão mais ricas. Estão mais pobres porque não melhorou o pé
de meia, e a floresta não tem mais a riqueza que tinha antes".
A assistência social Glinda, moradora de Breves, tem visão parecida
sobre o futuro das riquezas naturais da região em que ela nasceu. "A
floresta em pé gera lucros pra uns e prejuízos pra outros", diz.
"Esse é o nosso grande problema, eles a veem sob o olhar da ganância. Mas
o aqui o povo existe e resiste". (BBC)


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