"Pensar que o liberalismo econômico funcionará isoladamente das
políticas para o meio ambiente é um erro grave e uma visão tacanha do liberalismo,
coloca em risco a própria economia e até o futuro da agenda liberal defendida
pela equipe econômica do governo Bolsonaro. Medidas como a anunciada na semana
passada, em que foi derrubado um decreto que proibia o plantio de cana de
açúcar na Amazônia e no Pantanal, podem prejudicar não só o meio ambiente, mas
também o futuro do agronegócio e a própria agenda liberal defendida pela equipe
capitaneada pelo ministro Paulo Guedes, pelo menos na visão do economista e
cientista social Eduardo Gianetti.
Gianetti, responsável pelo programa econômico da candidata derrotada à
Presidência Marina Silva (Rede), classifica como "tenebroso" o núcleo
do governo protagonizado pelos filhos do presidente e por ministros
simpatizantes às ideias do escritor Olavo de Carvalho, em especial nos setores
do meio ambiente, educação e relações exteriores, que não podem ser
desconectados da visão econômica.
"Achar que o liberalismo econômico pode existir independentemente
do que acontece nessas áreas é um equívoco grave. A questão do meio ambiente,
por exemplo, se for muito mal encaminhada, como vem sendo, vai isolar o Brasil
da economia mundial. Vamos passar a sofrer boicotes", diz o economista.
"Achar que vai tratar educação, relações internacionais e meio ambiente
como brinquedo do núcleo familiar astrológico é um equívoco gravíssimo".
O economista falou à BBC News Brasil em um intervalo de seu isolamento em
uma pousada na cidade histórica de Tiradentes, em Minas Gerais, onde se dedica
a escrever seu próximo livro e tem passado a maior parte de 2019. Fugindo
radicalmente do barulho e das distrações da cidade grande, já é o sexto livro
que ele escreve por lá. "É uma concentração total. Eu pego meu celular,
ponho dentro da minha maleta, ponho a minha maleta dentro do armário, fecho o
armário a chave e guardo a chave dentro da gaveta. Meu computador não liga
internet. É para trabalhar. Eu recomendo".
Gianetti diz que nenhum presidente brasileiro desde a redemocratização —
FHC, Lula, Dilma, Temer ou Bolsonaro — tratou como prioridade o que teria sido
fundamental para garantir ao país um futuro menos que medíocre: dar educação e
infraestrutura básicas para a população, como saneamento e transporte público,
para formar trabalhadores mais produtivos e cidadãos plenos. "O desafio
civilizatório secular do Brasil é a formação de capital humano".
Em sua próxima obra, o autor de Trópicos
Utópicos (2016) e O Elogio do Vira-lata e outros ensaios (2018),
tratará da ética no livro O
Anel De Giges, referência a uma fábula que aparece no livro dois da República de
Platão. Na história, um pastor descobre um anel que tem o poder de torná-lo
invisível e, por isso, inimputável. "É um livro sobre ética, e a pergunta
é o que leva alguém a ser honesto mesmo quando não há nenhum tipo de punição
por ser desonesto. O Brasil é um país em que os políticos acham que ganham o
anel de Giges quando chegam ao poder".
Leia os principais trechos da entrevista:
BBC
News Brasil — O sr. já falou que o principal
problema do Brasil é a desigualdade de oportunidades. Por que?
Eduardo
Gianetti — A condição de vida em que a pessoa nasce é determinante na sua
trajetória. Isso é desigualdade de oportunidades. O filósofo político americano
John Rawls, de Harvard, propõe um teste da boa sociedade, que é o principio da
escolha sob o véu da ignorância. Nessa proposta, a sociedade ideal é a
seguinte: você não nasceu ainda, você não sabe qual vai ser a sua condição ao
nascer, o nível de renda da sua família, sua família, seu gênero, a cor da sua
pele, sua orientação sexual e você precisa eleger uma sociedade na qual você
gostaria de nascer, considerando que tudo pode acontecer com você.
Quais seriam as características da sociedade em que você escolheria
nascer? É um experimento mental, os filósofos gostam muito desse tipo de
exercício. São duas: a sociedade em que a condição do menos favorecido é menos
ruim, porque você quer se proteger da pior possibilidade, e a que existe maior
permeabilidade para que você possa ascender e melhorar a sua condição com seu
próprio esforço. O Brasil está muito longe de aprender isso. Eu não sou a favor
da igualdade de resultados, que é improdutiva e injusta ao mesmo tempo.
BBC
News Brasil — Em que todos tivessem o mesmo
padrão de vida?
Eduardo
Gianetti — Em que todo mundo chega igual independente do que se empenhou, do
quanto fez, do talento, de quanto valoriza. Felizmente nem todos valorizam o
sucesso financeiro da mesma maneira. É bom que o mundo seja assim. Tem pessoas
que preferem criar, tem pessoas que preferem ter relações afetivas, uma vida
mais rica socialmente. E tem alguns que preferem ser muito focados em sucesso
econômico, e também é bom que alguns sejam assim, desde que não seja todo
mundo. [...] É natural que haja desigualdade nessa situação, são valores
diferentes. O que não dá para aceitar é uma situação em que o ponto de partida
já defina de antemão, antes de qualquer escolha que se faça, os vitoriosos e os
perdedores no campo econômico. É nisso que o Brasil está.
Tem uma fábula que é uma graça. Duas crianças estão caminhando pela rua
e uma delas percebe que tem duas maçãs, uma pequena e uma grande no chão, e
entrega a menor pra amiga. A criança que ganha a maçã pequena começa a
reclamar: você me deu a maçã pequena, você é tão injusta, você ficou com a maçã
grande e me deu a pequena, achei que você fosse minha amiga. Mas a criança que
deu a menor disse: peraí, se você tivesse pego as duas maçãs, o que teria
feito? Eu teria dado a maior para você. Então por que você está reclamando?
E, no entanto, a que está reclamando tem absoluta razão. Porque uma
coisa é essa resultante acontecer de maneira voluntária, porque uma delas abriu
mão. A outra é essa desigualdade ser imposta de uma sobre a outra. O que está
em jogo não é o resultado, mas o caminho até ele. O caminho tem que ser
respeitado. O que o Brasil não tem, definitivamente, é essa legitimidade no
caminho.
BBC News Brasil — Por que?
Eduardo
Gianetti — O problema vem da nossa formação, do modelo de colonização que
prevaleceu na história do Brasil, de monocultura, escravocrata. Um país que
retardou absurdamente a abolição da escravatura e que fez a abolição com muita
leviandade, muita inconsequência. Para muitos, até piorou a situação. Teve
escravo que se ofereceu de volta, porque a vida ficou ainda pior. As distorções
do período longo de escravidão não desaparecem da noite para o dia, elas se
perpetuam. O caso do Brasil talvez seja um dos países em que as consequências
da escravidão têm mais permanência, porque de certa maneira até hoje as
consequências da escravidão estão conosco na desigualdade, na desigualdade de
oportunidades, principalmente.
BBC
News Brasil — Muitos economistas defendem que o
crescimento econômico reduziria a desigualdade. O senhor concorda?
Eduardo
Gianetti — Não. Isso é discutido há muito tempo e não só no Brasil. A tese é:
primeiro é preciso fazer o bolo crescer, para depois distribuir. Tem uma lógica:
com a má distribuição de renda você tem mais poupança, porque a propensão de
quem ganha mais é fazer mais poupança. A lógica desse raciocínio furado é que
você precisava primeiro fazer a poupança, para daí fazer o investimento, para
fazer o bolo crescer, e aí distribuir. O que está errado: isso não leva em
conta a formação de capital humano.
Se a distribuição de renda e de oportunidades for muito desigual, como é
no Brasil, você vai estar sacrificando o principal insumo de um país, que é o
capital humano. Gente inteligente, qualificada, bem preparada, formada para
agregar inteligência àquilo que faz. Se você não formar capital humano está
condenado a ter um país pobre.
O bolo não vai crescer se não tiver capital humano. O bolo não cresce, o
país fica medíocre, se você tem uma oferta abundante de mão-de-obra não
qualificada. O desafio civilizatório secular do Brasil é a formação de capital
humano.
Em sua próxima obra, o autor de "Trópicos Utópicos" (2016) e "O Elogio do Vira-lata e outros ensaios" (2018), tratará da ética no livro O Anel De Giges, que discute o que leva alguém a ser honesto mesmo quando não há punição por ser desonesto
BBC
News Brasil — Passada a recessão, muitas pessoas
entraram na pobreza, em um momento em que o país está envelhecendo.
Que consequência isso traz pro futuro?
Eduardo
Gianetti — Um quadro que já é ruim se agrava pela regressão em um país que
começava a dar os primeiros passos para reduzir a desigualdade e dar
oportunidades. E que depois de uma recessão tão brutal como o país viveu,
condena um número crescente de brasileiros a viver abaixo da linha da pobreza
extrema. É um retrocesso. Agora, nós cometemos um erro grave, espero que o
Brasil tenha aprendido.
Na época da bonança, quando o superciclo das commodities estava nos
favorecendo e o Brasil obteve um adicional de riqueza que o mundo lhe
transferiu, pela valorização das commodities, em vez de usarmos isso de maneira
prudente e inteligente, formando capital humano, nós fizemos uma farra do
consumo via crédito, via distribuição direta de renda. Sem dar a devida atenção
à infraestrutura humana, ao saneamento, à educação. Nós consumimos de maneira
inconsequente uma chance que o mundo nos deu de aprimorar e melhorar de maneira
permanente, consistente, nossa capacidade de gerar riqueza e bem-estar.
BBC
News Brasil — Devíamos ter investido em quê,
naquela época?
Eduardo
Gianetti — A falta de prioridade em ensino fundamental no Brasil durante o ciclo
tucano-petista é uma das coisas mais incompreensíveis que eu imagino.
BBC
News Brasil — Por que esta etapa do ensino,
especificamente?
Eduardo
Gianetti — Por que se não tiver isso bem resolvido, o resto não vai. E saneamento
básico. Estamos em um país em que quase a metade dos domicílios não tem coleta
de esgoto. Então o governo transfere bilhões para o Eike Batista, para a JBS, a
extravagância foi enorme de usar o dinheiro do BNDES para fazer campeões
nacionais, a Oi, entre outros. E não transfere recursos para resolver essas
questões muito elementares do século XIX, que são ensino fundamental de
qualidade, saneamento básico e transporte público. A coisa do automóvel foi um
escândalo também, um monte de incentivo ao setor automotivo para favorecer o
transporte de uma elite que tem automóvel no Brasil, enquanto o transporte público
foi deixado totalmente de lado e deteriorado. A produtividade continua
extremamente baixa, mas nós tivemos a oportunidade de dar um salto e perdemos.
O mundo nos deu uma enorme chance e jogamos fora por afã imediatista. Essa
recessão pela qual o Brasil passou em 2015 e 2016 foi uma consequência de
manter artificialmente as taxas de crescimento em um momento em que não era
mais possível fazê-lo.
BBC
News Brasil — No governo Dilma?
Eduardo
Gianetti — O governo Dilma foi de uma incompetência épica. O primeiro mandato do
Lula foi a melhor surpresa de redemocratização, na minha avaliação. Mostrou
alternância de poder no Brasil, com serenidade, com racionalidade na política
econômica e na política pública. O Brasil parecia que tinha ganhado uma
maturidade adquirida. O governo Dilma tentou forçar a mão e gerou uma mega
recessão. O enredo do governo Dilma é muito parecido com o governo Geisel. No
sentido de que o Geisel pegou a economia pós um boom em um momento em que a
economia global não estava mais favorável e quis manter o milagre econômico
artificialmente usando poupança externa; gerou a crise da dívida externa. A
Dilma pegou uma economia embalada por um ciclo de commodities e tentou manter o
embalo do crescimento, mas, em vez do gasto externo, usou o fiscal, perdeu o
controle da despesa pública. Gerou a crise fiscal com a qual nós estamos
enrolados até hoje. A diferença entre Dilma e Geisel é que um foi dívida
externa e o outro foi dívida bruta interna.
BBC
News Brasil — O sr. diz que não acertamos nas
prioridades nem no governo FHC, nem Lula nem Dilma. E depois da Dilma?
Eduardo
Gianetti — Depois da Dilma nós estamos em guerra de guerrilha estamos para fazer
o ajuste fiscal. No Temer criou-se a regra de ouro, o teto do gasto, começou a
controlar o gasto, parou de crescer o déficit primário. E agora assistimos a
continuação desse filme com esse conjunto muito amplo de medidas anunciadas
pelo Paulo Guedes. Se não fizesse isso ia se gerar uma crise financeira,
estávamos nesse caminho. Se o Brasil não criar o mínimo de ancoragem fiscal, ou
seja, um horizonte em que a dívida pública ao longo do tempo se estabiliza, uma
estabilidade da relação dívida/PIB daí virava argentina. Temer e Bolsonaro
estão desesperadamente procurando ancoragem fiscal na área econômica.
BBC News
Brasil — E a parte social? Essa multidão
de novos pobres era inevitável por causa da recessão?
Eduardo
Gianetti — Não. Não era inevitável. É compreensível que aumente, mas se se nós
tivéssemos políticas públicas bem desenhadas poderíamos atenuar e até reverter
muito esse quadro desastroso de piora da desigualdade de piora da pobreza
extrema.
BBC
News Brasil — Então esse foi um erro dos
últimos governos?
Eduardo
Gianetti — É um problema que não é simples, porque hoje 93% do orçamento do
governo Federal é gasto obrigatório. A margem de manobra para usar o dinheiro
de maneira melhor é muito pequena e, para ajustar o fiscal, vai se comprimindo
os gastos discricionários, inclusive o investimento. É complexo. Agora o que
não dá para entender é que o Brasil tem uma carga tributária de 33% do PIB; de
cada três reais de valor que o Brasil cria com o trabalho, um vai para o governo.
Temos um déficit nominal, a diferença entre o que o Brasil arrecada e gasta, de
6% do PIB. Então estamos em um país em que 39% de todo o valor criado pela
sociedade é intermediado pelo Estado brasileiro. E o ensino fundamental é
deplorável, a saúde pública é vergonhosa, metade dos domicílios não têm
saneamento básico, a segurança pública é péssima, como a educação. Tem muita
coisa errada no setor público brasileiro.
BBC
News Brasil — Com tantos vulneráveis, o
Estado não tem que ser grande?
Eduardo
Gianetti — O que não dá para tolerar é que com essa carga tributária e esse
déficit nominal os recursos não apareçam para a sociedade, esse é o problema.
Mas porque isso não acontece? Por que gasta com a Previdência dos ricos, o
Estado gasta com ele mesmo.
BBC
News Brasil — Para manter privilégios?
Eduardo
Gianetti — Na Previdência é privilégio. A conta de juros, que está caindo agora,
também é muito alta. Você tem 5.570 municípios no Brasil, eu falo isso há 10,
15 anos. Cidades que não têm sequer um posto de saúde decente têm câmara de
vereador. Aí você pega educação, o Estado brasileiro gasta uma fatia alta das
verbas que destina a educação para financiar a educação dos ricos no ensino
superior. Eu não me conformo com isso, é regressivo. Tem que ter uma regra de
ouro em que ninguém deixa de fazer universidade porque não pode pagar. Para mim
é uma regra de ouro. Mas quem pagou o ensino médio e fundamental porque para de
pagar quando chega na parte mais cara da educação? Não dá para justificar. Isso
é privilégio também.
BBC
News Brasil — Falando do governo Bolsonaro. O
senhor diz que um desafio importante, junto com a desigualdade e educação, é o
meio ambiente. Como tem visto a atuação nessa área?
Eduardo
Gianetti — O governo Bolsonaro tem três vetores, três núcleos razoavelmente bem
definidos. O núcleo econômico, liderado pelo Paulo Guedes, tem o núcleo
militar, que cuida das áreas de segurança, de geopolítica, e tem o núcleo que
eu chamo familiar astrológico. O menos ruim dos três, na minha opinião, é o
núcleo econômico. Está longe do que eu imaginaria ser o melhor para o Brasil,
mas tem boas intenções e está caminhando na direção correta. O núcleo familiar
astrológico é tenebroso, e ele domina áreas muito importantes, que não podem
ser desconectadas do resto.
BBC
News Brasil — Que áreas?
Eduardo
Gianetti — Meio ambiente, educação, direitos humanos. Achar que o liberalismo
econômico pode existir independentemente do que acontece nessas áreas é um
equívoco grave. A questão do meio ambiente, por exemplo, se for muito mal
encaminhada, como vem sendo, vai isolar o Brasil da economia mundial. Vamos
passar a sofrer boicotes.
BBC
News Brasil — Pode atrapalhar o acordo com a União
Europeia?
Eduardo
Gianetti — Vai atrapalhar, o agronegócio brasileiro vai ser prejudicado. Vai ser
prejudicado por boicotes internacionais e, no longo prazo, vai ser prejudicado
por desequilíbrio ecológico interno. Não tem agronegócio sustentável sem a
floresta Amazônica de pé.
BBC
News Brasil — O governo autorizou na semana
passada, por exemplo, o plantio de cana na Amazônia e no Pantanal, revogando um
decreto de 2009. Que achou?
Eduardo
Gianetti — Isso é um retrocesso inaceitável, a área econômica não devia se omitir
em relação a isso.
BBC
News Brasil — Não dá para a equipe econômica
considerar que, se avançar a agenda liberal, tudo vai dar certo?
Eduardo
Gianetti — Isso é uma visão míope e tacanha do liberalismo. E o próprio
agronegócio precisa perceber que o futuro dele vai se comprometer se não
soubermos usar bem o nosso patrimônio ambiental. O regime pluviométrico não só
do centro-oeste, mas do Brasil, do qual depende o agronegócio brasileiro, está
muito ligado à preservação do patrimônio ambiental da Amazônia. Podemos estar
deflagrando mecanismos de feedback que se autoalimentam que vão tornar o Brasil
menos produtivo ainda naquele setor que segura nossa balança comercial e nossa
produtividade, que é o magnífico agronegócio. Não dá para separar. Educação é
um problema totalmente econômico gritante. Não é um problema de aluno e
professor, de ideologia. É uma questão de formação de de capital humano, para
qualquer modelo econômico.
BBC
News Brasil — Vê efeito da segmentação do debate?
Meio ambiente virou coisa de esquerda, contas públicas de direita...
Eduardo
Gianetti — Essas divisões são grandes artificialismos são convenções. Educação é
um assunto fortemente econômico, meio ambiente fortemente econômico, assim
como, para essas áreas o bom andamento da economia também é fundamental, senão
não tem recursos para investir em educação, para fazer a preservação ambiental,
tudo isso está interligado. Achar que vai tratar educação, relações
internacionais e meio ambiente como brinquedo núcleo familiar astrológico é um
equívoco gravíssimo.
BBC
News Brasil — O senhor participou da campanha
eleitoral, em momentos diferentes. Acredita que a situação estaria melhor se
Marina tivesse sido eleita?
Eduardo
Gianetti — Ninguém é bom juiz em causa própria. Mas não precisava ser tão ruim
quanto está sendo.
BBC
News Brasil — O senhor vê risco para a democracia,
mantendo o caminho atual?
Eduardo
Gianetti — Eu vejo risco sim. Eu vejo um risco de polarização raivosa na
eventualidade de Lula saindo da cadeia (A
reportagem falou com o economista na quinta-feira, 7, antes da saída do
ex-presidente, que foi no dia 8). Aliás, nada interessa mais ao
grupo bolsonarista do que repolarizar com o Lula de novo ameaçando. Não estou
dando opinião, mas que interessa ao grupo radical a repolarização raivosa
porque aglutina, eu não tenho dúvida. Esse é um risco.
Outro risco é um conflito entre poderes. A crise institucional tem um
enredo conhecido. Nós temos três poderes na República, no momento em que um
poder tomar uma decisão soberana que é pertinente e outro poder não respeitar,
está estabelecido um impasse. São três poderes, pode acontecer de muitas
maneiras.
Dado o perfil do atual Executivo, a possibilidade de um impasse assim
acontecer até o fim do mandato não é nula, acho que não é nem desprezível.
Então precisa prestar muita atenção e tomar muito cuidado. À toa à toa nós
podemos caminhar e já tivemos no passado muito perto disso.
BBC
News Brasil — Por exemplo?
Eduardo
Gianetti — Por exemplo, quando o Supremo julgou o início do processo em relação
ao Aécio Neves, que já tinha sido absolvido no Congresso. Se o Supremo votasse
pelo início do processo ele ia perder o mandato e a decisão do Supremo ia
afrontar o que o Congresso tinha decidido. Eu me lembro perfeitamente do
constrangimento da presidente do STF, que era a Carmen Lúcia, claramente
votando contra a consciência dela para não esticar a corda e não correr o risco
de um impasse constitucional. Ela votou pela não-abertura do processo contra o
Aécio Neves; absolutamente transparente o constrangimento para não correr o
risco de criar um impasse constitucional em um momento de fragilidade do país.
E nós tivemos muito perto disso.
BBC
News Brasil — A saída do Lula e essa repolarização
aumentam esse risco?
Eduardo
Gianetti — A resposta para a sua pergunta é sim.
BBC
News Brasil — E a Lava-jato? Qual o saldo dela?
Eduardo
Gianetti — Altamente positivo, apesar da decepção de todos nós que torcemos pela
Lava-Jato de saber que, no afã de fazer justiça, houve um atropelo do devido
processo legal. No afã de fazer justiça. Agora eu acho a Lava-Jato
absolutamente um ponto de inflexão em um quadro de impunidade crônica dentro do
qual o Brasil sempre viveu.
BBC
News Brasil — Continua positivo?
Eduardo
Gianetti — Altamente positivo. Não obstante o desapontamento com esse afã
justiceiro que atropela em alguns momentos o devido decoro da legalidade.
BBC
News Brasil — Como o senhor vê o futuro?
Eduardo
Gianetti — Pelo menos uma vantagem existe em se ter uma certa idade. Eu já vi
muita coisa. Já vi o país completamente desesperançado.
BBC
News Brasil — Quando?
Eduardo
Gianetti — Houve momentos do governo Sarney, para não falar na ditadura. Vamos pegar
da redemocratização para cá. O confisco que o Collor fez foi uma coisa de uma
violência. Eu não sou uma pessoa de certezas muito pronunciadas, mas tenho uma
tranquilidade. O que o Brasil está vivendo é um capítulo sombrio, mas que vai
terminar.
Nós entramos nisso por conta dessa polarização raivosa que se instaurou
e que nos levou para uma interdição da possibilidade de diálogo construtivo.
Olhando em retrospecto o que chama muita atenção para mim politicamente é o
seguinte: PT e PSDB são dois agrupamentos surgidos da oposição à ditadura
militar e com programas que não são tão diferentes assim. Têm muitas áreas de
vizinhança e de proximidade. PT e PSDB disputaram seis eleições seguidas entre
si. Jamais foram capazes de coordenar e cooperar em nome dos seus objetivos
comuns.
Preferiram governar com o que há de mais sinistro da política brasileira
do que conversar, ao invés de trabalharem juntos. Isso nos trouxe para o colo
desse retrocesso. O ponto de virada foi o desastre económico da Dilma. Eu
espero que tenha ficado o aprendizado de que se nós do campo democrático não
soubermos trabalhar juntos, nós vamos favorecer os radicais da pior espécie.
BBC
News Brasil — Mas vê alguém trabalhando nesse
sentido?
Eduardo
Gianetti — Eu espero que sim e acho que é o que precisa acontecer. Se nós nos
fragmentarmos e nos dividirmos e ficarmos incapazes de mostrar que somos a
maioria da sociedade, porque somos, vamos abrir o caminho para o flanco. Eu
estudei muito na última eleição o que aconteceu na república de Weimar, na
Alemanha, que abriu o caminho pré-Hitler. Hitler foi eleito. Por que? Porque os
sociais-democratas e os comunistas passaram a ver um no outro o seu pior
inimigo. Os comunistas chamavam os sociais-democratas de social facistas, e os
social-democratas achavam que o comunismo ia levar para o bolchevismo. Quem
aproveitou isso e quem cresceu com essa briga? O nazismo.
BBC
News Brasil — E isso pode se reverter já nas
próximas eleições?
Eduardo
Gianetti — Eu não tenho bola de cristal para ver isso, mas eu acho que lideranças
novas podem reencontrar o espaço do diálogo de quem tem uma visão compartilhada
sobre democracia, sobre direitos humanos, sobre redução da desigualdade.
BBC
News Brasil — O senhor tem conversado com
alguém? Luciano Huck?
Eduardo Gianetti — Não. Mas eu acho que vão começar a surgir lideranças, isso é natural.
Mas espero que tenhamos aprendido que se não houver cooperação, entendimento
entre os que são contra o radicalismo, especialmente de direita, o radicalismo
prevalece. Essa onda que elegeu Bolsonaro por muito pouco não elegeu Marina em
2014.
O desapontamento com o status
quo da política brasileira esteve muito perto, mas muito perto, de
eleger a Marina em 2014, que era uma saída democrática e construtiva. Pela
violência da campanha, a Marina não teve a chance de sequer chegar ao segundo
turno. Mas esteve muito perto por um momento depois da morte do Eduardo Campos.
Essa mesma onda de raiva, desapontamento e rejeição com a política brasileira
elegeu o Bolsonaro. Nós saímos da pior maneira possível.
(Fonte: G1)

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