Jair
Bolsonaro carrega há anos a fama de “miliciano”. É, de fato, reconhecida sua
afeição por esse tipo de organização criminosa, e não se trata de acusação.
Bolsonaro, há muito tempo, homenageou essas quadrilhas na tribuna da Câmara,
enalteceu no púlpito do parlamento líderes de milícias do Rio de Janeiro e até
empregou a mãe e esposa do sinistro Capitão Adriano, notório miliciano e
matador de aluguel, no gabinete de seu filho Flávio. Há uma série de outros
enlaces que vinculam o outrora pífio e ridículo deputado que se converteu em
presidente com a bandidagem “paramilitar” das terras fluminenses. Ele,
obviamente, nega e diz que nunca exerceu tal atividade criminosa, o que na
prática e em sentido estrito, de fato, é verdade.
A
votação da maior parte dos deputados de seu partido, por determinação de quem
controla a sigla, e obviamente a figura mais poderosa e ilustre é o
ex-presidente, no sentido de dar liberdade a um reconhecido miliciano do Rio
que teria sido o mandante de um assassinato de repercussão mundial, serviu
apenas para consolidar de forma definitiva a rotulação de “miliciano” de Jair
Bolsonaro. A desculpa oficial do partido é uma rocambolesca e sonolenta
interpretação infantilizada de um tal dispositivo constitucional que
utopicamente preveria uma autonomia total e absoluta dos congressistas, sem
interferências do Judiciário, que no caso em questão não seria levada a sério
por nenhum parlamentar digno. A PF chegou, finalmente, à pessoa que teria
determinado a execução de Marielle e isso, respeitado todos os ritos
constitucionais e processuais que envolvem um cidadão com prerrogativa de foro,
e por decisão do STF, embasada na lei, era o suficiente para expurgá-lo da vida
pública e levá-lo à cadeia.
Não
há xadrez político que justifique tal “decisão partidária”. Para quem tem mais
de um par de neurônios, é elementar que a legenda que abriga o ex-presidente, e
controlada em parte por ele, quis fazer um sinal de afago e cumplicidade com o
megamiliciano que viu sua casa cair depois de tantos anos, quando ninguém mais
acreditava que o crime fosse ser desvendado. Uma prova disso é o fato de 7
deputados do PL terem votado “sim”, ou seja, pela manutenção da prisão de
Brazão, enquanto outros 5 se abstiveram de se posicionar e 13 sequer apareceram
para votar. Em síntese, a tese era tão bizarra e o posicionamento tão absurdo
que mais de um quarto da bancada não teve coragem de apertar o botão e colocar
o miliciano na rua.
Elegendo
cada vez mais representantes com um discurso boçal que emula a lei de Talião (o
famigerado “olho por olho, dente por dente”), com promessas eternas de combate
à bandidagem e empoleirados num discurso policialesco enjoativo, que jura pôr
todo mundo na cadeia pelo menor deslize, a decisão dos deputados PL de soltar
um homem apontado pela PF como um bandidaço do Rio, e que controla as maiores e
mais corpulentas milícias cariocas, servirá tão somente para confirmar e
asseverar a alcunha de miliciano que o líder máximo da banda ultrarreacionária
brasileira já carrega há algum tempo.

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