Segundo a pesquisadora Thelma
Krug, vice-presidente do órgão entre 2015 e julho de 2023, a constatação é
apenas reforçada pelas fortes chuvas e a subsequente tragédia que afeta o
Estado desde a semana passada.
Os últimos eventos "de certa
forma confirmam algo que estamos dizendo há tempos: que, para além das
variabilidades naturais que levam aos eventos extremos, existe uma contribuição
ou influência humana", afirma a matemática, que hoje atua como presidente
do Comitê de Direção do Sistema Global de Observação do Clima, à BBC News
Brasil.
Ainda segundo Krug, apesar da
chamada ciência da atribuição climática - que estuda o impacto da atividade
humana na probabilidade de ocorrência de fenômenos específicos - ser ainda
muito nova, as relações respaldadas pelo IPCC indicam que fortes precipitações
como as observadas atualmente podem se tornar mais recorrentes.
"Infelizmente, acredito que
há uma probabilidade muito grande de que esses eventos voltem a ocorrer de uma
forma mais frequente e intensa", diz.
Em seu relatório, o IPCC aponta a
contribuição humana para o aumento das chuvas na região chamada de Sudeste da
América do Sul (SES), que engloba não apenas o Rio Grande do Sul, mas também
outros Estado da região sul do Brasil e algumas áreas de nações como Argentina
e Uruguai.
A SES é a única que engloba o
Brasil onde o IPCC detectou evidências de fortes precipitações relacionadas à
ação humana.
O painel classifica sua conclusão como de "baixa confiança", mas segundo Krug esse é o maior nível de evidência disponível atualmente para a região devido à dificuldade dos cálculos envolvidos.
Mercedes Bustamante, professora da Universidade de Brasília (UnB) e colaboradora de alguns dos relatórios do IPCC, também vê fortes indícios da influência das mudanças climáticas provocadas pelas atividades antrópicas nas chuvas que provocaram 83 mortes e afetaram 345 dos 497 municípios gaúchos.
Segundo a ecologista membra da
Academia Brasileira de Ciências (ABC), o Rio Grande do Sul sempre foi o ponto
de encontro de sistemas tropicais e sistemas polares, o que cria um padrão que
inclui períodos de chuvas intensas e outros de seca.
E a tendência é que essa
alternância continue se repetindo, mas com cada vez mais intensidade.
"Essa é uma região onde vamos
viver muito mais extremos, segundo os modelos climáticos", diz a
especialista.
Transformação dos biomas
As fortes chuvas que atingem o Rio Grande do Sul
atualmente podem ser explicadas por uma conjunção de fatores de risco, entre
eles uma massa de ar quente sobre a área central do país, que bloqueia a frente
fria que está na região Sul e faz com que a instabilidade fique sobre o Estado,
causando chuvas intensas e contínuas.
Aliado a isso, o período entre o
final de abril e o início de maio de 2024 ainda tem influência
do fenômeno El Niño, responsável por aquecer as
águas do Oceano Pacífico, contribuindo também para que áreas de instabilidade
fiquem sobre o Estado.
Essa combinação de diversos
fatores de uma única vez é considerada rara pelos especialistas.
No entanto, segundo Mercedes
Bustamante, a maior frequência desses "riscos compostos" é apontada
na compilação de dados sobre mudança climática do IPCC.
"Há uma convergência de
variáveis diferentes que atuam em sinergia e ampliam esse fator de risco",
diz. "Muitas das discussões sobre preparação se referiam a riscos de forma
isolada, mas precisamos olhar para os efeitos em cascata e os riscos de forma
integrada."
Bustamante explica que o desmatamento
em larga escala do Cerrado nas últimas
décadas aumentou a temperatura superficial e reduziu a quantidade de
evapotranspiração, ou a devolução da água à atmosfera, na região central do
país.
Com menos retorno de umidade, a
atmosfera fica mais quente e seca. Em convergência com o El Niño, é essa massa
de ar quente que está bloqueando e mantendo a área de instabilidade sobre o Rio
Grande do Sul.
"Há um fenômeno regional, que
é o El Niño, mas também uma questão associada à transformação dos nossos
biomas", diz.
Ao mesmo tempo, essa mesma massa
de ar quente bloqueia os chamados 'rios voadores' da Amazônia, uma espécie de
curso d’água invisível que circula pela atmosfera. Trata-se da umidade gerada
pela Amazônia e que se dispersa por todo o continente sul-americano.
Se esse curso d’água encontrasse
um ambiente menos seco na região central do Brasil, parte dele precipitaria
ali. Mas nas circunstâncias atuais a umidade é obrigada a desviar pelas bordas
da massa quente e úmida, de forma que esbarra nos Andes e é canalizada para o
sul do país.
"Tivemos frentes frias que
não conseguem 'subir' e massas de ar úmido que não conseguem se distribuir para
o Brasil central e 'vazam' pelos lados", resume.
Segundo a pesquisadora, esse
contexto tornou as chuvas registradas na última semana mais extremas e
disseminadas do que as que abateram o Rio Grande do Sul em setembro de 2023.
'A influência humana aqueceu todo o sistema climático'
Ao mesmo tempo, segundo Thelma
Krug, há cada vez mais evidências na ciência que relacionam a mudança climática
a períodos mais duradouros e intensos de El Niño.
"Já vimos o El Niño se
estendendo por um período mais longo de tempo no ano passado", diz.
"E agora temos uma composição
de dias muito quentes com implicação na temperatura superficial do oceano,
cenário que tem uma influência em toda essa modificação com relação às
chuvas."
Segundo a matemática, é bastante
complexo fazer associações entre ações humanas e fortes precipitações -
diferente das ondas de calor, que são mais facilmente ligadas às mudanças
climáticas provocadas pelas atividades antrópicas.
"Mas o que sabemos de
inequívoco é que a influência humana aqueceu todo o sistema climático: aqueceu
o oceano, aqueceu a atmosfera, a criosfera. Ou seja, todos os elementos da
biosfera terrestre", diz.
"E é impossível não imaginar
que esse aquecimento que atingiu o sistema climático na totalidade não vai ter
consequências em várias áreas."
'Voltar a viver de maneira diferente'
Krug e Bustamante são categóricas
ao afirmar a necessidade de ações de adaptação adequadas aos novos modelos
climáticos para evitar novas tragédias em casos de futuros eventos extremos.
"O Brasil tem uma necessidade
de ampliar sua rede de monitoramento de dados ambientais", destaca a
professora da Universidade de Brasília.
Segundo Mercedes Bustamante, o
mapeamento de risco elaborado pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas
de Desastres Naturais (Cemaden), vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia
e Inovação e criado após a tragédia climática que deixou mais de 900 mortos na
Região Serrana do Rio de Janeiro em 2011, precisa ser revisitado.
Para Thelma Krug, o planejamento
deve ser feito a níveis federais, estaduais e municipais e com o apoio de
parcerias público-privadas.
"A periodicidade desses
eventos no Rio Grande do Sul e a intensidade do que está acontecendo atualmente
- que possivelmente pode até ser um dos maiores do país - é preocupante e
requer que tomemos ações não só para retomar a vida, mas para voltar a viver de
maneira diferente", diz.
(Fonte: BBC)

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