“Nós vamos fazer um trabalho muito mais de incentivo de campanha para que as mulheres sejam candidatas. A gente tem a iniciativa Brasil sem Misoginia que trabalha a perspectiva de acabar com o ódio contra as mulheres. É justamente o ódio que faz com as mulheres sejam retiradas dos parlamentos e com que se cortem os microfones”, afirmou a chefe da pasta em entrevista ao Brasil de Fato.
“Nós corremos o
país com audiências públicas nas assembleias, falando com vereadores,
governadores, prefeitos e candidatas. Então, primeiro, é incentivar e fomentar
as candidaturas. Também é preciso
dar apoio político para que elas possam, de fato, em
qualquer partido que estejam, se sentir fortalecidas para serem candidatas”,
disse.
Nas últimas
eleições municipais, em 2020, apenas 12% dos prefeitos eleitos em todo o país
eram mulheres, segundo levantamento do Instituto Alziras. Nas capitais, somente
uma mulher foi eleita: Cinthia Ribeiro (PSDB), em Palmas, capital do
Tocantins.
Brasil
de Fato: De que forma o Ministério atua para fomentar e oferecer suporte para
candidaturas de mulheres?
Aparecida
Gonçalves: Nós
vamos fazer um trabalho muito mais de incentivo de campanha para que as
mulheres sejam candidatas. A gente tem a iniciativa Brasil sem Misoginia que
trabalha a perspectiva
de acabar com o ódio contra as mulheres.
É justamente o
ódio que faz com as mulheres sejam retiradas dos parlamentos e com que se
cortem os microfones. Nós corremos o país com audiências públicas nas
assembleias, falando com vereadores, governadores, prefeitos e
candidatas.
Então, primeiro,
é incentivar e fomentar as candidaturas. Também é preciso dar apoio político
para que elas possam, de fato, em qualquer partido que estejam, se sentir
fortalecidas para serem candidatas.
Em
ano de eleição, um problema que vem à tona é a questão da violência política. Quais
as ações previstas pelo Ministério das Mulheres voltadas para o enfrentamento
desse tipo de violência que atinge ainda maioritariamente as mulheres?
Nós estamos
fazendo um Plano Nacional de Enfrentamento à Violência Política de Gênero. Nós
vamos fazer uma pactuação junto ao Tribunal Superior Eleitoral e ao Ministério
Público para estabelecer um protocolo de atendimento de denúncias, ou seja,
onde e como essas mulheres precisam recorrer se precisarem de ajuda.
A outra é que
nós precisamos, na verdade, trabalhar para eleger mais mulheres. Quanto mais
mulheres nos espaços de poder, menos violência política acontece. A violência
política é uma forma de nos tirar dos espaços de poder, que nós
conquistamos com muita dificuldade e às duras penas.
Portanto, eleger
o máximo de mulheres, tanto para o Executivo quanto para o Parlamento, é
estratégico e fundamental inclusive para enfrentar a violência política de
gênero.
Um
tema constante de campanha nas eleições é a diferença de gênero no mercado. O
governo sancionou a Lei da Igualdade Salarial, e uma das medidas determinadas é
a divulgação do relatório de transparência salarial. As empresas, no entanto,
foram à Justiça para reivindicar o direito de não tornar públicas essas
informações. Como a senhora vê essa movimentação das empresas?
Primeiro, isso
nos causou muita estranheza, porque boa parte da Confederação Nacional de
Indústria e do Comércio participou do grupo de trabalho e nos ajudou a pensar
todas as questões da regulamentação. Então, acho que isso primeiro causa
estranheza.
Agora, é uma
resistência também com relação à transparência, porque o Brasil vai ficar sabendo
que as empresas pagam salários diferentes para homens e mulheres. O primeiro
relatório mostrou
que a diferença salarial na maioria das empresas é de 19,4%.
Outro
assunto são os direitos reprodutivos da mulher e a educação sexual. Essa é uma
pauta pouco debatida publicamente, mas que é constante alvo da ala
conservadora. O Ministério das Mulheres pretende colocar esse assunto em pauta
em algum momento? Se sim, como?
Nós precisamos
discutir toda a saúde integral da mulher. Tem que discutir a questão do
planejamento familiar, o parto, o acompanhamento da mulher, a contracepção de
emergência etc. A mulher precisa ter à disposição tudo aquilo que é necessário
para planejar ou não ter filhos. Essa é a discussão que eu quero trazer para o
Brasil. Não quero reduzir
a mulher apenas àquela que aborta, mas falar sobre todos os
direitos sexuais reprodutivos que têm de ser garantidos pelo Estado brasileiro.
Com relação à
questão educação sexual, não se pode trabalhar a educação sexual vinculada à
questão do aborto, porque a gravidez na adolescência é resultado de violência
sexual. O Estatuto da Criança e do Adolescente e o próprio Código Penal já
condenam a questão da violência sexual.
Então, é
necessário discutir a educação sexual fora de todas as questões de direitos
sexuais. É preciso prevenir para que não tenha. A criança precisa saber o que
é, o que não é, onde pode tocar, onde não pode tocar, ou seja, a educação
sexual vem com outros elementos que estão muito mais dentro da educação do que
dentro do campo da saúde reprodutiva.
(Brasil
de Fato)

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