"Agora não pago mais aluguel, e sobra mais dinheiro. Mas olha, aqui fica muito frio no inverno, vou ter que colocar carpete. E também não dá para tomar banho."
O
espaço é apertado e roupas, sapatos e várias sacolas com objetos diversos ficam
expostos no local onde é a sala, quarto e também a cozinha.
Mas
a comunidade é organizada e tem regras para manter a limpeza e a segurança, o
que, segundo Célia, a deixa tranquila por ser uma mulher que mora sozinha.
Quando
saiu de Goiânia com uma passagem só de ida para Bristol, há 5 anos, Célia
buscava uma vida melhor.
Morar
e trabalhar na Inglaterra, imaginava ela, lhe daria oportunidades financeiras e
de qualidade de vida que não poderia ter no Brasil.
"Achei que em questão de meses estaria rica", lembra ela.
Na
época, sua filha, casada com um britânico, trouxe Célia e outros familiares
para morarem com ela. O parentesco permitiu que Célia conseguisse os documentos
necessários para se tornar uma imigrante legal.
"A
gente ficou um tempo com ela e depois cada um teve que seguir seu caminho. E aí
é que você vê que as coisas não são tão fáceis como a gente imagina quando está
no nosso país."
Olhando
para trás, Célia diz que veio para o Reino Unido com
uma "ilusão".
"Não
existe esse negócio de ir para outro país e enriquecer, é uma ilusão. Existem
dificuldades assim como no Brasil."
"A
diferença da moeda é o que atrai as pessoas. São sete vezes mais o valor do
real. Aqui, convertendo para o real, eu consigo ganhar R$10.000, o mesmo que o
salário da minha patroa no Brasil. Mas a gente tem que ver que eu também gasto
em libras, né?"
Desde
que chegou no país, sem dominar a língua inglesa, Célia
fez dois tipos de trabalhos informais para ter a renda necessária para suas
despesas básicas: entrega de
alimentos e serviços de limpeza em casas e estabelecimentos.
Crise
do custo de vida
Depois
de sair da casa da filha, procurando um lugar para morar, ela se deparou com o
preço alto dos aluguéis na cidade - algo que afeta não só Bristol, mas todo o
Reino Unido.
Nos
primeiros anos, morou em casas e apartamentos que dividia com outras pessoas.
Mas os ganhos com entregas e dias de cleaner (faxineira, em
inglês) não acompanhavam a velocidade com a qual os preços subiam no país.
O
Reino Unido enfrenta os desdobramentos de uma crise econômica que teve o auge
em 2022, quando a inflação chegou aos dois dígitos, e em 2023, quando o país
ficou oficialmente em recessão.
A
maior parte da população foi impactada com altas nos preços dos alimentos, de
energia e, em especial, dos aluguéis - que só no último ano subiram 8,4%.
Bristol,
especialmente, sentiu o impacto. Em fevereiro deste ano, o aluguel na cidade
foi considerado o segundo mais caro do país, atrás apenas de Londres.
A
média de preço, segundo o Office for National Statistics (ONS) do Reino Unido,
chegou a £1.734 (cerca de R$12.484). Para fins de comparação, o salário mínimo
no país é £1.667.20 (R$12.000).
"Para
alugar apenas um quarto na casa de alguém, eram £800 a £1.000 por mês [R$5.760
a R$7.200]. Eu trabalhava, praticamente, para comer e pagar aluguel. E também
tenho dívida no Brasil. Não estava conseguindo arcar com tudo."
"O
que eu fiz? Eu abandonei o aluguel, comprei um trailer e fui para dentro dele,
assim como muitos brasileiros aqui."
As
casas em caravanas
A
comunidade de trailers - ou caravanas, nome derivado do termo inglês caravans -
é formada em maioria por imigrantes, mas há também alguns britânicos vivendo
ali.
"Eu
diria que 80% são brasileiros. A maioria vem da região Norte ou Nordeste do
Brasil, mas também têm muitos goianos como eu. E ali no final da rua tem três
trailers de ingleses", conta Célia.
Acampamentos
como este são considerados irregulares e tratados como 'moradia inadequada'
pelo governo britânico. Quem mora aqui, na prática, entra na classificação de
sem-teto pelas autoridades.
Célia
pagou £1.500 (cerca de R$10.800) na caravana, e fez a mudança há seis meses.
"Eu
até estou gostando, mas é complicado para a higiene pessoal. Você vai tomar
banho na hora que der… Muita gente usa a academia para isso. Eu vou na casa da
minha filha, que fica bem perto daqui."
A
falta de aquecimento adequado é outro ponto negativo, já que os trailers não
retém calor tão bem quanto casas adaptadas para isso.
Para
tentar driblar o frio, a brasileira pretende adicionar um carpete ao veículo,
mas ainda não sabe exatamente como vai ser quando o inverno chegar e as
temperaturas caírem para cerca de 5 °C - vai ser a primeira vez que passa a
estação no trailer.
Quando
recebeu a visita da BBC News Brasil, Célia ainda dividia o espaço de cerca de
cinco metros com a irmã, que decidiu tentar a vida no país ilegalmente há um
ano e meio, e já tinha data marcada para retornar ao Brasil.
Ela
diz que, como muitos, sua irmã teve dificuldades para se adaptar.
"Quando
a gente vem para cá, vem com o sonho de 'vou lutar e vou conquistar'. Mas
quando chega aqui, não é nada daquilo que você achava que seria, e você se
deprime, sabe? Você trabalha como uma condenada. Eu trabalhava em cima da moto,
das sete da manhã até uma da manhã. Uma hora você cansa. Tinha dias em que eu
parava minha moto, sentava no meio-fio e chorava. E é assim que muitos
brasileiros aqui vivem."
Célia
diz ter feito turnos de 12 a 18 horas muitas vezes trabalhando com entrega de
alimentos numa empresa britânica, a Deliveroo.
Em
resposta à reportagem, a Deliveroo diz que "isso não é representativo de
como os entregadores trabalham. Eles são contratados autônomos e têm total
liberdade para escolher quando e por quanto tempo desejam trabalhar."
"Estamos
muito preocupados ao saber sobre entregadores vivendo em condições inadequadas.
A Deliveroo oferece trabalho flexível que os entregadores nos dizem que
desejam, com oportunidades de ganhos atraentes e proteções", disse a
empresa, em nota.
Apesar
das dificuldades, Lucas*, 24, outro imigrante que veio de Goiânia para Bristol,
diz ter encontrado liberdade e independência vivendo na caravana.
"Eu
amo aqui. É maravilhoso, meu cantinho…"
Ele
chegou à Europa há cinco anos, e diz ter passado muitas dificuldades em outros
países até decidir emigrar para a Inglaterra.
"Eu
já passei muita raiva com gente que alugava quarto, e acha que tem um poder nas
mãos, e te humilha por isso. Aqui vim direto para o trailer, comprei o meu. É
uma alternativa que não vou abandonar."
Lucas
vive sozinho em um pequeno trailer, onde a sala, o quarto e a cozinha são o
mesmo espaço. Ele conta que alguns vizinhos já fizeram melhoramentos: há quem
tenha dois quartos, TVs modernas acopladas na sala e sistemas de som integrados
aos veículos. São planos para o futuro, diz ele.
Foi
seu irmão de consideração, que também reside na cidade, quem o apresentou à
comunidade. Para ele, os vizinhos de trailer são um apoio e o fazem sentir
menos sozinho no país estrangeiro.
"Aqui
hoje todo mundo que se ajuda sabe? Chamam para ‘tomar uma’, assar uma carne,
fazer bagunça... Eles não deixam o vizinho dormir, mas pelo menos convidam… É
uma comunidade legal", diz Lucas, sorrindo.
Os
vizinhos mantêm um grupo de Whatsapp para
organizar questões como o lixo deixado e a segurança do local.
"Se
alguém demora demais para chegar, mandamos uma mensagem. Também ficamos de olho
nas coisas uns dos outros… É como uma família", acrescenta Célia.
A
comunidade foi alvo de uma operação do departamento de imigração algumas
semanas após a visita da BBC News Brasil, resultando na detenção de imigrantes
que estavam no país de forma ilegal.
Por
ter documento, Célia não foi afetada, mas Lucas conta ter fugido do local.
Ele
diz estar com receio de ser preso e deportado, e por isso, pediu para não ser
identificado na reportagem.
A
BBC News Brasil pediu detalhes sobre o número de imigrantes detidos e/ou
deportados ao Ministério do Inteiro do Reino Unido, mas não recebeu resposta
até a publicação deste texto.
'Não
recomendo que outras pessoas venham'
Célia
diz que recebe mensagens de conhecidos brasileiros que se interessam pela
possibilidade de uma vida mais próspera na Europa, mas que hoje não
recomendaria a ninguém vir para cá.
"Eu
digo: 'Não vou trazer, porque não quero que você passe pelo que eu passei e
ainda passo.' Aqueles que eu trouxe já se arrependeram. Dois deles já voltaram
porque não aguentaram ficar nem dois anos aqui. Por isso, eu não recomendo a
ninguém sair do seu país para tentar algo aqui. Não recomendo de jeito
nenhum."
Segundo
ela, os pagamentos por entregas feitos pela Deliveroo, principal empresa a qual
presta serviços, diminuíram nos últimos anos, algo que atribui ao aumento de
entregadores na região.
Em
resposta BBC News Brasil, a empresa disse que "só integra mais
entregadores onde eles são necessários para garantir que a oferta atenda à
demanda dos consumidores e onde possa oferecer ganhos atrativos para os
entregadores".
Célia
também afirma ter visto muitos voltarem ao país em uma situação pior do que a
tinham antes.
"Venderam
o carro, a casa, praticamente tudo que tinham para vir para cá e não
conseguiram recuperar o que gastaram. Então, eu não recomendo. Tenho minha
irmã, que veio há um ano e meio e também está retornando. Ela não conseguiu o
que veio buscar aqui."
A
irmã de Célia escolheu solicitar o retorno voluntário, uma iniciativa do
governo britânico oferecida a imigrantes que não têm permissão legal para
residir no território.
De
acordo com o site do governo, se a pessoa for elegível, o serviço de retornos
voluntários pode ajudar explicando as opções para voltar para casa, ajudando a
obter documentos de viagem, como um passaporte, e pagando pela passagem área se
a pessoa não tiver condição de arcar com essa despesa.
O
imigrante também pode ser elegível para solicitar apoio financeiro de até
£3.000 (aproximadamente R$21.600), o que a irmã de Célia conseguiu.
O
governo considera que esse valor pode ser utilizado para encontrar um lugar
para viver, conseguir um emprego ou iniciar um negócio no país de origem.
Lucas
também diz não recomendar a emigração para qualquer pessoa.
"Depende
bastante de quem é a pessoa. Eu falaria, olha, meu amigo, aqui acontece de tal
jeito. É o que tu quer? Aí vai dele, né? Eu não vou mentir e iludir o pessoal,
porque fácil não é."
Apesar
disso, ambos não querem voltar para o Brasil.
"Aqui
você ainda consegue conquistar mais coisas, como um bom carro por um preço mais
acessível. Sinceramente, não me vejo mais no Brasil", diz Lucas.
"É
uma escolha difícil, porque, apesar de viver melhor financeiramente, você acaba
perdendo o convívio com quem ama e as pequenas alegrias que tinha lá",
complementa Célia.
"A
Inglaterra é um país em que, mesmo sendo pobre, você vive melhor do que no
Brasil. A gente consegue ir a restaurantes, comprar roupas boas... Mas isso tem
um preço: ser escravizado pelo trabalho. A vida se resume a trabalhar para
viver, e viver para trabalhar", diz a brasileira;
(Fonte:
BBC)

Nenhum comentário:
Postar um comentário