Em entrevista à BBC News Brasil, ele classifica o sistema como "rápido e eficiente" e "melhor do que todo o sistema de pagamento" americano.
Na terça-feira (15/07), o Executivo do presidente Donald Trump anunciou
a abertura de uma investigação comercial contra o Brasil, após o
anúncio da imposição de uma tarifa de 50% sobre qualquer produto
brasileiro exportado aos EUA.
Entre as acusações feitas, que deverão ser apuradas ao longo do processo, estão eventuais irregularidades na adoção do Pix, desenvolvido pelo Banco Central durante o governo de Michel Temer (MDB) e lançado em novembro de 2020.
Em entrevista à
BBC News Brasil, ele classifica o sistema como "rápido e eficiente" e
"melhor do que todo o sistema de pagamento" americano.
Na terça-feira
(15/07), o Executivo do presidente Donald Trump anunciou a abertura de uma investigação comercial contra
o Brasil, após o anúncio da imposição de uma tarifa de 50% sobre qualquer produto
brasileiro exportado aos EUA.
Entre as acusações
feitas, que deverão ser apuradas ao longo do processo, estão eventuais irregularidades
na adoção do Pix, desenvolvido pelo Banco Central durante o governo de Michel
Temer (MDB) e lançado em novembro de 2020.
Mas segundo
Meirelles, que serviu como presidente do Banco Central de 2003 a 2011 (primeiro
e segundo governos Lula), a competição oferecida pela ferramenta brasileira
para empresas como Google, Apple e Meta está no centro da motivação de Donald
Trump para incluí-la em sua lista de alvos.
"O Pix é mais
eficiente, não há dúvidas", diz o ex-ministro e ex-secretário da Fazenda
de São Paulo. "Trump fala que isso está prejudicando o sistema de
pagamento das empresas americanas, que são basicamente oferecidos pelas Big
Techs."
Ainda segundo
Henrique Meirelles, as alegações feitas pelos Estados Unidos de que o Brasil
age de maneira desleal ao beneficiar alguns países, como México e Índia, com
tarifas mais baixas, enquanto prejudica os Estados Unidos, não fazem sentido.
"O Brasil faz
taxações generalizadas para proteger determinados mercados, mas eu não vejo
benefício específico para alguns países."
Durante a conversa
com a BBC News Brasil, o ex-ministro da Fazenda do governo Temer também
defendeu que o governo brasileiro negocie a revisão da tarifa de 50% anunciada
por Donald Trump - e, se for preciso, abra mão de algumas das taxas que tem em
vigor atualmente contra os EUA.
"[Donald
Trump] é um negociador que toma riscos fortes, mesmo na vida pessoal. (...) Eu
acho que ele inclusive gosta de negociar - e aí tem que negociar sim. Mas o
governo tem que estar disposto a ceder algumas tarifas que o Brasil aplica
hoje", afirma.
Por outro lado,
Meirelles diz que os pontos levantados pelo governo americano sobre o processo
judicial contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e as decisões do Supremo
Tribunal Federal (STF) em relação à responsabilização das empresas de mídia
social por publicações ilegais de seus usuários são "inegociáveis".
"Decisões
judiciais não são negociáveis. O governo brasileiro não vai negociar em nome do
Supremo, não faz sentido isso."
Mas o ex-ministro
também não descarta totalmente o caminho da retaliação com a elevação de
algumas tarifas brasileiras, caso as negociações não cheguem a uma conclusão.
"Mas isso
precisa ser analisado com cuidado", recomenda. "Pode ser em um ou
outro caso, mas não uma coisa generalizada."
Meirelles ainda
defende a proteção da economia brasileira por meio da busca por novos mercados,
em especial a ampliação dos laços econômicos com a China.
"O Brasil não
tem nenhum confronto com a China, né? Certamente, a questão com o governo do
Trump é evidente e ele próprio deixa muito claro, né? Mas de resto não há
grandes problemas de relacionamento", diz.
Leia, a seguir, os
principais trechos da entrevista:
BBC News Brasil -
Como o senhor avalia o anúncio dessas tarifas? Quais acredita que são as
motivações do governo Donald Trump nesse momento?
Henrique Meirelles
- Não há
dúvida de que é um assunto muito polêmico e que vai ter algum efeito na
economia brasileira, na medida em que as exportações para os Estados Unidos
tendem a diminuir. Por outro lado, o efeito é menos importante do que para
alguns outros países. Existe uma companhia que será direta e fortemente afetada
que é a fábrica de aviões exportados para os Estados Unidos. Mas o restante das
exportações são muito concentradas em commodities em geral, que é algo que pode
se vender para qualquer outro país, particularmente para os países asiáticos
que estão crescendo muito.
Em termos de
motivação do governo Trump, elas ficam claras na carta dele. Ele acredita que
decisões do Supremo Tribunal Federal sobre a divulgação de determinadas
postagens na mídia social prejudicam as empresas americanas, e que o Brasil
está, entre aspas, perseguindo as empresas americanas de comunicação.
Evidentemente que
isso não faz sentido, na medida em que o tribunal toma decisões, baseado nas
suas interpretações da lei brasileira e é um órgão independente, que não faz
parte do Executivo.
BBC News Brasil -
O senhor diria, então, que as motivações são muito mais políticas ou de
interesses pessoais do que econômicas?
Meirelles - Divide um pouco. Ele tem
a motivação política, não há dúvida, que ele deixa clara na carta. Por outro
lado, ele acha que as empresas de mídia social americanas no Brasil estão sendo
prejudicadas. Isso é uma motivação econômica.
BBC News Brasil -
Para além das justificativas apresentadas pelo presidente Donald Trump e seu
governo, o senhor vê alguma relação entre o protagonismo do Brasil nos Brics e
as tarifas?
Meirelles - Não vejo como o grande
motivador, mas existe sim alguma influência. O [presidente] Donald Trump está
certamente irritado com a posição dos Brics, que ele vê como uma posição
contrária aos Estados Unidos e a ele. Mas somente isso não justificaria uma
tarifa de 50%, porque ele não aplicou [essa mesma taxa] a outros membros do
Brics.
BBC News Brasil -
O senhor tem interlocutores fora dos EUA e do Brasil com quem conversou nos
últimos dias sobre essas tarifas? Como eles estão vendo a taxação?
Meirelles - Em geral, a política de
tarifas é vista negativamente pelos analistas do mundo todo, porque
evidentemente tende a prejudicar a economia global. Não está prejudicando
necessariamente ainda. O FMI fez uma projeção de que a economia global, que
estava projetada para crescer 3,3%, vai expandir apenas 2,8%, mas isso não está
totalmente transparente e solidificado ainda. Quer dizer, é uma previsão, mas a
economia continua resiliente e surpreendendo muitos analistas.
BBC News Brasil -
O Brasil deveria retaliar as tarifas?
Meirelles - O Brasil já aplica tarifas
relativamente elevadas, em geral. Mas o país tem que, de fato, tomar medidas de
defesa das suas empresas. Mas isso precisa ser analisado com cuidado, porque o
problema da tarifa é que o país que aplica tem de um lado um ganho bloqueando
um pouco os importados daquele setor específico, mas, por outro lado, sofre o
efeito inflacionário.
É inclusive um
pouco irônico, porque na medida em que as exportações brasileiras para os
Estados Unidos diminuem um pouco, pode haver uma queda de demanda global para
aqueles produtos e isso pode gerar um componente deflacionário. Ou seja, isso
pode até ajudar o Banco Central a combater a inflação.
BBC News Brasil -
Então retaliar com um aumento das tarifas não é o melhor caminho nesse momento?
Meirelles - Pode ser em um ou outro caso,
mas não uma coisa generalizada.
BBC News Brasil -
E no caso de uma tentativa de negociação, qual deve ser o argumento do governo
brasileiro?
Meirelles - Eu acho muito difícil essa
negociação, porque ele [Donald Trump] está basicamente alegando como motivação
decisões do Supremo Tribunal Federal. E decisões judiciais não são negociáveis.
O governo
brasileiro não vai negociar em nome do Supremo, não faz sentido isso.
BBC News Brasil -
Mas há quem teorize que Donald Trump usa a estratégia da imprevisibilidade para
conseguir seus objetivos políticos e econômicos com uma negociação posterior.
Se for essa a estratégia usada nesse caso, como deve ser a negociação?
Meirelles - Ele é um negociador que toma
riscos fortes, mesmo na vida pessoal. Muitas vezes perde, muitas vezes ganha –
agora mesmo as empresas da família dele estão tendo lucros muito grandes, pelas
tomadas de posições do mercado. Eu acho que ele inclusive gosta de negociar - e
aí tem que negociar sim. Mas aí o governo tem que estar disposto a ceder
algumas tarifas que o Brasil aplica hoje.
Por outro lado,
tem algo aí que é inegociável, que é justamente negociar em nome do Supremo.
BBC News Brasil -
Como o senhor avalia a estratégia do governo brasileiro até agora?
Meirelles - [O governo] está bem, né? No
sentido de que a maior preocupação do governo, e do presidente, no momento, é a
eleição de 2026. E as pesquisas têm mostrado que essa crise beneficia a
candidatura do Lula e prejudica os candidatos da oposição, da direita. Dentro
desse ponto de vista está ok, né? Não está [ok] para a oposição, certamente,
que se prejudica, principalmente o governador de São Paulo, mas também o
Eduardo Bolsonaro.
BBC News Brasil -
Para qual mercados o Brasil deveria se voltar para substituir o peso dos EUA?
Meirelles - Pode-se trabalhar um pouco
mais os mercados asiáticos e a própria China, que apesar de ser um grande
exportador, é também um grande importador, principalmente de grãos.
E também os
mercados europeus. Existem algumas dificuldades para o tratado de livre
comércio com a Europa, principalmente em função da resistência de
representantes da agricultura francesa, mas esses são os principais mercados a
serem trabalhados.
BBC News Brasil -
Nesse momento a China é um parceiro mais confiável e previsível que os EUA?
Meirelles - O Brasil não tem nenhum
confronto com a China, né? Certamente, a questão com o governo do Trump é
evidente e ele próprio deixa muito claro, né? Mas de resto não há grandes
problemas de relacionamento. Acho que o Brasil tem que trabalhar, sim, esses
outros mercados.
BBC News Brasil -
Na investigação comercial anunciada pelos EUA contra o Brasil, o Escritório do
Representante Comercial dos Estados Unidos cita o que eles definem como
'práticas desleais' na adoção do Pix no Brasil. Na sua visão, por que o Pix
virou alvo?
Meirelles - Porque o Pix favorece muito as
transações financeiras e é muito eficiente. A justificativa do Trump é que isso
prejudica companhias americanas que têm sistemas de pagamento. Ele vê o Pix
como uma competição oficial do governo brasileiro com o sistema de pagamento
das empresas americanas.
É tão simples
quanto isso: é uma motivação pequena que se torna muito relevante porque são
medidas do governo americano.
BBC News Brasil -
Analistas dizem que as Big Techs estão por trás desse ataque de Trump ao Pix.
Isso porque o Pix tiraria mercado do Apple Pay, Google Pay e WhatsApp Payments…
Meirelles - Não há dúvida de que o Trump
fala que isso está prejudicando o sistema de pagamento das empresas americanas,
que são basicamente oferecidos pelas Big Techs.
BBC News Brasil -
As alegações sobre práticas desleais em relação ao Pix, em comparação com
outros serviços de pagamento, fazem sentido na sua visão?
Meirelles - É uma questão da definição do
que seria desleal. O Pix é mais eficiente, não há dúvidas, e isso beneficia a
economia brasileira. Por exemplo, no ano passado, mais de 100 milhões de
brasileiros usaram Pix. É um sistema eficiente e rápido, melhor do que todo o sistema
de pagamento nos Estados Unidos.
Agora, se o fato
de ser mais eficiente do que o sistema de pagamento de algumas empresas
americanas torna [o uso do Pix] desleal, é uma questão conceitual, puramente
subjetiva.
BBC News Brasil -
Os EUA também alegaram que o Brasil beneficia alguns países, como México e
Índia, com tarifas mais baixas, enquanto prejudica os Estados Unidos. Isso faz
sentido?
Meirelles - O Brasil faz taxações
generalizadas para proteger determinados mercados, mas eu não vejo o Brasil
beneficiando especificamente alguns países. Existem alguns tratados [de redução
de tarifas], mas que evidentemente são normais.
BBC News Brasil -
O ministro Alexandre de Moraes restaurou a alta do IOF instituída pelo governo.
Como o senhor avalia os impactos dessa medida para a economia brasileira?
Meirelles - A questão do IOF é muito
controversa, porque o governo certamente está precisando aumentar a arrecadação
e está usando o IOF para isso. Agora, por definição, o IOF é uma medida
regulatória, que não é normalmente usada no Brasil e em outros países como um
imposto arrecadatório – que é o que está acontecendo. Esse é o ponto principal.
Aquela questão de
tirar o IOF de algumas transações importantes, eu acho que melhora um pouco a
questão e viabiliza um pouco mais.
BBC News Brasil - O Moraes ter decidido
sobre esse tema, quando já tinha sido derrubado, desmoraliza o Congresso, como
dizem membros da oposição?
Meirelles - Não acho que desmoraliza o
Congresso necessariamente. Existe uma controvérsia entre o Congresso e o
Executivo, e o Judiciário se pronunciou exatamente sobre o assunto na medida em
que ele foi acionado por uma das partes.
BBC News Brasil - Como o senhor avalia
o projeto de reforma do Imposto de Renda (IR) e a proposta de taxação para os
"super-ricos"?
Meirelles - Isso é uma coisa que tem que
ser olhada com um pouco de cuidado. A isenção àqueles de menor renda, [está]
tudo bem. O problema são esses aumentos generalizados para pessoas de renda
mais alta ou para empresas. Isso aí pode, digamos, prejudicar um pouco da competitividade
com o país sendo visto pelos investidores e etc como de taxação ainda mais
elevada.
O Brasil é dos
países que mais tributam no mundo, principalmente entre os emergentes. A nossa
carga tributária é muito elevada. Então, aumentar ainda mais, tem algumas
desvantagens importantes nesse aspecto de competitividade.
BBC News Brasil -
Mas existem outros países, inclusive países europeus, que aplicam impostos para
super ricos, com alíquota mais elevada, e que são competitivos, não?
Meirelles - São países já ricos, de renda
muito alta, que taxam muito e oferecem muitas vantagens para os seus
habitantes. Mas não são grandes competidores no comércio internacional. Os
maiores competidores no comércio internacional hoje, além dos Estados Unidos,
são a China, o Vietnã, etc.
Se pegarmos
aqueles países, principalmente do norte da Europa, por exemplo, eles não são
grandes competidores no mercado internacional de exportação ou de outras áreas,
porque são países que taxam bastante. Mas, por outro lado, oferecem um padrão
de atendimento à população muito elevado.
BBC News Brasil -
O senhor poderia ser afetado pessoalmente por essa proposta?
Meirelles - Não sei, acho que pode ser. Eu
não cheguei a examinar sob esse ponto de vista no momento. Mas não é algo que
está me preocupando.
BBC News Brasil -
A sua opinião não tem a ver com esse fato, então?
Meirelles - Não.
(Fonte: BBC)




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