Em apenas meia hora, é possível percorrer a pé esta cidade de 45 mil habitantes através das suas pitorescas ruas estreitas, com suas radiantes sacadas repletas de rosas e heras.
O visitante pode chegar às margens do lago Iznik, no outro lado da cidade, sem observar nenhum rastro que indique que aquele local já foi a capital dos impérios Bizantino e Otomano.
Mas a
cidade antes conhecida como Niceia recebe nesta sexta-feira (28/11) a visita
do papa Leão 14, líder da Igreja
Católica, na sua primeira viagem para o exterior, desde a sua posse, em maio
passado.
O ponto
principal da viagem será uma cerimônia a ser assistida pelo papa com o
patriarca ortodoxo Griego Bartolomé e outros líderes cristãos. Eles irão
comemorar os 1,7 mil anos do Primeiro Concílio de Niceia, celebrado no ano 325.
A
visita foi originalmente planejada pelo papa Francisco (1936-2025) e postergada
após sua morte, em abril.
"Uma
das feridas mais profundas na vida da Igreja, atualmente, é o fato de que, como
cristãos, estamos divididos", declarou Leão 14, em entrevista publicada em
setembro.
O
pontífice destacou que a comemoração do Concílio de Niceia é importante, pois é
um ponto de encontro para as diferentes denominações cristãs.
Leão 14
é o quinto papa a visitar a Turquia. Não existem estatísticas oficiais sobre o
número de cristãos no país, mas um relatório do Departamento de Estado dos
Estados Unidos, publicado em 2023, calcula que haja 150 mil fiéis, com base em
relatórios das próprias comunidades cristãs.
O
programa inclui uma visita do papa à Mesquita Azul em Istambul, como também
fizeram seus dois últimos antecessores, Francisco e Bento 16 (1927-2022). Leão
14 irá se reunir com outros líderes religiosos, em um gesto de diálogo
inter-religioso.
O papa
se reuniu ontem (27/11) com o presidente turco Recep Tayyip Erdogan na capital
turca, Ancara, antes de viajar para Iznik.
Na
ocasião, Leão 14 alertou que o mundo não deve "intensificar o nível dos
conflitos em escala global".
Para o
pontífice, "o futuro da humanidade está em risco". Ele pediu a
Erdogan que atue como fonte de estabilidade, em vista da necessidade de
promoção do diálogo entre as nações.
Leão 14
alertou que as guerras atuais são como uma "Terceira Guerra Mundial
travada aos poucos", repetindo uma expressão usada várias vezes pelo papa Francisco, em referência aos conflitos na
Ucrânia, Síria, Mianmar e em outras partes do mundo.
Momento
crucial
Para
entender o que faz de Iznik um lugar tão importante para os cristãos, é preciso
voltar ao século 4, quando foi convocado o Primeiro Concílio de Niceia.
O
Império Romano se estendia, na época, da Escócia até o mar Vermelho e do
Marrocos até os desertos onde hoje ficam a Síria, Jordânia e Iraque.
O
comando estava a cargo do primeiro imperador cristão, Constantino 1° (272-337).
Ele outorgou aos cristãos os direitos legais mais amplos já concedidos desde a
morte de Jesus Cristo, três séculos antes, e permitiu que eles praticassem
abertamente sua religião.
Constantino
convocou o concílio para unificar o Império e a Igreja. Ele desejava se reunir
com o clero para esclarecer desacordos sobre a fé cristã.
O
concílio do ano 325 marcaria uma reviravolta na história romana e cristã. A
cidade passou a ser tão importante para o Cristianismo quanto Jerusalém, Roma
ou Constantinopla (hoje, Istambul).
Inicialmente,
o clero decidiu se reunir na atual cidade de Ancara.
Mas o
imperador Constantino escreveu uma carta, ordenando que eles fossem a Niceia,
explicou à BBC News Turquia o historiador Turhan Kaçar, da Universidade Muğla
Sıtkı Koçman, na Turquia.
A
intenção de Constantino era dirigir pessoalmente o concílio, segundo Kaçar.
"Ele
sabia, pelas reuniões eclesiásticas anteriores, que os bispos resistiriam se
fossem deixados sozinhos", explica ele.
O
historiador indica que, com o Concílio de Niceia, Constantino 1° transformou a
religião em um "instrumento de Estado".
"Quando
os bispos chegaram a Niceia, eles representavam suas próprias comunidades. E,
quando regressaram aos seus locais de origem, representavam o Estado."
Valores
fundamentais do Cristianismo
O abade
da Igreja Católica de Santo Estêvão em Istambul, Paolo Raffaele, concorda que
foi naquele concílio que "a Igreja começou a colaborar com o Estado".
O
concílio ajudou a definir as crenças fundamentais do Cristianismo, declarou
Raffaele à BBC. Ele destaca que foi em Niceia que se atingiu o consenso sobre a
natureza de Jesus Cristo.
Ficou
claramente definido que existe um único Deus, eternamente existente em três
pessoas divinas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. E foi redigido um credo
confirmando os valores fundamentais do Cristianismo.
Estabelecer
a divindade de Cristo foi um momento fundamental na luta contra a chamada
"heresia ariana", que negava que Jesus fosse Deus.
O papa
Leão 14 explicou como as controvérsias sobre estas opiniões representaram
"uma das maiores crises do primeiro milênio da Igreja", reforçando a
importância do concílio.
"Para
os cristãos, este é o próprio centro da nossa fé", afirma Raffaele, sobre
o resultado do concílio.
O
metropolitano ortodoxo grego Maksimos Vgenopoulos destaca que os ensinamentos
definidos no Concílio de Niceia permanecem importantes até hoje.
Iznik é
considerada um centro sagrado de peregrinação para os cristãos de todo o mundo,
segundo ele.
O
denominador comum de todas as igrejas
A
cerimônia que marca os 1,7 mil anos do Concílio de Niceia oferece aos cristãos
a oportunidade de homenagear um símbolo significativo da universidade da
Igreja.
O
professor Kaçar destaca que, quando o Concílio foi realizado, as igrejas
cristãs ainda não estavam divididas entre católicos e ortodoxos. Por isso, os
líderes espirituais modernos consideram aquele acontecimento histórico como uma
"plataforma unificadora".
Vgenopoulos
define o Primeiro Concílio de Niceia como "o denominador comum de todas as
igrejas cristãs que expressam suas crenças hoje, como no passado".
Para
ele, a visita do papa e a cerimônia comemorativa destacam "o patrimônio
histórico e cultural da região e da Turquia".
A
cerimônia comemorativa em Iznik será celebrada perto do sítio arqueológico da
Basílica de São Neófito, situada às margens do lago.
O
professor Mustafa Sahin, da Universidade de Bursa, na Turquia, dirige as
escavações arqueológicas em Iznik.
Ele
afirma que a construção poderá ser a igreja denominada pelas fontes teológicas
como "Igreja dos Santos Padres", que recebeu este nome em homenagem
aos clérigos do Primeiro Concílio.
Ele
afirma que este é um dos possíveis lugares onde o Concílio pode ter se reunido,
1,7 mil anos atrás.
De
forma geral, acredita-se que o Primeiro Concílio tenha se reunido junto ao
lago, fora das muralhas da cidade. Mas, até agora, os estudos arqueológicos não
forneceram nenhuma prova que confirme esta teoria.
Sahin
declarou à BBC News Turquia que ele acredita que a basílica tenha sido
construída posteriormente, no fim do século 4.
Talvez
ela esteja no mesmo lugar onde se acredita que São Neófito tenha sido
assassinado pelos romanos, enquanto tentava difundir o Cristianismo, no início
do século 4.
Sahin
também afirma que o Concílio pode ter ocorrido em um palácio imperial, ainda
não descoberto.
Ao
comentar a visita, o papa Leão 14 destacou a importância de Iznik, no passado e
no presente.
"Alguns
haviam previsto inicialmente um encontro entre o patriarca Bartolomé de
Constantinopla e eu", contou o pontífice. "Pedi que este encontro em
Iznik fosse uma oportunidade ecumênica para convidar líderes cristãos de
diversas religiões ou comunidades cristãs."
"Como
Niceia é um credo, este é um daqueles momentos em que todos nós podemos fazer
uma declaração de fé comum, antes que surjam divisões."
No
sábado (29/11), o papa Leão 14 rezará uma missa para cerca de 6 mil pessoas,
antes de seguir para o Líbano no domingo (30/11), na próxima etapa da sua
(BBC
Brasil)



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