A criação do grupo está prevista em uma resolução
do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU)
endossada em novembro de 2025 e que prevê que ele atue na administração
transitória da Faixa de Gaza até que a Autoridade Palestina finalize um
processo de "reforma".
Durante o lançamento do Conselho, nesta
quinta-feira, Trump estava acompanhado de líderes e representantes de 19 países
que aderiram à iniciativa, entre eles os da Arábia Saudita, Indonésia e
Argentina.
O Brasil também foi convidado pelo governo
norte-americano para fazer parte do novo órgão.
"Eu convidei. Eu gosto dele. Lula terá um
grande papel no conselho da paz de Gaza", disse Trump na terça-feira (20/01).
Até agora, porém, o governo brasileiro não se
manifestou oficialmente sobre o assunto.
Diplomatas com conhecimento do assunto confirmaram
à BBC News Brasil que o governo recebeu o convite e que o país está realizando
consultas internas e junto aos seus aliados sobre se irá ou não aceitar o
convite do presidente Trump, mas que ainda não há prazo para que o Brasil se
manifeste sobre o tema.
Apesar de endossada pelo Conselho de Segurança da
ONU, a proposta vem gerando desconfiança entre analistas e governos sobre os
reais objetivos do órgão criado por Trump.
As dúvidas sobre se o conselho seria exclusivamente
para tratar da reconstrução de Gaza aumentaram nos
últimos dias depois que o conteúdo da carta fundadora do grupo foi divulgado
por veículos de imprensa.
Um dos pontos que chamou atenção no documento foi a
falta de uma menção específica à Faixa de Gaza, o que levantou questões sobre
se o Conselho existiria apenas para lidar com a questão palestina ou se seria
uma tentativa de substituir a ONU, entidade que é frequentemente criticada por
Trump.
A carta prevê, por exemplo, que Trump será o
presidente do Conselho e que o grupo terá um conselho executivo composto, em
grande maioria, por integrantes do governo norte-americano como o secretário de
Estado norte-americano Marco Rubio, o enviado especial do presidente,
Steve Witkoff, e o genro e conselheiro de Trump, Jared Kushner.
Em maio às incertezas sobre o Conselho,
especialistas ouvidos pela BBC News Brasil apontam que o convite feito por
Trump coloca o governo brasileiro diante de alguns dilemas que dificultam uma
decisão rápida sobre integrar ou não o grupo proposto por Trump.
O primeiro deles é resultado da falta de clareza,
até agora, sobre como funcionará e qual a abrangência do conselho.
O segundo está relacionado a uma possível
retaliação norte-americana caso o Brasil recuse participar da iniciativa.
O terceiro é sobre os riscos de perda de influência
regional em caso de recusa do Brasil em participar do grupo uma vez que países
vizinhos da América do Sul já anunciaram sua adesão ao Conselho.
Multilateralismo 'à la Trump'?
Para o professor de Relações Internacionais da Universidade
Internacional da Flórida, Guilherme Casarões, o principal dilema enfrentado
pelo governo brasileiro neste momento é avaliar o quanto o Conselho de Paz
proposto por Trump enfraquece ou não o papel da ONU.
Ele explica que historicamente, o Brasil vem se
posicionado a favor de reformas das estruturas de governança global tais como a
própria ONU e o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Uma das pautas mais recorrentes da diplomacia brasileira,
por exemplo, tem sido o acesso do país a um assento permanente no Conselho de
Segurança da ONU.
Em seus discursos mais recentes, Lula vem criticando a falta de
representatividade da ONU e o fato de que parte das decisões tomadas pelo órgão
não serem cumpridas, principalmente, por superpotências como os Estados Unidos.
Por outro lado, o governo brasileiro mantém a
postura de recorrer aos órgãos do sistema ONU em momentos de tensão internacional.
Para Casarões, a principal dúvida em relação ao
grupo proposto por Trump é se, ao aderir ao grupo, o Brasil não estaria
diluindo a relevância da ONU.
"Algo que foi pensado como uma resposta a um
conflito específico acabou virando um grande guarda-chuva para a resolução de
conflitos internacionais, em contradição direta com as funções da ONU",
disse Casarões.
Em Davos, Trump disse que o Conselho trabalhará
"em conjunto com a ONU", mas voltou a criticar a entidade e comemorou
o poder que o grupo sob seu comando poderá ter no futuro.
"Quando o conselho estiver formado, nós
podemos fazer, basicamente, qualquer coisa que queiramos. E nós vamos fazer
isso em conjunto com a ONU. Vocês sabem, eu sempre disse que a ONU tem um
tremendo potencial que não é usado", disse o líder norte-americano.
Por um lado, o governo Lula se coloca a favor da
reforma das estruturas de governança global como a ONU e o Fundo Monetário
Internacional (FMI).
Entre as pautas históricas da diplomacia brasileira
está o acesso do país um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.
Por outro, o fato de que o presidente Trump terá,
aparentemente, poderes ilimitados sobre o conselho, faz com que o Brasil seja
reticente a aderir ao grupo.
Em entrevista ao jornal O Globo publicada nesta
quinta-feira (22/1), o assessor para assuntos internacionais da Presidência da
República, embaixador Celso Amorim, disse que a proposta de Trump é confusa e
que pode representar uma ameaça à ONU.
"Representa, na prática, uma revogação da ONU,
sobretudo na área de paz e segurança. Essa parte, com certeza, eu não vejo como
aceitar. Não dá para considerar uma reforma da ONU feita por um país (...)
Seria como um Conselho de Segurança, só que com um presidente praticamente
permanente.", disse Amorim.
Casarões avalia que o convite cria um cenário
difícil para o Brasil.
"É uma situação difícil porque ficar de fora
do Conselho impede que esses países participem de qualquer decisão de
reconstrução de Gaza, tema fundamental para nações com interesses geopolíticos
no Oriente Médio. Entrar no Conselho, por sua vez, confere legitimidade a um
agrupamento personalista, sem objetivos claros ou qualquer perspectiva de
resultados".
Retaliação à vista?
Um outro dilema apontado pelos especialistas
ouvidos pela BBC News Brasil é sobre o risco envolvido em uma eventual recusa
do governo brasileiro ao convite de Trump.
Nesta semana, esse temor ficou visível depois que o
presidente francês, Emmanuel Macron, criticou a proposta de Trump.
"Eu acho que aceitar essa nova abordagem
colonialista não faz sentido".
Como resposta, Trump disse que estaria disposto a
impor tarifas sobre a França.
"Eu vou impor tarifas de 200% sobre os seus
vinhos e champagne e ele vai se juntar (ao Conselho)", disse Trump. As
tarifas, no entanto, não foram anunciadas até o momento.
A possibilidade de um novo embate tarifário com os
Estados Unidos é particularmente sensível ao governo brasileiro após a crise
criada no ano passado, quando Trump impôs tarifas de 40% sobre produtos
brasileiros em razão do processo criminal contra o
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Nos últimos meses, porém, as relações entre Trump e
Lula começaram a se estabilizar com dois encontros pessoais e trocas de elogios
e telefonemas que resultaram na queda de parte das tarifas a produtos
brasileiros.
Para o diretor do programa de Direito Internacional
da Chatham House, Marc Weller, a possibilidade de um novo "tarifaço"
demanda ação coordenada de países como o Brasil. A Chatham House é um dos
principais think tanks britânicos, com sede em Londres.
"Todos os países que estão hesitantes em se
juntar ao Conselho da Paz deveriam atuar juntos. Os europeus por meio da União
Europeia e os países da América Latina por meio dos seus organismos regionais
para que nenhum país seja atingido de forma individual pelos Estados Unidos",
diz o professor à BBC News Brasil.
Para Weller, a proposta de Trump pode prejudicar ou
diminuir a relevância da ONU, algo que, em sua avaliação, vai na contramão da
atuação histórica do Brasil. Por isso, o Brasil terá que escolher entre dois
caminhos.
"Por um lado, o país já viu que há
consequências negativas em recusar uma oferta dos Estados Unidos. Por outro, o
país desempenha um papel de liderança nas tentativas de reformar as
instituições internacionais como a ONU para que ela funcione melhor. O Brasil
terá que decidir que caminho tomar".
Já o professor de Relações Internacionais da
Fundação Getúlio Vargas (FGV), Oliver Stuenkel, diz acreditar que o
"custo" de uma eventual recusa do Brasil ao convite de Trump tende a
não ser tão alto.
"Acho que o Brasil não vai aceitar o convite e
o custo disso será menor porque duvido que todo mundo aceite, vários países não
vão topar uma iniciativa sem nenhuma transparência como essa", afirma o
professor em entrevista à BBC News Brasil.
Competição regional
O terceiro dilema criado pelo convite de Trump ao
Brasil é a possibilidade de que isso possa fragilizar a posição de liderança
regional do Brasil na América do Sul.
Isso aconteceria porque, além de convidar o Brasil,
Trump também chamou para o Conselho os governos da Argentina e do Paraguai.
O presidente argentino, Javier Milei, e o do
Paraguai, Santiago Peña, ambos de direita e ideologicamente alinhados a Trump,
participaram do lançamento do Conselho, em Davos.
"A entrada imediata de Argentina e Paraguai
coloca pressão sobre a decisão brasileira, já que o país possui ambições
regionais e não quer se ver alijado do processo", diz Casarões.
O professor explica que o momento geopolítico na
América do Sul é delicado para o Brasil.
Apesar das tentativas brasileiras de reativar
mecanismos de integração regional surgidas durante os seus dois primeiros
mandatos, Lula viu seus esforços dando pouco resultado em meio a uma guinada à
direita na América do Sul.
Nos quatro anos, países antigamente governados pela
esquerda como Argentina, Paraguai, Bolívia e Equador, passaram a ser liderados
por políticos de direita mais alinhados a Trump, neste momento.
Para Casarões, a melhor estratégia para o Brasil
neste momento é colocar o convite em "banho maria".
"Para o Brasil, a melhor estratégia é manter o
convite em compasso de espera (...) Seria uma oportunidade para a afirmação da
relevância brasileira, mas se, e somente se, a configuração do conselho
permitir a participação ativa de países como o Brasil e não se resuma a uma
iniciativa personalista de captação de recursos para a reconstrução de
Gaza".
(Fonte:
BBC)
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