Trata-se da polilaminina, versão derivada da laminina — uma proteína produzida naturalmente pelo nosso corpo — e que foi desenvolvida pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
No início deste ano, o medicamento foi autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a iniciar a fase 1 de estudos clínicos.
Essa é a primeira etapa necessária
para avaliar com rigor uma substância antes que ela possa ser comercializada no
país. Ainda será preciso passar por outras duas fases para avaliar a segurança
e a eficácia da molécula, algo que pode levar alguns anos.
A autorização para o início dos
testes é considerada um marco para pesquisadores que
investigam a molécula há muitos anos e têm obtido resultados promissores em
modelos experimentais para tratar lesões medulares.
"Neste momento, não tenho
certeza absoluta ainda que estaremos diante de algo espetacular, mas isso é
possível", destaca a professora e pesquisadora Tatiana Sampaio, que lidera
as pesquisas na UFRJ.
Apesar de ainda estar longe de ter
uma autorização para ser comercializada e usada em tratamentos, pessoas com
diferentes tipos de lesão na medula têm obtido acesso ao tratamento por meio de
liminares expedidas pela Justiça e têm relatado bons resultados.
Um caso recente foi o da
nutricionista Flávia Bueno, de 35 anos, que ficou tetraplégica após sofrer um
acidente ao mergulhar no mar nos primeiros dias do ano. Após a aplicação da
proteína, em 23 de janeiro, no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, onde ela
está internada, a nutricionista voltou a mexer o braço direito, segundo sua
família.
Para Sampaio, do ponto de vista
científico, o uso de um tratamento experimental dessa forma é
"errado", embora a pesquisadora ressalte que há aspectos humanos que
devem serem considerados para um juiz tome uma decisão sobre determinado caso,
como a gravidade da lesão e a qualidade de vida do paciente.
Lesões medulares geralmente
acontecem após acidentes, como quedas ou batidas de carro e moto, ou episódios
de violência com armas brancas ou armas de fogo.
Existem ainda outras condições que
podem danificar a medula, como doenças infecciosas e autoimunes.
A depender do lugar da medula e da
gravidade da lesão, as consequências são bem graves e podem levar à paraplegia (paralisia dos membros inferiores)
ou tetraplegia (paralisia de
braços e pernas).
Nos casos mais sérios, quando
acontece a lesão completa da medula, cirurgia e programas de reabilitação até
podem ajudar, mas não existe nenhum tratamento disponível para recuperar
plenamente os movimentos.
É nesse contexto que a expectativa
em torno da polilaminina vem crescendo.
No ano passado, a equipe de
Sampaio divulgou os resultados de um estudo preliminar — que não teve revisão
por pares, ou especialistas independentes — com oito pacientes.
Nos testes, conduzidos pela UFRJ
em parceria com a farmacêutica Cristália, a substância foi aplicada diretamente
na medula espinhal durante uma cirurgia e apresentou resultados variados.
Alguns pacientes tiveram alguma
evolução, enquanto outros apresentaram recuperação significativa dos movimentos
— um efeito considerado "sem precedentes" pelos autores.
O que é a polilaminina e como ela
funciona?
A polilaminina é um composto
recriado em laboratório a partir da laminina, uma proteína produzida pelo nosso
corpo, principalmente na placenta.
Ela é muito presente durante a
formação e o desenvolvimento do embrião, onde exerce papel fundamental na
organização dos tecidos e no crescimento celular.
Segundo Sampaio, a laminina é uma
proteína muito "potente" e desempenha diversas funções importantes no
sistema nervoso, "dentre elas fazer o crescimento dos axônios, a parte do
neurônio que é rompida em uma lesão medular".
Como um complexo de moléculas de
laminina, a polilaminina funcionaria como uma espécie de andaime, ao oferecer
suporte para que células nervosas da medula lesionada reconstruam os axônios —
um mecanismo que foi observado em modelos experimentais.
"Você tem uma proteína que já
é muito poderosa, e temos ela agora em uma forma, vamos dizer assim, melhorada
em laboratório", descreve Sampaio.
Rogério Almeida, vice-presidente
de Pesquisa e Desenvolvimento da farmacêutica Cristália — que trabalha junto
com a UFRJ na produção do medicamento —, explica que a polilaminina não é uma
proteína recombinante, ou seja, feita 100% em laboratório.
Para obter a proteína em sua forma
mais próxima da estrutura humana, ela é extraída da placenta, um material
naturalmente rico em laminina.
Segundo Almeida, esse processo é
feito por meio de parcerias da Cristália com alguns hospitais do interior de
São Paulo, onde gestantes são convidadas a doar a placenta, material que
geralmente é descartado após o parto.
"Durante o pré-natal, a gente
apresenta um projeto para essas parturientes, e elas se dispõem a doar a
placenta. A gente acompanha a saúde dessas mulheres para entender que a
placenta que elas vão doar é saudável, para garantir que não vou trazer nenhum
vírus dessas doadoras para o produto final."
A partir daí, inicia-se o processo
de extração e purificação da laminina, separando-a de outras proteínas
presentes na placenta.
Esse produto final purificado vai
ser usado para produzir a polilaminina, um processo que, segundo Almeida, só
acontece no centro cirúrgico, no momento da aplicação na medula do paciente.
"São enviados dois frascos
para o centro cirúrgico. Daí o médico mistura o diluente com a laminina."
Segundo o especialista, isso
permite que as lamininas se organizem e formem uma espécie de "rede"
no local onde elas serão aplicadas — geralmente no trecho acima e abaixo de
onde ocorreu a lesão na medula.
A descoberta da molécula
O estudo da polaliminina começou
meio por acaso.
Anos atrás, um pesquisador da UFRJ
comprou a laminina para um experimento, mas acabou não usando a proteína.
Sampaio se interessou pelo
material e começou a fazer testes, sem imaginar, naquele momento, o potencial
da substância que ela iria encontrar para tratamento de lesões medulares.
"A princípio, eu não sabia
nem para que servia aquilo. Eu não estava procurando um medicamento para lesão
medular e aí encontrei a polilaminina. Foi o contrário: eu tinha uma coisa
chamada polilaminina, que nós que demos o nome, que era um complexo de
moléculas da laminina", explica.
À época, já se sabia que a
laminina desempenha um papel fundamental no crescimento dos axônios —
estruturas que são rompidas em uma lesão medular.
A conexão parecia clara. "Nós
pensamos que [esse composto] poderia ser usado como medicamento, assumindo que
ele seria mais potente, mais estável", conta Sampaio.
A partir dessa hipótese, a equipe
passou a testar a polilaminina primeiro em células isoladas e, depois, em
diferentes modelos de trauma medular em ratos.
Segundo a bióloga, os resultados
se repetiam de forma consistente.
"Sempre funcionava.
Independentemente do tipo de lesão, os axônios voltavam a crescer. Foi isso que
nos deu confiança para seguir adiante", afirma ela.
Questionada pela BBC News Brasil
se esses resultados preliminares causaram surpresa, a pesquisadora disse que
não.
"O esperado é que a
polilaminina funcione. Na verdade, nossa surpresa é que sempre imaginamos que
algo vai dar errado, que é tudo muito bom para ser verdade", confessa ela.
Evidências até o momento
Uma das pesquisas conduzidas pela
UFRJ envolveu um grupo de oito pacientes com lesões medulares completas,
classificadas como tipo A — casos em que a recuperação espontânea dos
movimentos é rara.
As lesões medulares são
classificadas segundo o local, ou a altura, que elas aconteceram, e também de
acordo com a gravidade, numa escala que vai de A (a mais grave e com maior
número de complicações) até E (seriedade menor e maiores perspectivas de recuperação
plena).
Segundo médicos consultados pela
BBC News Brasil, é normal que um paciente receba uma classificação logo após a
lesão — quando o trauma, o edema e o inchaço ainda são volumosos — e isso se
modifique para melhor com o passar do tempo.
Ou seja: um paciente pode ser
classificado com uma lesão B no início, mas, com os cuidados hospitalares, isso
evolua positivamente para um C, por exemplo.
No estudo experimental com a
polilaminina, metade dos voluntários tinha lesões na região cervical (mais
perto do pescoço) e a outra metade na região torácica (na região do tórax),
grupo que, segundo Sampaio, apresenta perspectivas ainda mais limitadas de
evolução segundo as evidências e o histórico de casos.
Eles receberam a aplicação da
polilaminina em caráter experimental, em uma espécie de teste-piloto.
O estudo foi realizado em ambiente
universitário, em parceria com a Cristália, e utilizou dados históricos
amplamente documentados na literatura como referência, para comparar a evolução
esperada entre esses pacientes.
"A gente não precisou ter
dois grupos, um de pacientes tratados e um de controle, que não faria o
tratamento, para comparar os resultados. Pudemos aproveitar que existe um
'grupo de controle universal' e fazer um estudo clínico com um grupo único",
explica a pesquisadora Tatiana Sampaio.
Durante o estudo, dois pacientes
morreram em decorrência da lesão, mas os outros seis recuperaram o controle dos
movimentos.
O resultado indicou uma taxa de
75% de recuperação de movimentos — um percentual muito superior aos 15%
observados em dados históricos da literatura científica que acompanharam
pacientes com lesões semelhantes, que fizeram intervenções como cirurgias para
descomprimir a coluna, sessões de fisioterapia e medicações para lidar com a
dor e a inflamação.
Vale lembrar que essa pesquisa foi
divulgada como um pré-print — tipo de artigo que não recebeu uma avaliação de
especialistas independentes, que não estavam envolvidos com a pesquisa.
Sampaio ainda pondera que o estudo
ainda não reúne todas as características necessárias para afirmar a eficácia da
polilaminina, mas a diferença observada sugere a existência de um resultado
promissor.
"Acho que o valor dessa
diferença [de 15% para 75%] que nós conseguimos encontrar foi grande o
suficiente para convencer pelo senso comum", afirmou.
Além disso, um dos seis pacientes
recuperou os movimentos, apresentando uma melhora considerada
"extraordinária" pelos pesquisadores.
Segundo Sampaio, esse paciente
ficou em um hospital de excelência e recebeu mais estímulos durante o
tratamento, o que pode ajudar a explicar a diferença no resultado.
"A regeneração que esperamos
com o tratamento significa que um axônio, que é a parte do neurônio que foi
rompida, vai crescer em um ambiente inóspito. Não basta que ele readquira o
potencial de crescimento, é importante essa estrutura 'saiba' para onde ir e
seja estimulado para isso", diz a pesquisadora.
"Em outras palavras, quero
dizer que a fisioterapia é absolutamente essencial, porque esses axônios têm
que ser instruídos. Eles têm que saber o que eles vão fazer e para onde eles
vão. Então você precisa de estimulação pelo próprio exercício."
O que acontece a partir de agora
A partir dessas evidências, a
Anvisa e o Ministério da Saúde aprovaram o início de estudos clínicos de fase 1
com a polilaminina.
Essa fase vai avaliar a segurança
da substância em cinco pacientes, para conferir se a aplicação é bem tolerada e
não provoca efeitos colaterais graves.
Sampaio explica que todos os cinco
pacientes terão o tipo mais severo de lesão medular, a lesão modular completa,
e na região torácica. A injeção da substância deverá ocorrer em até 72 horas
após o acidente.
"A maioria dos pacientes que
sofrem uma lesão medular tem necessidade de uma abordagem cirúrgica de
emergência, então, a aplicação é feita nesse momento", destacou.
O estudo será conduzido em
parceria com o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade
de São Paulo (USP) e a Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, instituições
que contam com cirurgiões treinados para a aplicação da substância.
Já a etapa de reabilitação contará
com o apoio da AACD, organização sem fins lucrativos dedicada ao tratamento de
pessoas com mobilidade reduzida permanente ou temporária.
A previsão é que essa etapa seja
concluída em cerca de um ano. Se os resultados forem considerados positivos, o
estudo avança para a fase 2, cujo objetivo é determinar a eficácia do
tratamento.
Em seguida, uma eventual fase 3
combina análises de segurança e eficácia, com ainda mais rigor.
Somente após concluir esse
processo, a Anvisa poderá avaliar a aprovação da polilaminina como tratamento
para todos os pacientes que se encaixarem no perfil avaliado.
Segundo Rogério Almeida, da Cristália,
a ideia é concluir a fase 1 até o fim deste ano e evitar que cada etapa
ultrapasse um ano de duração.
"Agora, precisamos gerar os
dados clínicos, em seres humanos, dentro de todo o rigor regulatório que um
estudo para registro de produto pede", diz Almeida.
"Se tudo correr bem, em 2028,
a gente conseguiria submeter o pedido de registro definitivo."
Uso experimental por meio de
liminares
Mesmo sem autorização para
comercialização, e ainda em uma fase inicial de pesquisas, a polilaminina tem
levado pessoas, com diferentes tipos de lesão medular, a entrar na Justiça para
obter acesso ao tratamento por meio de liminares.
Para Sampaio, do ponto de vista
científico, o uso de um tratamento experimental dessa forma é "errado,
inadequado e impróprio"
"É errado do ponto de vista
ético, porque a pessoa está fazendo uso de um tratamento experimental sem os
resultados, sem que haja garantia de coleta de dados a partir desse uso",
avalia ela.
"Imagina se tiver um efeito
adverso que acontece uma em cada cem pessoas. Ele ainda pode aparecer e a gente
talvez não fique sabendo", complementa a cientista.
Ao mesmo tempo, Sampaio destaca
que é preciso também considerar o aspecto humano de uma situação dessas.
"Eu sou uma pessoa. Então,
quando estou diante de um indivíduo que diz para mim: 'Meu parente não tem
nenhuma perspectiva de melhora. Tem uma lesão muito alta, vai ter uma qualidade
de vida péssima. Me ajuda, por favor.'"
"E ela me pergunta: 'Você
acha que pode funcionar?' Eu respondo: 'Sim, acho.' E aí eu ajudo", declarou
ela.
"Felizmente, eu não posso
tomar essa decisão, mas um juiz pode."
Para a médica fisiatra Ana Rita
Donati, que não esteve envolvida diretamente nas pesquisas com a polilaminina,
ainda é cedo para qualquer uso amplo ou fora de protocolos de pesquisa.
Ela pondera que é fundamental ter
cautela, especialmente porque há casos de lesão medular em que o paciente pode
apresentar melhora, mesmo sem o uso de novos remédios.
"A gente sempre tem que ter
muita atenção quando fala em recuperação neurológica, porque já se espera algum
grau de melhora mesmo sem a introdução de um medicamento novo", explica a
médica, que trabalha na AACD.
A médica reconhece a urgência
sentida por quem está diante de uma lesão medular, mas lembra que avanços
terapêuticos em outras áreas seguiram caminhos longos até chegar ao uso na
prática clínica.
"A gente fica com
expectativa, né? A gente quer dar a melhor condição para o paciente",
admite a especialista.
"Mas, nessas horas, a gente
que tem o conhecimento, tem que ter mais tranquilidade para falar: 'Calma,
vamos respirar. Vamos ver como vai o desenrolar disso'", prossegue.
"Vamos ainda precisar de um
bom tempo para tentar entender. E um bom número de pacientes também, para a
gente conseguir chegar a algumas conclusões [sobre a polilaminina]."
(Fonte: BBC Brasil)




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