O dado representa 52,4% de todas as ocorrências documentadas pela
Comissão Pastoral da Terra (CPT) no período. Para os pesquisadores, essa
estatística mostra que a exploração humana faz parte do modelo de expansão
agrícola.
Isabel Figueiredo, do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN),
e uma das idealizadoras da plataforma, reforça que o agronegócio avança ao
custo de violações. “Ele deixa um rastro para trás de impactos que são bem
evidentes quando a gente vai analisando os dados da plataforma”, explicou.
A plataforma demonstra que o debate sobre direitos humanos no campo
precisa ser ampliado para além das relações trabalhistas formais. “Direitos
humanos não é apenas você estar observando se o seu funcionário segue a
Consolidação das Leis do Trabalho [CLT] ou se ele está usando equipamento de
proteção individual”, defendeu a pesquisadora.
Grilagem verde
Um dos destaques da análise é a mudança na dinâmica de conflitos após a
reforma do Código Florestal em 2012. A legislação impulsionou a chamada
“grilagem verde”, onde áreas conservadas de comunidades tradicionais são
apropriadas para servirem de reserva legal de grandes propriedades rurais.
Esse processo atinge diretamente povos como os Geraizeiros e as
comunidades de fundo e fecho de pasto, que possuem ocupação histórica. “Toda
vez que tem uma ampliação, você entra na terra que é usada ou utilizada, o que
é uma referência importante”, detalhou Jean François Timmers, líder de
Políticas e Advocacia da World Wide Fund for Nature (WWF).
O descompasso entre a legislação e a realidade territorial gera o que o
Observatório chama de conflitos sistêmicos. O modelo de expansão é criticado
por ignorar que “nenhuma terra é vazia”, gerando impactos humanos profundos que
são muitas vezes esquecidos nas discussões sobre desmatamento.
Para Marina Comandulli, assessora de Direitos Humanos e Desmatamento da
Global Canopy, a invisibilidade dessas populações nos mapas oficiais do governo
federal é um dos principais gargalos para a proteção de seus direitos. “A gente
quer que as comunidades tradicionais possam existir para as pessoas”, pontuou
durante a demonstração das funcionalidades do site.
O objetivo da plataforma é combater essa lacuna, integrando dados do
aplicativo Tô no Mapa, que permite o
automapeamento de territórios ancestrais. A intenção é dar nome e localização
geográfica a grupos que, embora não tenham títulos de terra, ocupam as mesmas
áreas há séculos.
Transparência e mercado internacional
A ferramenta utiliza bases de dados consolidadas do Instituto Brasileiro
do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Instituto Nacional
de Pesquisas Espaciais (Inpe) e MapBiomas, além do índice de risco climático do
Adapta Brasil. O cruzamento dessas fontes permite identificar que estados como
Pará, Minas Gerais e Maranhão lideram o ranking nacional de ocorrências
violentas.
O Pará figura no topo com 15.383 registros, seguido por Minas Gerais
(8.479), e Maranhão (7.219). A expansão da soja e da pecuária nesses estados
coincide quase que milimetricamente com as áreas de maior recorrência de
conflitos fundiários.
A plataforma também foi desenhada para atender à crescente demanda
internacional por rastreabilidade socioambiental. Nesta terça-feira (28),
ocorrerá uma reunião com embaixadas da União Europeia para apresentar a
ferramenta como subsídio ao regulamento contra o desmatamento importado.
As organizações esperam que a transparência técnica da plataforma
pressione as empresas compradoras e os grandes grupos econômicos. “Esse sistema
por si só comprova para o mercado que é importante ter essa informação”,
afirmou Jean.
O objetivo não é o boicote generalizado a regiões produtoras, mas sim o
aumento do risco reputacional para forçar soluções. “O que a gente quer é que
essas empresas, essas companhias trabalhem com esses problemas e tentem
resolvê-los”, explicou Marina.
Disputa pela água e mineração
Outra frente de alerta são os conflitos por água, que registraram seu
pico histórico no ano de 2019. Minas Gerais lidera essa categoria devido à
intensa atividade de mineração, concentrando cerca de 60% das outorgas
minerárias de todo o país.
Na Bahia, os conflitos hídricos estão ligados ao uso intensivo de
irrigação no oeste do estado, que pressiona bacias hidrográficas críticas. A
plataforma permite visualizar municípios como Correntina e Barreiras, onde a
disputa pelo uso da água gera confrontos diretos e mobilizações populares.
Ao oferecer dados sólidos e organizados, o Observatório Socioambiental
pretende qualificar a discussão pública no Brasil e no exterior. A expectativa
é que gestores públicos e o sistema de justiça utilizem o mapa para embasar decisões
mais éticas sobre o uso dos recursos naturais.
(Brasil de Fato)


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