Em um grupo de WhatsApp monitorado por pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), uma advogada de 29 anos de São Paulo diz que não se surpreendeu com o áudio enviado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.
Bolsonarista moderada, ela diz que tem a sensação
de que todos são "farinha do mesmo saco". "Os apoiadores fiéis
vão fingir que nada aconteceu, e por isso ele não deve desistir da
candidatura", afirma.
"Essa notícia prejudicou a reputação dele; se
alguém estava na dúvida sobre votar nele, acho que se inclina para não votar
mais."
A avaliação da advogada resume um movimento
identificado pelos pesquisadores após a crise que atingiu a campanha do
pré-candidato à Presidência.
No dia 13 de maio, o portal The Intercept Brasil
revelou áudios em que Flávio Bolsonaro negocia com Vorcaro investimentos para
custear as gravações de um filme sobre seu pai, o
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Segundo a reportagem, o repasse total acordado
seria de US$ 24 milhões, o equivalente a cerca de R$ 134 milhões na época.
Desse montante, R$ 61 milhões teriam sido de fato liberados entre fevereiro e
maio de 2025.
Entre setores conservadores menos ideológicos,
justamente um dos grupos considerados estratégicos para as eleições de 2026, a revelação provocou um
desgaste relevante na imagem de Flávio Bolsonaro, segundo o Monitor do Debate
Público (MDP).
O projeto do Instituto de Estudos Políticos e
Sociais da UERJ, com o auxílio do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia
(INCT/ReDem), mostra que bolsonaristas convictos mantiveram apoio a Flávio e
interpretaram o episódio como perseguição política e midiática.
Mas, entre grupos de bolsonaristas moderados e,
principalmente, entre conservadores indecisos, apareceram críticas às versões apresentadas pelo senador, dúvidas
sobre sua credibilidade e sinais de cansaço com a política.
Os pesquisadores da UERJ acompanham, desde 2023,
grupos de WhatsApp formados por diferentes perfis de eleitores.
Atualmente, o estudo monitora seis segmentos,
identificados pelos pesquisadores como bolsonaristas convictos, bolsonaristas
moderados, indecisos conservadores, indecisos progressistas, lulodescontentes e
lulistas.
Os participantes, que recebem semanalmente
perguntas sobre fatos recentes da política brasileira, receberam o áudio de
Flávio Bolsonaro e foram estimulados a comentar o episódio e avaliar os
impactos eleitorais.
'A direita deve ficar junta'
A cientista política Carolina de Paula, que
coordena o estudo com o pesquisador João Feres Jr., afirma que o episódio foi
um dos raros momentos em que surgiram divergências dentro de segmentos
conservadores, que costumam estar alinhados.
"O que é interessante é que os bolsonaristas
moderados tendem a trabalhar junto com os convictos, de modo geral. Mas houve
um certo desgaste no sentido de falar que a credibilidade dele [Flávio
Bolsonaro] poderia estar em jogo", disse à BBC News Brasil.
Segundo ela, os bolsonaristas mais fiéis
permaneceram alinhados ao pré-candidato do PL, mas com uma diferença importante
em relação a crises anteriores.
"Eles não se abalam, zero. Mas aparece uma
coisa que a gente ainda não tinha visto muito nesse grupo: uma ideia de que ele
precisa provar sua inocência", afirmou a pesquisadora.
Uma administradora de 47 anos da Bahia defendeu
essa posição. Mesmo mantendo o apoio ao senador, ela afirmou que ele deveria
apresentar mais esclarecimentos.
"Flávio precisa apresentar toda documentação
desse patrocínio com a comprovação de origem e destinação de cada centavo se
não quiser comprometer sua campanha eleitoral", escreveu.
"Tenho certeza que o capitão teria tomado essa
decisão de recusar qualquer quantia", afirma, em referência ao ex-presidente
Bolsonaro.
Os participantes desse grupo também interpretaram o
caso como uma tentativa de desgaste político articulada pela mídia e
adversários. Muitos deslocaram o foco do conteúdo das denúncias para ataques à
imprensa.
"Para começo de conversa, o que a gente ouve
ali é uma conversa sobre buscar patrocínio privado para um filme",
escreveu uma enfermeira de 24 anos, de Goiás, integrante do grupo de
bolsonaristas convictos.
"Todos nós sabemos que em período eleitoral,
qualquer conversa ou áudio antigo é jogado na imprensa com o único objetivo de
desgastar a imagem do candidato", concluiu.
Entre bolsonaristas moderados, predominou um
discurso mais ambivalente. Os participantes, por exemplo, criticaram bastante
as mudanças de versões de Flávio.
Na semana passada, ao ser abordado por um repórter
do The Intercept Brasil, o senador inicialmente negou a informação sobre os
repasses ao filme Dark Horse. Horas depois, após a publicação da
reportagem, ele admitiu ter negociado recursos privados com Vorcaro para
financiar a produção.
Um pensionista de 72 anos, do Rio de Janeiro,
afirmou que o senador estava "começando a se enrolar nas próprias
alegações". "Isso só vai minando a credibilidade dele e a imagem que
ele não tinha envolvimento com Vorcaro", escreveu.
Mas, por outro lado, o grupo demonstrou preocupação
com os impactos eleitorais para a direita.
Um eletrotécnico de 53 anos do Rio Grande do Norte
disse que a direita estava "entregando de mão beijada a eleição para o
atual sistema". "E continuarmos nessa doutrinação maligna, até o
Brasil afundar de vez e levar o povo brasileiro junto", disse.
"Mas na atual conjuntura, mesmo errados, a
direita deve ficar junta e não partida ao meio. Lá na frente isso só vai lascar
o povo brasileiro", ele ponderou.
O grupo dos bolsonaristas moderados mostrou
resistência a abandonar a candidatura de Flávio por receio de enfraquecer a
direita diante do PT, analisa Carolina de Paula.
"É um grupo muito mais preocupado com a
preservação do campo conservador. Tem um antipetismo muito forte nesse
segmento. Então, como eles ainda não veem possibilidade de outro nome forte, ainda
existe o apoio a Flávio Bolsonaro."
'Não confio em ninguém dessa família'
Segundo a pesquisadora, o segmento mais sensível ao
episódio foi o dos indecisos, grupo visto como estratégico no próximo pleito
eleitoral.
"Há muita desconfiança", resumiu
Carolina. "Eles questionam a contradição, veem incoerência e problemas na
relação entre política e empresariado. É um público que pode simplesmente se
afastar, aumentar a abstenção e o cansaço com a política", afirma.
Entre os conservadores, houve estranhamento e
irritação com a ligação do senador com o banqueiro.
Uma maquiadora de 30 anos, do Rio de Janeiro, notou
a mudança das versões dadas por Flávio. "Interessante, ele confirma que
recebeu o valor, e a produtora do filme nega esse recebimento. Talvez pra não
'sujar' a imagem da empresa estejam negando assim", disse ela, que
participa do grupo de indecisos conservadores.
"Não confio em ninguém dessa família."
Já entre os indecisos progressistas, a reação foi
diferente. Nesse segmento, o caso não gerou exatamente surpresa, mas funcionou
como reforço de percepções negativas já existentes sobre o bolsonarismo.
O grupo também mostrou rejeição ao próprio filme
sobre Jair Bolsonaro, interpretado como instrumento de propaganda política.
"O que pega muito para eles é essa ideia de
usar um filme para convencer ou enganar", disse Carolina de Paula.
"Tudo que eles veem como tentativa de propaganda política gera muita
irritação."
Episódio rompe com a polarização?
Para a pesquisadora, o desgaste entre os indecisos
não significa necessariamente migração de votos para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ou para a
esquerda.
Ela afirma que o episódio pode aumentar o distanciamento
em relação à política institucional, estimulando abstenção, voto em branco ou
busca por alternativas dentro da própria direita.
Carolina enxerga que o episódio pode abrir espaço
para candidaturas que consigam capturar esse eleitorado mais moderado e cansado
da polarização.
"A posição do [Romeu] Zema foi acertada para
tentar pegar justamente esse público do meio, que fala muito de transparência e
coerência", disse a pesquisadora, mencionando as críticas feitas pelo
ex-governador de Minas Gerais ao caso.
Zema classificou como "imperdoável" a
conversa em que Flávio pede dinheiro a Vorcaro — manifestação que o tornou alvo
de críticas por parte da direita. Dias depois, disse que o assunto era
"página virada".
Ainda assim, ela afirma que ainda é cedo para
afirmar quem poderia capitalizar eleitoralmente o enfraquecimento de Flávio
Bolsonaro.
Carolina também não enxerga, por enquanto, um
rompimento na lógica de polarização.
Até aqui, o cenário de um segundo turno entre
Flávio Bolsonaro e o presidente Lula vem sendo considerado o mais provável para
as eleições de 2026.
O Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil mostra
estimativas de intenções de voto similares para o filho de Jair Bolsonaro e o
petista em um eventual segundo turno. Clique aqui para ver.
"Para isso, você tem que ter uma pessoa que
arrisque uma outra saída. Mas a gente não tem nenhum nome", disse.
"Mesmo quem tenta um discurso outsider, como Renan Santos ou Zema, está muito ligado
ao campo do bolsonarismo."
Para que o eleitor saia da polarização, ela afirma,
algum candidato teria que tentar ocupar uma posição associada à moderação e à
coerência.
Os pesquisadores ressaltam que o monitoramento não tem valor estatístico e não pretende representar numericamente o eleitorado brasileiro. É uma pesquisa qualitativa, usada para captar sentimentos, percepções e dinâmicas discursivas entre perfis específicos de eleitores.
"São pesquisas que não exigem um registro do
TSE para serem divulgadas e são usadas para fazer aprofundamento. As campanhas
eleitorais usam muito também", afirma.
"A qualitativa funciona muito como um
termômetro rápido. Ela permite captar ruídos, emoções e mudanças de clima
político antes mesmo de isso aparecer nas pesquisas quantitativas."
A pesquisadora explica que a pesquisa é feita com
recorte de um perfil específico, desenhado para entender esse perfil de
eleitor. "Ela é uma parte da leitura do cenário", diz. "A partir
dessas inferências, podemos acompanhar como isso se reflete em dados
quantitativos ou mesmo nas redes sociais."
A percepção da crise para a pré-campanha de Flávio
Bolsonaro apareceu também nos dados quantitativos divulgados nesta terça-feira
(19/5) pela AtlasIntel.
Segundo levantamento encomendado pela Bloomberg,
Lula abriu sete pontos de vantagem sobre Flávio Bolsonaro em um eventual
segundo turno, na primeira pesquisa realizada após a divulgação dos áudios
envolvendo Vorcaro.
Flávio caiu seis pontos percentuais em relação ao
levantamento anterior, enquanto sua rejeição subiu para 52%.
A AtlasIntel mostrou ainda que 55% dos
entrevistados que tomaram conhecimento dos áudios consideraram as mensagens uma
evidência de investigação legítima sobre possíveis irregularidades, enquanto
33% avaliaram tratar-se de uma tentativa de prejudicar o senador.
(Fonte:
BBC)


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