Trump afirmou em uma publicação na rede Truth Social que a reunião havia sido "muito boa" e chamou Lula de "dinâmico". O presidente brasileiro, por sua vez, disse ter saído "muito satisfeito da reunião".
Ainda assim, a ausência de uma declaração conjunta
à imprensa após o encontro foi interpretada por analistas como um sinal de que
divergências importantes ainda permanecem à mesa.
O próprio presidente brasileiro
reconheceu que os dois governos ainda divergem em temas centrais, especialmente
na área comercial.
"Ele sempre acha que nós
cobramos muito imposto", afirmou Lula ao comentar as discussões sobre
tarifas. Segundo o presidente brasileiro, o governo propôs a criação de um
grupo de trabalho para negociar as divergências comerciais em até 30 dias.
"Quem tiver errado, vai ceder. Se a gente
tiver que ceder, nós vamos ceder. Se vocês tiverem que ceder, vocês vão ter que
ceder."
Daniel Bush, correspondente da BBC News em
Washington, avalia que a decisão de cancelar a aparição conjunta no Salão Oval
foi significativa.
"Trump costuma apreciar a oportunidade de se
reunir com líderes estrangeiros na Casa Branca e frequentemente transforma
essas visitas em longas coletivas de imprensa informais", diz o
jornalista.
Neste contexto, a decisão de evitar uma aparição
conjunta com o presidente brasileiro foi "reveladora", afirma.
Ele lembra que a visita ocorreu em um momento
delicado da relação bilateral, marcado por disputas sobre tarifas e outras
questões econômicas. E que Trump pressionou Lula a retirar as acusações contra
o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado por tentativa de golpe de
Estado.
"A ausência de uma aparição conjunta diante da
imprensa no Salão Oval sinaliza que os líderes continuam muito distantes em
questões-chave."
Oliver Stuenkel, professor associado de Relações
Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV), em São Paulo, também avalia
que a ausência de uma fala conjunta após o encontro indica que "algumas
divergências continuam sobre a mesa".
Segundo ele, caso houvesse acordo em temas centrais,
os presidentes provavelmente teriam feito uma declaração pública conjunta,
ainda que isso não torne o saldo da reunião negativo, pelo contrário.
Dawisson Belém Lopes, professor de Relações
Internacionais da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), concorda. Para
ele, a recepção cordial dada a Lula indica uma normalização da relação
bilateral após meses de desgaste.
"Tomaria cuidado para não exagerar, não
superinterpretar esse cancelamento [da aparição ante a imprensa no Salão
Oval]", diz.
"Lula é tratado como interlocutor importante,
respeitável. Foi recebido literalmente com tapete vermelho e foi tratar de
assuntos de Estado, independentemente das divergências que possam existir, e
que certamente existem entre Trump e ele", afirma.
Lopes enxerga uma mudança de estratégia da Casa
Branca em relação ao Brasil após meses de tensão e confrontos públicos.
"Trump é muito experimental na sua forma de
fazer política, geralmente. E política externa, especificamente. Ele se move
por tentativa e erro, e nesse caso específico, já fez uma tentativa de
confrontar o Lula e o Brasil. E isso não rendeu pra ele dividendos. Isso não
rendeu nenhum tipo de recompensa", afirma.
Segundo o professor, Washington passou a adotar,
desde setembro do ano passado, quando os líderes se encontraram na Assembleia
Geral da ONU, em Nova York, uma abordagem mais pragmática e menos ideológica na
relação bilateral.
"Ele vem tentando, e a diplomacia
estadunidense vem tentando, acho que de um modo mais construtivo. De algum
tempo para cá, desde setembro do ano passado, eu diria que mudou a
abordagem", disse.
O encontro realizado "longe dos
holofotes" e sem uma declaração conjunta à imprensa indicaria justamente
essa mudança de tom, diz o especialista.
"Aparentemente se pautou por metas, por pautas
que são mais concretas, menos ideológicas", afirmou. "Esse encontro
sinaliza a chegada de um novo momento nas relações bilaterais."
Oliver Stuenkel, da FGV, avalia que o fato de Lula
e Trump terem conversado por cerca de três horas pode indicar um esforço de
construção de relação pessoal entre os dois líderes, algo que considera
especialmente importante "em tempos de Trump".
"Era preciso estabelecer e aprofundar a
relação pessoal, que é um elemento fundamental da relação bilateral",
afirmou.
Para Stuenkel, o governo brasileiro não esperava
grandes concessões imediatas do presidente americano, especialmente em temas
sensíveis, como a possibilidade de os EUA classificarem facções criminosas
brasileiras, como PCC e Comando Vermelho, como organizações terroristas.
"Não era realista convencer o Trump a reverter
todas as demandas."
Na avaliação do professor, a estratégia brasileira
parece ter sido mais focada em reduzir riscos de novos atritos do que em obter
uma vitória diplomática imediata.
"Talvez não seja tão relevante ou tão
inteligente buscar uma grande vitória, um triunfo, fazer o Trump recuar, mas
sim simplesmente reduzir o risco de os Estados Unidos avançarem nessa
direção", afirmou.
Eleições à vista
Oliver Stuenkel considera positivo o fato de não
ter havido tensão pública entre os dois líderes.
"É um momento muito delicado na relação
bilateral", disse. Ele cita o combate ao crime organizado, possíveis
debates relacionados ao Irã e o risco de eventual interferência americana nas
eleições brasileiras de outubro.
Para Dawisson Belém Lopes, a proximidade das
eleições, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, faz com que haja interesse
político dos dois lados em evitar desgastes públicos.
"No Brasil, haverá eleições presidenciais logo
mais e Lula busca a reeleição, então ele deve evitar temas espinhosos e
qualquer coisa que possa ser usada contra si", afirma. Já Trump também
enfrenta pressão política doméstica diante das eleições legislativas de meio de
mandato nos Estados Unidos.
"É interessante para as duas partes não criar
fatos políticos negativos e administrar os principais pontos
contenciosos", afirmou Lopes.
Na avaliação do especialista, isso também ajuda a
explicar por que temas sensíveis não foram tratados diretamente pelos
presidentes.
"É óbvio que o Pix é um ponto não negociável
[para o Brasil], assim como a ideia de que os Estados Unidos possam fazer
ingerência na segurança pública brasileira", afirmou.
Segundo ele, Lula e Trump evitaram temas
considerados "insolúveis de saída".
"Trump já não é um iniciante a essa altura,
muito menos Lula. Como se trata de diplomatas experientes, chefes de estado
experientes, eles tratam de se desviar dos obstáculos que são
intransponíveis."
O saldo político do encontro tende a ser mais
positivo para Lula, diz o especialista, especialmente diante da assimetria de
poder entre os dois países.
"Os Estados Unidos são mais importantes para o
Brasil do que o Brasil o é para os Estados Unidos", afirmou. "Então,
nesse caso, se houve empate, é melhor para o Brasil."
(Fonte: BBC)



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