quinta-feira, 14 de maio de 2026

Vorcaro, rachadinha e milícia: os fantasmas que rondam a campanha 'moderada' de Flávio Bolsonaro

"Não é à toa que você é Bolsonaro moderado". A fala é de Fernanda, esposa do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ0, em um vídeo compartilhado por ambos nas redes sociais em abril.

"Reeduquei ele", acrescenta ela, reforçando um certo distanciamento entre o marido e seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

O conteúdo, que apresenta brevemente a história do casal e a rotina familiar com as duas filhas, faz parte da principal estratégia de campanha do parlamentar para alcançar o Palácio do Planalto: herdar o eleitorado do pai, ao mesmo tempo que busca atrair aqueles que o rejeitam por seu estilo e posições extremas.

No mesmo vídeo, Flávio também diz ser "o Bolsonaro que tomou vacina", em contraponto à conduta do então presidente na pandemia de covid-19, quando levantou dúvidas sobre a eficácia da vacinação e se posicionou contra medidas preventivas, como uso de máscaras e o isolamento social.

Para muitos analistas políticos, a resposta do governo Bolsonaro à crise do coronavírus foi o principal motivo para ele ter perdido a tentativa de reeleição em 2022 para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que, agora, deve enfrentar seu filho em outubro.

Ambos despontam como os candidatos mais fortes na corrida presidencial, após Flávio subir rapidamente nas intenções de voto, desde que anunciou, em dezembro, ter sido escolhido por seu pai para disputar a presidência pelo PL. Segundo o agregador de pesquisas da BBC News Brasil, os dois aparecem empatados em um eventual segundo turno. 

Até aqui, o cenário de um segundo turno entre Flávio Bolsonaro e o presidente Lula vem sendo considerado o mais provável para as eleições de 2026. O Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil mostra estimativas de intenções de voto similares para o filho de Jair e o petista em um eventual segundo turno. (Clique aqui para ver)

Os planos de Flávio, porém, podem ter sofrido um abalo nesta quarta-feira (13/5), com a revelação de que manteve conversas com o banqueiro Daniel Vorcaro cobrando aportes milionários em para a produção de um filme em homenagem ao seu pai.

Segundo o portal Intercept Brasil, o banqueiro teria repassado ao menos R$ 61 milhões para a obra no ano passado e Flávio teria feito contatos cobrando a liberação dos valores restantes do acordo de financiamento, que chegaria a R$ 134 milhões.

O senador nega qualquer ilegalidade, mas agora terá que responder na campanha pela proximidade com um dos nomes mais tóxicos da política brasileira — Vorcaro está preso negociando um acordo de delação premiada com potencial para atingir altas autoridades.

"No nosso caso, o que aconteceu foi um filho, procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai. (...) Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem", disse em nota.

A conexão com Vorcaro se soma a denúncias antigas que assombram o concorrente presidencial, como suspeitas de rachadinha (desvio de verba parlamentar) e vínculo com o miliciano Adriano da Nóbrega, ambas da época em que era deputado estadual no Rio de Janeiro — Flávio também nega as acusações.

Para Yuri Sanches, diretor de risco político da AtlasIntel, o desafio para sua campanha aumentou.

"Flávio precisa desconstruir a rejeição dele atrelada ao sobrenome e aos casos de corrupção. Ao mesmo tempo, ele tenta construir uma imagem de gestor diferente do pai, de um Bolsonaro moderado, que tomou vacina e alguém experiente, ainda que não tenha experiência de gestão", afirma.

"Esse caso [envolvendo Vorcaro] vem como um balde de água fria nesse processo de desconstrução que estava sendo feito", ressalta.

Bolsonarismo moderado?

Enquanto Flávio tenta construir uma versão suave do seu mentor, o lado petista investe na ideia de que "não existe Bolsonaro moderado" e que Flávio defende as mesmas agendas do ex-presidente.

Um vídeo compartilhado em abril pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) o acusa de ser de "extrema-direita" e "uma ameaça à nossa democracia e soberania", citando falas do senador, como a sugestão de que um próximo presidente bolsonarista poderia ter que usar a força para garantir uma anistia ou um indulto a seu pai, caso o Supremo Tribunal Federal (STF) considere a medida inconstitucional.

"É uma hipótese muito ruim, porque a gente está falando de possibilidade e de uso da força. A gente está falando da possibilidade de interferência direta entre os Poderes. Tudo que ninguém quer. E eu não estou falando aqui, pelo amor de Deus, no tom de ameaça. Estou fazendo uma análise de cenário. É algo real que pode acontecer", disse Flávio ao jornal Folha de S.Paulo em junho de 2025.

O vídeo petista cita também pedido feito por Flávio Bolsonaro em outubro para que os Estados Unidos bombardeiem navios na costa brasileira, repetindo o que fez contra embarcações supostamente ligadas ao tráfico de drogas na Venezuela.

"O zero um é legítimo representante da extrema-direita carnívora e radical", diz ainda a gravação, em referência ao primeiro filho de Bolsonaro.

Dentro da pré-campanha do Flávio, a leitura é que a mensagem de uma versão moderada estaria funcionando e contribuiu para sua rápida subida. Pesquisas internas captaram crescimento entre jovens, classe média e mulheres.

Esse movimento também apareceu nos levantamentos do instituto Quaest, quando comparados os resultados de um eventual segundo turno com Lula testados entre dezembro e abril. Pesquisa divulgada nesta quarta-feira (13/5), porém, mostrou uma pequena reversão desses aumentos, ainda antes da divulgação das conversas com Vorcaro.

Com isso, no saldo de dezembro a maio, Flávio ganhou nove pontos percentuais entre eleitores de 16 a 34 anos, chegando a  45% contra 38% do atual presidente. Já na classe média, com renda entre 2 e 5 salários-mínimos, subiu seis pontos para 44%, ante 40% de Lula.

Entre as mulheres, porém, o aumento foi mais modesto, subindo de 31% para 36%, ainda atrás do petista, que marcava 45% no levantamento de maio.

A estratégia nas redes

O senador tem apostado em conteúdos nas redes sociais para exibir sua moderação.

Em fevereiro, por exemplo, divulgou um vídeo exaltando a importância do Carnaval para a economia do país, em contraste com críticas conservadoras à festa.

Em 2019, primeiro ano de governo, seu pai criou polêmica ao compartilhar um vídeo de dois foliões em que um urinava no outro, seguido do comentário: "o que é golden shower?".

Já em 8 de março, Dia da Mulher, Flávio compartilhou vídeos abordando problemas como a alta nos feminicídios e a falta de creches para que as mães possam deixar os filhos enquanto trabalham.

Em outra mensagem, celebrou figuras históricas da luta pelo direito das mulheres, como a feminista Berta Lutz, que liderou a conquista do voto feminino; Antonieta de Barros, primeira deputada negra brasileira; e Maria da Penha, ativista no combate à violência de gênero que dá nome a uma lei de proteção às mulheres.

Quando era presidente, Jair Bolsonaro chegou a ironizar a importância da lei, ao defender mais acesso a armas para mulheres se defenderem.

"Vamos supor que você está sozinha, à noite, numa estrada, e fura o pneu do seu carro. E, de repente, você percebe que está chegando gente que pode lhe causar algum problema. Você preferia sacar da bolsa a Lei Maria da Penha ou uma pistola?", disse, em 2022.

Para a senadora Damares Alves (Republicanos-DF), Flávio subiu rapidamente nas pesquisas, puxado pelo sentimento antipetista de parte do eleitorado e uma frustração com o desempenho econômico do governo Lula.

Na sua avaliação, ele não tenta ser uma versão moderada do pai, "ele é", e isso é uma vantagem eleitoral.

"É uma vantagem porque a direita, que alguns chamam de extrema-direita, já percebeu que, pra governar, vai ter que ser assim. Vai ter que ser dialogando numa forma moderada e esquecer o radicalismo em algumas pautas que não nos levaram a nada", disse à BBC News Brasil, citando como exemplo antigas críticas à política de cotas raciais e ao movimento sindical.

"O Flávio, quem acompanhou ele na Assembleia Legislativa [do Rio], já era o perfil parlamentar dele [de mais diálogo], inclusive sendo o contraponto do pai. Aqui [no Senado], ele está há sete anos com mandato, foi senador quando o pai era presidente, num período extremamente polêmico, de pandemia e tudo, e ele conseguiu dialogar, conseguiu acalmar muita coisa", reforçou à reportagem, apontando para Flávio no plenário do Senado, quando conversava com um grupo de senadores.

LEIA REPORTAGEM COMPLETA CLICANDO ABAIXO:

https://www.bbc.com/portuguese/articles/crmpv9r7mz9o

(Fonte BBC)

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