O presidente Luiz Inácio Lula da
Silva (PT) inicia nesta terça-feira (16/06) sua participação oficial
no G7 – o fórum que reúne sete das maiores economias industrializadas
do planeta.
Lula foi convidado para o evento, que acontece em Évian-les-Bains, na França, pelo presidente francês, Emmanuel Macron. É costume que o anfitrião do fórum escolha alguns países não membros do G7 para acompanhar as discussões ampliadas, a partir do segundo dia de reuniões.
Quem
também está na pequena cidade francesa na fronteira com a Suíça para o encontro
é o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
A
presença dos dois líderes no mesmo local ampliou as expectativas para possíveis
interações, em um momento de novo tensionamento da relação diante da possibilidade
da aplicação de uma taxação extra de 25% sobre parte das importações
brasileiras.
Até
o momento, não houve confirmação sobre uma possível reunião bilateral entre
Lula e Trump — e interlocutores afirmam que o governo brasileiro não pediu um
encontro privado à Casa Branca.
Os
dois líderes, porém, podem se cruzar durante as reuniões ampliadas da cúpula ou
nos corredores do evento.
Segundo
especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, conquistar a atenção do presidente
americano deve ser um grande desafio para o governo brasileiro, que concorre
com outras diversas lideranças mundiais em meio a grandes crises globais, tal
como as guerras no Irã e na Ucrânia e a instabilidade nas relações
transatlânticas causada pela política isolacionista trumpista.
Este
também vai ser o primeiro contato entre Lula e Trump após o governo americano
passar a designar formalmente as facções criminosas brasileiras Comando
Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações
terroristas.
A
participação do Brasil no fórum do G7 abre ainda as portas para um diálogo mais
próximo com a União Europeia (UE). Há uma semana, o bloco oficializou sua
decisão de proibir a importação de carnes, tripas, peixe e mel produzidos no
país, em um veto que deve entrar em vigor a partir do próximo dia 3 de
setembro.
Um
encontro com Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, e António
Costa, presidente do Conselho Europeu, está previsto para esta terça-feira.
Segundo
interlocutores, a reunião bilateral foi um pedido dos próprios europeus.
O
presidente brasileiro já se encontrou com Macron, na tarde de segunda-feira. Os
dois trataram de cooperação em defesa, tecnologia e sobre as expectativas para
a cúpula.
Após
a reunião, Lula compartilhou imagens dos dois nas redes sociais e afirmou que o
fórum é uma oportunidade para o Brasil representar o Sul Global e reafirmar
"seu compromisso com a paz, a defesa do multilateralismo, o
desenvolvimento sustentável e a construção de um mundo mais justo".
As
prioridades do G7
Segundo
especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, Lula pode encontrar dificuldades
para navegar entre as lideranças do G7 em um momento em que as atenções do
mundo estão voltadas para outros temas além daqueles priorizados pelo governo
brasileiro.
Por
um lado, o foco da comunidade internacional são os dois grandes conflitos
atuais: no Irã e na Ucrânia.
Os EUA
e a República Islâmica anunciaram na noite de domingo (14/06) a conclusão de um
acordo de paz para encerrar o conflito entre os dois países, que começou
em 28 de fevereiro.
A
assinatura do pacto está prevista para a próxima sexta-feira (19/06), quando
também se espera a reabertura do estreito de Ormuz, bloqueado desde meados de
abril.
Até
agora, porém, há poucos detalhes sobre o acordo – e muitas dúvidas sobre a
possibilidade dele se manter de pé, diante da volatilidade da região e dos
muitos anos de negociações fracassadas entre EUA e Irã.
Por
se tratar de um acordo preliminar, que possivelmente terá mais desdobramentos
nos próximos dias, o tema ainda deve ganhar grande destaque na agenda dos
líderes das sete maiores economias industrializadas do mundo em Évian, diz
Clarissa Forner, professora de Relações Internacionais da Universidade do
Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
A
expectativa é que Trump use o fórum para promover suas conquistas com o acordo,
aponta a especialista.
Além
disso, diz, o presidente americano deve cobrar a Europa por mais apoio aos EUA
diante dos embates no Oriente Médio.
"As
prioridades norte-americanas serão ainda muito balizadas pelas questões
relacionadas à guerra com o Irã, principalmente no sentido de pressionar, como
tem sido praxe, por maior envolvimento europeu nos esforços militares",
destaca Forner.
Lauren
Sukin, professora de Política Externa dos EUA da Universidade de Oxford, aponta
ainda que com o encaminhamento das negociações, a reversão dos efeitos
econômicos da guerra ganha mais destaque.
"Existem
preocupações não apenas em relação à cadeia de suprimentos de combustíveis e
segurança energética, mas também com a produção de fertilizantes e a segurança
alimentar, além de uma vasta gama de outras questões relacionadas à cadeia de
suprimentos que foram afetadas pela guerra", diz a analista.
Já
os europeus querem aproveitar as conversas no G7 para pressionar os Estados
Unidos por mais protagonismo na ajuda prestada à Ucrânia diante da invasão russa,
dizem os especialistas.
Esse
tem sido um tema constante na relação da UE com Trump desde que o
presidente americano suspendeu a ajuda militar ao governo do presidente
Volodymyr Zelensky no ano passado.
Além
de tudo isso, o G7 passa por um momento de crise interna, aponta Oliver
Stuenkel, pesquisador da Universidade Harvard e do Carnegie Endowment for
International Peace e professor da FGV.
"O
G7 vive uma profunda crise, com muitas dúvidas sobre sua relevância devido à
crise na relação transatlântica", disse.
Segundo
Stuenkel, os Estados Unidos possuem hoje uma postura hostil em relação à
maioria dos outros governos dos G7, especialmente quando se trata do Canadá e
do Reino Unido.
Isso
significa que há pouco espaço "para criar consensos", afirma. "E
a presença do Brasil não mudará esse quadro de fragmentação geral", diz.
Esta
é a décima vez que Lula participa do fórum anual do G7, ao longo de seus três
mandatos. São membros plenos do grupo: Canadá, Estados Unidos, Reino Unido,
França, Itália, Alemanha e Japão. A UE participa como membro institucional.
Além
do Brasil, estão entre os convidados extras deste ano Ucrânia, Índia, Quênia,
Coreia do Sul, Egito, Emirados Árabes Unidos e Catar.
Brasil
'escanteado'?
Nesse
contexto, as pautas de interesse imediato do Brasil com os EUA podem ficar em
segundo plano, segundo fontes ouvidas pela BBC News Brasil.
Para
Lauren Sukin, da Universidade de Oxford, um encontro com Lula provavelmente não
está na lista de prioridades de Trump no fórum.
"Mas
a administração Trump nem sempre planeja essas cúpulas com a mesma precisão que
administrações anteriores, então ainda pode ter algum espaço sobrando na
agenda, a depender de como a cúpula se desenrola", afirma.
Por
outro lado, afirma a especialista americana, a administração americana tem
atuado para reduzir a dependência de outros países da China e o tema pode ser
uma forma de atrair a atenção de Trump.
"Assim,
é possível que o Brasil, ao destacar, por exemplo, suas vantagens em minerais
críticos ou novas oportunidades de investimento, se torne atraente para o
governo Trump, principalmente se os temas forem apresentados como uma forma de
se desvincular da China", diz.
Uma
fonte no Ministério de Relações Exteriores afirma ainda que não há espaço em
uma cúpula do G7 para discutir temas específicos da relação Brasília e
Washington, como as ameaças de taxação e a designação de organizações
criminosas como terroristas.
Ainda
segundo esse interlocutor, que pediu para não ser identificado, essa nunca foi
a expectativa do governo brasileiro em Évian.
Já
uma discussão sobre o veto à carne brasileira pela UE poderia ser abordada na
reunião com os representantes de Bruxelas.
Os
especialistas ouvidos pela reportagem afirmam, porém, que um avanço ainda é
improvável neste momento.
"Acho
pouco provável que possa haver uma reversão rápida" da medida, avalia
Oliver Stuenkel.
A
decisão europeia de proibir a importação de carnes, tripas, peixe e mel
produzidos no Brasil foi oficializada na semana passada. Segundo a Comissão
Europeia, o país não conseguiu comprovar que seus produtores atendem a algumas
das exigências sanitárias europeias, especialmente que não utilizam, ao longo
de toda a cadeia produtiva, medicamentos antimicrobianos para tratar e prevenir
infecções em animais.
"Obviamente
que eu acho que o recado principal que nós queremos passar aos europeus é que
ficamos assim um pouco surpresos da maneira como foi. Nós estamos vendo algumas
medidas da União Europeia que nos causam alguma preocupação. E o tom da
discussão, se houver, ou em outros momentos, não necessariamente no G7, vai ser
esse, com uma certa preocupação por esses últimos desdobramentos e ver o que a
gente pode fazer para resolver as questões", apontou antes do evento o
embaixador Philip Fox-Drummond Gough, secretário de Assuntos Econômicos e
Financeiros do Ministério das Relações Exteriores (MRE), que acompanha
diretamente as tratativas.
Para
Oliver Stuenkel, é comum que decisões como a da UE sejam tomadas após um grande
acordo comercial — como o que entrou em vigor de forma provisória entre o bloco
e o Mercosul em maio —, como uma forma de defender os produtores locais.
"[O
acordo] foi uma grande derrota para a agricultura europeia", diz o
pesquisador da Universidade Harvard. "O veto é uma espécie de reação
política para abafar essa mobilização."
Mas
ainda que Lula volte ao Brasil sem um encontro cara a cara com Trump ou representantes
da União Europeia durante o G7, isso não significa necessariamente que a viagem
para o fórum tenha sido um desperdício de tempo, apontam os analistas ouvidos
pela reportagem
"Há
outros espaços possíveis de reivindicações e de negociação que extrapolam a
relação com os EUA e isto pode ser muito positivo, na verdade", diz
Clarissa Forner, da UERJ. "Explorar essas outras alternativas me parece
ser parte importante do cálculo da delegação brasileira."
"No
caso dos EUA, me parece menos provável que haja avanços significativos, neste
momento, mas um possível encontro bilateral entre os presidentes ou os contatos
entre delegações podem abrir margem para outras negociações futuras, especialmente
no campo tarifário."
Sul
Global, IA e minerais críticos
Lula
já tem reuniões bilaterais costuradas com a primeira-ministra do Japão, Sanae
Takaichi, e com o primeiro-ministro do Egito, Abdul Fatah Khalil Al-Sisi. Ambas
devem acontecer ainda na tarde desta terça, no horário local.
Também
hoje, o presidente brasileiro discursa durante uma sessão sobre solidariedade
internacional aos países em desenvolvimento.
A
expectativa é que Lula cobre a ampliação da Assistência Oficial ao
Desenvolvimento (AOD). A chamada AOD, que no inglês é Official Development
Assistance (ODA), refere-se a repasses financeiros realizados pelos países mais
industrializados do mundo para promover o bem-estar e o desenvolvimento
econômico de países em situação de mais vulnerabilidade.
Na
quarta-feira (17/06), em outra sessão de líderes, Lula participa de sessão
sobre crescimento econômico equilibrado, na qual deve defender a necessidade de
reforma da governança global, especialmente em instituições como a Organização
Mundial do Comércio (OMC) e a própria Organização das Nações Unidas (ONU).
A
pauta é considerada importante para a diplomacia brasileira e é frequentemente
discutida por Lula em fóruns internacionais.
Ainda
no dia 17, a comitiva brasileira participará de um almoço que terá como tema
central a Inteligência Artificial (IA).
Sam
Altman, da OpenAI, Dario Amodei, da Anthropic, e Arthur Mensch, da Mistral,
participam juntamente com outros oito representantes da indústria tecnológica
do fórum.
O
Brasil tem interesse em influenciar esse debate para garantir que este não seja
um tópico dominado pelos países do Norte Global e pela China, aponta Oliver
Stuenkel. O governo Lula também tem demandado maior regulação da atuação de
empresas do setor tecnológico.
Segundo
fontes do Ministério de Relações Exteriores, há um desejo de apresentar os
avanços do Brasil na área, com alterações promovidas no Marco Civil da
Internet, como exemplo para o resto do mundo.
A
Presidência francesa também espera assinar, ao final do fórum em Évian, um entendimento
sobre a diversificação das cadeias de minerais críticos.
Interessa
a Lula e sua delegação explorar o tema, segundo o próprio governo brasileiro.
O
Brasil já vem discutindo com lideranças estrangeiras a questão da
industrialização do setor, como uma forma de garantir mais investimentos para
que o país não seja apenas exportador e a matéria prima vendida ganhe mais
valor agregado.
Mas
uma fonte no Itamaraty afirmou que os rascunhos do documento apresentados até o
momento podem não se alinhar totalmente com a visão brasileira sobre o formato
de cooperação internacional na área.
Não
há ainda, no entanto, uma decisão final do governo Lula sobre a possibilidade
de endossamento do texto.
(Fonte:
BBC Brasil)




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