"Como onde trabalhamos é uma comunidade,
essas coisas não podem ser negligenciadas, porque a lei ali é diferente."
Ela conta que o pai do aluno era conhecido por "ter um certo cartaz
na comunidade" (ou seja, ter envolvimento com o crime, ela explica) e
estava insatisfeito com a performance escolar do filho, que, com 6 anos, tinha
dificuldade para entender a lição
de casa e não estava se adaptando bem à transição do ensino
infantil para o fundamental. A família culpava a professora pelos
problemas.
Marta soube da ameaça de morte pela coordenadora da escola, quando
estava já em seu segundo emprego, em outra escola da região. Naquela noite, ela
conta que fez um boletim de ocorrência na polícia, acompanhada apenas pelo
marido.
"Passei a noite na delegacia e me senti muito sozinha, não teve
ninguém da gestão junto comigo", relata a professora.
"No dia seguinte, eu não podia voltar à escola, então fui ao
médico. Contei todo o ocorrido à psiquiatra, e ela me afastou
imediatamente."
Com medo, Marta optou por não representar criminalmente contra o
agressor. A Prefeitura a afastou da escola onde ocorreu o fato, e ela completou
o ano letivo em outra unidade.
"Então, minhas perdas não foram tantas, mas meu problema
psicológico foi horroroso, porque eu não sabia com quem eu estava
lidando", diz a professora, que mora próximo à comunidade onde fica a
escola.
"O meu quarto tem uma vidraça na frente, e eu cheguei a pedir para
meu marido para trocar de quarto, porque achava que poderia sofrer alguma
agressão. Fiquei com pânico de dormir."
O caso da professora paulistana não é um fato isolado. Uma pesquisa do
Centro do Professorado Paulista (CPP) com 1.144 professores revela que 65% dos
entrevistados afirmam já ter sofrido algum tipo de agressão em sala de aula ou
no ambiente escolar.
A violência verbal é a mais comum,
representando 71% das agressões, seguida pela psicológica e moral (58%), a
institucional (27%) e a física (19%).
O Brasil também lidera o ranking de violência contra professores
em levantamento feito em 2024 pela Organização para a
Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que ouviu 280
mil professores e diretores de escola de 55 países.
No país, 47% dos professores relatam ser intimidados ou abusados
verbalmente por alunos como uma fonte de estresse, ante uma média global de
cerca de 18%.
O tema da violência contra educadores voltou ao debate público após o
caso da professora Michele Ramos, de São José dos Campos, que registrou um
boletim de ocorrência depois de alunos colocarem uma lâmina de vidro em seu
copo de água durante a aula em uma escola municipal.
A BBC News Brasil procurou a Secretaria de Educação e Cidadania de São
José dos Campos para saber as providências tomadas em relação ao caso, mas não
obteve resposta até a publicação desta reportagem.
Múltiplas formas de violência
A psicóloga Renata Paparelli, professora da Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo (PUC-SP), trabalha com o atendimento clínico de
professores vítimas da violência da rede municipal de São Paulo.
Ela afirma, a partir de sua experiência, que os professores estão
sujeitos a múltiplas formas de violência em seu cotidiano. "Costumamos
dizer que tem a violência da escola, a violência na escola,
e a violência contra a escola", diz Paparelli.
A violência da escola, explica a psicóloga, é a que
resulta de políticas públicas pouco afeitas às características da população a
ser atendida.
"Elas vêm de cima para baixo, incorporando projetos sem oferecer as
mínimas condições para a realização deles", diz a psicóloga.
"Um dos exemplos, na maior parte das escolas ou em muitas escolas,
são os projetos de inclusão dos PCDs [pessoas com deficiência] nas salas de aula
regular. Longe de ser contra essa ideia, mas sabemos todos que é preciso que
haja condições para essa implantação."
A violência na escola é a mais conhecida e que, com
alguma frequência, chega ao noticiário, diz Paparelli. "São os alunos
contra os educadores, e também a gestão pouco aberta ou impotente diante das
demandas dos educadores", exemplifica.
Por fim, a violência contra a escola abrange as
depredações do patrimônio escolar e a desvalorização da escola como instituição
importante para a educação de crianças e adolescentes. "A escola e seus
educadores vêm ganhando cada vez menos espaço prestigiado [na sociedade]",
observa.
O Observatório Nacional da Violência contra Educadoras/es da
Universidade Federal Fluminense (Onve-UFF) tem ainda acompanhado nos últimos
anos o avanço da perseguição contra professores, uma forma de violência que se
expressa em práticas como censura, tentativas de intimidação, exposição nas redes
sociais e assédio jurídico.
Segundo estudo realizado pelo grupo com mais de 3 mil educadores, 61%
dos professores da educação básica e 55% do ensino superior dizem já ter
passado por esse tipo de violência.
Soco no peito e dedo decepado
Citada pela professora da PUC-SP como uma das formas de violência no
ambiente escolar, a falta de estrutura e pessoal suficiente para atender aos
alunos com deficiência na educação regular pública está no centro de alguns dos
episódios de violência física vivenciados por professores.
Pedro, de 40 anos e professor em uma escola municipal no bairro de
Santana, na Zona Norte de São Paulo, foi agredido com um soco por um aluno com
autismo.
O caso ocorreu em 2024, em um dia em que o grêmio da escola realizava
uma atividade sobre o Dia do Orgulho LGBTQIAP+.
"Era um aluno com deficiência, mas que tinha esses acessos de
agressão, e não sabemos exatamente, mas parece que ele frequentava esses fóruns
de extrema direita, e tinha muito ódio quando se falava sobre questões como
feminismo, orgulho LGBT, etc", conta Pedro, que teve sua identidade preservada
nesta reportagem.
"Ele foi para cima das alunas que estavam realizando a atividade,
eu intervi para evitar que elas fossem agredidas, e acabei tomando um
soco", lembra o professor. "Os alunos e inspetores depois ajudaram a
contê-lo."
"Quando cheguei em casa e fui tomar banho, vi a marca da mão dele
no meu peito. Eu fiquei bem, bem triste."
Pedro fez um relato do episódio à escola e recebeu a opção de se afastar
com uma Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT), documento enviado ao INSS
para informar sobre doenças ocupacionais e acidentes de trabalho.
"Mas eu pensei 'não, vou encarar e voltar'. Porque, muitas vezes,
quando acontecem esses casos de colegas que são afastados por essas situações,
fica difícil voltar depois."
A professora Michelle Bernardes está nesse momento afastada há quase três meses, após um episódio ainda mais grave do que o de Pedro, e também envolvendo um aluno com deficiência.
Educadora em uma escola municipal na Zona Leste de São Paulo, ela teve o
dedo médio da mão direita parcialmente decepado em sala de aula, enquanto
tentava organizar a turma em que um aluno com deficiência intelectual passava
por uma crise de desregulação emocional, atirando carteiras e cadeiras ao chão.
"Para protegê-lo e proteger os estudantes que estavam na sala, e os
estudantes que estavam fora, no corredor, eu fui para a porta da sala de aula
segurar, ficar ali, e orientar os estudantes", contou Michelle, em vídeo
publicado no Instagram.
Em meio à confusão, o estudante chutou a porta da sala de aula, que
bateu na mão da professora, resultando na amputação de um de seus dedos.
"Eu pensei, 'caramba, quebrei meu dedo'. Mas não foi só uma quebra,
ele foi de fato decepado. Não sei como não desmaiei, mas estava preocupada com
o estudante que precisava de regulação e com os demais, que estavam
apavorados", relatou a professora.
"Uma estudante conseguiu pegar o resto do dedo no chão e me deu,
fomos para a UBS do lado da escola, que me atendeu com todo cuidado",
completou.
Agora, Michelle se recupera após passar por duas cirurgias e aguarda que
o dedo ferido cicatrize para poder começar a fisioterapia e devolver alguma
funcionalidade ao que restou do membro parcialmente amputado.
"Então, passo por uma dor individual, que estou tendo que trabalhar
comigo, e uma dor coletiva, pois não desejo que nenhum estudante e nenhum
educador passe pelo o que eu estou passando", diz a professora, à BBC News
Brasil.
"O estudante não tem culpa por ter se desregulado, é um estudante
com deficiência", afirma.
"Mas precisamos urgentemente de políticas públicas que incentivem e
auxiliem com qualidade a presença de todos os estudantes nas escolas, inclusive
os estudantes com deficiência, os estudantes autistas, os estudantes
neurodivergentes."
Questionada sobre como responde aos casos de violência contra
professores, a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo afirmou que
"promove a cultura de paz e a prevenção das violências nas unidades
educacionais por meio de iniciativas como o Programa Entre Nós, as Comissões de
Mediação de Conflitos (CMCs) e ações formativas em parceria com o Instituto
Vladimir Herzog".
Quanto às críticas à falta de estrutura nas escolas para atendimento aos
alunos com deficiência, a pasta disse em nota que "fortalece a educação
inclusiva com a ampliação de professores especializados e de apoio à inclusão
nas 13 Diretorias Regionais de Educação (DREs)". E que o número de
Auxiliares de Vida Escolar (AVEs, profissionais que prestam apoio a alunos com
deficiência) aumentou 144% na rede a partir de abril deste ano, somando
atualmente 2.937 profissionais.
Os efeitos da violência na saúde mental dos professores
Renata Paparelli, da PUC-SP, observa que os professores sujeitos à
violência sofrem de problemas de saúde mental diversos, como burnout (esgotamento
em resposta ao estresse crônico no ambiente de trabalho), depressão e
transtorno do estresse pós-traumático.
"O transtorno do estresse pós-traumático está relacionado com a
violência e com a ameaça continuada de violência, ou com a violência explícita
nessa violência física", afirma.
"São muitos casos que recebemos de educadoras que sofreram
violência de alunos, quer seja mordida, arremesso de materiais, ameaças
explícitas, ameaças veladas, bem como ameaças de familiares ou da gestão da
escola", relata.
"A violência psicossocial continuada — a bronca, o grito — também
pode desencadear quadros de estresse pós-traumático e está relacionada com
casos de burnout, na medida em que o professor é colocado numa
situação muitas vezes na rede pública, em que ele tem que dar conta de tudo, em
instituições em que tudo falta. É a violência da falta de condições de
trabalho."
A psicóloga observa que, não à toa, os professores estão entre as
categorias profissionais que mais se afastam do trabalho por problemas de saúde
mental.
Números obtidos pelo Centro do Professorado Paulista referentes apenas
aos professores estatutários (aqueles aprovados em concurso público para a
carreira do magistério) da rede estadual de São Paulo revelam que, em 2024,
foram concedidas mais de 42 mil licenças por transtornos mentais e
comportamentais para professores, ou mais de 115 por dia.
Em 2025, até o mês de setembro, foram mais de 25 mil licenças por
problemas de saúde mental, segundo os dados da Secretaria de Gestão e Governo
Digital do Governo do Estado de São Paulo.
Paparelli diz que a trajetória dos professores vítimas de violência em
geral começa com afastamentos por períodos curtos.
"Mas, depois, esses afastamentos já não dão mais conta. Aí começam
os afastamentos mais prolongados, até o quadro de readaptação funcional",
observa.
A readaptação funcional é um direito do professor que, por algum
problema de saúde, não pode mais trabalhar em sala de aula, passando a exercer
outras funções dentro da escola.
"Mas é muito comum que essas pessoas não tenham nada para fazer. A
pessoa está mal de saúde mental e é condenada ao isolamento e à humilhação
cotidiana de não fazer nada", diz a psicóloga.
Em relação à saúde mental dos professores, a Secretaria Municipal de
Gestão de São Paulo afirma que realizou 55 grupos de avaliação entre 2025 e
2026, com a participação de 1.043 servidores.
Ainda segundo a pasta, "no mesmo período, o Programa de Orientação
e Proteção em Saúde Mental dos Servidores (Rede Somos) acolheu 720 servidores e
promoveu 2.228 ações de saúde."
'É preciso estreitar laços entre escola e comunidade'
Diante desse quadro, as soluções para o problema da violência contra
professores dividem representantes da categoria.
O Centro do Professorado Paulista, por exemplo, defende uma atualização
do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) para que alunos possam ser
responsabilizados em casos de violência.
"Temos que entender que o ECA é de 1990, e a criança e o
adolescente de 1990 são diferentes da criança de hoje", argumenta Ana
Carolina Soares, advogada do CPP.
"Tem que existir algum tipo de limite para o aluno dentro da
unidade escolar, em proteção do professor", diz Soares, que defende ainda
a corresponsabilização dos pais.
Roberto Guido, presidente interino da Sindicato dos Professores do
Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), vê a proposta de mudança do
ECA com descrença e avalia que, para reduzir a violência, é preciso melhorar as
condições de trabalho dos educadores e estreitar laços entre escola e
comunidade.
"A escola não é uma ilha, portanto, a violência que assistimos no
conjunto da sociedade também está presente na escola", diz Guido.
"A ausência de diálogo com as comunidades contribui muito para o
aumento da violência nas escolas. Quando você tem uma escola integrada na
comunidade, esses problemas de violência e indisciplina são minimizados."
Renata Paparelli, da PUC-SP, tem avaliação similar. "Uma escola
precisa de equipe e de condições de trabalho, precisa de uma quantidade
razoável de alunos por sala, com professores que possam também ter uma jornada
de trabalho razoável e não indecente, para que consigam estabelecer relações
com a comunidade, e possam pactuar não violência com a comunidade",
afirma.
"O que a gente vê, dadas as condições extremamente precarizadas de
trabalho docente, é uma estrutura escolar que alimenta esse abismo entre os
educadores e a comunidade — tanto as famílias, quanto os estudantes. Uma escola
que vai perdendo sentido para os estudantes."
Ela alerta ainda que a violência contra professores não é uma
exclusividade da escola pública.
"Na escola particular não temos muitos dados, porque você não entra nas escolas particulares para fazer pesquisa. Mas precisamos evitar a impressão de que a rede pública é complicada e a rede privada é uma maravilha — só não temos muitos dados da rede privada por conta dessa característica."
(Fonte: BBC)




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