Ela
identifica que, mesmo antes da autorização de entrada do Google no país, a
empresa já tentava estabelecer negociações sem autorização, já que os Estados
Unidos impunham um bloqueio total a Cuba no que diz respeito a relações
econômicas e comunicacionais.
“Em
2014, isso era praticamente impossível. E esse processo foi se construindo de
uma maneira bastante ardilosa. É importante lembrar que era um período em que
ainda não se falava tanto sobre colonialismo
de dados, sobre a nocividade das chamadas big techs, sobre a
quantidade de bilionários por trás dessas empresas, suas intenções e toda a
modulação de comportamento promovida por suas plataformas”, relata em
entrevista ao Conexão
BdF, da Rádio Brasil de Fato.
Oliveira
se recorda de que havia um pensamento de que a internet seria capaz de levar
informação e conectar realidade em diversos lugares. Em um primeiro momento,
foi construído no imaginário popular que esse movimento do Google seria
benéfico para Cuba. Inclusive, parte da esquerda abraçou essa ideia de avanço.
“A entrada do Google naquele momento, que vinha de um processo de aproximação
de Obama e Raul Castro, acaba servindo a uma atualização dessas tensões entre
os países.”
Vanessa
Oliveira conta que esse processo acabou fazendo com que Cuba deixasse, em um
primeiro momento, de fomentar as próprias tecnologias e a construção de uma
soberania digital. Dentro desse contexto, ela relata em seu livro iniciativas
que resistem a essa influência tecnológica estadunidense.
“No
livro, eu destaco pelo menos três iniciativas comunitárias de redistribuição do
sinal de internet. Elas são ilegais ou se situam em uma zona cinzenta da
legislação do próprio país. Apresento essas experiências como um fruto da
Revolução Cubana, que investiu bastante em tecnologia, dentro das
possibilidades do país, especialmente nas décadas de 1970 e 1980, além de
manter um investimento contínuo em educação. Quando o mundo começou a se
conectar de forma massiva, surgiu um desafio particular. Hoje, vivemos um
ambiente amplamente colonizado por plataformas digitais”, avalia a autora, que
cita como exemplos as
big techs Google, Microsoft, Meta e empresas ligadas ao Elon Musk.
Oliveira
relata a história da SNET, apelido de uma rede chamada StreetNet. Ela foi
criada por estudantes de programação da Escola de Tecnologia de Cuba. “Esses
jovens, todos com menos de 20 anos, queriam simplesmente jogar videogame
juntos. Primeiro conectaram os computadores de dois deles. Depois ligaram um
andar inteiro de um prédio. Em seguida, conectaram um prédio ao outro. A
iniciativa cresceu até alcançar nove bairros diferentes de Havana, todos
interligados por uma rede offline. Dentro dessa rede havia, por exemplo, uma
Wiki local”, conta.
E
também manifesta preocupações com os rumos da Inteligência Artificial. “Algumas
tecnologias chegaram mais tarde em Cuba. E isso impõe um desafio ainda maior”,
avalia.
Para ouvir e assistir
O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

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