Ao entrar na segunda metade do ano, parece especialmente desafiador encontrar motivação para pensar em alcançar esses objetivos. A vida é corrida e começar uma coisa geralmente significa abrir mão de outras.
Se as suas resoluções de Ano Novo também estão
perdendo força, você está em boa companhia. Embora o início
de um novo ano seja um momento popular para estabelecer novos objetivos e
promover mudanças em nossos hábitos, pesquisas mostram que incentivar a nós
mesmos a criar novos objetivos e formar os hábitos que ajudam a alcançá-los é
uma maneira eficaz de mudar a qualquer momento.
Então, como fazer resoluções que durem?
Quatro especialistas com quem conversei dizem que
um ponto de partida fundamental é aproveitar o chamado "efeito do
recomeço", além de desenvolver bons hábitos e criar metas realistas.
Juntos, esses fatores podem nos impulsionar a
realizar mudanças duradouras.
Cultive seu próprio 'efeito do recomeço'
Para fazer mudanças significativas, primeiro é útil
estabelecer metas. Pesquisas sugerem que muitas resoluções de Ano Novo terminam
em decepção, com algumas fontes indicando que até 92% das pessoas nunca
alcançam seu objetivo.
Isso é enganoso, afirma Katy Milkman, professora de
economia comportamental na Wharton School da Universidade da Pensilvânia, nos
Estados Unidos, e autora do livro How to Change ("Como
mudar", em tradução livre).
Como muitas pessoas tentam mudar ao mesmo tempo,
isso pode fazer a taxa de fracasso parecer maior do que realmente é, diz ela.
Uma pesquisa recente nos EUA constatou que 87% das
pessoas que fizeram resoluções mantiveram pelo menos algumas delas após algumas
semanas, enquanto apenas 13% não mantiveram nenhuma.
E uma pesquisa no Reino Unido constatou que 38% dos
britânicos cumpriram todas as resoluções que fizeram em 2025 e 33% cumpriram
parte delas.
O que isso revela, diz Milkman, é que uma meta
baseada em um marco temporal pode ser surpreendentemente eficaz.
Mas você não precisa esperar o Ano Novo para
aproveitar isso, afirma ela — a metade do ano é outro bom momento para criar
nosso próprio efeito do recomeço.
Na verdade, qualquer data significativa, seja o
início da semana, um aniversário ou um novo ano, pode nos tornar mais abertos à
mudança.
Milkman descobriu isso ao analisar buscas em um
site que ajuda a definir metas. Ela e seus colegas constataram que as buscas
por "dieta" e "idas à academia" aumentavam em momentos
específicos, como o início da semana, o início do mês ou o começo de um novo
período letivo.
O importante é que você mesmo pode definir quando
deseja fazer uma mudança, em vez de esperar por um momento específico.
A equipe de Milkman constatou que rotular um dia
como o início de um novo período (por exemplo, o primeiro dia da primavera), em
vez de considerá-lo apenas mais um dia arbitrário (por exemplo, uma
segunda-feira), tornava as pessoas mais propensas e mais motivadas a começar a
perseguir um objetivo.
Procurar um dia ao qual vincular seu novo
compromisso pode ajudar a evitar repetir fracassos passados.
"Nesses momentos que parecem novos começos,
sentimos que estamos separados de quem éramos antes. Aquele capítulo acabou,
este novo capítulo está começando."
Persista nos novos hábitos
Embora o efeito do recomeço possa nos ajudar a
iniciar um novo objetivo, construir hábitos positivos é parte fundamental para
alcançar e manter marcos importantes de longo prazo na vida.
Enquanto os objetivos exigem esforço consciente
contínuo, nossos hábitos tendem a ocorrer sem muito pensamento, geralmente em
resposta a um gatilho específico, diz Benjamin Gardner, professor de psicologia
da Universidade de Surrey, no Reino Unido, especializado em mudança
comportamental.
Isso pode envolver pedir sempre o mesmo café
durante o trajeto para o trabalho ou praticar exercícios por 20 minutos todas
as manhãs antes do café da manhã. A vantagem de um hábito, diz Gardner, é que
ele elimina a necessidade de força de vontade constante.
"Os hábitos existem para simplesmente nos
ajudar a fazer repetidamente as coisas que precisamos fazer, sem que tenhamos
de pensar nisso."
Mas, para que bons hábitos se formem, a
persistência é fundamental. Leva, em média, cerca de 66 dias para que um
comportamento específico se torne habitual, embora o intervalo possa variar de
18 a 265 dias dependendo do hábito em questão. Frequentar a academia
regularmente, por exemplo, leva cerca de seis meses para se tornar rotina.
Substitua os maus hábitos
Simplificar seus objetivos também pode ajudar. Em
um estudo, pesquisadores acompanharam participantes que introduziram um novo
hábito diário, como correr, comer frutas ou fazer abdominais. Eles constataram,
talvez sem surpresa, que comportamentos simples, como beber um copo d'água,
eram mais fáceis de implementar do que uma tarefa mais difícil, como fazer 50
abdominais.
Igualmente importante é abandonar hábitos que
atrapalham seus objetivos. Isso é surpreendentemente difícil, diz Gardner, mas
podemos tentar substituir hábitos indesejáveis por novos hábitos.
Foi exatamente isso que fiz quando abandonei o
açúcar por seis semanas. Troquei meu doce diário por um lanche mais saudável
até que os desejos diminuíssem.
"Substituir diretamente um velho hábito ruim
por uma boa alternativa deve ser bastante útil porque significa que, depois de
um tempo, você passará a ser estimulado a fazer aquilo que quer fazer, em vez
de recorrer ao antigo hábito ruim", diz Gardner.
Essa estratégia pode ser altamente eficaz porque
temos mais probabilidade de manter novos hábitos do que de abandonar hábitos
que queremos evitar.
Curta o processo, não só o resultado
Embora um recomeço no meio do ano ofereça um
excelente impulso inicial de motivação, o sucesso de longo prazo depende de
escolher objetivos que você tenha prazer em realizar. Isso foi destacado em um
estudo realizado nos EUA ao longo de um ano, acompanhando mais de 2 mil
pessoas.
Os pesquisadores descobriram que participantes que
se sentiam entusiasmados com as ações diárias exigidas por seus objetivos
tinham uma probabilidade significativamente maior de persistir.
Ayelet Fishbach, professora de ciências
comportamentais na University of Chicago Booth School of Business e coautora do
estudo, afirma que focar demais no resultado final pode sabotar o sucesso. Ela
recomenda encontrar algo que você tenha prazer em fazer, e não algo que
gostaria de já ter terminado.
"Isso exige um pouco de introspecção",
afirma.
Para aqueles que têm vontade de mudar, mas têm
dificuldade em manter a mudança, compreender o impacto do ambiente físico ao
nosso redor é um primeiro passo importante.
"A motivação é apenas uma parte do que
determina nosso comportamento e, sozinha, não é suficiente", diz Felix
Naughton, professor de psicologia da Universidade de East Anglia. É extremamente
difícil parar de fumar se seus amigos continuam fumando, por exemplo, afirma
ele.
Uma forma de lidar com isso para fumantes, segundo
descobriu Naughton, é identificar melhor os momentos em que a vontade de fumar
é mais intensa.
O mesmo pode se aplicar àqueles que tentam
abandonar outros hábitos: acompanhe e antecipe os momentos em que você tem
maior probabilidade de cair em tentação e planeje previamente maneiras de
intervir.
Também ajuda tornar os objetivos mensuráveis, com
planos de ação específicos que possam ser revisados regularmente, afirma ele.
Um desafio de 30 dias pode parecer menos intimidador do que uma meta difícil de
medir.
"Ter o objetivo de 'ser mais ativo' é bastante
vago", diz Naughton. "[Mas] estabelecer como meta caminhar 8 mil passos
todos os dias durante a próxima semana é algo muito mensurável."
Quando um hábito se forma, ele começa a parecer
alcançável e, no processo, reconfigura seu cérebro.
"Se você fumava depois de comer e para de
fazer isso, então lentamente extinguirá ou enfraquecerá a ligação entre comer e
a recompensa da nicotina em seguida", afirma.
Tentações
Se não estamos aproveitando o processo de perseguir
nossos objetivos, talvez precisemos mudar a forma como fazemos isso, diz
Milkman.
"Se conseguirmos encontrar uma maneira de
tornar agradável a busca pelos objetivos, de modo que não seja algo que
tememos, mas sim algo pelo qual esperamos, teremos uma probabilidade
dramaticamente maior de persistir."
Isso pode significar combinar uma atividade menos
agradável com algo que adoramos fazer, o que Milkman chama de "associação
com tentações".
Pode envolver pedalar em uma bicicleta ergométrica
enquanto assiste à TV ou garantir que nos exercitamos com um amigo, tornando a
atividade também uma oportunidade de convivência.
Em um estudo, ela constatou que as pessoas tinham
35% mais probabilidade de se exercitar quando estavam acompanhadas por um
amigo, em vez de sozinhas.
Em outro estudo, descobriu que estudantes tinham
mais probabilidade de se exercitar em uma academia se ouvissem audiolivros ao
mesmo tempo.
Espere uma queda na motivação
Lembre-se de que, mesmo que você esteja
aproveitando o processo, perder a motivação para um objetivo de longo prazo na
metade do caminho é extremamente comum, algo que Fishbach chama de "o
problema do meio".
Para combater isso, considere dividir objetivos de
longo prazo em metas semanais ou até diárias para evitar essa queda de
motivação.
Também ajuda monitorar o progresso. Para mim, isso
significa reconhecer os benefícios de uma contagem diária de palavras, em vez
de focar em quanto ainda falta escrever e pesquisar, algo que pode ser desanimador.
E, nos dias em que você não atingir sua meta, use
isso como uma oportunidade de aprendizado sobre o que mudar, em vez de
considerar um fracasso pessoal, diz Fishbach. Quando a motivação diminui, não é
necessariamente a força de vontade que nos leva adiante, mas os hábitos que
cultivamos ao longo do caminho.
Quanto mais frequentemente fazemos algo, maior a
probabilidade de que esse comportamento se torne um hábito.
E é ainda melhor se gostarmos disso também. Para
mim, isso significa aprender lentamente a gostar de levantar pesos e apreciar o
aprendizado de conceitos científicos complexos, em vez de simplesmente focar no
resultado final.
(Fonte:
BBC Brasil)




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