Nos anos anteriores à covid-19, nas economias avançadas, como EUA e países da Europa, a inflação anual raramente passou de 2% ao longo de mais de uma década. Como consequência, as taxas de juros se mantiveram lá embaixo — e até abaixo de zero no caso da União Europeia.
Nesse
período imediatamente antes da pandemia, o Brasil também tinha inflação próxima
da meta de 4,5% e uma taxa de juros abaixo de 7% — tendo recém saído de uma
recessão nos anos de 2015 e 2016.
Mas a pandemia mudou
tudo no mundo em questão de poucas semanas.
Primeiro
veio uma desaceleração brutal das economias — inclusive com queda rápida nos
preços. Mas, à medida que os países começaram a sair dos lockdowns,
os preços explodiram em praticamente todos os lugares do planeta.
A
inflação disparou não só em economias emergentes como também nos países ricos.
No
Brasil, ela saiu de 4,19% em janeiro de 2020 para 12,13% em abril de 2022. Nos
EUA, de 2,5% no começo de 2020 para 9,1% em junho de 2022 — um patamar inédito
para o país desde 1980, uma época de recessão por conta de choques mundiais no
preço do petróleo.
Como
consequência, as autoridades monetárias reagiram subindo os juros básicos da
economia em diversos países — avançados e emergentes.
Os juros básicos são
instrumentos usados pelas autoridades para combater a inflação. Quando
os preços começam a subir demais em uma economia, os juros altos ajudam a
encarecer o custo de se tomar empréstimos — freando a subida de preços.
O
juro americano subiu de um patamar de 0,25% para 5,5%, entre 2022 e o ano
passado. No Brasil, a escalada de juros aconteceu dois anos antes: partindo de
2% em fevereiro de 2021 para 13,75% em agosto de 2022.
Desde
o ano passado, políticos, empresários e trabalhadores em diversos países vêm
esperando que a inflação retorne aos níveis pré-pandemia. E também os juros —
que são considerados fundamentais para estimular a produção e o crescimento
econômico.
Um
dos termômetros mundiais para verificar se a economia global está voltando ao
seu normal é a decisão do banco central americano, o Federal Reserve (Fed), em
relação aos seus juros.
Há
quase um ano, analistas acompanham cada reunião do Fed à espera de que a taxa
básica de juros dos EUA seja cortada, o que seria um sinal de retorno ao
patamar normal da economia. Mas isso não está se confirmando.
Alguns
cortes foram feitos, mas em um ritmo muito menor do que o esperado. Neste mês,
o Fed manteve os juros no mesmo patamar: entre 4,25% e 4,5%.
Ou
seja: a economia dos EUA — assim como a de diversos outros países — não está
voltando ao antigo normal. No Brasil, os juros até
mesmo voltaram a subir, em um novo ciclo de alta. Em 19 de março, atingiram
14,25% — o mesmo patamar em que estavam durante a crise econômica brasileira de
2016.
Mas
por que a inflação teima em não cair no mundo e no Brasil meia década após o
começo da pandemia?
Inflação
teimosa
Apesar
de a inflação seguir acima dos patamares pré-pandemia, ela caiu bastante e de
forma rápida, afirma o economista Joseph Gagnon, do Peterson Institute for
Internacional Economics (PIIE), entidade sediada em Washington D.C., nos EUA.
"Trazer
a inflação de
8% ou 9% para menos de 3% até que aconteceu mais rápido do que qualquer um
imaginava", disse Gagnon à BBC News Brasil.
"Mas
voltar de 3% para 2% está demorando mais."
Para
Gagnon, a demora para a inflação descer o último degrau até o patamar
considerado normal se dá por conta de um efeito de transmissão de preços.
A
pandemia elevou os preços de itens como alimentos e energia — e isso provocou
uma alta em salários. Essa alta de salários alimentou outra alta: a do preço de
serviços.
Nesse
processo, a inflação — que mede preços gerais da economia — continua subindo
mesmo que os itens originais que provocaram a alta inicial já tenham tido seus
preços estabilizados.
A
inflação só poderá cair mesmo depois de alguns anos, quando essa inércia se
dissipa.
Um
dos efeitos desse período prolongado
de inflação é que o poder de compra dos
americanos não subiu tanto quanto estava subindo antes da pandemia.
"Em
um ano normal, quando a inflação era de 2%, os salários costumavam crescer 3% —
cerca de um ponto percentual acima da inflação. Mas isso não está acontecendo
nesses últimos quatro ou cinco anos de inflação da covid", diz Gagnon.
"Os
salários conseguiram se equiparar à inflação da covid, mas não cresceram esse
1% a mais. Em cinco anos, os salários deveriam ter crescido cinco pontos
percentuais a mais do que a inflação e isso não aconteceu."
O
novo normal: um mundo mais caro
Então,
é de se esperar que em poucos anos a inflação volte ao patamar de antes da
pandemia? Não exatamente.
Segundo
os economistas, um dos grandes desafios para conter a inflação no mundo — e no
Brasil — é o problema
fiscal que todos os governos têm no momento.
A
expectativa de preços — que determina o nível de inflação — é influenciada pelo
tamanho da dívida do governo. Se um governo gasta muito mais do que arrecada,
seu endividamento cresce.
Para
pagar essa dívida, os governos recorrem à emissão de mais moedas — e com isso
as moedas se desvalorizam diante dos bens e serviços. Ou seja, tudo fica
relativamente mais caro. E esse é um problema generalizado no mundo.
"Esse
é o ponto essencial. Essa agenda de consolidação fiscal é um debate no mundo.
Se as dívidas do país estão em outro patamar, o nível dos juros vai estar em
outro nível também", explica à BBC News Brasil a economista Zeina Latif,
da Gibraltar Consulting.
Gesner
Oliveira, economista da GO Associados e professor da Fundação Getúlio Vargas
(FGV), diz que a inflação atual se explica também pela pauta ambiental, em que
o mundo está trocando sua matriz energética. Países como o Reino Unido têm a
meta de, em 2050, ser neutra em emissões de carbono.
"Os
países têm metas de descarbonização, em que se troca fontes fósseis por fontes
renováveis. Muitas vezes essa troca é mais cara, embora o custo de fontes
renováveis tenha caído. E isso coloca uma pressão sobre os preços", diz
Oliveira.
A disciplina fiscal
já era um problema no Brasil antes mesmo da crise, com diferentes
governos promovendo reformas trabalhistas, tributárias e de previdência na
tentativa de contar explosões de gastos. Mas agora esse é um problema também em
economias avançadas.
"O
que mudou nos EUA hoje é que não há absolutamente nenhuma disciplina fiscal
aqui. Nosso governo está gastando muito mais do que arrecada. O déficit
orçamentário é de 6% do PIB [Produto Interno Bruto], o que é muito grande para
um país com pleno emprego e sem recessão", diz Gagnon.
"É
quase inédito que na ausência de uma guerra ou recessão, o déficit orçamentário
estaria nesse patamar. E não há perspectiva de que o Congresso vá reduzir seus
gastos."
No
caso dos EUA, nem mesmo políticas de cortes orçamentários devem aliviar esse
quadro.
O governo de Donald
Trump vem promovendo cortes de gastos — com demissão de funcionários e
diminuição da máquina pública federal. No entanto, economistas esperam que o
presidente americano cortará também impostos. E isso não alteraria a situação
fiscal americana, já que não haveria economia nenhuma de dinheiro.
A
Europa também sofre com problemas orçamentários. Até recentemente o continente
parecia estar se encaminhando para voltar aos níveis de inflação vistos antes
da pandemia — já que os governos europeus têm maior controle sob sua situação
fiscal, com déficits e dívidas menores.
Mas
isso não deve mais acontecer, segundo o economista do PIIE, por conta de
mudanças geopolíticas. Desde a chegada de Trump ao poder, os países europeus
estão precisando gastar mais em segurança. E todo esse gasto será
financiado através de maior endividamento — e não de maior arrecadação de
impostos.
Para
Zeina Latif, os gastos contraídos pelos governos durante a pandemia — com
estímulos especiais a setores e populações afetadas — fez aumentar ainda mais o
problema fiscal enfrentado pelos governos hoje em dia.
"O
Brasil gastou mais de 8% do PIB em 2020 em estímulos fiscais só no governo
federal. Na época, o FMI [Fundo Monetário Internacional] tinha soltado um
número que a média do mundo emergente tinha sido de 3,5%", diz Latif.
"No
mundo a inflação não foi só causada pela disrupção de cadeia, pela pandemia e
depois pela guerra
da Rússia. Foi o problema fiscal. Vimos que os países que abusaram demais
da sua situação fiscal [gastando demais] foram os que tiveram mais problemas
com a inflação, como os EUA."
Um
novo choque na economia: Donald Trump
Gragnon
diz que até o ano passado os preços pareciam estar se normalizando nos EUA —
sugerindo que a tão esperada queda dos juros americanos finalmente se
consolidaria esse ano. Mas tudo mudou em janeiro.
"A posse de Donald
Trump bagunçou todo o processo de queda da inflação, que parecia estar
se encaminhando bem. Agora, temos a ameaça de tarifas,
e isso vai elevar de novo os preços dos bens, assim como vimos durante a
covid", diz Gagnon.
"Podia-se
prever que haveria uma guerra comercial,
mas não estava previsto que haveria tantas tarifas contra Canadá ou
México", diz Gesner Oliveira.
"Esse
rompimento do sistema multilateral completo, esse discurso claramente contrário
ao multilateralismo e níveis de tarifas que voltam para a primeira metade do
século 20, isso estava fora do radar."
O
efeito desse aumento de tarifas nos EUA é previsível, segundo os
economistas: volta
da inflação nos EUA.
Isso
porque, em última instância, quem paga pelo aumento das tarifas é o consumidor
doméstico. Assim, os americanos são quem acabarão pagando mais pela guerra
comercial declarada por Trump, porque os produtos importados ficarão mais caros
lá.
O
que é menos claro é o que deve acontecer nos demais países, como o Brasil.
Aqueles que retaliarem na guerra comercial, provavelmente verão sua inflação
subir também. Mesmo assim, essa inflação provavelmente será menor nos demais
países do que nos EUA.
"Digamos
que o Brasil retalie com tarifas contra os EUA. Isso não vai afetar tanto os
consumidores no Brasil quanto o que está acontecendo nos EUA, porque vocês
estariam aumentando tarifas apenas contra um país, os EUA. E os EUA estão
aumentando tarifas contra diversos países. Então isso seria mais inflacionário
para nós [americanos] do que para vocês", diz o economista americano.
A incerteza gerada
por Trump pode provocar problemas que deixariam o mundo ainda mais
longe da normalidade pré-pandemia, segundo o economista.
"As
estimativas de probabilidade de haver uma recessão nos EUA [feitas no mercado]
cresceram bastante. Há um mês, essa chance era de 15%. Hoje os mercados estimam
em 30%", diz.
"Existe
muita incerteza relacionada a Trump — ora impondo tarifas ora recuando,
demitindo funcionários do governo, expulsando imigrantes sem documentos. As
empresas estão começando a esperar para investir. Elas não estão gastando
dinheiro porque querem esperar para ver o que acontece."
Problemas
para o Brasil
Para
Zeina Latif, o impacto da mais recente onda inflacionária só não foi pior na
vida dos brasileiros porque os salários têm
conseguido acompanhar os reajustes de preço — isso em função de o
mercado de trabalho estar aquecido.
"Os
ajustes salariais estão na casa de 9%, com ganho real. É claro que as pessoas,
mesmo tendo seus salários preservados, ficam ansiosas a cada ida no
supermercado, em que trazem para casa um pacote menor."
Mas
o que esperar de agora em diante?
Gesner
Oliveira diz que os preços da economia brasileira devem seguir sofrendo com
pressões de alta — com o governo brasileiro sinalizando que só poderá ter
superávits fiscais em 2026.
"Ninguém
prevê reequilíbrio ou eliminação do déficit primário até 2026. Se essa situação
vai continuar assim, o endividamento vai aumentar", diz Oliveira.
"Isso
significa uma fragilidade fiscal crescente, o que gera desconfiança em relação
à moeda doméstica, e isso eleva o dólar. E, ao elevar o dólar, o
preço dos importados fica pressionado, e sobe a inflação geral."
Além
disso, Oliveira afirma que, com a possibilidade de os juros americanos
permanecerem mais altos por mais tempo, isso também pode prejudicar a economia
brasileira.
"Se
a taxa de juros nos EUA demora para baixar ou não baixa, isso impõe taxa de
juros mais alta no Brasil", afirma o economista.
"A
entrada de capital no Brasil depende da diferença entre o juro doméstico e o
juro internacional. Se o juro internacional não cai, para continuar atraindo
capital internacional, é preciso subir o juro doméstico. Fica difícil diminuir
a taxa de juros no Brasil."
Zeina
Latif acredita que o Brasil também sofre com bombas fiscais — grandes gastos
que devem surgir no futuro próximo.
Uma
dessas bombas que ela sugere que podem explodir em breve é a da aposentadoria
dos trabalhadores
autônomos do regime MEI, que contribuem relativamente pouco para a
Previdência, mas que, nos próximos anos, começarão a se aposentar com valores
maiores do que o que foi contribuído.
"Além
dos velhos problemas, tem os novos aparecendo", diz Latif.
"O
próximo presidente provavelmente vai ter que fazer uma nova reforma da
Previdência. A última reforma foi importante, mas foi incompleta ou só
ganhou tempo."
(Fonte:
BBC)
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