Agatha abandonou o Ensino Médio em 2022, aos 16 anos, após mudar de cidade, de Maringá para a vizinha Sarandi, no Paraná, e ser matriculada numa escola que estava prestes a se tornar cívico-militar.
Jovem
trans, ela conta que teve dificuldade de se adaptar à nova escola,
após desentendimentos com colegas, por ter um posicionamento mais progressista.
"Eu passava
muito mal sempre que ia para a escola, e acabei só parando de ir. Minha mãe
ficou muito irritada comigo na época, mas foi isso."
Assim como Agatha,
um em cada quatro jovens brasileiros com idade até 19 anos ainda não concluiu o
Ensino Médio.
A taxa de conclusão
tem avançado nos últimos anos, passando de 54,5% em 2015, para 74,3% em 2025.
Mas o patamar
permanece abaixo do índice de conclusão do Ensino Fundamental até 16 anos, que
era de 74,7% em 2015 e passou a 88,6% no dado mais recente, mostra estudo do
instituto Todos Pela Educação, com base em dados da Pesquisa Nacional por
Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua e do seu Módulo Educação, do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O levantamento foi
divulgado em primeira mão à BBC News Brasil e será publicado nesta
segunda-feira (17/11), com objetivo de subsidiar os debates em meio à
tramitação do Plano Nacional de Educação (PNE) 2025-2035, que deve traçar os
objetivos a serem alcançados no setor na próxima década.
No Brasil, o Ensino Médio só passou a ser uma etapa obrigatória da educação básica oferecida pelo Estado a partir de uma emenda constitucional de 2009, com implementação gradual até 2016.
Além disso, por ser
a última etapa da educação básica, o aluno muitas vezes chega ao Ensino Médio
acumulando defasagens, observa Manoela Miranda, gerente de Políticas
Educacionais do Todos Pela Educação.
Isso inclui lacunas
no conhecimento e atrasos na trajetória escolar, seja por reprovações ou por
ter começado a estudar tarde. Esse atraso, muitas vezes, contribui para a
decisão dos estudantes de abandonar a escola, diz a especialista.
Claudia Costin,
especialista em políticas educacionais e ex-diretora global de educação
do Banco Mundial, observa ainda que a
universalização do Ensino Fundamental no Brasil é recente, tendo sido atingida
apenas na primeira década dos anos 2000.
"Então, a
escolaridade dos pais desses jovens é muito mais baixa", observa Costin.
"Isso cria um
ambiente familiar que pode prejudicar a aprendizagem, pois pesquisas mostram
que até 68% do sucesso escolar de uma criança depende dos anos de escolaridade
da mãe. Se os pais não estudaram, não fizeram o Ensino Médio, e a criança começa
a repetir de ano, o pai pode, por exemplo, achar que esse jovem não serve para
a escola", diz ela.
"Ou o próprio
jovem pode ter essa percepção, se ele recebe repetidas mensagens de que ele não
é bom de português, ou não é bom de matemática", exemplifica.
Apesar disso,
Costin destaca que o avanço na taxa de conclusão do Ensino Médio na última
década é notável, o que ela credita, em parte, ao avanço do acesso ao Ensino
Superior que também tem ocorrido nos últimos anos.
"Está se
criando uma cultura de que sim, o jovem pode ir para a universidade, e há a
percepção de que há um adicional de salário [para pessoas com Ensino Superior],
que é comprovado por pesquisas", destaca.
Dados da
Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que
brasileiros de 25 a 64 anos que concluem o Ensino Superior ganham, em média,
148% a mais do que aqueles que têm Ensino Médio. Essa diferença é maior do que
a média dos países da OCDE, que é de um salário médio 54% maior.
Abismo entre ricos e pobres no Ensino Médio
Apesar do avanço na
taxa geral de conclusão do Ensino Médio no Brasil, um abismo ainda separa ricos
e pobres neste nível de ensino.
Entre os 20% mais
ricos, a taxa de conclusão passou de 85,2% em 2015, para 94,2% em 2025.
Já entre os 20%
mais pobres, o avanço foi de 36,1% a 60,4% no mesmo período.
Assim, a diferença
entre os dois grupos diminuiu, de 49,1 pontos percentuais (p.p.) em 2015, para
33,8 pontos no dado mais recente, mas ainda é significativa.
Se nada mudar,
levará 23 anos para que ricos e pobres tenham a mesma chance de concluir o
Ensino Médio no Brasil, o que só aconteceria em 2048, calcula o Todos pela
Educação, em seu estudo.
"Há um abismo
entre as oportunidades que as crianças e jovens mais pobres têm no acesso e na
permanência [escolar]", observa Manoela Miranda.
Essa diferença fica
explícita quando analisados os motivos que levam pobres e ricos a não
concluírem o Ensino Médio, observa a gerente de Políticas Educacionais do Todos
Pela Educação.
Entre os 20% mais
pobres, 18% não concluíram o Ensino Médio até os 19 anos porque ainda estavam
estudando, ante 3% dos mais ricos, o que reforça o papel do atraso educacional
na não conclusão do Ensino Médio na idade certa.
Ainda entre os mais
pobres, 8,3% diziam que precisavam trabalhar (ante 2,8% dos mais ricos) e 10,6%
que não tinham interesse em estudar (ante 1,5% dos mais ricos).
A necessidade de
trabalhar foi o que tirou o recifense Henry Gaudêncio Almeida dos Anjos do
Ensino Médio, ainda no primeiro ano.
"Eu trabalho
desde os 15, praticamente, mas tive que largar [o Ensino Médio] quando houve
mais necessidade. Eu tinha uns 16, 17", lembra Henry, hoje com 21 anos e o
mais velho de três irmãos.
"Eu estudava
em escola técnica, que era integral. E, na época, não existia esse Pé de Meia, toda essa assistência do
governo", afirma, citando o programa federal de incentivo financeiro para
estudantes do Ensino Médio, lançado em 2024.
"Com a
separação dos meus pais, nossa situação financeira ficou uma coisa
completamente distante da realidade que era antes, que era bem mais tranquila.
O que me forçou a ter que correr atrás do meu dinheiro. Trabalhei de garçom,
bartender, auxiliar administrativo, fiz muita coisa."
Casos como o de
Henry ajudam a explicar porque, na análise por gênero, mulheres superam homens
nos índices de conclusão do Ensino Médio, já há muitos anos.
Entre as meninas, a
taxa de conclusão passou de 60,4% a 78,5% entre 2015 e 2025, ante 48,6% a 70,2%
para os rapazes.
"Quando
olhamos para o motivo de não conclusão dos homens, tem muita falta de interesse
e homens que precisam trabalhar", destaca Miranda. "Então há essa
expectativa que se tem do homem trabalhar, de prover uma renda em casa."
"Por outro
lado, muitas meninas evadem o Ensino Fundamental e Médio por gravidez precoce
ou porque são cobradas por responsabilidades e afazeres domésticos", diz a
pesquisadora, citando entre essas responsabilidades o cuidado com irmãos mais
novos.
Desigualdade racial e regional
Analisando por cor
ou raça, em 2025, a taxa de conclusão foi de 81,7% para brancos e amarelos e
69,5% para pretos, pardos e indígenas, uma diferença de 12,2 pontos
percentuais.
"Isso
significa que, mesmo após avanços significativos na última década, os
estudantes pretos, pardos e indígenas ainda não alcançaram o patamar registrado
por brancos e amarelos em 2018 (73%)", destaca a equipe do Todos pela
Educação, no estudo.
Ao ritmo atual de
redução da desigualdade entre os grupos (-0,8 p.p. por ano, em média), a
distância só seria eliminada em 2041, calculam os pesquisadores.
"Por outro
lado, com o aumento no acesso [de pretos, pardos e indígenas] à universidade,
isso constrói modelos para esses adolescentes", diz Claudia Costin.
"Quer dizer,
se meus primos começam a concluir universidade, tem alguma coisa aí de positivo
que pode acontecer comigo, né? Assim, a taxa de conclusão [do Ensino Médio]
para pretos, pardos e indígenas vem avançando mais do que a de renda por
motivos em parte compreensíveis."
Costin cita ainda
o aumento da autodeclaração de pessoas como pretas, pardas e indígenas, identificado pelo IBGE em pesquisas
como a Pnad e o Censo, como outro fator que influi na melhora dos indicadores
de conclusão por raça nos últimos anos.
Por fim, a análise
por regiões mostra uma aceleração das taxas de conclusão nas duas regiões que
partiram de patamares mais baixos: o Nordeste, que passou de 63,6% em 2015 para
84,8% em 2025, e o Norte, que evoluiu de 66,5% para 82,5% no mesmo período.
No Nordeste, Costin
destaca o avanço do ensino de tempo integral em Estados como Pernambuco,
Paraíba e Ceará como fator que favoreceu a melhora da aprendizagem e dos
índices de conclusão.
Já no Norte, ela
destaca iniciativas como a criação dos centros de mídias no Amazonas, para
levar aulas transmitidas via satélite para populações ribeirinhas que vivem em
áreas de baixíssima densidade populacional. Essa iniciativa foi posteriormente
replicada por outros Estados.
Apesar do forte
avanço, Norte e Nordeste seguem com taxas de conclusão do Ensino Médio até os
19 anos inferiores ao Sudeste (92,7%), Centro-Oeste (91,9%) e Sul (88,4%).
Como mudar esse quadro
Mas o que fazer
então, para acelerar as mudanças que já vêm acontecendo nos índices de
conclusão do Ensino Médio e garantir que mais pessoas possam acessar as
universidades ou entrar para o mercado de trabalho com um nível melhor de
qualificação, garantindo melhor renda?
Claudia Costin
defende o avanço do ensino de tempo integral, tanto no Ensino Médio, como no
Fundamental.
Atualmente, a modalidade
representa 24,2% e 19,1% das matrículas de cada uma dessas etapas,
respectivamente, segundo dados do Censo Escolar 2024.
Apenas com mais
horas de aulas é possível incluir na jornada do aluno tempo para recuperar
conteúdos que eventualmente ficaram defasados, diz Costin, garantindo o
conhecimento adequado para cada série e a continuidade da trajetória escolar do
estudante no tempo correto, posto que tanto a repetência, quanto as lacunas de
aprendizagem são fatores que aumentam o abandono escolar.
"Ao mesmo
tempo, temos que melhorar a atratividade da carreira de professor, formar
melhor esse professor para sua prática", defende.
Costin destaca
ainda a importância de iniciativas como o Programa Pé de Meia, que nos próximos
anos deve ter impacto positivo em reduzir o índice de evasão pela necessidade
de trabalhar, acredita.
"Só
conseguimos universalizar o acesso ao Ensino Fundamental quando começamos a
pagar o Bolsa Família, porque havia uma
condicionalidade: a criança tem que ter frequência escolar", lembra.
"O Pé de Meia complementa esse dinheiro, criando uma poupança para o
aluno."
Pelas regras do
programa, alunos matriculados no Ensino Médio recebem R$ 200 mensais, mais R$ 1
mil a cada ano concluído e um adicional de R$ 200 se prestarem o Exame Nacional
do Ensino Médio (Enem), que só podem ser retirados da poupança após a formatura
no Ensino Médio.
Ao fim de 2024, o
programa já beneficiava 3,95 milhões de estudantes, segundo dados do governo
federal, representando 50,6% das 7,8 milhões de matrículas registradas no
Ensino Médio naquele ano.
Manoela Miranda, do
Todos pela Educação, destaca ainda o Novo Ensino Médio, cujas regras vão se tornar
obrigatórias em 2026.
Entre as principais
mudanças estão a ampliação da carga horária diária, de quatro para cinco horas,
e a introdução dos chamados itinerários formativos, com matérias optativas que
podem ser escolhidas pelo aluno de acordo com seus interesses.
"A
possibilidade de o jovem escolher esse caminho que ele quer trilhar, que faça
sentido pra vida dele, pode ajudar o jovem a ficar na escola. Ele vê essa
conexão com o mundo do trabalho, com a vida dele", acredita Miranda.
Uma nova esperança
Para Agatha e
Henry, o abandono do Ensino Médio não foi o fim de suas trajetórias escolares.
Isso porque, após
deixarem a escola, ambos prestaram o Exame Nacional para Certificação de
Competências de Jovens e Adultos (Encceja), prova que certifica a conclusão do
ensino fundamental e médio, voltada para jovens e adultos que não concluíram
essas etapas na idade certa.
Agatha prestou a
prova este ano e está confiante em ser aprovada, quando os resultados do exame
forem divulgados no dia 15 de dezembro.
"Sempre foi
bem ruim procurar emprego e ver que, para algumas vagas, precisava de Ensino
Médio concluído. Então me formar me deixa bem mais aliviada", diz a paranaense.
"É bem libertador."
Já Henry conseguiu
se formar pelo Encceja em 2023 e, no mesmo ano, foi aprovado em Direito pelo
Programa Universidade Para Todos (Prouni). Com isso, começou a estagiar na área
e depois conseguiu emprego num cartório, como jovem aprendiz.
Atualmente, está
cursando Odontologia, após mudar de curso, e conta com orgulho que ficou em
primeiro lugar ao apresentar trabalho num congresso da área.
"Eu acredito
que todo mundo pode sim conquistar espaços melhores, lugares melhores. Eu tenho
isso para mim de uma forma muito viva", diz o pernambucano.
"Por conta da
qualidade de vida que eu tenho hoje, a partir do momento que eu consegui
conquistar esses espaços com o estudo. Hoje, por exemplo, se eu tenho vontade
de viajar para algum lugar, de passar um final de semana fora, eu posso."
"Poder simplesmente até comprar um lanche, coisa que antes eu não tinha [essa condição]. Isso o estudo me proporcionou. Ainda é muito pouco, mas já é alguma coisa. E é uma perspectiva de que tudo melhore."
Gráficos produzidos
pela Equipe de Jornalismo visual da BBC News Brasil
(FONTE: BBC)








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