O
tribunal da consciência e a corrupção
Belíssimo texto de Leonardo Boff cuja leitura é aconselhável para todo brasileiro que sonha com um País melhor, mais justo e livre de uma chaga que o corrói deste deu descobrimento (1500): A CORRUPÇÃO.
No artigo abaixo, que faz parte da edição de hoje do Jornal do Brasil, o escritor, teólogo, filósofo e ex-frade franciscano traça um perfil de um corrupto. Ler, refletir e identificar esse tipo de pessoa, apenas, é muito pouco. É preciso agir para impedir suas ações e para que essa espécie não prolifere. Leia.
O
tribunal da consciência e a corrupção
O corrupto ama a escuridão e abomina a luz. Ele
sabe o quanto é condenável o que pratica.
É nesse ponto que se anuncia a consciência. Fizeram-se inumeráveis interpretações do fato da consciência. Tentaram derivá-la da sociedade, dos superegos das tradições e das religiões, do ressentimento face aos fortes e outros. Os manuais de ética referem infindáveis discussões sobre a origem, a natureza e o estatuto da consciência. Entretanto, por mais que tentemos derivá-la de outras realidades, ela se mantém como instância irredutível e última.
Ela possui a natureza de uma voz interior que não consegue
ser calada. Exemplifiquemos: em 310 o imperador romano Maximiano mandou dizimar
uma unidade soldados cristãos porque, depois de uma batalha, se negaram a
degolar inocentes. Antes de serem executados, deixaram uma carta ao imperador:
”Somos teus soldados e temos as armas em nossas mãos. Entretanto, preferimos
morrer a matar inocentes, a ter que conviver com a voz da consciência nos
acusando” (Passio Agaunensium). A 3 de fevereiro de 1944 escreve um soldado
alemão e cristão a seus pais: ”Fui condenado à morte porque me neguei a fuzilar
prisioneiros russos indefesos. Prefiro morrer a levar pela vida afora a
consciência carregada com o sangue de inocentes. Foi a senhora minha mãe que me
ensinou a seguir sempre primeiro a voz da consciência e somente depois as
ordens dos homens" (Letzte Briefe zum Tode Veruteilter).
Que poder possui essa voz interior a ponto de
vencer o medo natural de morrer e aceitar ser morto? Ela admoesta, julga,
premia e castiga. Com razão Sócrates e Sêneca testemunhavam que a consciência
”é Deus dentro de ti, junto de ti e contigo”. Kant, o grande mestre do
pensamento ético, dizia que “a consciência é um tribunal interno diante do qual
pensamentos e atos são julgados inapelavelmente”. Foi esse filósofo que
introduziu claramente a distinção entre preço e dignidade. Aquilo que tem preço
pode ser substituído por algo equivalente. Entretanto, há uma instância
em nós que está acima de todo preço e que, por isso, não admite nada que a
substitua: essa é a “dignidade humana”, fundada na consciência de que “o ser
humano é um fim em si mesmo e que não pode jamais servir de meio para qualquer
outras coisas”.
O mau e o corrupto se escondem sem que ninguém os
procure, e fogem sem que ninguém os persiga. Donde lhe vem esse medo e
pavor? Quem é esse que vê os dinheiros escondidos e para os quais não existem
cofres secretos nem senhas para abri-los? Para ela não há segredos dentro de
quatro paredes palacianas ou em obscuro quarto de hotel. O corrupto sabe e
sente que a consciência é maior que ele mesmo. Não possui poder sobre ela. Não
a criou. Nem pode destruí-la. Ele pode desobedecer aos seus imperativos.
Negá-la. Violentá-la. Mas o que ele não pode é silenciá-la.
Por que aventamos esse clamor íntimo? Porque
estamos interessados em conhecer os tormentos que a má consciência inflige ao
coração e à mente daquele corrupto que desviou dinheiro público, que se
apropriou das poupanças dos trabalhadores e dos idosos e que, desmascarado,
teve que inventar mentiras e mais mentiras para esconder o seu malfeito. Mas
não há nada escondido que um dia não venha a ser revelado.
Mesmo que saia absolvido em um tribunal, porque
contratou advogados hábeis em fazer narrativas tão lógicas que encobriram seu
crime e convenceram os magistrados, ele não consegue escapar do tribunal
interior que o condena. Uma voz o persegue para onde for, acusando-o de indigno
diante de si mesmo, incapaz de olhar com olhos límpidos para sua esposa e
filhos, e conversar com coração aberto com seus amigos. Uma sombra o acompanha
e lhe rouba a irradiação que nasce da bondade originária de uma consciência
serena e feliz. A vida o amaldiçoa porque traiu a verdade, violou sua própria
dignidade e se fez desprezível diante de sua própria consciência. (* Leonardo Boff, escritor, é teólogo e filósofo. -
lboff@leonardoboff.com)
LEONARDO BOFF é o pseudônimo de Genézio Darci Boff nascido em Concórdia (SC), em 14 de dezembro de 1938). É um teólogo brasileiro, escritor e professor universitário, expoente da Teologia da Libertação no Brasil. Foi membro da Ordem dos Frades Menores, mais conhecidos como Franciscanos. É respeitado pela
sua história de defesa pelas causas sociais e atualmente debate também questões
ambientais. (Do Wikipedia)


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