GUAJARÁ CIALDINE
E TOBIAS ALVES - ARRIBANDO...
Daquela vez foi
diferente. E que março!!!
Tradicionalmente,
a festa no sertão é interrompida para um breve intervalo, quando o sanfoneiro
“resfolenga” o conhecido “O tocador quer beber”. Mas como foi diferente daquela
vez! Tudo por conta de dois lamentáveis acontecimentos. Tanto o toque mudou,
como o intervalo se tornou mais longo. Até que nos acostumássemos com ele e
recomeçássemos a festa levou um bom tempo.
Nos varandões das
fazendas e nos terreiros das casas grandes só se ouvia a penosa “Triste
partida”. Não apenas com o sentido com que Luiz Gonzaga cantou o sofrimento dos
retirantes. Era muito e muito mais massacrante. Daquela vez era anunciada a
triste partida de duas bandeiras do rádio sertanejo cearense. Em menos de três
dias perdemos: José Guajará Gomes de Almeida Cialdini e Matias Tobias Alves.
É uma pena que
não tenhamos ficado com nenhuma réstia de esperança de regresso dos dois gênios
do nosso rádio, diferentemente do que ocorreu a Patativa do Assaré. Mesmo
chorando a fuga dos que fugiam da seca, o poeta ainda teve o direito de
prognosticar que um dia eles poderiam voltar. A nós, apenas a esperança do
reencontro em outra dimensão.
Guajará e Tobias
- dois comunicadores que se dedicaram ao mesmo ritmo: a música sertaneja
nordestina. Abraçaram uma causa comum: defender as raízes culturais do sertão.
E cada um, a seu modo, deixou larga contribuição à cultura e ao rádio da
região.
GUAJARÁ CIALDINI (José Guajará Gomes de Almeida) nasceu em
Sobral a 26 de março de 1941 e faleceu aos 54 anos no dia 11 de março de 1995
(sábado, às 6h35min), em decorrência de problemas cardíacos, dentre outros.
Eram seus pais Mário de Almeida Cialdini e Ana Joaquina Gomes (dona Moreninha).
O radialista era casado com Ana Júlia Sobreira Cialdini, com quem teve filhos,
dentre os quais Dr. Alexandre Cialdini, Secretário de Finanças do município de
Fortaleza (CE).
Ingressou no
rádio em sua terra, tendo como marca registrada os inúmeros jargões e ditos
populares do caboclo sertanejo. Por conta de sua maneira alegre de comunicar,
versatilidade e do conhecimento da vida matuta marcou época com o seu “No varandão
da Fazenda” na Rádio Tupinambá e “Guajará
no varandão” na Educadora. Apresentou, também, Matutino Tupinambá, com
diversos parceiros, e “O seu presente é música” somente aos domingos. Após anos
de sucesso na radiofonia local transferiu-se para Fortaleza, onde exerceu com o
mesmo brilhantismo a profissão que o projetou nacionalmente no estilo. Sua fama
se espalhou por serras, sertões e cidades. Segundo o radialista Nonato Braga,
quando Guarajá Cialdini visitava outras cidades era recepcionado pelo prefeito
e vaqueiros que, em fila, entoavam aboios.
Guajará Cialdini
foi um boêmio de quem todos gostavam de privar da companhia É autor de tiradas
espirituosas, foi um homem polivalente e de raro talento. Quando jovem chegou a
tocar bateria, tornando-se, mais tarde, também compositor. Em parceria com
Messias Holanda compôs várias canções de sucesso, tais como, Coma ovo; Mulher
não paga; Olha o tamanho da bichona; Minina da mala, além de composições feitas
com outros músicos. Trabalhou também como bancário em Sobral no extinto Banco
da Bahia e, em Fortaleza, no extinto Banco Nacional da Habitação (BNH), onde se
aposentou. Em seus últimos dias era líder de audiência na Rádio Assunção
Cearense.
Ficaram célebres
suas frases: “Pra quem gosta, catinga de
bode é cheiro”; “Quanto mais o bode
empina, mais certa é a martelada”; “São
Jorge só tem um, mas cavalo tem aos montes”; “Pau que nasce torto até a cinza é de banda”; “Não pode ir pra festa armado e nem com cacete de lado”; “Arribando o chapéu de couro pra riba, são...”,
"Fumo de rolo
é cachaça, pé de goela é gogó e Guajará no Varandão é o melhor forró". São coisas
nossas, coisas do coração, e não se pode esquecer.
TOBIAS ALVES (Matias Tobias
Alves) nasceu em Várzea Redonda - Bonfim, distrito de Sobral, no dia 22 de
fevereiro de 1932 e faleceu numa segunda-feira, às 14h05, do dia 13 de março de
1995, também vítima de problemas cardíacos. Eram seus pais Inácia Maria dos
Santos e João Raimundo Farrapo. O radialista era casado com Regina Andrade de
Aguiar Alves, com quem teve os filhos: Regina, Tobias Filho, Cláudia Silvana e
Raimundo Inácio Aguiar Alves (jornalista).
Profundamente
dedicado a Sobral, Tobias Alves sempre optou por fazer rádio em sua terra.
Notabilizou-se pela maneira especial com que apresentava seus programas
matutos, utilizando-se sempre da rima em qualquer assunto ou ocasião. Com os
programas “Festa no sertão”, na extinta Rádio Iracema de Sobral, e “No terreiro
da casa grande”, na Educadora, nosso rimador deixou registrada sua marca de
autêntico amante e defensor das coisas do sertão. Com o mesmo fôlego, foi
também apreciador e divulgador da mais pura MPB saudosista, mantendo,
inclusive, o programa “Música, saudade e poesia” na Rádio Educadora até bem
próximo da data da sua morte. Era muito alegre, comunicativo, boêmio moderado e
com uma preocupação que não conseguia disfarçar: a situação de decadência do
rádio como formador de opinião pública. Reprovava veementemente a presença de
maus profissionais e a falta de providências a fim de que houvesse um basta ou
a inversão desse lamentável quadro. Teve, por duas ocasiões, passagem pelo
legislativo de Sobral e também mantinha estabelecimento comercial (armazém) na
Rua Floriano Peixoto. Suas rimas no programa matuto, bem como sua poesia e o
bom gosto musical no de saudade, jamais se nos apagarão da lembrança. Também
são coisas do coração e não se esquece jamais.
GUAJARÁ E TOBIAS - Dois grandes
profissionais que exaltaram nossos valores, que encantaram nosso povo com seus
estilos e que fizeram bom uso do microfone. Além da saudade deles, assalta-nos,
ainda, o temor por conta da diminuição dos que defendem fielmente nossas
raízes; assusta-nos, também, o aumento dos pseudodefensores do sertão e das
suas coisas que continuam a agir mais livremente e, acima de tudo, preocupa-nos
o fato de ser extremamente pequeno o número dos que combatem isso.
Por outro lado,
alegramo-nos porque o trabalho incansável desenvolvido pelo GUAJARÀ e pelo
TOBIAS continua estimulando, inegavelmente, os que ficaram com a
responsabilidade de continuar a luta
pela preservação da cultura popular. A história de Guajará e Tobias
conforta-nos, porque a semente por eles plantada já começa a dar frutos, mesmo
que lentamente. E fica a lição de que, usando a mesma fidelidade à comunicação
de qualidade e o mesmo amor com que eles tanto trabalharam, faremos surgir
muitos outros GUAJARÁS e TOBIAS. Assim, nossa cultura estará salva e
preservada.
Para os
sobralenses e, em especial, para a ala da radiofonia que não desiste de lutar
pelas nossas raízes, aquele março de 1995 foi de dor e de extrema angústia
pelas perdas irreparáveis desses dois talentos. E, como a festa no sertão tem
de continuar, resta aos que fazemos a imprensa falada e escrita seguir as
pegadas dos companheiros que partiram; conferir-lhes o merecido tributo e
respeito; e, a todo custo, redobrar as forças para continuar defendendo as coisas
nossas até que chegue o momento de também irmos... ARRIBANDO.


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