domingo, 26 de novembro de 2017

COLUNA WILSON BELCHIOR: Lux, o sabonete da estrelas

No princípio dos anos 50, bombava através da Rádio Iracema, na voz cristalina e convincente do José Maria Soares, a propaganda do SABONETE LUX, O SABONETE DAS ESTRELAS. O público feminino de Sobral passou a usar esse sabonete com frequência tal que se tornou difícil de ser encontrado no comércio varejista.

Como se não bastasse sua já grande aceitação, o mesmo José Maria, nos intervalos do seu programa líder em audiência, passou a divulgar outra propaganda estimulando ainda mais o consumo. A propaganda sugeria:

- Banhe-se com SABONETE LUX! Se você encontrar uma chave, leve-a ao Revendedor Chevrolet de Sobral, que o carro que ela abrir será seu, inteiramente seu, e inteiramente grátis. Você poderá ir para casa dirigindo, com tanque cheio, sem lhe custar um só centavo. SABONETE LUX: O SABONETE DAS ESTRELAS.

Isso ocorria no mundo dos sonhos, das ilusões da mídia, da propaganda enganosa. No mundo real, na alegre e famosa Rua Santo Antônio morava uma bonita sobralense, de nome Margarida Solon, filha do meu padrinho Ubaldo Solon e de dona Maria Pierre. O distinto casal tinha também um filho, conhecido por todos como Luís Bacurau.

Influenciada pela propaganda, a Margarida foi até o Armarinho Conrado, na Praça da Coluna da Hora, e comprou uma caixa contendo uma dúzia de SABONETE LUX. O Bacurau, vendo-a chegar com tanto sabonete, pediu que lhe desse um, ao que ela respondeu ser o produto mais apropriado para mulheres. Mesmo assim, ele disse que lhe desse um, e recebeu um deles da desconfiada irmã.

Era uma quinta-feira e no domingo que se aproximava o Milton comemoraria seu aniversário. E o Bacurau achou por bem lhe dar um presente, por serem amigos e vizinhos já por muito tempo.

O Milton era conhecido por Miltão do Pe. Gerardo. Era irmão do quitandeiro Pitarolho e muito amigo do Luís Bacurau. Com esses dois últimos eu, ainda menino, atravessava o Açude Cachoeira para, no outro lado, nos servir de frutas no pomar do Edmundo.

O Miltão era filho do sr. José Fausto Araújo e de Dona Maria do Carmo Ferreira Gomes, essa irmã do Pe. Gerardo. Morava com seus pais na Rua do Oriente, nas proximidades da Usina do sr. Oriano Mendes. De lá foi trazido pelo Pe. Gerardo para receber educação religiosa, a fim de se tornar seu coroinha na Catedral da Sé, onde o Pe. Gerardo era Cônego.

O Miltão foi meu vizinho durante 16 anos. Mesmo bem mais velho do que eu não me impediu de conhecer, direta ou indiretamente, muitos “causos” que com ele ocorreram, como o que estou agora vós relatando.

Mas bem! 

Chegado o domingo do seu aniversário, logo pela manhã, Luís Bacurau foi até a casa do Miltão e lhe entregou de presente o SABONETE LUX, que a Margarida lhe dera. E o explicou: 

- Se dentro dele, Miltão, você encontrar uma chave, pode ir ao Revendedor Chevrolet, o Edilberto Napoleão, que o carro que você abrir será seu. Tal e qual afirmava a propaganda.

O Miltão não se conteve, pegou o sabonete entrou no banheiro e começou a se ensaboar com força, querendo gastar logo o sabonete, procurando a bendita chave. Passaram-se umas duas horas, quando a Laura, sua tia. que com ele morava, foi reclamar:

- Milton, que banho comprido é esse de quase duas horas? Se você continuar irá consumir toda a água do tanque.

- Tia, não importa! Encherei esse tanque de novo, quantas vezes necessárias, até secar o cacimbão.

- Saiba que o cacimbão não é só nosso. É também do seu Otávio Belchior.

- Tá bem, tia! Dê-me pelo menos mais uma meia hora. O sabonete já está afinando.

Antes de decorrer a meia hora, ao esfregar mais uma vez no corpo o sabonete Miltão sentiu que algo começou a lhe ferir. Que alegria! Ele havia encontrado a chave.

Excitado pela ocorrência, deixou o banheiro e saiu correndo nu, e todo ensaboado pela pacata Rua Santo Antônio, aos gritos e mostrando aos moradores perplexos a chave do carro que ganhara.

Então, foi chamado pelo Pe. Gerardo, que ordenou:

- Milton, volte logo para o banheiro. Você está todo ensaboado e despido. Que coisa é essa, que coisa feia!

- Sim, meu padrinho.

- Voltou para o banheiro, terminou o banho e se aprontou para ir o carro receber. Chegando lá, o vendedor lhe falou que aquela chave não lhe parecia ser de nenhum carro, mas se quisesse poderia tentar com ela dar partida em algum. Tentou em todos e nada aconteceu. Voltou para sua casa choroso, por ter de jogar seus sonhos no triste balaio das suas ilusões perdidas.

O Luís Bacurau, ao receber o SABONETE LUX da Margarida, havia cuidadosamente aberto sua embalagem, feito nele um furo transversal. Depois disso. havia empurrado uma chave de um velho cadeado Pado, usado no quintal da casa do meu padrinho Ubaldo Solon.









(*) Wilson Belchior é engenheiro civil, articulista, poeta e memorialista.  


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