domingo, 19 de novembro de 2017

COLUNA WILSON BELCHIOR: O Louro do trigo

Sobral, ano de 1955, a Praça do Siebra trocara informalmente de nome para Praça do Congresso Eucarístico. Comemorar-se-ia, lá, cinquenta anos de ordenação sacerdotal de Dom José. Carpinteiros, marceneiros, eletricistas, bombeiros, pintores, centenas de operários se mobilizavam para construir cinquenta altares-mesa destinados à celebração, que acolheria num mesmo dia e hora, cinquenta celebrantes rezando em latim, um para cada altar com um acólito acompanhante.
Missa do Dia das Crianças (Foto: arquivo Sarto Rios)

Com esse congresso, o prestígio e poder de Dom José, atingiria seu ápice. A população da cidade e de todo o Ceará, e até de outros estados, preparava-se para assistir ao mais monumental dos eventos ocorridos em Sobral, naquele época...

Do lado profano, a falta de trigo atormentava os comerciantes. Donos de padarias, fabricantes de hóstias, restaurantes, mercearias, confeitarias e o comércio em geral estavam preocupados, sem saber como atender ao temporário e vertical aumento na demanda durante o tempo do congresso. Momento de dificuldade como esse faz surgir pessoas inteligentes e audaciosas, com visão de águia para negócios e faro de urso californiano, para os lucros. Essas qualificações eram possuídas por Francisco Edival Vasconcelos (1927-2010), um sobralense simples, mas experimentado, conhecido àquela época como Louro Corretor.

 Trabalhara como motorista da empresa F. Chagas Barreto, era amigo do Carrinho Cabeceiro, comerciante naquela época. Meses antes, Louro pensando  lhe surgiu uma ideia, que detalhou ao Carrinho, cujos negócios iam de vento em popa, e prontamente se propôs a esse negócio com Louro se associar. Louro, entretanto, afirmou-lhe que não precisaria de sócio, apenas que ele lhe comprasse três carradas de trigo e lhe pagasse à vista, antes do trigo receber. O Carrinho aceitou. Comprou, e pagou em dinheiro, as três carradas que lhe foram oferecidas.

Dinheiro recebido, Louro percorreu Sobral com o Chico Lampião ou Coloral, na época, honesto e conhecido corretor, vendendo trigo no comércio, nas mesmas condições e não demorou para vender no varejo mais três carradas, perfazendo seis, que Louro achava ser bastante para suprir o consumo, no tempo do congresso. Muito dinheiro ele assim arrecadou e teve que ir a Fortaleza converter metade em dólares americano, que o fez através dos serviços de um conhecido doleiro.

Tal um general a comandar sua tropa numa operação de guerra, Louro chamou Beltrão, pequeno e experto comerciante, e com ele montou sua base. Disse-lhe que queria falar com o Vaca Braba, um pintor de letreiro, e a ele mandou entregar peças de tecido para serem transformadas em faixas e papeis com os dizeres que deveriam serem nelas reproduzidos e que, quando prontas, as empacotasse e entregasse ao Gerardo Boca Larga, motorista da Praça da Coluna da Hora, para ele ir deixar com um seu amigo, arrendatário da Hospedaria do Aprazível.

Manda Beltrão contratar seis caminhões com motoristas e indica seus preferidos; os irmãos Zoin e Zoião, Zé Roda, Traíra, Paredão, Piauí, Pifite, todos de nomes esquisitos, mas qualificados para a missão, que a princípio parecia fadada ao fracasso. Convida dois dos seus mais confiáveis companheiros e vão à Argentina com parte do dinheiro recebido dos comerciantes de Sobral, suficiente para as despesas e compra do trigo que ele já havia vendido.

Na Argentina, nos moinhos nada conseguiu. A produção por dois meses já estava negociada. Porém, Louro não desvaneceu: colheu informações, foi às fazendas produtoras e, por milagre, encontrou uma, de um brasileiro, com silos abarrotados de grãos, que se prontificou a vender as seis carradas. Louro afirmou, entretanto, que precisaria do trigo já moído e o brasileiro não viu nisso obstáculo, pois era do ramo e conhecia moinhos de amigos que poderiam moer em dois dias. Louro ficou feliz e fechou o negócio.

Em seguida, o vendedor do trigo lhe ofereceu transporte, disse conhecer um aposentado Comandante de Barco argentino, que, inclusive, falava português, e acabara de comprar um barco novo e se encontrava à procura de frete. Foram com ele se informar da viagem do Porto de Buenos Aires até o Porto de Camocim. O comandante afirmou ser de umas duas semanas, pois, seu barco tinha tanques reservas, que permitiam fazer o percurso, andando noite e dia, sem precisar reabastecer.
 Louro do Trigo
Louro gostou, acertaram o preço, deu-lhe um adiantamento e o comandante feliz disse-lhe que já conhecia o Ceará e que deixara em Fortaleza namoradas na 80, uma casa de divertimento para homens, situada na Rua Governador Sampaio.

Trigo comprado, Louro telegrafou ao Beltrão dizendo que os caminhões estivessem em dez dias lhe esperando no Porto de Camocim e lembrou ainda que cada um levasse cordas, dois encerados e que lá esperassem com tanques cheios.

Disse-lhe, também, para avisar ao Cibite, motorista de Praça do Posto da Coluna da Hora, para ficar com seu Jeep de prontidão, e que avisasse ao Argemiro da Carroça que iria dele precisar. Tudo foi providenciado em minúcias, com precisão matemática. Em poucos dias o barco estava em pleno mar azul, singrando o Atlântico, levando o Louro, seus companheiros, o comandante, um imediato, três marujos e, obviamente, o trigo para essa viagem. E, em seu decorrer, pensando na finalização desse seu ambicioso projeto, concluiu:

Deveremos chegar de manhã no Porto de Camocim, descarregar a embarcação e simultaneamente carregar os caminhões até à noite. Na mesma noite viajar ao Aprazível para fazer refeições, colocar as faixas envolvendo as carrocerias e aguardar a hora para que, saindo do Aprazível, cheguemos à cancela às primeira luzes da manhã, com os fiscais cansados, querendo ir para suas casas.

Na hora exata o comboio partiu. O comandante na cabine do caminhão da frente seguindo as instruções do Louro. E, como ele previra, às primeiras luzes da manhã o comboio parou frente ao Posto Fiscal de Sobral. O comandante desceu e foi falar com o Inspetor da Fiscalização. Esse, cansado e sonolento, foi verificar o primeiro caminhão e o viu com a carroceria coberta com faixas escritas: VIVA O GRANDE BISPO DOM JOSÉ!

No segundo: TRIGO, PRESENTE DA ARGENTINA PARA O GRANDE BISPO DOM JOSÉ! 

No terceiro: VIVA DOM JOSÉ, VIVA O CONGRESSO EUCARÍSTICO DE DOM JOSÉ! 

No quarto: TRIGO PARA FABRICAR HÓSTIA PARA O CONGRESSO DE DOM JOSÉ. E, assim, até o último...

O inspetor assustou-se, temeu que, se criasse embaraço, seu emprego estaria em jogo e não chegou a vistoriar todos os caminhões. Mandou levantar o “Pau da Cancela”, permitindo o comboio adentrar em Sobral. O Louro encontrava-se no último caminhão, e quando o comboio moveu-se deve ter sentido psicologicamente como Hitler, quando anexou a Áustria à Alemanha Nazista, mandando simplesmente levantar o “Pau da Cancela” da fronteira entre os dois países.

Tudo dera certo, só alegrias! Louro entrara em Sobral vitorioso, onde passou a ser, por seu feito, tratado e admirado como novo rico. E a ser chamados por todos de “O LOURO DO TRIGO” ou “LOURINHO DO TRIGO”.

Distribuiu a mercadoria no comércio, convidou os que participaram da operação para receber seus pagamentos, bem como para um suculento churrasco e perguntou ao comandante: E agora, para onde você vai?

- Estou indo ver minhas namoradas na 80, em Fortaleza.


- Pois vá e volte logo. Temos de, com urgência, carregar o barco com café, para transportarmos e descarregarmos em Paramaribo...

- O antes motorista da firma F. Chagas Barreto tornara-se um audacioso “exportador”...

O lema de Frederico, o Grande, da Prússia era: AUDÁCIA.






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