sexta-feira, 16 de novembro de 2018

LITERATURA CEARENSE: Terceirizando o Plágio (Leunam Gomes*)


Tive a oportunidade, recentemente, de orientar a produção de duas monografias de graduados que concluíam especializações. Tive a satisfação de acompanhar o esforço que os dois orientandos fizeram para produzir trabalhos sérios e originais.

Alguns dias depois, uma surpresa. A Pro Reitoria de Educação Continuada, da UVA, detectara que uma das monografias tinha muitas semelhanças com uma outra que também fora apresentada no mesmo dia. Tive a curiosidade de fazer a comparação, página por página, e constatei que não eram apenas semelhanças. Talvez oitenta por cento do texto fossem exatamente iguais. Uma ou outra palavra estava substituída por sinônimos.

Daquela a quem tivera a oportunidade de orientar, eu tinha absoluta certeza da originalidade. Conheço a sua autora desde quando se preparava para o vestibular. Sei de sua seriedade e competência. Jamais faria uso de meios escusos para produzir uma monografia. O mesmo pensamento têm os orientadores.

Buscando-se as razões das coincidências, detecta-se que se trata de terceirização. Isto é, alguém contrata alguém para fazer a sua monografia e este copia de outrem e vende para o contratante. Em defesa própria o contratante diz que mandou, apenas, fazer a digitação.

É profundamente lamentável que isto venha acontecendo. É plágio sobre plágio. A pessoa que teria a obrigação de produzir a monografia não se dá ao trabalho nem de estudar o seu conteúdo. Simplesmente faz a encomenda e paga como se alguém pudesse aprender por outra pessoa. É enganar-se a si mesma.

O orientador, geralmente, acredita no que lhe é apresentado. Imagina que o seu orientando esteja levando a sério a sua tarefa.

Por outro lado, parece aumentar o número dos que se “especializam” na venda de textos. Como são capazes de produzir textos sobre tantos assuntos? Como é que vendedores de monografias explicam para os seus “clientes” os plágios detectados? Parecem entender de tudo, mas, na prática retiram texto de monografias anteriores e vendem para os que se querem enganar e que, ao mesmo tempo também pensam que enganam a Universidade. É mais uma forma de pirataria. O que se pode esperar de profissionais que adotam tais expedientes? No desempenho de suas atividades normais será que também plagiam? O contratante e o contratado assinam o pacto da mediocridade ou muito pior do que isto.

Princípios éticos são rasgados. Quem compra e quem vende monografia hoje, com a mesma tranquilidade, vende ou compra voto amanhã. Tudo é feito com as mesmas características. Tudo às escondidas. Quando flagrados, vendedor e comprador têm sempre uma desculpa que não convence. Há os que pensam sair-se, honrosamente, dizendo que “todo mundo faz”.  E isto lhes basta. Já imaginaram o que significa para uma criança flagrar a mãe ou o pai numa situação destas? Façam o que eu digo, mas não façam o que eu faço é suficiente para convencer?

(*) Leunam Gomes, betanista, guaraciabense, Texto Publicado em setembro de 2008, no jornal O Noroeste, de Sobral. Também está no livro PROFESSOR COM PRAZER – Vivencia e Convivência na Sala de Aula. Edições UVA 2015.


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