Aos 18 anos, três dias após ser aprovado para o
curso de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Eduardo
Bolsonaro foi nomeado para um cargo comissionado de 40 horas semanais na
liderança do então partido do pai na Câmara dos Deputados, o PTB, comandado por
Roberto Jefferson.
Com a contratação, o filho 03 do presidente entrava
com o pé direito em um mercado de trabalho marcado naquele ano por índice
recorde de desemprego.
Por um ano e quatro meses, o calouro de Direito
ocupou um cargo que pagava o equivalente a R$ 9,8 mil por mês, em valores
atuais, um rendimento maior que o de 98% dos brasileiros.
A regra que proíbe o nepotismo, e assim impede a
contratação de parentes de políticos, só viria cinco anos mais tarde.
Mas, segundo as normas da Câmara dos Deputados
vigentes à época, o posto foi ocupado de forma irregular. Só poderia ter sido
preenchido por alguém que desse expediente no Congresso, já que esse tipo de
cargo tem "por finalidade a prestação de serviços de assessoramento aos
órgãos da Casa, em Brasília. Desse modo, (os servidores) não possuem a
prerrogativa de exercerem suas atividades em outra cidade além da capital
federal".
Ou seja, não poderia ser cumprido remotamente por
um funcionário que vivia a quase 1.100 quilômetros de distância no Rio de
Janeiro, onde Eduardo Bolsonaro cursava normalmente, segundo apurou a
reportagem da BBC News Brasil, os primeiros semestres da faculdade de Direito
da UFRJ.
A limitação de tempo e espaço, no entanto, não
impediu que Eduardo Bolsonaro passasse 16 meses como funcionário da Câmara,
como o próprio pai admitiu em um debate, em 2005, justamente sobre nepotismo.
Registro oficial do Departamento Pessoal do cargo que Eduardo exerceu na Câmara
"Já tive um filho empregado nesta Casa e não
nego isso. É um garoto que atualmente está concluindo a Federal do Rio, uma
faculdade, fala inglês fluentemente, é um excelente garoto. Agora, se ele fosse
um imbecil, logicamente estaria preocupado com o nepotismo", disse Jair
Bolsonaro no debate em sessão da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da
Casa, segundo reportagem do arquivo do jornal O Globo.
A BBC News Brasil encontrou a comprovação de
contratação de Eduardo Bolsonaro em pesquisa no site da Câmara dos Deputados.
Já o currículo público do próprio deputado federal, também no site da Casa, não
faz nenhuma referência ao posto no PTB na seção "Atividades Profissionais
e Cargos Públicos".
Cargo comissionado não aparece em seu currículo publicado no site da Câmara dos Deputados
De um irmão para o outro
Inicialmente, Eduardo fora nomeado em dezembro de
2002 para um cargo comissionado na liderança do PPB (ao qual o pai era filiado
à época, atual PP). O mesmo posto fora ocupado seis meses antes pelo irmão mais
velho, Flávio. Este, aliás, havia ocupado esse cargo logo após a segunda mulher
de Jair Bolsonaro, Ana Cristina Siqueira Valle.
Segundo informações da Câmara dos Deputados, esse
emprego pagava cerca de R$ 12,6 mil por mês, em valores atuais.
Só que a nomeação de Eduardo, então com 18 anos,
foi anulada três semanas depois que ele assumiu o cargo — o boletim
administrativo com a anulação não traz explicações, mas a decisão coincide com
a mudança de partido do pai, que trocou o PPB pelo PTB (Partido Trabalhista
Brasileiro) à época.
Dois meses depois, em fevereiro de 2003, Eduardo
passou a ocupar um outro cargo também comissionado na liderança da nova sigla
do pai, porém em posto com um salário menor que o do anterior (R$ 3.904 à
época, ou quase R$ 9.780 em valores atuais).
O posto estava alocado na liderança do PTB, então
nas mãos de Roberto Jefferson, parlamentar que inchou o partido ao entrar na
coalizão do primeiro governo Lula e depois foi o pivô do escândalo do mensalão.
Questionado pela BBC News Brasil sobre a função na
Câmara, Eduardo Bolsonaro demonstrou não ter memória de seu primeiro emprego
público formal.
Em coletiva de imprensa, em julho de 2019, um
repórter da BBC News Brasil o questionou sobre o emprego na Câmara a partir de
2003:
Eduardo Bolsonaro - Dois
mil e...?
BBC News Brasil - 2003.
Eduardo Bolsonaro - Tá.
BBC News Brasil - Como é possível isso?
Eduardo Bolsonaro - Ué, você
nunca conseguiu trabalhar e estudar ao mesmo tempo na sua vida, não?
BBC News Brasil - Em cidades diferentes?
Eduardo Bolsonaro - Em cidades
diferentes?
BBC News Brasil - O sr. era servidor aqui em
Brasília e cursava no Rio, não?
Eduardo Bolsonaro - Assumindo
alguma atividade partidária... Agora... Em 2003?
BBC News Brasil - Em 2003 e 2004, por 16 meses.
Eduardo Bolsonaro - Olha, eu
teria que puxar forte pela memória aqui então… Mas eu acho que não teria
problema nenhum, conseguir trabalhar, prestar um serviço partidário. Inclusive
eu já tive assessor meu que eu encontrava com ele uma vez por mês no máximo,
né? (O assessor) prestava a minha assessoria de maneira local no litoral de São
Paulo.
Outro lado
Procurado novamente nesta terça-feira (1º) e também
na quarta-feira (2) por e-mail e em seu gabinete na Câmara para comentar o
assunto, Eduardo Bolsonaro não quis responder aos questionamentos da BBC News
Brasil.
O presidente Jair Bolsonaro, por meio da assessoria
de imprensa da Presidência da República, afirmou que não comentaria o assunto.
Aliado do governo Bolsonaro e presidente do PTB,
Roberto Jefferson disse não se lembrar se Eduardo Bolsonaro trabalhou na
liderança do partido no período em que ele era o líder petebista na Câmara. E
sugeriu que a reportagem procurasse a liderança atual do partido. Esta, por sua
vez, não respondeu ao pedido de entrevista.
Procurada, a assessoria de imprensa da liderança do
PTB afirmou que não iria responder às perguntas da BBC News Brasil e que,
considerando o tempo transcorrido, não guardava nenhum documento que
evidenciasse que Eduardo realmente trabalhou lá.
Segundo a Câmara, as atribuições do cargo ocupado
por Eduardo à época incluíam, por exemplo, "fazer relatórios das reuniões
realizadas", "acompanhar o resultado das votações plenárias e em
comissões" e "orientar e assistir os deputados nas votações de
matérias no Plenário e nas comissões". Em 2007, uma resolução restringiu
de modo mais taxativo, entre outros pontos, o exercício da função fora de
Brasília.
Questionada pela BBC News Brasil, a Câmara afirmou
que essa prática já era proibida antes da resolução, conforme resposta por
escrito abaixo.
Questionada pela BBC News Brasil, Câmara afirma que ocupação do cargo à distância é uma prática irregular
Tradição de nomear familiares
A prática de empregar parentes era comum na família
Bolsonaro. Flávio, o filho 01 do presidente, também ocupou cargo de 40 horas semanais na
liderança do partido do pai na Câmara dos Deputados, em Brasília, enquanto
vivia, estagiava e fazia faculdade, também de Direito, no Rio de Janeiro.
Bolsonaro indicou ou nomeou para cargos não apenas
os filhos mas também suas então esposas e parentes delas. Em 2005, quando
estava filiado ao PFL (quinto partido de sua carreira), afirmou na Câmara que o
debate entre parlamentares sobre o nepotismo era hipócrita. Para ele, caberia
aos eleitores julgar se a prática é certa ou errada.
Em 2008, no entanto, uma decisão do Supremo
Tribunal Federal proibiu a contratação de parentes nos três Poderes
(Legislativo, Executivo e Judiciário). A partir dali, não poderia haver, por
exemplo, contratações de parentes de autoridades e de funcionários para cargos
de confiança e em comissão.
Ou seja, o nepotismo foi inicialmente proibido no
Brasil por meio de uma decisão do STF.
Agora, essa mesma proibição pode barrar a nomeação
de Eduardo para o posto de embaixador em Washington. A indicação foi feita pelo
próprio pai e será submetida ao Senado assim que for formalizada.
Eduardo é o terceiro filho de Jair Bolsonaro, que ele chama de "zero três"
Há divergências se o cargo de embaixador é de
natureza política, como os de ministros e secretários. Nesse caso, não estaria
contemplado na determinação do STF.
Em 2018, a Segunda Turma do STF afirmou que a súmula
vinculante que veda o nepotismo não se aplica à indicação para cargos de
natureza política — não há menção específica, no entanto, ao posto de
embaixador.
Para ministros da Corte, cargos em comissão ou de
confiança são meramente administrativos, e os de natureza política são postos
de confiança ligados ao exercício do poder (Executivo, mais especificamente), e
portanto de livre nomeação e exoneração do mandatário.
Um parecer de dois consultores do Senado, Casa
responsável por sabatinar e avalizar ou não nomes indicados ao cargo de
embaixador, afirma que o posto em Washington é um cargo comissionado comum, e
por isso o presidente da República não poderia indicar o próprio filho ao
cargo. O documento, de caráter consultivo, cita a decisão do Supremo de 2008.
Intercâmbio nos EUA: 'Trabalho humilde'
Em busca da habilidade de falar inglês, que
serviria anos depois como uma das justificativas para Bolsonaro decidir
indicá-lo ao cargo de embaixador, Eduardo fez um intercâmbio de "Work
Experience" nos Estados Unidos, onde disse ter trabalhado em uma rede de
lanchonetes e entregando pizza entre o fim de 2004 e o início de 2005, nas
férias da faculdade.
E, embora a experiência de 16 meses na Câmara não
pareça ter deixado lembranças para o filho do presidente, o trabalho de 4 meses
nos Estados Unidos o marcaria profundamente.
"Ele fritou hambúrguer no passado sabe o
porquê? Porque não tinha dinheiro para bancar lá.
Qual a intenção dele em ficar
seis meses nos Estados Unidos? Aperfeiçoar o inglês dele. Eu falei assim: fica,
mas se você bancar a sua despesa. Fritou hambúrguer, entregou pizza. É a
maneira que tem de conversar e está com um inglês muito bom, tenho
certeza", afirmou o presidente Jair Bolsonaro, na Argentina em 17 de julho
deste ano.
Com o salário da Câmara como assessor do PTB por 16
meses, no entanto, Eduardo teria condições de pagar à vista o intercâmbio da
empresa World Study, que custava à época cerca de R$ 4 mil, segundo apurou a
BBC News Brasil.
"Nestes locais trabalhei como frontdesk de
restaurante fast food, cozinheiro, caixa e faxineiro, pagava minhas contas e
ainda voltei com um dinheirinho no bolso", escreveu Eduardo no Facebook em
dezembro de 2015 sobre os dois meses no Estado do Maine e outros dois no
Colorado. Segundo ele, "além de aprender mais a língua inglesa pude
experimentar a cultura local." indicação oficial do
Em seu texto, afirma que nos EUA "todos os
trabalhadores são respeitados independente do seu salário" e
"vergonhoso era viver da ociosidade". "Também pudera, nos EUA o
governo federal divulga com orgulho quando reduz os gastos com programas
assistenciais, já aqui no Brasil o governo parece se sentir enobrecido quando
amplia o guarda-chuva desses mesmos programas."
Em um vídeo postado por ele em 2017, em frente à
lanchonete onde trabalhou, ele afirma que "nos Estados Unidos eu aprendi
que indigno é você não ter trabalho, não tem tempo ruim, você ganha aqui pelas
horas trabalhadas".
Depois do emprego comissionado no partido do pai,
Eduardo voltaria a ocupar um posto da Câmara dos Deputados em 2015, desta vez
como deputado federal eleito pelo PSC-SP. Foi o 61º mais votado de São Paulo,
em uma campanha basicamente bancada pela família e por assessores ligados ao
pai. (BBC)






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