O grupo político do
presidente Jair Bolsonaro tem pelo menos três grandes desafios a cumprir
antes de tornar realidade o partido Aliança pelo Brasil, anunciado por ele numa
reunião no Palácio do Planalto nesta terça-feira (12/11).
Nos últimos dias, o
próprio presidente e políticos aliados a ele detalharam o plano. Os leitores de
impressões digitais dos celulares permitiriam coletar as cerca de 492 mil
assinaturas necessárias a tempo de lançar candidatos a prefeito e a vereador já
em 2020.
E as migrações de
deputados federais hoje no PSL e em outros
partidos de centro e de direita fariam com que a Aliança pelo Brasil chegasse à
marca dos 100 deputados — perto do recorde registrado pelo antigo PFL (hoje
DEM) em 1998, quando a sigla chegou a ter 105 representantes na Câmara.
Mas há
pelo menos três dificuldades para concretizar esta visão.
A primeira
está relacionada com a migração de deputados: a lei eleitoral hoje não garante
automaticamente ao deputado o direito de ficar com mandato ao migrar para um
partido que acabou de ser montado
Depois, o
projeto esbarra também nas incertezas sobre a possibilidade de fazer a coleta
de assinaturas via celular.
Por fim,
há a questão dos prazos na Justiça Eleitoral: mesmo que as assinaturas sejam
coletadas rapidamente, a tramitação no Tribunal Superior Eleitoral pode impedir
a nova sigla de lançar candidatos em 2020.
Lançamento - A primeira convenção
do partido está marcada para as 10h da manhã da próxima quinta-feira (21), no
hotel Royal Tulip em Brasília. O Estatuto da nova legenda deve ser apresentado
nesta cerimônia, dando início ao processo de criação da sigla.
A reportagem da BBC
News Brasil conversou com políticos e especialistas em direito eleitoral
envolvidos com o caso para entender cada um desses desafios. Nem todas as
pessoas ouvidas podem ter seus nomes divulgados.
1. Partido
novo não cria 'janela' para migração de deputados
No começo
da semana, políticos aliados ao Presidente da República disseram que a criação
da nova legenda resolveria a questão da saída da ala "bolsonarista"
dos deputados do PSL: a formação da nova legenda abriria a brecha legal para a
mudança de partido, com a manutenção dos mandatos.
O problema é que esta
hipótese não consta da lei eleitoral brasileira, para deputados estaduais,
federais e vereadores - o entendimento atual da Justiça Eleitoral é de que
esses cargos, conquistados no sistema proporcional, pertencem ao partido.
Já quem possui cargo
majoritário (prefeitos, governadores, senadores, presidente da República) pode
mudar de partido quando quiser.
"Quando esse
partido for criado de maneira formal no TSE, abre-se uma janela, tanto para os
deputados estaduais quanto para os federais, para a gente poder sair do PSL ou
de qualquer outro partido em que nós estejamos", disse a deputada federal
Carla Zambelli (PSL-SP) em um áudio distribuído por ela a seus contatos no
WhatsApp, na tarde de terça.
"Inclusive
vários aliados já vieram falar conosco de que querem sair dos seus partidos
para vir para o partido do Bolsonaro. Então abre-se essa janela, com
possibilidade inclusive de ser o maior partido do Brasil, em número de
Estaduais e federais", diz ela, no áudio. Ao longo da semana, aliados do
presidente especularam que o número de representantes na Câmara poderia passar
de uma centena - algo que não é visto desde os anos 1990.
Mas a tal
"janela" não existe na Lei dos Partidos Políticos de
1995, lembra o advogado especializado em direito eleitoral Fernando Neisser.
O artigo
22-A da lei cita três casos nos quais a pessoa que ocupa cargo proporcional
pode sair da legenda e manter o cargo: caso a legenda se afaste demais de suas
ideias e propostas anteriores; quando o congressista é alvo de discriminação ou
perseguição dentro do partido; e em ano de eleições, ao fim do mandato (2022,
no caso dos deputados).
A
"janela" para novos partidos existia até 2015, lembra Neisser - no fim
daquele ano, o Congresso aprovou a toque de caixa uma "minirreforma
eleitoral" excluindo essa hipótese de migração. A Rede Sustentabilidade,
partido fundado naquele ano pela ex-ministra Marina Silva, só foi beneficiada
pela "janela" graças a uma decisão liminar (provisória) do ministro
Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal. A decisão foi depois
confirmada pelo plenário da corte, em 2018, mas não se aplica a novos partidos.
O deputado Paulo Pereira da Silva (SP) é o presidente nacional do Solidariedade, partido fundado por ele em 2013. Na época, diz ele, foram coletadas 1,5 milhão de assinaturas,
mas só cerca de 500 mil foram aceitas
Por causa da mudança
de 2015, alguns dos principais líderes do Congresso não trabalham com a
hipótese de uma mega-bancada da Aliança —pelo menos no curto prazo.
"A lei eleitoral
mudou (em 2015), depois do escândalo do PMB, o Partido da Mulher Brasileira.
Não pode mais o parlamentar mudar para um partido novo e manter o mandato",
disse à BBC News Brasil o presidente nacional do MDB e líder do partido na
Câmara, Baleia Rossi (SP), em mensagem de texto.
Segundo Neisser e
outros especialistas em direito eleitoral consultados pela reportagem, cada um
dos deputados - do PSL ou de outros partidos - teria de pleitear na Justiça,
individualmente, o direito de continuar com seus mandatos. A ala do PSL ligada
ao atual presidente, o deputado Luciano Bivar, tem dito que ingressará com
ações judiciais para manter os mandatos.
O novo partido também
nasceria, a princípio, sem grandes recursos dos fundos Partidário e Eleitoral,
além de pouco tempo de TV e rádio para as campanhas eleitorais - o que não
desincentivaria a migração de congressistas.
2. Coleta digital é incerta, e a manual é trabalhosa
Para
colocar o novo partido de pé antes das eleições de 2022, os advogados
eleitorais que auxiliam Bolsonaro criaram um plano ousado: usar um aplicativo
de celular e o leitor de impressões digitais de cada aparelho para coletar as
quase 492 mil assinaturas necessárias.
A ideia esbarra na
falta de clareza: não é certo que a Justiça Eleitoral permitirá a inovação. A
área técnica do tribunal já se manifestou favoravelmente ao uso de uma
tecnologia diferente — a chamada "assinatura digital" — para a
coleta. Mas esta modalidade é pouco difundida, e costuma ser usada apenas por
advogados, jornalistas e outros profissionais. O deputado federal Jerônimo
Goergen (PP-RS) formulou uma consulta ao TSE no fim de 2018 sobre o assunto,
mas o pedido dele ainda não foi analisado.
A reportagem da BBC
News Brasil questionou o advogado eleitoral e ex-ministro do TSE Admar Gonzaga
sobre o assunto, mas ele disse que não poderia comentar.
Aliados de Bolsonaro
admitem que, se a coleta via aplicativo não for liberada a tempo, as
assinaturas serão buscadas pela via tradicional, em papel.
Só que este é um
processo cheio de tecnicalidades: os partidos costumam coletar um número bem
maior que o necessário, pois grande parte das assinaturas é descartada.
O deputado Paulo
Pereira da Silva (SP), presidente nacional e fundador do partido Solidariedade,
disse que em 2013, época de fundação do partido, foram coletadas 1,5 milhão de
assinaturas — mas só cerca de 500 mil foram aceitas.
"Você tem que
mandar as assinaturas uma por uma, em ordem alfabética, para o cartório
eleitoral. E aí tem cartório que pede a assinatura igual ao do dia que a pessoa
tirou o Título de Eleitor. Tem outro que pede assinatura igual ao do dia da
última eleição. Não há uma uniformidade entre eles", diz Paulinho da
Força, como é conhecido.
"Só para você
ter uma ideia, em Mogi das Cruzes (SP) eu perdi 53 mil assinaturas, porque o
cartório local considerou que eram falsas. Não quiseram nem olhar o restante.
Aí, para não brigar, eu deixei para lá", exemplifica ele. "Se o
Bolsonaro não trabalhar direito, corre o risco de chegar em 2022 sem ter o
partido pronto", diz.
No caso do
Solidariedade, diz ele, sindicalistas da Força Sindical trabalharam para
coletar as assinaturas necessárias. "É muito trabalhoso. Não é uma coisa
simples, e não dá para fazer via WhatsApp", disse ele à BBC News Brasil.
3. A tramitação no TSE é demorada mesmo
depois das assinaturas
O processo para criar
um novo partido político no Brasil não é tão simples quanto pode parecer à
primeira vista.
Depois da coleta das
assinaturas — que precisam ser verificadas pela Justiça Eleitoral — há uma
série de prazos que precisam ser cumpridos antes do processo ser finalmente
julgado pelos sete ministros que compõem o TSE.
"Obter as assinaturas
é algo que pode ser feito, em tese, em um único dia. Nunca aconteceu, mas é
tecnicamente possível. Agora, independente disso, você tem um rito processual a
ser cumprido", diz à BBC News Brasil um ex-ministro do TSE, sob anonimato.
O primeiro ato após a
validação das assinaturas é a indicação de um relator — o ministro que decidirá
quando o caso irá a julgamento. Há prazos para impugnação (quando qualquer
cidadão brasileiro poderá apontar problemas no processo de criação do novo
partido) e para manifestação do Ministério Público Eleitoral, por exemplo. Só
depois disso o pedido vai ao plenário.
A legislação atual
acaba fazendo com que os processos se arrastem ao longo do tempo. De 76
partidos considerados "em formação" no Brasil, só quatro chegaram à
fase final — e nenhum foi julgado ainda. Os mais avançados são a Unidade
Popular, um partido de esquerda, e o Partido Nacional Corinthiano. O primeiro
está com o processo tramitando desde agosto de 2014. O segundo, desde outubro
de 2016. (BBC)

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