Dos
25 bilionários com 33 anos de idade ou menos que figuram no ranking, apenas
sete construíram seus próprios impérios.
Para
a Forbes, a presença massiva de jovens herdeiros é sinal de que está em curso
um fenômeno há tempo preconizado no universo das finanças globais: a “grande
transferência de riqueza”, período em que grande parte de todo o patrimônio dos
ricos do mundo mudará de mãos para as próximas gerações.
A
estimativa é de que, somente até o fim de 2029, mais de US$ 8,8 trilhões sejam
transferidos dos bilionários para seus jovens sucessores.
“E não estamos falando só de dinheiro, mas
também das empresas”, explica o advogado Yuri Freitas, responsável pelo time de
planejamento patrimonial para o Brasil do banco suíço UBS.
Ele
comanda um grupo de especialistas que fica à disposição dos clientes donos de
fortunas com uma função: ajudá-los a planejar o que fazer com seu patrimônio
depois que eles morrerem.
Apesar
da formação financeira e jurídica de Freitas, o trabalho dele e de sua equipe
envolve mais habilidades do que cuidar dos números e conhecer leis.
Vai
desde conversar com a família sobre o uso dos recursos por todos os parentes e
agregados (quem pode usar o jatinho? quem pode emprestar o iate?) a sugerir
regras para a contratação de familiares como funcionários e calcular o risco
que novos casamentos podem representar para o patrimônio dos herdeiros.
A
função inclui também mapear os objetivos de cada cliente para o seu patrimônio
após a morte: como dividir empresas, obras de arte, embarcações, aeronaves e
imóveis, entre outros.
A
equipe de planejamento do patrimônio também ajuda a criar protocolos para
questões delicadas que misturam laços familiares e dinheiro. O planejamento
abrange aspectos íntimos da vida familiar, como o regime de bens se o cliente é
casado, se tem filhos, se os filhos são casados, se moram no Brasil ou fora,
por exemplo.
Para
quem não é herdeiro de nenhuma grande fortuna, uma boa referência a esse
universo é a série Succession, da HBO,
que aborda o drama de uma família de bilionários.
“Por
mais caricata que a série seja, as famílias têm conflitos que se desenvolvem
numa dinâmica de comportamento parecida”, conta Freitas.
A
BBC News Brasil reuniu especialistas, artigos e exemplos práticos para explicar
o que é a grande transferência de riqueza e qual o debate em torno dos impactos
negativos que esse nível de concentração de renda pode acarretar.
Preparação com comitês e psicólogos
Uma
das etapas de um trabalho como o de Freitas é o de construir com a família dona
da fortuna um protocolo familiar, de preferência antes do doador transmitir a
herança aos filhos.
“É
quando o patriarca está bem e ativo que é importante tomar essas decisões para
enfrentar conflitos lá na frente”, diz o executivo da UBS.
Pesquisa
realizada pela consultoria americana The Williams Group estima que 70% das
transferências de riqueza nos Estados Unidos falham, e que 60% dessas falhas
resultam em falta de confiança e comunicação entre os membros da família rica.
“A
família precisa ter regras de como lidar com o patrimônio muito bem estabelecidas.
E não estou falando só dos instrumentos jurídicos, como testamento, o contrato
social da empresa, o acordo de acionistas”, diz Freitas.
“Estou
falando do aspecto moral, por exemplo: como eu vou contratar um primo ou um
sobrinho? Que requisitos ele ou ela tem que ter, que escolaridade? Quem pode
usar o jatinho da família?”, segue o especialista.
A
criação do protocolo familiar para o planejamento da herança pode envolver a
criação de comitês familiares para apresentar os investimentos e até de
psicólogos e outros profissionais para mediar as conversas.
“É
muito comum que a discussão sobre a qualificação do executivo a ser contratado
descambe para: ‘Ah, você contrata o seu filho e agora quer demitir o meu'. A
gente ajuda o cliente a construir esse protocolo”, diz o executivo.
Em
15 anos de experiência na área, a percepção de Freitas coincide com o diagnóstico
da revista Forbes: a grande transferência de fortuna global já está em curso de
maneira acelerada, e os bilionários do Brasil e do mundo estão começando cada
vez mais cedo a repassar seus patrimônios para a próxima geração.
Exemplo brasileiro
De
tempos em tempos, cada geração de adultos herda das gerações anteriores o
patrimônio acumulado por determinada família.
Como
no exemplo brasileiro abordado pela Forbes: a Weg, multinacional que exporta
para 135 países e é uma das maiores fabricantes de motores elétricos do mundo,
foi cofundada por Werner Ricardo Voigt, bilionário que morreu em 2016.
Hoje,
são bilionárias também as netas de Werner, Lívia Voigt, 19 anos, e sua irmã
Dora Voigt, 26, que não participam ativamente do dia a dia da empresa.
Mas
a riqueza fundada por Werner não enriqueceu apenas as duas netas: além de Lívia
e Dora, outros 28 empresários têm a Weg como origem de sua fortuna. De acordo
com a Forbes, os descendentes dos fundadores da Weg têm, juntos, um patrimônio
de R$ 85,53 bilhões.
Movimentos
como o da família Voigt estão acontecendo e devem se acelerar, de acordo com as
projeções dos institutos que acompanham as grandes fortunas.
Os
números divergem, mas apontam para o mesmo cenário: nas próximas duas décadas,
trilhões de dólares devem passar das mãos de abastados baby
boomers (nascidos em 1964 ou antes, nas duas décadas após o fim da
Segunda Guerra Mundial) para as afortunadas próximas gerações de
herdeiros millennials (nascidos entre 1981 e 1996) e geração Z
(entre 1997 e 2013).
A
empresa de pesquisa de mercado Cerulli Associates estima que US$ 84 trilhões
mudarão de mãos até 2045 - sendo US$ 72,6 trilhões transferidos para herdeiros
e US$ 11,9 trilhões para filantropia.
Relatório
do banco UBS sobre ambições bilionárias em 2023 aponta que, pela primeira vez
na história do estudo, novos bilionários adquiriram mais riqueza por meio de
heranças do que pelo empreendedorismo. Em um ano, um total de US$ 150 bilhões
foram obtidos por 53 herdeiros, enquanto 84 bilionários acumularam US$ 140,7
bilhões por meio do empreendedorismo.
O
UBS também estima que, nos próximos 20 a 30 anos, mais de mil bilionários de
hoje transferirão mais de US$ 5,2 trilhões a seus herdeiros.
“Como
calculamos esta estimativa? Apenas somando a riqueza dos 1023 bilionários que
têm 70 anos ou mais hoje”, diz o relatório.
Nos
Estados Unidos, a estimativa é que a geração dos baby boomers retenha
atualmente US$ 95,9 trilhões dos US$ 147,1 trilhões da riqueza das famílias dos
EUA, segundo o Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos.
E
por que essa geração que está envelhecendo tem tanto dinheiro para dar aos seus
sortudos sucessores?
“A
riqueza excepcional resultante do boom da atividade
empresarial desde os anos 90 estabeleceu uma base para gerações futuras de
famílias bilionárias”, segue o texto.
Choque de gerações
“Nunca
antes tanto dinheiro - em imóveis, terra, ações e espécie - mudará tão
repentinamente de uma geração para outra, e nunca antes a próxima geração teve
sentimentos tão diferentes sobre o futuro do planeta e o capitalismo em
comparação a seus precursores”, explica em artigo publicado no ano passado o
banqueiro e filantropo sul-africano Ken Costa, autor do livro The 100
Trillion Dollar Wealth Transfer e uma das vozes mais contundentes a
respeito do fenômeno.
A
principal tese de Costa, ele mesmo um bilionário boomer, é que os
jovens, excluídos da riqueza desfrutada pelas gerações mais velhas durante
tanto tempo, são desgostosos em relação ao capitalismo atual.
Mais
do que isso, culpam com razão os boomers por destruírem o
planeta numa corrida precipitada por riquezas a curto prazo. Os boomers,
culpados, pioraram as coisas por serem arrogantes e resistentes à mudança, na
visão de Costa.
“Os Zennials [nome
que ele criou para se referir aos jovens millenials, nascidos entre
1981 e 1996 mais os Gen Z, entre 1997 e 2013] herdarão recursos de capital,
poder e influência, e a tecnologia será a ferramenta que utilizarão para
implementar a sua filosofia", prevê.
“Não
há como escapar deste evento sísmico e, de fato, a transferência já começou e
está acelerando rapidamente. E este evento não acontecerá isoladamente. Também
criará um efeito cascata na economia, na tecnologia e na cultura. O que sairá
dessas mudanças depende da nova geração”.
“O
que espero é que eles alcancem um futuro financeiro estável e próspero, e
acredito que é essencial que nós, boomers, ajudemos a concretizar
isso”, afirma Costa.
Preocupação com impostos
Há
diversos motivos que levam os patriarcas e donos das grandes fortunas a
apressarem cada vez mais a transferência de patrimônio para as novas gerações,
e a principal delas é o medo de pagar mais impostos.
Nos
Estados Unidos, a doação de heranças em vida é isenta de impostos até um limite
de US$ 12 milhões; sobre o que extrapolar esse limite, as alíquotas chegam a
40% sobre o valor doado.
“É
quase metade do patrimônio que acaba sendo pago em impostos. Então, o estudo de
estruturas e estratégias para suavizar essa transmissão sempre foi uma
preocupação que habitou o imaginário desses executivos”, diz Freitas.
No
Brasil, a pressão dos impostos sobre as grandes fortunas e heranças sempre foi
mais branda que a da maioria dos países e exigiu menos planejamento dos
bilionários - com muitas opções para que os muito ricos acumulassem rendimentos
ao longo da vida com pouca tributação.
No
ano passado, o governo agiu para acabar com a vantagem concedida em algumas
aplicações onde era possível adiar o pagamento de impostos que são devidos
quando se aplica o dinheiro.
"Até
o final de 2023, era muito comum que o cliente tivesse um fundo multimercado
exclusivo dele e esse fundo só pagava imposto no momento de uma amortização, de
um resgate. Então você tinha ali uma estrutura que ficava 10, 15 anos, só
rentabilizando sem pagar imposto”, diz o executivo do UBS.
A reforma tributária de 2023 mudou
um pouco o cenário na tributação de heranças, principalmente ao prever
potencial aumento da alíquota do Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e
Doação (ITCMD), conhecido como o “imposto das heranças”.
Atualmente,
o ITCMD é estadual e possui alíquotas que variam entre 4% e 8%. A cobrança é
diferente em cada Estado brasileiro. Em São Paulo, a alíquota é de 4%. Em Minas
Gerais, de 5%. Já o Rio de Janeiro prevê seis alíquotas progressivas de 4% a 8%
à medida que a herança aumenta.
A
reforma estabelece que o imposto será obrigatoriamente progressivo, - ou seja,
quanto maior o valor da herança ou doação, maior será a alíquota aplicada.
“O
Estado de São Paulo pratica uma alíquota de 4% historicamente, e a expectativa
é que em algum momento a Assembleia Legislativa se mova para aumentar essa
alíquota. Então, muita gente vê muitas transmissões de patrimônio acontecendo
ou se acelerando por conta disso”, explica Freitas.
Em
seu segmento de planejamento patrimonial do UBS, nunca houve tanta demanda de
clientes brasileiros por informações e atendimento a respeito das novas regras
de herança, doações e temas relacionados como no ano passado, por causa da
reforma tributária, diz Freitas.
“Foi
o ano mais desafiador da minha carreira. Quando você tem uma reforma que muda
toda a regra, e realmente mudou, o baby boomer precisa
entender as novas regras, que são complexas, e rever as decisões. Tudo isso vai
pressionando ele [a acelerar os planos]”, diz.
“O
assunto do ano passado foi reforma tributária, e o deste ano são os ajustes que
se tem que fazer para por conta da reforma tributária”, aponta Freitas.
Bom para quem?
Essa
nova leva de jovens herdeiros bilionários prevista para as próximas décadas
ocorre em um momento da história em que a concentração de renda nas mãos de
poucas famílias piora a vida da maioria das pessoas do mundo.
O
relatório Desigualdade S/A, divulgado no início do ano pela Oxfam,
aponta que a riqueza dos cinco maiores bilionários do mundo dobrou desde 2020,
enquanto a de 60% da população global – cerca de 5 bilhões de pessoas –
diminuiu nesse mesmo período.
Enquanto
sete em cada dez das maiores empresas do mundo têm bilionários como CEOs ou
principais acionistas, apenas 0,4% das mais de 1.600 maiores e mais influentes
empresas do mundo se comprometeram publicamente com o pagamento de salários
dignos a seus trabalhadores.
O
impacto de tanta desigualdade de renda é gritante, destaca a publicação.
“A
década de 2020, que começou com a covid-19 e depois assistiu à escalada de
conflitos, à aceleração da crise climática e ao aumento do custo de vida,
parece estar se transformando em uma década de divisão", diz o documento.
"A
pobreza nos países de renda mais baixa é ainda maior do que era em 2019. Em
todo o mundo, os preços estão ultrapassando os salários, e centenas de milhões
de pessoas têm dificuldades”, alerta o texto.
Daniel
Duque, pesquisador da área de economia aplicada do FGV Ibre (Instituto
Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas), explica que tal esforço dos
super-ricos em repassar seus bens para as próximas gerações pode ser uma reação
às recentes iniciativas de diversos países de debater e implementar modelos
mais progressivos de tributação - após décadas de alíquotas que foram generosas
com os bilionários.
Movimento
que cresceu fomentado principalmente pela visibilidade dada ao trabalho do
economista francês Thomas Piketty, que defende reparos ao sistema capitalista
capazes de interromper esse processo de concentração de riqueza.
“Está
havendo um movimento em diversos países de haver uma tributação maior sobre
grandes fortunas, o que gera uma pressão sobre os super-ricos de passar logo
para a próxima geração”, diz Duque.
Outro
debate que pode pressionar esse público é o que ocorre no G20 em torno da criação de um tributo global sobre
grandes fortunas, proposta apresentada ao grupo em fevereiro pelo
ministro da Fazenda, Fernando Haddad, durante encontro em São Paulo.
“Um
tributo como esse tornaria muito mais difícil para os super-ricos gerarem essa
herança sem tributação. Porque até então, quando se cobrava um imposto, eles
migravam o dinheiro para outro lugar", aponta o pesquisador.
Tanta
concentração de renda traz riscos econômicos e políticos para o planeta, diz o
Duque, bem como a assimetria de oportunidades, bastante desfavorável para quem
tem menos dinheiro.
“Um
dos principais riscos é como lidar com o poder tão concentrado nas mãos de tão
poucos. Antigamente, a capacidade de os mais ricos influenciarem a política era
mais limitada, com menos capacidade de ação nos meandros do poder. Com uma
concentração alta, isso começa a mudar e se vê indivíduos que conseguem mudar
rumos”, diz ele.
O que pensam os jovens herdeiros?
Como
em todo debate geracional, profissionais de todas as áreas têm se debruçado
para tentar prever o comportamento desses jovens herdeiros e as mudanças que
eles causarão no mundo dos negócios.
Principalmente
os bancos, que correm o risco de perder os clientes cujo patrimônio tão vultoso
eles ajudaram a construir e compartilharam por décadas.
O
que se sabe é que os bilionários da nova geração são mais conectados
socialmente, mais digitais e, pelo menos no discurso, se importam mais do que
os pais sobre o impacto positivo que os seus investimentos terão no planeta,
tanto no clima quanto socialmente.
Relatório
da consultoria EY estima que investidores millenials têm o
dobro da disposição em investir em empresas ou fundos que busquem
transformações sociais e ambientais.
Além
disso, 17% dos millenials dizem querer investir em companhias
que adotam práticas de ESG de alta qualidade, comparados a 9% entre
investidores não-millenials.
No
UBS, a equipe de wealth management realiza há anos uma série
de eventos e programas voltada a atender aos investidores next gen,
como são chamados os herdeiros de fortunas.
No
Brasil, o banco criou em 2019 um encontro de troca de experiências
exclusivamente voltado para herdeiros. "Ali a gente trouxe alguns
herdeiros falando para outros herdeiros sobre temas como inovação no negócio
familiar, governança familiar, family office", afirma Freitas.
Nota-se
diferenças comportamentais: se os baby boomers apreciam o
sigilo e a privacidade de uma relação formal e de confiança com o consultor do
banco, os jovens gostam de mais interação com seus pares.
“Ele
vê o banco como um lugar que pode proporcionar para ele contato com outros
empreendedores e pode abrir portas com pessoas com outros clientes”, diz
Freitas.
No
programa para sucessores seletos de patrimônio mais elevado, há até uma
comunidade global criada pelo banco especialmente para a convivência entre
herdeiros do mundo todo, onde eles compartilham dicas, eventos e relações para
além das mediadas pelo banco.
Dá
para esperar que os bilionários gerarão mudanças positivas para o mundo - que
sofre, entre outras questões, com a enorme concentração de renda na mão de
poucas famílias?
O
relatório do UBS pontua que, embora existam vários casos bem divulgados de
empresários bilionários que prometem doar grande parte de suas fortunas à
filantropia, é menos conhecido o fato de que entre herdeiros essa intenção seja
mais reticente.
“Embora
mais do que dois terços (68%) dos bilionários da primeira geração tenham
declarado que seguir seus objetivos filantrópicos e gerar impacto no mundo
tenha sido o objetivo principal de seu legado, menos de um terço (32%) das
gerações herdeiras expressou a mesma intenção", diz o estudo.
Na
experiência do UBS, as gerações sucessoras são muitas vezes relutantes em doar
dinheiro que não ganharam e, em alguns casos, elas podem simplesmente continuar
investindo nas eventuais fundações existentes na família.
"No
entanto, há uma tendência para investir ou gerenciar negócios de maneira que
abordem questões ambientais e sociais, tanto para fins comerciais como fins
altruístas", aponta o relatório.
A
pesquisa do banco ouviu alguns desses herdeiros.
“Por
mais que meu pai trabalhasse em petróleo, gás e mineração, estou tentando mudar
todo o negócio para assuntos relacionados à tecnologia, áreas que têm menos
impacto no meio ambiente”, explicou um bilionário de segunda geração ao estudo.
"Mas
eu não vou vender todos esses negócios em um dia. É uma jornada que comecei há
vários anos, quando assumi negócios da família."
Relações familiares e poder
Outro
fator que apressa o planejamento da sucessão entre bilionários, para Freitas, é
a pressão crescente dos mercados nas últimas décadas por mais transparência,
regulação e compliance (conjunto de práticas para garantir o
cumprimento de regras legais e éticas definidas pelos Estados ou pelas próprias
empresas).
Segundo
o executivo do UBS, no setor bancário, a regulação de compliance nos
últimos 30 anos passou a cobrar muito mais transparência, com contatos
frequentes por e-mail. "O baby boomer que já construiu a
sua fortuna gosta do papel, ele gosta da presença física”, diz ele.
No
caso dos baby boomers brasileiros, o apego ao controle de
todas as decisões financeiras e operacionais relacionadas ao patrimônio é ainda
mais marcante, diz Freitas.
“Mesmo
quando faz sentido do ponto de vista tributário um projeto de passagem de
bastão, por exemplo, o projeto não acontece se você não tiver o patriarca
engajado”, afirma, citando um exemplo fictício.
“Às
vezes, ele até diz que está engajado, mas quando chega na hora de falar ‘você
deixa de ser executivo da empresa e vai passar para o conselho de
administração', ele topa, mas está ali no chão de fábrica todo dia, vendo tudo
de perto”.
Como
imaginar que, tão habituados ao controle de todo seu patrimônio, tais
bilionários baby boomers estejam cedendo tão rapidamente o
poder às próximas gerações, como sugere a grande quantidade de jovens listados
pela Forbes?
Há
muitos recursos para manter o poder mesmo após a doação dos ativos, explica
Freitas. Um deles é a reserva de usufruto, que prevê que o dono fundador
mantenha o poder político sobre aquele patrimônio.
“No
exemplo de uma empresa: eu doei as ações, já recolhi o imposto sobre herança,
mas eu reservei o usufruto político e econômico: o que significa que eu ainda
mando e ainda posso receber o rendimento”, explica.
Existe
também a cláusula de incomunicabilidade da herança, que é prevista no Código
Civil para possibilitar que bens herdados ou doados não sejam transmitidos ao
cônjuge - “para que o ativo não se contamine com patrimônio do agregado, da
nora, do genro”, diz Freitas.
O
que significa que, embora abastadíssimos, com um futuro promissor e cheio de
regalias, estar na lista da Forbes não significa que a nova geração já esteja
integralmente no comando.
“Muitos
dessa nova geração são muito ricos, mas quando você olha de perto, têm pouco
poder de decisão”, conclui o executivo da UBS.
(Fonte: BBC)



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