No mesmo dia, o Ministério da Gestão e
da Inovação em Serviços Públicos (MGI) apresentou uma proposta para instalação
de mesas de negociação com todas as categorias do funcionalismo federal já
antecipando a intenção de conceder reajustes salariais de pelo menos 4,5% em
2025 e 4,5% em 2026. A proposta previa um aumento imediato só em benefícios
como auxílio alimentação e saúde.
Essa mesma proposta, contudo, continha
uma cláusula para a paralisação negociações com categorias que declarassem
greve. A cláusula acabou sendo retirada. Ainda assim,
causou revolta entre os servidores.
Foi chamada de indecorosa e
divisionista pelo Fórum das Entidades Nacionais de Servidores
Públicos Federais (Fonasefe). "Indecorosa, por conta da violenta
tentativa de legitimação de dispositivo antigreve no acordo, e de outro
divisionista, haja vista que fragmenta as perspectivas de negociação para o
próximo período", declarou a entidade, em informações enviadas ao Brasil de Fato.
Ainda na quarta, o Sindicato Nacional
dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes-SN) divulgou um
comunicado em seu site dizendo que a negociação com o governo
"naufragou". Disse que o resultado da reunião foi "surreal"
e revelou "a falácia do discurso do governo".
O Andes-SN lembrou em seu comunicado
que, horas antes do encontro entre o MGI e os servidores, o próprio presidente
Lula havia pedido em discurso um acerto de seus ministros com o funcionalismo e
reconhecido o direito à greve. "A gente pode até não gostar, mas elas são
direito democrático dos trabalhadores. Não tenho moral para falar contra greve.
Nasci nas greves. Então sou obrigado a reconhecer".
Gustavo Seferian, professor da
Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e
presidente Andes-SN, reforçou que a alternativa restante dos professores das
universidades federais é a greve. Ela começa nesta segunda e deve afetar ao menos um terço das universidades federais neste
momento.
"A paralisação das aulas é a
principal forma de expressão da greve docente, que também tem rebatimentos em
todas as demais dimensões da vida docente", disse Seferian, ao Brasil de Fato.
Greve geral
Outros servidores da rede federal de
ensino já estão de braços cruzados. A paralisação dos professores vai engrossar
a paralisação e levar à greve geral.
Os servidores técnicos administrativos
(TAEs) estão em greve desde 11 de março. O movimento afeta pelo
menos 67 universidades do país e é liderado pela Federação de Sindicatos de
Trabalhadores Técnico-Administrativos em Educação das Instituições de
Ensino Superior Públicas do Brasil (Fasubra).
Já os professores e técnicos de
colégios e institutos federais decretaram greve no último dia
3. Eles são representados pelo Sindicato Nacional dos Servidores
Federais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica (Sinasefe). O movimento
afeta cerca de 300 instituições de ensino.
Além do reajuste, os servidores da
Educação pedem reestruturação dos planos de carreiras, mais investimentos nas
instituições e realização de um concurso para contratação de mais
trabalhadores.
Jornada
Já a partir de terça-feira (16), o
Fórum das Entidades Nacionais de Servidores Públicos Federais (Fonasefe)
realiza uma jornada chamada "0% de reajuste não
dá". Ela acontecerá até quinta-feira (18). "O calendário de
mobilização visa pressionar o governo a honrar o seu compromisso de valorizar
os servidores e o serviço público", declarou a Fonasefe.
No primeiro dia, haverá uma audiência
pública na Comissão de Administração e Serviço Público da Câmara dos Deputados,
requerida pela deputada Sâmia Bomfim (PSOL-SP).
Na quarta, haverá uma marcha em
Brasília. Na quinta, estão programados atos nos postos de trabalho dos
servidores em diferentes locais do país.
Como forma de pressionar o governo por
melhorias, também há categorias de servidores trabalhando em
"operação-padrão". A lista inclui servidores do Banco Central (BC), do Tesouro Nacional, da Receita
Federal, da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), do Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e do Instituto Chico Mendes de Conservação
da Biodiversidade (ICMBio).
Promessas
Na quinta (11), a ministra da Gestão e
Inovação, Esther Dweck, afirmou que o governo pretende garantir 19% de reajuste aos servidores durante este
mandato de Lula. No ano passado, concedeu 9% a todos. Considerando os 4,5% em
2025 e 2026 e o cálculo do juros compostos, chegaria a 19%.
"O que a gente tem pactuado
inicialmente dentro do governo, que a gente garantiria para todo mundo 9% [em
2023], mais 4,5% [em 2025] e 4,5% [em 2026]. Ao todo, 19% acima da inflação do
período, ninguém teria perda ao longo do governo do presidente Lula. Mas não
teríamos facilidade de recuperar perdas do governo anterior por falta de
qualquer reajuste de servidores naquele momento", disse ela, durante o
programa Bom Dia, Ministra, da EBC.
No caso dos servidores da Educação, a
ministra disse que o governo planeja apresentar uma contraproposta para o setor
sobre a reestruturação de carreiras dos técnicos.
Sobre o reajuste dos benefícios, o que
o governo propôs é:
- Auxílio alimentação de R$ 658 para R$
1 mil (alta de 51,9%);
- Auxílio saúde per capita médio de R$ 144,38 para cerca de R$ 215;
- Auxílio creche de R$ 321 para R$ 484,90.
Perdas acumuladas
De acordo com o Fonasefe, os servidores
federais acumulam perdas salariais de até 25% de
setembro entre 2016 e ao final de 2023. Elas cresceram, principalmente, durante os governos de Michel Temer (MDB), de setembro
de 2016 a 2018, e Jair Bolsonaro (PL), de 2019 até 2022.
Cálculos da entidade indicam que, do
início da gestão Temer até o final do primeiro ano do novo governo Lula, a
inflação acumulada é de 42,99%. Nesse mesmo período, os salários dos servidores
federais subiram 14,4% ou 25%, dependendo da categoria. A diferença corroeu o
poder de compra dos funcionários federais.
De acordo com o Fonasefe, em oito anos,
os servidores conseguiram reajustes negociados em dois acordos. O mais recente
deles foi fechado em 2023, já durante o governo Lula, e concedeu reajuste linear de 9% a todos os servidores – no ano,
a inflação foi de 4,62%. Já o mais antigo foi firmado em 2015, ainda durante o
governo da ex-presidenta Dilma Rousseff (PT), mas teve efeitos também sobre as
gestões de Temer e Bolsonaro.
Em 2015, houve uma greve de servidores.
Eles pressionaram o governo por reajustes e conseguiram obtê-los de duas
formas: parte dos servidores negociou aumentos para 2016 e 2017, deixando
abertas as negociações para os seguintes anos. Outra parte dos funcionários
públicos fechou aumentos para 2016, 2017, 2018 e 2019.
As categorias que optaram por um acordo
válido por menos tempo receberam 5% de reajuste desde o início do governo Temer
até o fim do governo Bolsonaro, que não concedeu nenhum reajuste. Somam,
portanto, 14,45% de acréscimo nos salários já considerando os 9% concedidos por
Lula. São quem tem uma perda acumulada de 25%.
Já as categorias que optaram por um acordo válido também para 2018 e 2019, tiveram reajustes de 4,75% e 4,5% nesses anos, respectivamente. Elas, considerando o aumento de 2023, tiveram reajuste acumulado de 25,28% em oito anos. Esses servidores tem perda 14,4%.
(Brasil de
Fato)

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