Uma de suas pacientes, uma mulher de 70 anos chamada Mary, estava se aproximando da morte, cercada dos quatro filhos adultos no quarto do hospital onde Kerr trabalhava.
Em determinado
momento, Mary sentou-se na cama e começou a mover os braços como se estivesse
embalando um bebê que só ela enxergava, a quem chamava de "Danny" e
parecia abraçar e beijar.
O gesto surpreendeu
a todos, já que não conheciam ninguém chamado Danny.
No dia seguinte, porém,
a irmã da paciente chegou ao hospital e contou que, muitas décadas antes, Mary
havia perdido seu primeiro filho, que se chamava Danny e nasceu morto.
A dor da perda foi
tão grande que Mary passou o resto da vida sem falar sobre o bebê. No entanto,
na hora da morte, a visão do filho perdido há tantos anos trouxe conforto à
paciente.
Kerr já contou essa
história em diversas entrevistas e palestras para ilustrar como, depois de uma
carreira iniciada de forma convencional, com residência em medicina interna,
especialização em Cardiologia e doutorado em Neurobiologia, decidiu mudar de
rumo e se dedicar a estudar as experiências de pacientes terminais.
Hoje, passados 25
anos do encontro com Mary, Kerr é considerado uma das principais autoridades do
mundo no estudo de experiências de final de vida, como são chamadas as visões e
sonhos comuns em pacientes terminais.
Segundo ele, essas
experiências costumam começar semanas antes da morte, e aumentam de frequência
à medida que o fim se aproxima.
Ele diz que presenciou
pessoas revivendo momentos marcantes da vida, enxergando e conversando com
mães, pais, filhos e até animais de estimação mortos vários anos antes.
Para os pacientes,
as visões parecem reais, intensas, com significados profundos e, comumente,
trazem sensação de paz.
"Estes
(relacionamentos) muitas vezes regressam de formas muito significativas e
reconfortantes, que validam a vida que foi vivida e, por sua vez, diminuem o
medo de morrer", diz Kerr à BBC News Brasil.
Kerr ressalta que
esses pacientes não estão confusos ou com pensamento incoerente e que, enquanto
sua saúde física declina, estão emocionalmente e espiritualmente presentes. No
entanto, muitos médicos descartam o fenômeno como alucinações ou fruto de
confusão, e querem evidências.
Foi em busca dessas
evidências que Kerr começou, em 2010, um estudo pioneiro nos Estados Unidos.
Até então, a
maioria dos relatos sobre essas experiências vinha de terceiros, mas o médico
lançou uma pesquisa formal, com abordagem científica, na qual os próprios pacientes
são entrevistados e há triagem para garantir que não estão confusos.
Seus resultados já
foram publicados em diversos artigos científicos. O médico ainda não encontrou
uma resposta definitiva para explicar a causa dessas experiências de final de
vida, mas afirma que não interpreta os casos como de fundo religioso.
Segundo Kerr, ainda
existe um contraste em como essas experiências são valorizadas pelos pacientes
e suas famílias, mas não pelos médicos de maneira geral.
Kerr é CEO do
Hospice & Palliative Care, organização que oferece cuidados paliativos na
cidade de Buffalo, em Nova York.
Em 2020, lançou o
livro Death Is But a Dream: Finding Hope and Meaning at Life's End ("A
morte é apenas um sonho: encontrando esperança e sentido no fim da vida",
em tradução livre), traduzido para 10 línguas, mas ainda sem edição em
português.
Em entrevista
exclusiva à BBC News Brasil, ele falou sobre o significado dessas experiências
de final de vida, os principais temas envolvidos e como afetam pacientes e suas
famílias.
Leia a seguir os
principais trechos da entrevista
BBC News Brasil - O
senhor começou a trabalhar com pacientes terminais e a observar experiências de
final de vida em 1999, e desde 2010 realiza pesquisas científicas sobre o tema,
com coleta e análise de dados. Depois de tantos anos, o que aprendeu sobre essas
experiências?
Christopher Kerr - Acho que
[aprendi] uma série de coisas.
Eu penso que o
processo de morrer é obviamente mais do que o declínio físico que vemos. Inclui
uma mudança no seu ponto de vista, nas suas percepções, e inclui elementos que
são, na verdade, uma afirmação da vida.
O processo de
morrer leva você a um ponto de reflexão e, de uma forma maravilhosa, as pessoas
tendem a se concentrar nas coisas que mais importam, em suas maiores
realizações, que são seus relacionamentos.
E, curiosamente,
estes (relacionamentos) muitas vezes regressam de formas muito significativas e
reconfortantes, que validam a vida que foi vivida e, por sua vez, diminuem o
medo de morrer.
O que esperaríamos
é um sofrimento psicológico ou psicogênico crescente à medida que as pessoas
enfrentam o fim da vida. Mas, geralmente, não é isso que vemos. Vemos pessoas
como se estivessem envolvidas por amor e significado.
Então, é o oposto
do que pensamos. A visão que temos da morte, a morte que antecipamos, não é a
que vivenciamos.
BBC News Brasil -
De acordo com sua pesquisa, o quão comuns são essas experiências de final de
vida?
Kerr - Em nossos
estudos, cerca de 88% das pessoas relataram pelo menos uma [experiência]. Nossa
taxa é provavelmente maior do que normalmente é relatado, porque a diferença no
nosso estudo é que perguntamos [aos pacientes] todos os dias.
Morrer é um
processo. Ao conversar [com os pacientes] em uma segunda-feira, você poderá
obter uma resposta muito diferente da que obteria na sexta-feira. Então perguntamos
com mais frequência.
O que vemos é que,
à medida que os pacientes se aproximam da morte, há um aumento na frequência
desses eventos.
Há um aumento
dramático no número de pessoas que relatam isso e no número de vezes que
acontece.
BBC News Brasil - E
quais os principais temas dessas visões e sonhos?
Kerr - Cerca de um
terço dos entrevistados relata temas como viagens. Mais comumente, envolvem
pessoas que amaram e perderam.
E é interessante
que, à medida que você se aproxima da morte, aumenta a frequência com que vê
essas pessoas falecidas.
E quando analisamos
o que fazia as pessoas se sentirem mais confortáveis, ver os entes queridos
mortos era o que lhes trazia mais conforto.
Então, à medida que
as pessoas se aproximam da morte, têm a sensação de serem cada vez mais
confortadas.
Outro ponto
realmente interessante é com quem elas sonham. Há um tipo de processo de
edição, então elas tendem a se concentrar nas pessoas que as amavam e
protegiam, nas pessoas que eram mais importantes.
E [essa pessoa]
pode às vezes ser um dos pais, mas não o outro. Ou um irmão, mas não o outro.
Cerca de 12% dos
entrevistados descreveram no questionário os sonhos como neutros ou
angustiantes. Mas essas experiências que eram [descritas como] desconfortáveis
eram algumas das mais transformadoras ou significativas.
A ideia é que
qualquer ferida que você tenha por ter vivido, é muitas vezes abordada nessas
experiências.
Há casos como o de
um paciente que lutou na guerra e sentia culpa por ter sobrevivido, mas no
final foi confortado ao ver seus companheiros que haviam morrido [em combate].
Ou seja, as
experiências que talvez não tenham sido totalmente reconfortantes eram
frequentemente muito significativas.
BBC News Brasil - O
senhor afirma que um erro comum é pensar que esses pacientes estão delirando. O
que torna essas experiências diferentes de um estado de confusão mental?
Kerr - Delirium [síndrome orgânica
que pode ser provocada por infecções ou medicamentos e muitas vezes acomete
idosos hospitalizados, afetando a consciência e a cognição] ou estados de
confusão mental são comuns, principalmente no fim da vida, mas são muito
diferentes [das experiências relatadas].
As pessoas não saem
do delirium sentindo-se confortadas. Em geral, [experiências com delirium]
evocam medo. "Há aranhas rastejando no meu braço, alguém está me
perseguindo, há incêndios." São experiências horríveis, passageiras, que
deixam os pacientes agitados.
Estes são pacientes
que muitas vezes estão medicados ou amarrados ao leito. [As experiências com
delirium] não são baseadas na realidade, nem são lembradas com clareza.
Por outro lado, as
experiências dos pacientes no final da vida são baseadas em pessoas, eventos e
acontecimentos reais. Elas são lembradas com clareza e são extremamente
reconfortantes e calmantes.
Pessoas que estão
confusas têm pensamentos fragmentados, tangenciais, enquanto que pessoas
vivenciando essas experiências de final de vida praticamente têm a acuidade
aumentada, estão perspicazes, lembrando, sentindo. É completamente diferente.
BBC News Brasil -
Às vezes os pacientes estão sonhando, mas em outras estão acordados. Há
diferenças entre esses dois tipos de experiências?
Kerr - Isso é algo que nos
surpreendeu. Perguntamos no questionário se isso acontecia, se estavam
sonhando, se estavam dormindo ou acordados, e as respostas foram meio a meio.
E não sabemos o que
pensar disso, porque não é como se você entrasse no quarto e metade do tempo as
pessoas estivessem de olhos abertos [enquanto estão passando por essas
experiências].
Morrer inclui sono
progressivo, dias e noites ficam fragmentados. E, como os pacientes avaliam o
realismo [das experiências] como 10 de 10 [no questionário], como se fosse
virtual, não temos certeza.
Eles podem estar
tendo sonhos lúcidos, de modo que sentem como se estivessem acordados.
Realmente não sabemos.
Mas claramente, se
ouvirmos nossos pacientes, o que eles estão nos dizendo é que nem sempre estão
dormindo.
BBC News Brasil -
Vocês também acompanham crianças com doenças terminais. Quais as diferenças
entre as experiências de final de vida de crianças e de adultos?
Kerr - As crianças fazem
isso melhor, porque elas não têm os filtros [que os adultos têm], há uma
abertura. Eles não traçam limites entre o imaginário e o real.
Elas também não têm
conceitos de mortalidade, então vivem o momento, não pensam em termos de
sequências de eventos e finais.
O que muitas vezes
vemos é que elas têm essas experiências de maneiras muito criativas e coloridas
e parecem saber intuitivamente o significado disso.
Se não conheceram
alguém que morreu, certamente conhecem animais de estimação que morreram, e
muitas vezes eles voltam com a mesma clareza, com vida e saúde.
E as crianças
frequentemente nos dizem que [essa experiência] significa para elas que são
amadas e que não estão sozinhas.
Essas experiências
também parecem lhes dizer em que ponto estão. Então elas muitas vezes conseguem
compreender o seu próprio fim por meio dessas experiências.
BBC News Brasil -
Qual o impacto dessas experiências nas famílias e pessoas próximas dos
pacientes?
Kerr - Nós publicamos dois
artigos científicos sobre isso, com 750 entrevistas, e é fascinante. A
conclusão é que o que é bom para o paciente também é bom para seus entes
queridos.
E a maneira como as
pessoas nos deixam é importante. Se vemos a morte como algo vazio e como
degradação, ou se vemos nosso ente querido reconectado com pessoas que ele ou
ela ama.
Nós conduzimos um
estudo muito interessante no qual analisamos os processos de luto. E há
maneiras de medir isso, como as pessoas estão progredindo, se conseguem se
lembrar [de quem perderam] de maneira saudável, esse tipo de coisa.
E as pessoas que
testemunham esse tipo de experiência de final de vida sofrem de uma forma muito
mais saudável, porque isso molda a sua percepção e a sua recordação daqueles
que perderam. Portanto, isso é muito importante.
BBC News Brasil - O
senhor tem doutorado em Neurobiologia, mas diz que não pode explicar a origem
dessas experiências e que compreender esse mecanismo não é o mais importante.
Como sua perspectiva sobre esse tema, como médico, evoluiu?
Kerr - Com muita
humildade. Fui testemunha de casos em que o que eu estava vendo era tão
profundo, e o significado para o paciente era tão claro e preciso, que quase me
senti um intruso.
E tentar decifrar a
etiologia, a causa, parecia fútil. Concluí que era simplesmente importante ter
reverência, que o fato de eu não conseguir explicar a origem e o processo não
invalidava a experiência para o paciente.
E então, em algum
momento, em vez de ficar em pé ao lado da cama, fazendo perguntas, aprendi a
sentar e a simplesmente ficar mais presente.
Me parecia muito
pequeno tentar medicalizar algo em que realmente não era meu papel me
intrometer, que era pessoal na vida daquela pessoa.
Uma analogia que
costumo usar é a de que não posso explicar a origem do amor [da mesma maneira
que não posso explicar a origem dessas experiências]. É algo abstrato, mas
sabemos que existe.
BBC News Brasil - O
senhor já disse que as discussões mais ricas sobre essas experiências costumam
vir das ciências humanas, e não da Medicina. Por que a Medicina não dá mais
atenção a esse tema? E, nos últimos anos, viu mudanças nessa postura?
Kerr - Não. Acho que
está piorando.
Acho que as
humanidades entram nisso questionando a nossa existência e o nosso significado,
há uma abertura, enquanto na ciência procuramos evidências e coisas que sejam
concretas, objetivas e mensuradas. Então, não se presta ao abstrato.
Assim, na Medicina,
enquanto olhamos para o processo físico de morrer, não olhamos para a
experiência de morrer. E essa é a maior diferença.
E o que está
mudando é que a Medicina está cada vez mais apaixonada pela sua ciência e, com
isso, perdeu grande parte da sua arte.
BBC News Brasil -
Sua pesquisa começou porque outros médicos queriam evidências. Mas, mesmo após
publicar os resultados em revistas científicas, seu trabalho chamou mais a
atenção da imprensa do que do campo médico. Como vê esse contraste?
Kerr - Tem sido uma
experiência muito estranha para mim.
Comecei [os
estudos] porque estava tendo dificuldade em fazer com que jovens médicos
valorizassem o que os pacientes estavam vivenciando. Então começamos a coletar
evidências, colocando em uma linguagem que eles respeitassem.
Mas quando [a
pesquisa] saltou para a grande mídia, foi adotada e se espalhou pelo mundo.
E acho que há um
problema nisso, que as pessoas prestando cuidados médicos não dão importância
[para esse tema], enquanto as pessoas que estão recebendo os cuidados, ou
simplesmente curiosas sobre sua própria morte, abraçam [o estudo desse
assunto]. O contraste é interessante.
BBC News Brasil -
Sei que o senhor já disse algumas vezes que detesta essa pergunta, mas preciso
perguntar: é religioso? Acredita em vida após a morte? E suas crenças mudaram
ao longo dos anos trabalhando com esse tema?
Kerr - Desde que começamos
[os estudos], sempre fomos muito disciplinados para não interpretar [essas
experiências] além da morte.
Porque o que
queríamos fazer não era interpretar, era simplesmente considerar o processo de
morrer, encará-lo como um mistério em si mesmo, honrar as palavras e a
experiência do paciente, sem tentar descrever ou descobrir ou editorializar o
que era.
Estávamos tentando
ser o mais objetivos possível. A morte é como uma porta, certo? E há um buraco
de fechadura. Você pode olhar e ver as coisas de várias maneiras diferentes.
Então fomos
realmente muito disciplinados em não interpretar.
Mas, dito isso,
não, eu não diria que era religioso. Mas eu certamente abordo tudo isso com
abertura e respeito, espero.
Acho que depois de
todos esses anos, 25 anos, o que sinto é que existe uma história melhor aí. E
eu não sei qual é, mas tenho tanto respeito pelo que essas pessoas estão
vivenciando que isso me deixa esperançoso por algo mais.
E há algumas coisas
[que ficaram claras]. Uma é que nunca perdemos verdadeiramente as pessoas que
amamos, elas continuam a existir para nós, não apenas de maneiras que são
distantes, em fotografias ou lembradas na memória, mas na presença.
Já vi homens de 95
anos que perderam a mãe aos cinco anos de idade e, nove décadas depois, ela
está lá, ele ouve a sua voz, sente seu perfume.
Então você acaba
sentindo que há algo mais. Que a morte e o morrer não podem ser definidos como
algo vazio.
(Fonte: BBC)



Nenhum comentário:
Postar um comentário