Para alguns, o momento era de recuperar a voz de
protesto represada durante anos. No caso de Adriana Ramos, que tinha acabado de
entrar para a faculdade, era um despertar político.
“Eu não tinha consciência política. Vinha de uma
família bem conservadora, de direita. Na escola, praticamente todos os colegas
eram filhos de militares. Na época, vi toda a mobilização e os colegas de
faculdade se organizando para ir ao comício. Lembro da minha mãe e da minha avó
ficarem apreensivas. Mas, até pela ignorância de não saber muito o que
significava aquela manifestação, fui na onda”, lembra Adriana. “Foi algo que
marcou muito minha relação com a política dali para a frente”.
Lívia de Sá Baião também era estudante universitária
na época. Estudava economia na Pontifícia Universidade Católica do Rio de
Janeiro (PUC Rio). Tinha 19 anos e trabalhava como estagiária em um banco
próximo à Candelária, quando se encontrou com amigos para assistir ao comício.
“Aquele momento foi um marco na minha vida. Lembro
muito da emoção de estar lá, de participar daquele momento, ouvir aqueles
líderes falando” disse Lívia. “Ouvi o Brizola, o Tancredo Neves. A gente estava
ali em um momento crucial”.
O jornalista Alceste Pinheiro também esteve no Comício
da Candelária, mas como manifestante. Ele lembra que ficou na Avenida Rio
Branco, onde ouvia os discursos, mas não tinha uma visão tão completa como a
das pessoas que ficaram de frente para o palanque.
“Mas lembro dos ônibus superlotados, da cidade toda se
movimentando naquela direção. Lembro do êxtase e da confiança das pessoas, do
sentido dos discursos, muito bem preparados, bem armazenados na memória, do que
se cantou. Lembro do que se gritou: Diretas Já! O Povo quer votar!”.
Cobertura jornalística
O fotógrafo Rogério Reis trabalhava na revista Veja em 1984. Às vésperas do
comício, a revista percebeu que o evento prometia ser grandioso, por causa do
número de doações espontâneas feitas para os organizadores em uma conta do
Banco do Estado do Rio de Janeiro (Banerj).
“Esse foi o primeiro sinal que a gente teve, uma
semana antes, de que o público estava disposto a colaborar para um grande
evento, com produção de faixas e todo o material que envolve um grande
comício”, disse o fotógrafo.
Outro sinal era o fato de o governador fluminense à
época ser o gaúcho Leonel Brizola, afinado com a proposta das Diretas Já. Ele
se dispôs a interditar toda a Avenida Presidente Vargas para que o evento
pudesse ocorrer. Foram colocados balões iluminados com gás hélio.
A revista escalou três fotógrafos para acompanhar o
evento: um faria fotos aéreas de um helicóptero alugado, outro ficaria em
frente ao palanque e o terceiro, que era Rogério Reis, circularia mais solto
entre a multidão, para fazer aspectos de comportamento.
“Eu classifico como uma das coberturas que raramente
você, como jornalista, está acostumado a vivenciar. A gente tem certo
distanciamento das cenas. Mas, nesse processo de abertura, vi muito
profissional trabalhando emocionado. Como ocorreu também na chegada dos
exilados. Lembro que na chegada do (Miguel) Arraes (deposto do cargo de
governador de Pernambuco em 1964) no (aeroporto do) Galeão, tinha muito
repórter e fotógrafo trabalhando chorando”.
Comício
Por volta das 16h do dia 10 de abril, começou o Comício da Candelária. Os
manifestantes gritavam palavras de ordem, agitavam bandeiras, faixas e
cartazes, vibravam com os discursos de diferentes líderes da oposição ao regime
militar, e cantavam em coro músicas dos artistas presentes.
Fafá de Belém conduziu o Hino Nacional e a música
Menestrel das Alagoas, que virou um dos hinos da Diretas Já. Em seguida, foi
libertada uma pomba branca, que saiu voando, assustada com a multidão. Milton
Nascimento levou o público às lágrimas ao interpretar Nos bailes da vida. O
advogado Sobral Pinto, aos 90 anos de idade, leu o que se tornaria o artigo 1º
da Constituição Brasileira: “Todo poder emana do povo”.
Durante seis horas, diferentes personalidades
alternaram-se no palco. Entre os políticos estavam Leonel Brizola (PDT-RJ),
Franco Montoro (PMDB-SP), Tancredo Neves (PMDB-MG), Ulisses Guimarães
(PMDB-SP), Luís Inácio Lula da Silva (PT-SP) e Fernando Henrique Cardoso
(PMDB-SP), que dividiram o mesmo palanque.
Entre os artistas, Chico Buarque, Maria Bethânia,
Lucélia Santos, Cidinha Campos, Chacrinha, Cristiane Torloni, Erasmo Carlos,
Ney Matogrosso, Paulinho da Viola, Bruna Lombardi, Maitê Proença, Walmor
Chagas. Também havia famosos como o jogador de futebol Reinaldo, o cartunista
Henfil, a apresentadora Xuxa e a atleta de vôlei Isabel. E na apresentação
principal, a voz do “locutor das diretas”, o radialista esportivo Osmar Santos.
Luta por democracia
O evento na Candelária era parte de uma série de manifestações de rua que
tomaram conta do país em 1983 e 1984. Os governos militares começam a enfrentar
crises econômicas mais agudas na década de 70, com endividamento externo e
inflação alta. Na gestão de Ernesto Geisel (74-79) fala-se pela primeira vez em
abertura política, mesmo que “lenta e gradual”. Na gestão de João Batista
Figueiredo (79-85) são restabelecidas as eleições diretas para os governos
estaduais. Em 1982, a oposição conquista o governo de nove estados, com
destaque para São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
Em 2 de março de 1983, o deputado federal Dante de
Oliveira (PMDB-MT) apresenta emenda à Constituição, assinada por 199
congressistas, para restaurar a eleição direta para presidente a partir de
1985. Nos meses seguintes, muitos atos públicos foram feitos em defesa da
pauta. O primeiro comício com articulação centralizada ocorreu em Goiânia, com 5
mil pessoas, em 15 de junho.
Cidades de todas as regiões do país passam a ter
manifestações. O destaque é para a chamada Caravana das Diretas, em fevereiro
de 1984, que percorre cidades do Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Em 24 de
fevereiro, Belo Horizonte registra até ali o maior público de um comício, cerca
de 400 mil pessoas. Esse número só seria superado pelo comício do Rio de
Janeiro, na Candelária, e pela passeata de São Paulo, que saiu da Praça da Sé
até o Vale do Anhangabaú. Ambos, ocorridos em abril, ultrapassaram a marca de 1
milhão de pessoas.
Apesar de toda essa mobilização popular, semanas
depois, em 25 de abril, é votada a Emenda Dante de Oliveira no Congresso. A
derrota vem por diferença de 22 votos. O primeiro presidente da República
depois da ditadura militar, Tancredo Neves, seria escolhido por eleição
indireta no Colégio Eleitoral.
Capa do JORNAL DO BRASIL de 11 de abril de 1984, dia seguinte ao comício da Candelária. Foto do acervo do JB Foto: CPDOC JB (Licenciamentos: cpdoc@jb.com.br)
Frustração
Já naquela época, o jornalista Alceste Pinheiro acreditava que a emenda
constitucional não passaria, por todas as circunstâncias e pressões que
existiam de vários lados. Havia os que não queriam a aprovação e os que
preferiam adiar para uma situação que, politicamente, fosse mais favorável.
“Eu achava isso e falava para algumas pessoas. Mas,
entre as pessoas da minha relação, todas tinham esperança muito grande de que a
emenda passaria. Eu desconfiava. Mesmo assim, fui à Cinelândia quando se votou
a emenda, que foi derrotada. Foi absolutamente distinto do que ocorreu na
Candelária”, disse Alceste.
Para quem alimentou por meses a esperança de que
poderia escolher finalmente o ocupante do cargo mais alto do país, a euforia
deu lugar à frustração.
“Foi uma grande decepção quando a Emenda Dante
Oliveira foi rejeitada na Câmara, poucos dias depois do comício. Fiquei
arrasada. E aí deu no que deu. Só tivemos eleições em 1989”, disse Lívia de Sá.
“Uma mobilização daquele tamanho e, no final, a emenda
não foi aprovada? Foi um balde de água fria, de mostrar um limite da
mobilização da sociedade. Mas, sem dúvida, tinha esse entendimento de que a
gente estava entrando em nova época. Com mais demandas e mais possibilidades de
participação da sociedade”, afirmou Adriana Ramos, que hoje é ambientalista.
Legado democrático
Para o historiador Charleston Assis, da Universidade Federal Fluminense (UFF),
é importante olhar além dos objetivos imediatos do movimento das Diretas Já e
entender o significado mais amplo dele no contexto de redemocratização do país.
Assis lembra que apenas três anos antes aconteceu o
atentado do Riocentro, em que um grupo de militares tentou intimidar, ferir e
matar jovens em um show para retardar a abertura política. A tentativa terminou
em fracasso, mas mostrou os perigos que esse grupo representava. Assim, voltar
às ruas e pedir eleições diretas para presidente era um ato de coragem e de
resistência ao silêncio imposto pela ditadura.
“O movimento das Diretas Já tem inúmeros ganhos. Essa
emergência popular vai fazer com que o povo se torne um ator político muito
decisivo. A partir daquele momento, as demandas não podem mais ser ignoradas. O
país vai ter conquistas como a ampliação da rede de proteção social, do acesso
à casa própria, mais tarde do acesso à universidade pela juventude preta e
indígena. Isso tudo estava ali nos anos 80, e a luta pelas Diretas trazia uma
série de sonhos coletivos desse povo enquanto nação”, diz o historiador.
Charleston entende que, por causa das recentes
tentativas de golpe de Estado e do fortalecimento de discursos retrógrados,
lembrar da mobilização popular da década de 1980 é importante para valorizar as
conquistas sociais das últimas décadas.
“É muito necessário que a gente rememore essa campanha por conta daquilo que ela traz de oposição ao autoritarismo e de defesa da democracia. A ditadura militar foi uma tragédia social, política e econômica. Basta lembrar que nossa dívida externa passou de R$ 3 bilhões em 1964 para R$ 100 bilhões no fim do governo militar. As Diretas Já mostraram que o povo brasileiro se colocou decididamente contra a ditadura e a rejeitou em bloco”.
(Jornal
do Brasil/Ag. Brasil)



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