Antes de eles se levantarem, numa casa às margens do rio Solimões, no Amazonas, Francisca já leu apostilas, reviu o material das aulas da educação de jovens e adultos (EJA) e ficou pronta para ensinar.
"Eu sentia que precisava ajudar, porque chegava uma tarefa deles e eu não conseguia mais acompanhar", explica Francisca, que frequentou a escola até a quinta série e, há 4 meses, voltou a estudar.
Por
mais de um ano, a avó é a professora possível para Glória, de 10 anos, e Davi,
de 12, em Manaquiri, cidade a 150 km de Manaus que tem sido fortemente afetada
pela maior seca já
registrada na Amazônia brasileira.
Os
rios que levam crianças e professores de comunidades ribeirinhas e rurais às
escolas secaram, e 60% dos mais de 4,4 mil alunos estão sem frequentar a sala
de aula numa cidade que já tem registrado indicadores de educação preocupantes.
Manaquiri
foi a cidade brasileira com menor nota no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb)
para os anos iniciais do ensino fundamental em 2023, divulgado neste ano:
apenas 2,5, numa escala que vai até 10.
Nem
todas as cidades ou escolas são avaliadas no índice do Ministério da Educação
(MEC), por não atingirem um número mínimo de alunos.
Nestas
eleições municipais, a BBC News Brasil visitou municípios que estão em primeiro
e último lugar em rankings de indicadores sociais para investigar o que um país
desigual como o Brasil pode aprender com seus extremos.
Além
de Manaquiri, a reportagem foi à cidade melhor colocada no ranking do Ideb -
Pires Ferreira, no Ceará. Outra equipe visitou os municípios com melhor e pior
colocação no Índice de Desenvolvimento Humano — São Caetano do Sul (SP) e
Melgaço (PA) (leia
aqui).
Em 2024, os alunos de Manaquiri que estão em casa por conta da seca têm recebido tarefas e alimentos enviados pela escola — mas, fundamentalmente, têm dependido do conhecimento da família e de uma conexão de internet (muitas vezes instável) para tirar dúvidas com os professores.
Mesmo
os que moram perto da escola, como os netos de Francisca, estão com aulas
suspensas. Segundo a prefeitura, professores também estão isolados e os que
podem chegar à escola precisam preparar o ensino remoto.
Francisca
percebeu que o novo cenário longe da escola — que tem se repetido desde os anos
de pandemia — iria prejudicar o futuro de seus netos.
Ela
saiu batendo de porta em porta na Vila do Janauacá, comunidade de Manaquiri
onde se chega apenas de barco, para encontrar ao menos 15 jovens e adultos que
gostariam de retomar a educação numa turma de EJA na escola local. E conseguiu.
“Eu
já aprendi matemática, português e até um pouquinho de inglês. O bom é que a
gente ensina eles e aprende junto”, diz Francisca, ela própria em ensino remoto
no EJA desde setembro.
Mas
a pescadora não acha que o esforço que faz deveria ser regra. “O certo é estar
na escola”, conta.
“Dentro
de sala de aula é uma coisa, a aula remota é outra. O que está acontecendo
agora é que vou ter que forçar mais a minha mente para ajudar eles”.
Escolas
vazias, alunos em casa
A BBC
News Brasil foi até a escola municipal na Vila do Janauacá numa
quarta-feira no final de setembro — e encontrou o prédio vazio, apenas com
algumas funcionárias.
Em
uma chamada rápida de grupo com alunos do sexto ano via Whatsapp, a professora
Cristiane Ribeiro, sentada em frente a dezenas de cadeiras vazias, tirava
dúvidas dos estudantes sobre teorias econômicas.
“A
gente tem trabalhado para que as atividades e todo o conteúdo cheguem às casas
dos alunos, mas a gente sabe que não é a mesma coisa”, diz a professora.
A
população amazônica está acostumada ao processo de cheia e seca dos rios ao
longo do ano — mas não na intensidade que tem acontecido, segundo os moradores
e cientistas.
De
acordo com o Centro Nacional de Monitoramento de Desastres Naturais (Cemaden),
a seca no Brasil entre 2023 e 2024 é a "mais intensa da história
recente" — sendo a Amazônia uma das regiões mais afetadas.
Os
rios da região registraram neste ano o menor nível da
história, como o Negro, em Manaus, o Solimões, em Tabatinga (AM), e o
Madeira, em Porto Velho (RO).
À
frente da disciplina de geografia, Cristiane costuma explicar aos alunos que a
crise climática visível no quintal de casa é resultado de
modificações que os seres humanos fizeram e que a "natureza está tentando
encontrar o seu equilíbrio".
Mas,
mesmo em época quando não há grandes cheias ou secas, a educação em Manaquiri
já é um desafio.
Alguns
alunos passam horas no barco, outros precisam caminhar na mata fechada para
encontrar o barqueiro que os vai levar à escola.
“Então
eles chegam cansados, fadigados de um sol escaldante como é aqui do nosso
Estado, então é complicado e cansativo”, conta a professora Cristiane.
“Eu
creio que os demais Estados não sabem da nossa realidade. Aqui as dificuldades
são maiores. As pessoas precisam entender que não é só o número pelo número [o
Ideb]. Por trás desse número, existe um grande desafio que essa região
enfrenta”.
A cerca de 30 minutos de barco num braço do rio Solimões que está cada vez mais seco, a família de Gisele Amorim tenta encontrar saídas para o tempo ocioso das crianças.
"Tenho
até medo de eles ficarem viciados em celular, na televisão, porque é muito
desenho. É triste ver a situação da criança sem estar na escola", diz
Gisele, grávida de seis meses.
Com
os rios quase totalmente secos, o transporte escolar não consegue navegar — em
alguns pontos, apenas pequenas canoas em que só cabem duas pessoas.
“Assim
o ensino fica mais para trás, em vez de ir pra frente”, diz Gisele.
Num
município ribeirinho e tão sensível aos fenômenos climáticos como Manaquiri,
seria necessário um calendário específico em que as férias estudantis ocorram
em períodos de impossibilidade de acesso, explica Fabiane Garcia, doutora em
educação e professora na Universidade Federal do Amazonas (Ufam).
“Eu
vim da zona rural daqui do Amazonas, sei como é a realidade. O nosso calendário
tem que ser diferente da zona urbana e em muitos lugares isso já acontece”, diz
Garcia.
Cidades
como Tefé (AM) e
escolas em áreas ribeirinhas de Manaus são
algumas que preveem o sobe e desce das águas na hora de estabelecer datas
escolares.
A
Prefeitura de Manaquiri disse que tentou se antecipar ao problema de seca com
aulas aos sábados e feriados para adiantar conteúdos, por exemplo. Mas
argumenta que a estiagem começou mais cedo que o ano anterior, atrapalhando a
programação.
"Nós
não imaginávamos que a seca ia ser tão rápida assim, ela se adiantou muito esse
ano. É complexa demais a questão do calendário climático aqui", diz o
prefeito Jair Souto (MDB), que esteve à frente da prefeitura em quatro ocasiões
e elegeu seu sucessor, Nelson Nilo (MDB), nestas eleições.
O
prefeito diz que o ideal é as crianças estarem de férias em outubro — começando
o ano letivo logo em janeiro. Não há previsão para a volta às aulas ainda neste
ano.
Problemas
além da seca
Mas
se as salas de aula vazias e a impossibilidade de locomoção são um sinal claro
dos desafios de uma cidade como Manaquiri, outros problemas também se acentuam
em áreas rurais do Norte do Brasil.
Na
cidade amazonense, apenas 75% dos professores do ensino fundamental têm ensino
superior —– um número abaixo da média nacional, de quase 87%, segundo dados do
Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).
“Tem
muita professora boa que trabalhava com a gente, mas, quando tem oportunidade
de ser aprovada lá em Manaus, é a primeira coisa, porque lá paga melhor”, diz
Júnior Amorim, professor do sexto ano numa escola no centro de Manaquiri.
Para
o professor, os alunos de Manaquiri são prejudicados ainda pela falta de
material que dinamize as aulas e de uma parceria mais sólida entre as escolas e
as famílias: "Não adianta só quadro e caneta piloto".
A
professora Cristiane Ribeiro, da Vila do Janaucá, explica ainda que, em algumas
comunidades distantes, há professores que estudaram apenas até a quarta série e
já são colocados dentro de uma sala de aula.
De acordo com o prefeito Jair Souto, tem sido difícil atrair profissionais qualificados para Manaquiri, especialmente para zonas rurais. “Esse é o grande desafio no Brasil e nas áreas remotas”, diz o político, prometendo um sistema de aumento de remuneração com base nos resultados de cada professor — algo a ser aplicado na gestão seguinte, de seu sucessor.
Souto
também reclama da forma como a educação é financiada para os municípios
amazônicos.
Assim
como a grande maioria dos municípios brasileiros, Manaquiri depende
majoritariamente de recursos repassados pelo governo federal ou estadual.
Na
área da educação, o dinheiro chega às cidades principalmente através do Fundo
de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos
Profissionais da Educação (Fundeb).
Criado
em 2007, o fundo tem papel fundamental na redução de desigualdades entre as
regiões, já que redistribui recursos nacionais com base no número de alunos — e
não levando em conta o que determinado Estado arrecadou, por exemplo.
Mas
o prefeito diz que Fundeb tem sido insuficiente, já que os recursos repassados
não levam em conta que Manaquiri gasta mais no transporte (em barcos e por
longas distâncias), por exemplo.
A
cidade ainda precisaria, argumenta Souto, de mais recurso por aluno, já que há
escolas que precisam ser mantidas em comunidades ribeirinhas e que funcionam
com pouquíssimas crianças.
"O
Brasil precisa entender a complexidade da região Norte e fazer políticas
específicas para a região. Nós não somos iguais", diz.
O
Norte é a região proporcionalmente mais jovem do Brasil, um país que tem visto
sua população
economicamente ativa diminuir em relação aos idosos.
Isso
quer dizer que a forma como os jovens estão se formando vai influenciar o
futuro do país, explica o economista Naercio Menezes Filho, professor do Insper
e da Universidade de São Paulo.
"Como
teremos menos jovens, a gente precisa ter gente cada vez mais produtiva. E um
dos principais fatores para aumentar a produtividade é a qualidade da
educação", diz Menezes Filho, especialista no desenvolvimento da primeira
infância.
"Então
é preocupante que isso não esteja acontecendo na região que a gente tem a maior
concentração de juventude", completa.
O
MEC reconheceu, em nota, que é necessário atacar as desigualdades educacionais
no Brasil e disse que está implementando novos critérios no Fundeb para que
cidades que tenham alunos mais pobres possam receber mais recursos.
Já o
Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), responsável pela gestão
do Fundeb, prometeu um olhar para o que chama de "custo amazônico",
por meio de um programa voltado para auxiliar no transporte de estudantes da
zona rural e de regiões mais afastadas.
No
entanto, até o momento, ainda não há um orçamento definido para as mudanças,
diz o FNDE.
O
que o Ideb não mede
O
Ideb é calculado com base em dois indicadores: a taxa de aprovação escolar; e
as médias de desempenho nos exames aplicados pelo Sistema de Avaliação da
Educação Básica (Saeb), nos quintos e nono ano do ensino fundamental e terceiro
ano do ensino médio.
Ele
é considerado o principal indicador da educação brasileira e consegue ligar
alertas.
Mas
será que, numa cidade como Manaquiri, o índice é capaz de captar tudo?
Para
a educadora Fabiane Garcia, da Ufam, as crianças ribeirinhas de áreas rurais na
Amazônia têm uma leitura de mundo e vivências cotidianas que não são vistas em
resultados de provas.
"Em
termos de leitura e cálculo, objetivamente, elas estão falhando. Mas não
podemos dizer que não esteja ocorrendo aprendizado. Talvez seja uma
aprendizagem que esses próprios modelos não captam", diz a professora.
Em
escolas indígenas do Amazonas, exemplifica Garcia, os professores são da
própria comunidade e dão aulas na língua nativa. Muitas vezes esse educador não
tem um curso de graduação, e os resultados de provas de português podem não ser
os esperados.
"Isso
pode ser visto no Sudeste como uma coisa ruim, mas a gente precisa entender que
isso é bom porque no fundo a gente está nesse processo de manutenção e resgate
da cultura, da língua", diz.
Na
escola da Vila do Janauacá, uma das salas é dedicada a um pequeno museu com
artefatos arqueológicos que as famílias encontram ali mesmo. São potes de
cerâmica e vasos de civilizações antigas e que fazem parte do dia a dia das
aulas.
O
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) informou que já
fez uma visita ao colégio para catalogação dos itens, em meio ao
recadastramento de sítios arqueológicos na região.
“A
gente mostra que outros povos estiveram aqui antes da gente”, comenta a
professora Cristiane, apontando os objetos históricos que as crianças
encontraram, literalmente, no quintal de casa.
(Fonte:
BBC)



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