Antes de virar a sinagoga Beitel, em 2014, o edifício abrigava uma igreja evangélica que foi se tornando "cada vez mais judaica", conta Flávio Santos, um dos líderes da comunidade e seu cantor litúrgico.
Negro e criado em
uma família evangélica, Flávio personifica a jornada de vários bnei
anussim — expressão que significa "os filhos dos forçados"
em hebraico e se refere aos judeus compelidos a se converter ao cristianismo na Península Ibérica, no
século 15.
Os bnei
anussim dizem ter laços sanguíneos com esses judeus de origem ibérica,
também chamados de judeus sefarditas ou sefaradim.
Ao serem convertidos à força pela Inquisição, passaram a ser conhecidos
como cristãos-novos.
Vários séculos
depois, milhares de seus descendentes estão retornando ao judaísmo — um
movimento com epicentro em bairros periféricos e pequenas cidades da região
Nordeste.
Como resultado,
judeus convertidos fundaram nos últimos anos várias sinagogas Brasil afora,
muitas delas em locais sem qualquer presença judaica até então.
O movimento já
produz efeitos em Israel, onde parte desses convertidos passou a
viver e até a servir no Exército, mas também vem enfrentando
resistências em algumas comunidades judaicas tradicionais brasileiras.
A história é
contada no documentário Os novos judeus do Nordeste: a tribo perdida do sertão,
disponível no canal da BBC News Brasil no YouTube, resultado de uma expedição
que percorreu mais de mil quilômetros em quatro Estados para retratar este
fenômeno.
De evangélico a judeu
Flávio Santos diz
que, em seus primórdios, a igreja evangélica em Messejana que viraria a
sinagoga Beitel dava grande ênfase ao Antigo Testamento.
Depois, a
comunidade aderiu ao judaísmo messiânico, que combina práticas judaicas com a
adoração a Jesus, mas não é considerado parte do judaísmo
pela maioria dos rabinos.
Até que, por volta
de 2018, o grupo abandonou a fé em Cristo e aderiu ao judaísmo ortodoxo, corrente que eles
consideram mais próxima da religião praticada nos tempos bíblicos.
Flávio diz que,
para boa parte da comunidade, a adesão ao judaísmo significou um regresso à fé
de seus antepassados. Como ele, muitos na sinagoga dizem ter descoberto
vínculos com o judaísmo ao estudarem a história de suas famílias, montarem suas
árvores genealógicas ou fazerem testes genéticos.
Flávio, no caso,
diz ter percebido possíveis laços familiares com a religião ao analisar
práticas de uma avó nascida no interior de Alagoas, como o costume de se banhar
na sexta-feira à tarde e a recusa dela em apontar para estrelas com os dedos.
Para ele e
outros bnei anussim, a primeira prática é uma reminiscência
dos preparos para o shabat, o dia sagrado do judaísmo,
enquanto o segundo estaria ligado ao medo que judeus tinham de serem
denunciados durante a Inquisição, já que o aparecimento das estrelas marcava o
fim do shabat.
A avó dele, porém,
se definia como cristã e desconhecia qualquer vínculo com o judaísmo — algo que
Flávio atribui aos séculos de repressão contra a religião.
Hoje, segundo ele,
a sinagoga tem 45 membros já convertidos. Os trabalhos religiosos são
orientados à distância por um rabino de Israel.
O movimento de
retorno ao judaísmo no Nordeste teve seus primeiros capítulos nos anos 1960,
quando pessoas nascidas católicas passaram a reivindicar laços sanguíneos e
culturais com a religião e a frequentar sinagogas em cidades como Recife e
Natal.
Os pioneiros do
movimento eram conhecidos como "marranos", antiga alcunha pejorativa
que significa "porcos", em espanhol, mas foi apropriada pelo grupo.
A novidade dos
últimos anos é o surgimento de várias comunidades formadas só por judeus
convertidos e a grande presença de ex-evangélicos entre seus membros.
No Recife, a
tradicional Synagoga Israelita, fundada em 1926 por judeus do Leste Europeu e
que foi frequentada pela família da escritora Clarice Lispector (1920-1977),
hoje é dirigida e frequentada quase exclusivamente por bnei anussim.
O fenômeno coincide
com uma aproximação cada vez maior entre igrejas evangélicas e
Israel e com a popularização de testes genéticos, que têm
apontado ancestralidade judaica em muitos brasileiros.
O movimento ocorre
ainda em meio à explosão de cursos online sobre judaísmo e o papel de judeus e
cristãos-novos na história do Brasil.
Quantos judeus há no Brasil?
Não há dados
oficiais sobre a quantidade de convertidos ao judaísmo no Brasil, e o último Censo, de 2022, não apresentou
informações sobre judeus em seu levantamento sobre religiões.
O Censo anterior,
de 2010, contabilizou 107 mil, e a Confederação Israelita do Brasil (Conib)
estima em 120 mil.
Há indícios, porém,
de que o número esteja aumentando. Em 2021, uma pesquisa do Samuel Neamen
Institute, um centro de estudos de Israel, estimou que 30 mil bnei
anussim brasileiros se converteram ao judaísmo nos últimos anos.
Segundo a pesquisa,
há ainda 4 milhões de brasileiros com ancestralidade judaica que poderiam se
enquadrar na categoria bnei anussim, mas ainda não se converteram.
Para o escritor
pernambucano Jacques Ribemboim, autor de livros sobre a história
do judaísmo no Nordeste, o número de nordestinos com antepassados
judeus pode ser ainda maior e superar até a população de Israel, de 10 milhões
de habitantes.
"Há no
Nordeste brasileiro um potencial para algumas dezenas de milhões de
descendentes de judeus que podem eventualmente voltar a se identificar com o
judaísmo e a vontade de retomar a prática judaica", afirma Ribemboim.
"É um fenômeno
extraordinário", acrescenta o escritor, ele próprio judeu, mas do ramo
asquenazi, da Europa Oriental.
Convertidos no Exército israelense
Quando a BBC News
Brasil esteve na sinagoga de Messejana, havia um visitante de destaque: um
antigo membro da comunidade que hoje mora em Israel e é soldado do Exército israelense.
De férias no
Brasil, o jovem não quis falar sobre a atuação como militar e pediu para não
ter a identidade revelada, citando preocupações com a segurança.
Em uma rápida
conversa, disse ter se convertido ao judaísmo há poucos anos e obtido a
cidadania israelense por meio da aliá — nome do processo legal
pelo qual qualquer judeu pode se tornar cidadão do país.
Membros da sinagoga
afirmaram que há ainda outro ex-frequentador que hoje é militar em Israel.
"Eles servem ao Estado de Israel, mas, mais que isso, servem ao povo judeu
como um todo", afirma Flávio Santos, o cantor litúrgico da sinagoga.
Questionado
sobre críticas de que Israel usaria uma força desproporcional
em Gaza, Santos atribuiu a responsabilidade pela guerra ao Hamas por ter atacado o território
israelense, em 7 de outubro de 2023.
Cerca de 1,2 mil
pessoas morreram no ataque do Hamas e outras 257 foram sequestradas. Já na
resposta israelense morreram mais de 60 mil palestinos, incluindo 18,5 mil
crianças e 9,8 mil mulheres, segundo o Ministério da Saúde de Gaza, controlado
pelo Hamas.
"É algo duro
de assistir", diz Flávio sobre a morte de civis palestinos. "Mas é
uma questão de soberania nacional, de defesa da população."
Mudança de país (e de nome)
Há casos de
famílias inteiras de judeus convertidos nordestinos que hoje vivem em Israel,
embora a maioria das pessoas migre sozinha.
Uma antiga
frequentadora da sinagoga em Messejana que hoje mora em Israel é Shoshana Lima,
de 25 anos.
Formada em Jornalismo
na Universidade Federal do Ceará, ela visitou a sinagoga pela primeira vez em
2022 e se converteu no ano seguinte. Meses depois, mudou-se sozinha para Israel
e se tornou israelense neste ano.
Shoshana diz que
jamais soube de qualquer vínculo familiar com o judaísmo e que "se sentiu
em casa" ao visitar a sinagoga pela primeira vez, em um momento em que
estava em busca de uma religião e de "pertencer a uma comunidade".
Ao migrar para
Israel, a jovem teve a opção de trocar de nome. Ela escolheu Shoshana — que
significa "rosa" ou "lírio" em hebraico — e abandonou o anterior,
Suyane.
Em Israel, onde
pretende se casar e trabalhar na área de tecnologia, Shoshana diz ter
vivenciado uma liberdade inédita: "Não preciso explicar para ninguém por
que eu não toco um homem ou por que uso as roupas que uso".
Indagada sobre a
decisão de se tornar israelense em um momento em que Israel é acusado por vários países de promover um
genocídio em Gaza — acusação refutada pelo governo israelense
—, ela afirma que boa parte do mundo tem uma visão maniqueísta sobre o
conflito.
Em sua visão,
Israel está agindo para evitar um novo ataque do Hamas. "Espero que haja
paz, mas as pessoas precisam parar de ver essa guerra como preto no
branco."
Era de ouro do judaísmo
Engana-se, porém,
quem pensa haver unidade política e um alinhamento automático entre os bnei
anussim e o governo israelense.
O historiador
Aldrey Ribeiro, de 31 anos, é o líder da sinagoga Branca Dias, fundada por
judeus convertidos em Campina Grande, no interior da Paraíba.
O nome da sinagoga
homenageia a luso-brasileira Branca Dias (1515-1589), condenada pela Inquisição
por praticar o judaísmo em Olinda.
Para Aldrey, os
palestinos também devem ter seu próprio Estado — uma
posição que é rejeitada pelo governo de Israel e é minoritária entre a
população israelense, segundo pesquisas recentes.
Ele diz ainda que
metade de sua congregação tem posições de esquerda, e a outra metade, de
direita — o que não é um problema para o grupo.
Para Aldrey,
os bnei anussim são herdeiros da "era de ouro do
judaísmo", período em que judeus, cristãos e muçulmanos conviviam na
Península Ibérica antes da Inquisição.
"Foi a época
em que o judaísmo mais floresceu nas artes, nas ciências e na poesia, e o
segredo para isso era saber dialogar com o outro", afirma o historiador.
"Por carregar
essa herança, nós, bnei anussim, sabemos conviver com
diferenças."
Aldrey afirma ainda
que, ao investigar o passado de sua família, fez testes de DNA que detectaram
genes comuns entre populações judaicas e que, ao montar sua árvore genealógica,
descobriu ser descendente de um rabino que viveu na Espanha no século 15.
Para ele, o retorno
dos bnei anussim ao judaísmo é uma "reparação
histórica".
"A
possibilidade de ser judeu foi roubada da gente, e isso é muito dolorido",
diz.
Perseguidos pela Inquisição
Os judeus chegaram
à Península Ibérica depois da destruição de Jerusalém pelo Império Romano, no ano 70, e viveram ali
séculos de relativa liberdade religiosa.
Até que, em 1492,
eles foram expulsos da Espanha por reis católicos que buscavam a
unificação religiosa do reino.
Cinco anos depois,
foi a vez de Portugal obrigá-los a deixar o país ou a
se converter ao cristianismo.
Mesmo após a
conversão, no entanto, muitos continuaram a ser perseguidos pela Inquisição,
tribunal criado pela Igreja Católica no século 12 para punir heresias.
Segundo o
pesquisador Jacques Ribemboim, muitas famílias cristãs-novas viram então no
Brasil uma chance de praticar o judaísmo às escondidas.
Em Olinda, uma das
maiores cidades do Brasil nos primórdios da colonização, os cristãos-novos
chegaram a compor entre um terço e metade da população local, afirma Ribemboim.
O grupo pôde até
professar o judaísmo abertamente por um curto período, no século 17,
quando holandeses assumiram o controle de boa
parte da região Nordeste e estabeleceram um regime de maior tolerância
religiosa.
Em 1654, porém, com
a expulsão dos holandeses, os judeus foram obrigados a voltar à cristandade.
"Então, eles
começam a se interiorizar, e só ficou alguma prática judaica, aqui e ali, em
algum bolsão remoto dos sertões brasileiros", diz Ribemboim.
Para ele, é
possível que algumas dessas práticas judaicas tenham sobrevivido nas
famílias bnei anussim atuais, mas os vários séculos
transcorridos impedem uma comprovação categórica dos vínculos. "Como pesquisador,
tenho de tratar essas possíveis conexões como hipóteses."
Judeus convertidos brasileiros em Israel
Não se sabe quantos
brasileiros convertidos ao judaísmo moram em Israel, porque os dados do governo
israelense não diferenciam judeus convertidos de não convertidos.
Segundo o governo
de Israel, 257 brasileiros se tornaram cidadãos israelenses em 2024 — número
próximo ao da média histórica, mas abaixo ao de anos anteriores à guerra em
Gaza.
Não há dados sobre
quantos membros do Exército israelense nasceram no Brasil.
Comunidades
visitadas pela BBC News Brasil estimaram em "algumas centenas"
os bnei anussim brasileiros que hoje moram em Israel.
Líderes
comunitários disseram que a maioria dos bnei anussim não
pretende deixar o Brasil, mas que a presença do grupo em Israel poderia ser
maior não fossem algumas barreiras enfrentadas pelo grupo.
O comerciante
Antonio Fabiano de Oliveira Cavalcante é o líder da comunidade judaica ortodoxa
de Tibau, cidade com 5,6 mil habitantes no litoral do Rio Grande do Norte.
Fundada em 2014, a
sinagoga da cidade tem cerca de 40 membros e um redário para hospedar
integrantes durante o shabat. Em períodos de festas, alguns chegam
a passar três dias seguidos dentro da sinagoga.
A própria
comunidade abate os animais que consome, seguindo os ritos da lei dietética
judaica, e hoje todos os meninos são circuncidados oito dias após nascerem,
conforme manda a Lei Judaica.
As rezas na
sinagoga são em hebraico e em ladino, antiga língua dos judeus sefarditas, mas
têm um quê regional: alguns cantos litúrgicos ganharam a melodia de clássicos
da música nordestina, como Asa Branca, de Luiz Gonzaga,
e Eu só quero um xodó, de Dominguinhos.
Outra
particularidade dos bnei anussim nordestinos são as
vestimentas do dia a dia. Enquanto muitos judeus ortodoxos do ramo asquenazi
(Leste Europeu) costumam vestir ternos escuros e chapéus, os bnei
anussim têm como referência as roupas mais leves do judaísmo
sefardita, mais adequadas aos trópicos.
Apesar do rigor com
que o grupo diz viver a religião, Antonio Fabiano afirma que algumas pessoas no
Brasil ainda questionam seu judaísmo.
Ele afirma que a
principal dificuldade da comunidade é enviar os jovens para um período de
estudos em Israel — prática comum entre judeus de cidades como São Paulo e Rio
de Janeiro.
Há vários programas
de estudos em Israel financiados pelo governo israelense. A seleção para parte
desses programas é feita pela Agência Judaica, órgão ligado ao Ministério do
Interior israelense com escritórios no Brasil.
A agência também
faz uma triagem dos judeus interessados em fazer a aliá e
migrar legalmente para Israel com as despesas custeadas pelo governo
israelense.
Antonio Fabiano
afirma, porém, que bnei anussim não filiados a congregações
judaicas tradicionais ainda são barrados nas seleções, o que os obriga a buscar
outros caminhos e a bancar a viagem do próprio bolso.
A BBC News Brasil
questionou a Agência Judaica e o Ministério do Interior israelense sobre
queixas de que os bnei anussim estariam sendo preteridos nas
seleções, mas não houve resposta até a publicação desta reportagem.
Em um processo
judicial recente, o ministério israelense expressou a preocupação de que
pessoas de países pobres estejam usando possíveis laços com o judaísmo como
desculpa para migrar para Israel e obter vantagens econômicas.
A educadora
Jacqueline Passy, uma judia nascida no Rio de Janeiro que há mais dez anos
assessora grupos bnei anussim,diz compreender que o movimento
desperte receios em Israel.
"Eles pensam:
'Onde vamos botar 40 milhões de pessoas?'", diz Passy, citando uma das
estimativas mais elevadas da população bnei anussim no Brasil.
Mas ela diz
acreditar que os temores estão diminuindo conforme Israel percebe que o grupo
pode contribuir com o país e não pretende imigrar em massa.
"São pessoas
que querem botar a mão na terra, e Israel precisa dessa gente", defende
Passy.
Ela diz que já
prestou consultoria a milhares de bnei anussim, dos quais 70 hoje
são cidadãos israelenses. Para atender o grupo, ela criou uma escola online
sobre judaísmo, a Raízes Judaicas do Brasil.
A BBC News Brasil
também procurou a Confederação Israelita do Brasil (Conib) para saber a posição
da entidade sobre o movimento bnei anussim e as reclamações de
comunidades quanto à falta de diálogo com instituições judaicas tradicionais.
Em nota, a Conib
não comentou as críticas, mas disse ver "com satisfação esse grande
movimento de apoio e pertencimento ao judaísmo e a Israel".
"A relação do
nosso país com o judaísmo é profunda e muito antiga, e esse fenômeno religioso
é mais uma prova disso", afirmou a confederação.
Barrado à porta da sinagoga
Os bnei
anussim citam ainda outros problemas na convivência com congregações
judaicas tradicionais.
Aldrey Ribeiro, o
historiador que lidera a sinagoga em Campina Grande, descreve um episódio que
diz ter vivido há alguns anos durante uma visita a São Paulo.
Acompanhado por um
grupo de judeus paulistanos, ele pretendia visitar uma grande sinagoga, que
prefere não nomear.
À porta, porém, diz
ter sido barrado pelo segurança. "Ele perguntou meu sobrenome, e eu falei
com todo orgulho: 'Ribeiro'. Então, ele falou: 'Não entra'."
Já os outros judeus
que o acompanhavam, todos de famílias judias de imigração recente, puderam
entrar, segundo o historiador.
Ribeiro diz que o
segurança não explicou a decisão e que ele saiu de lá constrangido e
envergonhado.
Para o historiador,
o episódio ilustra o "preconceito" com que, segundo ele, os bnei
anussim ainda são tratados por parte da comunidade judaica brasileira,
algo que também se manifesta nos obstáculos à conversão em congregações
tradicionais, diz Ribeiro.
Vários líderes do
movimento disseram à BBC News Brasil que tiveram de buscar rabinos
estrangeiros, porque encontraram portas fechadas em muitas sinagogas
brasileiras.
Já rabinos
brasileiros de diferentes correntes apontam dificuldades para acolher o grupo,
entre os quais a sobrecarga de funções e preocupações com a segurança.
Lei do Retorno
Em parte, as
dificuldades enfrentadas pelos bnei anussim refletem disputas
em torno de quem tem o poder de fazer conversões no judaísmo e as fronteiras
entre religião e laicidade no Estado de Israel.
A Lei do Retorno de Israel, de 1950, estabelece
que todo judeu tem o direito de migrar para Israel e obter a cidadania
israelense. O país considera como judeu quem tenha ao menos algum avô ou avó
judia ou que tenha se convertido à religião.
Vários bnei
anussim entrevistados pela reportagem foram convertidos ao judaísmo
por Chaim Amsalem, um rabino que também construiu uma carreira política em
Israel.
Nascido em 1959 em
uma família sefardita na Argélia, Amsalem migrou para Israel com a família na
infância e foi ordenado rabino em 1980.
Ele foi membro do
Parlamento Israelense entre 2006 e 2013 pelo partido religioso Shas e ganhou
fama ao defender um processo mais simples para a conversão de judeus.
Para Amsalem, essa
é uma questão central para a sobrevivência de Israel e do judaísmo. "Somos
20 milhões [de judeus] no mundo hoje, mas podemos nos tornar 200 milhões",
ele diz à BBC News Brasil.
"Se você é um
povo grande, você é um povo mais forte."
Amsalem diz já ter
convertido entre 2 mil e 3 mil bnei anussim brasileiros, que
ele considera "ovelhas desgarradas que precisamos trazer de volta ao
rebanho".
"Toda pessoa
que pense que tem origem judaica pode entrar no judaísmo. Hoje, para mim, essa
é a missão mais importante que pode existir no mundo judaico."
Disputas na Justiça
As posições do
rabino, no entanto, atraíram críticas de outros religiosos, que viam seus
critérios para conversões como permissivos demais, e ele acabou expulso do
partido em 2012.
Desde então,
Amsalem dirige a Zera Israel, fundação dedicada a trazer de volta para o
judaísmo descendentes de judeus espalhados pelo mundo.
Mas o que
aconteceria se todos os brasileiros com ancestralidade judaica resolvessem se
converter e morar em Israel?
"Seria
bom", diz Amsalem. "Os bnei anusim não são menos
importantes para o povo judeu."
Em 2022, uma corte
em Israel decidiu que uma mulher estrangeira convertida por Amsalem tinha
direito à cidadania israelense — decisão que, em tese, abre o caminho para que
todos os brasileiros convertidos por ele também solicitem a cidadania
israelense.
Mas a decisão não
mudou a postura do governo de Israel, que continua recusando as conversões de
Amsalem e privilegiando os processos chancelados pelo Rabinato-Chefe do país,
controlado por rabinos ortodoxos que romperam com o argelino.
Isso faz com que,
para pleitear a cidadania, os convertidos por Amsalem precisem entrar na
Justiça israelense ou validar a conversão em algum tribunal rabínico aceito
pelo governo do país.
Segundo o rabino,
as resistências a seu trabalho refletem um esforço do Rabinato-Chefe em manter
um controle exclusivo sobre as conversões.
Procurado pela BBC
News Brasil, o Rabinato-Chefe de Israel não respondeu as críticas de Amsalem
nem sua recusa em aceitar as conversões do rabino.
Amsalem não é o
único religioso em Israel a questionar o Rabinato-Chefe, cujo poder vem sendo
limitado por decisões da Justiça do país.
Em 2021, a Suprema
Corte de Israel considerou que conversões feitas por rabinos das correntes
reformista e conservadora, ambas desvinculadas do Rabinato-Chefe, também eram
válidas para a obtenção da cidadania.
Conversões proibidas
A conversão de
milhares de bnei anussim brasileiros ao judaísmo é um tema
controverso entre diferentes congregações judaicas no Brasil.
Um dos
representantes no Brasil do Chabad, um dos maiores movimentos no judaísmo
ortodoxo no mundo, o rabino Shamai Ende diz à BBC News Brasil que, há várias
décadas, conversões estão proibidas no país — e que, portanto, ele considera
inválidos os procedimentos do rabino Amsalem.
Segundo Ende, as
proibições aconteceram porque muitas pessoas se converteram ao judaísmo no país
com "segundas intenções".
"Pessoas que
querem fazer a conversão para serem auxiliadas pela comunidade… isso são
segundas intenções", exemplifica Ende.
Há várias
organizações filantrópicas judaicas que oferecem assistência a judeus em
situação vulnerável.
Ende afirma ainda
que os bnei anussim são livres para viver como judeus, mas que
"devem fazer tudo na comunidade deles — escolas, sinagogas etc. — para não
ficarem dependendo das [nossas] comunidades ortodoxas".
"O povo judeu
não é proselitista, não fazemos questão de trazer outros para dentro do
judaísmo", diz o rabino.
Questionado sobre o
caso do líder bnei anussim que diz ter sido barrado em uma
sinagoga em São Paulo, Ende afirmou que as congregações não podem permitir a
entrada de desconhecidos.
"Estamos
vivendo uma época de antissemitismo muito grande e muitos que tentam entrar na
sinagoga como judeus, na verdade, são terroristas."
Em outras
congregações judaicas não ortodoxas, o fenômeno bnei anussim é
visto mais favoravelmente, e várias delas realizam conversões de membros do
grupo, ainda que admitam não conseguir atender à demanda.
Rabino da
Congregação Israelita Paulista (CIP), que segue o judaísmo liberal e se
apresenta como a maior comunidade judaica do país, Ruben Sternschein diz
considerar positivo que alguém queira se tornar judeu, "desde que isso
seja autêntico e traga um bem para si e os que estão à volta".
Segundo Sternschein
, a CIP tem acolhido vários bnei anussim, e ele próprio esteve em Natal
em 2022 para iniciar o processo de conversão de algumas famílias na cidade.
O rabino afirma,
porém, que o fenômeno apresenta um grande desafio para sua congregação,
"porque cada caso [de conversão] é um caso e porque a comunidade tem que
cuidar de muitas outras coisas".
Sternschein diz
que, entre outras funções, os rabinos da CIP acompanham um grupo de 500 jovens
e dão suporte espiritual a idosos hospitalizados.
Questionado sobre
possíveis casos de preconceito contra os bnei anussim em
comunidades judaicas tradicionais, ele disse que as queixas podem ter
fundamento.
"Os judeus
somos um dos exemplos dos coletivos minoritários mais discriminados na história
da humanidade, mas nem sempre a pessoa que mais sofreu alguma coisa é a que tem
mais força para evitar que isso aconteça", diz Sternschein.
Ele afirma, porém,
que essa postura não é exclusiva dos judeus: "Vivemos numa sociedade em
que a desumanização é instantânea, e todos precisamos trabalhar nisso
constantemente, não só os judeus".
Profecias do fim dos tempos
Apesar das
resistências em parte da comunidade judaica, o movimento de retorno ao judaísmo
já viu um de seus precursores chegar ao posto de rabino.
João Fernandes Dias
de Medeiros, de 91 anos, oficializou sua adesão à fé judaica nos anos 1960,
após passagens pelas Igrejas Metodista e Presbiteriana.
Em 2006, ele foi
aclamado rabino da sinagoga Brás Palatnik, fundada em Natal em 1925 por judeus
do leste europeu.
Ainda assim,
Medeiros relata que sua autoridade já foi contestada dentro da própria
comunidade.
Certa vez, um
integrante insistia em chamá-lo de "amigo" em vez de
"rabino". Ao questionar a postura, Medeiros ouviu do colega que, para
ele, Medeiros "não era nem judeu, nem rabino".
Diante da
afirmação, diz ter reagido "com grosseria".
"Ninguém
depende, para o retorno ao judaísmo, de uma corte rabínica ou de receber autorização",
defende Medeiros.
Para ele,
congregações que se recusam a acolher os bnei anussim "estão
perdendo o bonde da história".
Medeiros associa o
movimento de retorno ao cumprimento de profecias judaicas sobre o fim dos
tempos.
"O Eterno
prometeu, como castigo aos judeus que transgrediram, que iria dispersá-los por
todos os países, mas, no final dos tempos, iria trazê-los de volta", diz.
"O retorno
está acontecendo."
(Fonte: BBC)





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