Foi assim que o consultor financeiro Pedro Zava, de
43 anos, descreveu o impacto da notícia de que os
Estados Unidos vão suspender a emissão de vistos de imigração para
cidadãos do Brasil e de outros 74 países. A medida entra em vigor a partir
desta quarta-feira (21/1).
Com um processo migratório em andamento desde 2023, ele teme que a decisão do governo americano coloque em risco o plano de morar no país com a esposa e três filhos.
Zava está na fila para obter um visto da categoria
EB-2 NIW, que permite a concessão do green card sem oferta se
o candidato comprovar qualificações avançadas e se sua atuação for considerada
de interesse nacional para os EUA.
Seu pedido foi protocolado em setembro de 2024 e
ainda está na fase documental. Ele conta que sua primeira reação à notícia foi
de desespero.
No dia 14 de janeiro, o Departamento de Estado dos
Estados Unidos informou que iria suspender o processamento de vistos de
imigração para cidadãos de países considerados de "alto risco para uso de
benefícios públicos", como parte de uma revisão mais ampla de suas
políticas migratórias.
A medida não afeta vistos de turismo nem outros
vistos temporários, como de estudo, trabalho provisório ou negócios.
Além do Brasil, a lista inclui países como Somália,
Rússia, Afeganistão, Irã, Iraque, Egito, Nigéria, Tailândia e Iêmen, entre
outros.
"Quando vi aquilo meu humor mudou
completamente. Fiquei sem chão", relatou. "Do jeito que foi
noticiado, parecia que tinha um bloqueio geral, que o Brasil estava numa lista
como se ninguém nunca mais pudesse tirar visto."
"Sou cristão, então comecei a orar, tentar
acalmar meus ânimos. Depois fui atrás de informação", diz Zava, que também
presta consultoria para um escritório de imigração, o AG Immigration.
Em nota, o governo americano afirmou que a decisão
reflete a posição do presidente Donald Trump de que imigrantes
"devem ser financeiramente autossuficientes e não representar um fardo
financeiro para os americanos".
O texto também diz que a revisão busca impedir que
imigrantes utilizem programas de assistência social ou se tornem um
"encargo público".
"Estamos trabalhando para garantir que a
generosidade do povo americano não seja mais explorada. O governo Trump sempre
colocará os Estados Unidos em primeiro lugar", diz publicação do Departamento
de Estado dos EUA nas redes sociais.
Zava vê com simpatia a política migratória mais
rígida defendida pelo governo republicano. "Avalio positivamente, por
incrível que pareça", afirma.
"Quero estar nos Estados Unidos porque compreendo
que o americano exerce bem a ideia de soberania nacional, de entender America
First [a América em primeiro lugar] e de olhar para as cadeias
produtivas de forma mais meritocrática. Não vou me sentir injustiçado e vou
compreender a decisão deles. Mas vou ficar muito triste."
Na avaliação dele, governos de políticos do Partido
Democrata foram menos rigorosos com o tema da imigração.
"Isso acabou prejudicando profissionais
qualificados, como eu, que tentam fazer tudo da forma correta. Vejo o movimento
atual justamente como um efeito chicote do que aconteceu no passado, de
abertura de fronteiras", analisa.
Ele acredita que a tendência seja priorizar
imigrantes com alta qualificação. "Imagino que a peneira vai ficar mais
correta. Quem eles escolherem vai ser escolhido com mais critério. Tenho fé
nisso."
O governo dos EUA, no entanto, ainda não abriu
nenhuma exceção neste sentido.
Até o momento, segundo uma porta-voz do
Departamento de Estado em entrevista à BBC News Brasil, não há expectativa de
revisão da inclusão do Brasil no grupo de países afetados e não estão previstas
exceções, nem mesmo para solicitantes que possam comprovar ter recursos
financeiros para se manter no país.
'Frustração tremenda'
Rodrigo Perenha, de 44 anos, fundador e diretor de
tecnologia de uma fintech com operação no Brasil e
investimentos de fundos americanos, também está há meses se preparando para
aplicar para um visto de imigração por mérito.
Ele tenta o visto de imigração da categoria EB-1,
voltado a profissionais com trajetória considerada extraordinária. Antes disso,
ele teve uma primeira tentativa negada no EB-2 NIW, modalidade destinada a
candidatos cuja atuação é considerada de interesse nacional para os Estados
Unidos.
Com formação em Ciência da Computação e passagens
por grandes empresas de tecnologia, ele diz que o desejo de viver nos Estados
Unidos nunca foi uma "fuga do Brasil", mas uma escolha pensando,
sobretudo, em seus filhos, de 10 e 4 anos.
"Me considero um brasileiro apaixonado pelo
meu país. Minhas raízes e minha identidade sempre vão estar aqui", diz.
"É uma decisão de experiência, de liberdade e
muito mais até pautada neles. Quero poder proporcionar para eles essa
experiência internacional, exposição de cultura. Quero dar para eles liberdade
de escolha no futuro."
O anúncio da suspensão, no entanto, veio justamente
quando seu processo estava prestes a ser protocolado. Ele enviou a documentação
nesta terça-feira (20/1), um dia antes de a medida entrar em vigor.
"No primeiro momento foi uma frustração tremenda",
disse. "Imagina que fiquei meses me preparando, por meses tive que buscar
referência do meu antigo trabalho, do fundo que investe na minha empresa, tudo
super trabalhoso."
Ainda assim, Perenha decidiu seguir adiante. Para
ele, a maior fonte de angústia tem sido a desinformação. "O que gera
pânico é não entender o que está sendo suspenso."
Na avaliação dele, o endurecimento da política
migratória reflete uma escolha clara do governo americano.
"Os Estados Unidos decidiram que querem
pessoas que vão contribuir, não apenas usufruir. Posso não gostar do rigor, mas
entendo a lógica do país", diz. Ao mesmo tempo, ele critica o fato de
diferentes perfis de imigrantes serem colocados "no mesmo bolo",
independentemente de trajetória ou qualificação.
Mas Perenha acredita que o momento pode favorecer
casos mais sólidos. "Se o rigor aumenta, quem tem uma história consistente
pode até sair fortalecido. Mas é um processo desgastante, emocionalmente
pesado."
'Não posso planejar meu casamento'
A suspensão também atinge brasileiros que tentam
emigrar não por razões profissionais, mas afetivas.
É o caso da bióloga Ana Gomez, de 36 anos, que vive
hoje em Indaiatuba (SP) e aguarda há quase dois anos a conclusão do pedido
de green card para se casar com seu noivo americano, com quem
mantém um relacionamento há quatro anos, três à distância.
Ana morou nos Estados Unidos por oito anos com um
visto do tipo J, modalidade de intercâmbio que exige retorno ao país de origem
ao fim do período de estudo. No último ano no país, conheceu o atual noivo.
"Quando chegou a hora de ir embora, legalmente
eu tinha que voltar. A gente ainda não estava pensando em casamento, então
seguimos à distância", conta.
Em 2024, decidiram oficializar a união e iniciar o
processo para viver juntos nos EUA. "Fazia muito mais sentido eu ir para
lá. Ele já veio ao Brasil, mas a adaptação para ele aqui seria muito mais
difícil."
O casal optou pelo chamado K-1, "o visto de
noiva", que permite a entrada nos Estados Unidos para casamento em até 90
dias. O processo de Gomez começou em abril de 2023, ainda no governo de Joe
Biden, e se estendeu muito além do esperado.
"Esse visto costumava levar cerca de seis
meses. No nosso caso, já vai fazer dois anos", diz. A entrevista consular
de Gomez está marcada para 6 de fevereiro, apenas dez dias após o início da
suspensão anunciada pelo governo Trump.
O anúncio, ela conta, provocou choque e confusão.
"Foi um susto. A gente caiu exatamente dentro dessa pausa", afirma.
Segundo ela, nem mesmo advogados ou funcionários do
consulado conseguem dar respostas definitivas. "A impressão que temos é
que o objetivo é fazer com que as pessoas desistam."
Para ela, a justificativa oficial do governo
americano — evitar que imigrantes se tornem um "fardo" para o sistema
de assistência social — não se sustenta no caso desse tipo de visto.
"A gente já precisa comprovar renda, saúde,
ter fiador se for o caso. Não é um visto para quem vai chegar lá sem
condições", afirma. "Eles dizem que vão criar um novo protocolo para
provar algo que a gente já provou."
A espera congelou planos pessoais. "Não dá
para planejar nada. Não dá nem pensar em comprar um vestido antes, em quem você
vai convidar. Eu já desanimei faz muito tempo já", diz.
Desde que iniciou o processo, Gomez não conseguiu
renovar o visto de turista, o que a impediu de visitar o noivo e seu cachorro,
que o casal adotou quando moravam juntos nos Estados Unidos.
"Não temos plano B agora. Tudo o que a gente
poderia tentar atrasaria ainda mais. A única alternativa seria ele vir para cá,
mas isso só se não der certo mesmo."
Endurecimento de políticas migratórias
A nova determinação do Departamento de Estado
representa um endurecimento ainda maior da posição do presidente republicano em
relação aos migrantes, durante seu segundo mandato.
Entre outras medidas, Trump procurou realizar
deportações em massa de migrantes que entraram no país ilegalmente, reduzir
drasticamente o número de refugiados e eliminar os direitos à cidadania
automática que se aplicam atualmente a quase todos os nascidos em território
americano.
O governo também promove um endurecimento das ações
de fiscalização por meio do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em
inglês). Como consequência, aumentaram os episódios violentos envolvendo
agentes da organização.
A medida ocorre em meio a uma crise no Estado de
Minnesota, após a morte de Renee Nicole Good, uma mulher de 37 anos, por
um agente do ICE em Minneapolis. O episódio que desencadeou uma onda de
protestos em todo o país.
Pedro Zava diz temer viver em um país onde, como
imigrante, possa ser discriminado. Por isso, o Estado onde a família pretende
morar nos Estados Unidos ainda não está definido.
"Minha esposa está 100% confiante de que será
respeitada e tratada como uma americana, como alguém que mora legalmente nos
Estados Unidos e passou por todo o processo e entrou de forma regular",
diz.
"Já eu acho que depende muito do Estado e da
cidade. Se for para um lugar muito miscigenado, como Atlanta, com pessoas do
mundo inteiro. Agora, em Michigan, eu já não sei", continua.
"Se formos para um lugar menos diverso, acho
que podemos, sim, sofrer com olhares do tipo: 'essas pessoas estão aqui para
tirar nossos empregos'. Não faz sentido, mas acredito que isso pode acontecer."
'Medida tem fins políticos'
A suspensão anunciada pelo governo americano se
aplica exclusivamente a vistos de imigração, concedidos a estrangeiros que
pretendem residir permanentemente nos Estados Unidos. A exceção é apenas
pessoas com dupla nacionalidade que utilizem passaporte de um país fora da
lista de suspensos.
Apesar da medida, o Departamento de Estado informou
que os pedidos continuarão sendo aceitos e que as entrevistas consulares
seguirão sendo realizadas, mas nenhum visto de imigração será emitido enquanto
a suspensão estiver em vigor.
Leda Allmeida, CEO da AG Immigration, afirma que a
principal mudança a partir desta quarta-feira é o freio no processamento
consular de vistos de imigração.
"O impacto maior é a redução no número de
entrevistas marcadas e a paralisação de processos, com decisões adiadas para
quem está no caminho de obtenção do green card via
consulado", explica.
"Quem deu entrada no processo imigratório
dentro dos Estados Unidos, o que chamamos de 'ajuste de status', não sofre
impacto."
Ela diz que há "incerteza operacional"
até a publicação de um memorando do governo. "Na minha avaliação, o Brasil
tende a sair dessa lista, a menos que haja um conflito diplomático temporário.
Por isso, acredito que, quando a lista for revisada, o Brasil possa ser
excluído."
Michael Valverde, consultor estratégico da D4U
Immigration e ex-diretor da agência de imigração dos Estados Unidos (USCIS),
avalia que a decisão tem menos relação com riscos imediatos à segurança
nacional e mais com compromissos políticos assumidos por Trump.
"Cerca de um terço de toda a imigração legal
permanente para os Estados Unidos está hoje impactada por algum tipo de
bloqueio ou congelamento. Essas ações refletem promessas de campanha do
presidente de restringir a imigração para o país", avalia.
Na avaliação do ex-diretor da USCIS, a inclusão do
Brasil na lista não se sustenta em dados objetivos.
"O Brasil não é um país cujos imigrantes sejam
considerados um risco à segurança nacional. No caso de visitantes temporários,
a taxa de brasileiros que permanecem além do prazo ou violam de alguma forma as
condições de entrada é muito baixa, em comparação com outros países",
afirma.
"Em relação ao uso de benefícios públicos por
imigrantes, os dados variam. Ainda assim, recentemente a Casa Branca divulgou
uma lista de uso de assistência social por nacionalidade, e o Brasil ficou fora
dos 60 países cujos cidadãos mais utilizam esse tipo de benefício nos
EUA."
Valverde não vê a medida como uma mudança
estrutural definitiva. "É provável que esse tipo de política continue ao
longo do restante do mandato do presidente. Mas, na ausência de leis aprovadas
pelo Congresso que consolidem essas mudanças, as ações são, em sua maioria,
ordens executivas, o que significa que podem ser alteradas ou revertidas pelo
próximo governo", afirma.
"Pesquisas mostram que, embora os americanos
não apoiem uma imigração sem restrições, a maioria também não endossa políticas
extremamente rígidas. Diante disso, é provável que o próximo presidente adote
uma postura mais moderada e busque levar a política migratória americana de
volta a um ponto de equilíbrio."
(Fonte:
BBC)



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