Uma nova ferramenta tecnológica promete revolucionar a produção no campo brasileiro ao unir a vanguarda da computação com os saberes tradicionais dos movimentos populares. Trata-se da Iaraa, uma inteligência artificial (IA) lançada no 14º Encontro Nacional do MST, nesta quinta-feira (21), em Salvador (BA).
A IA está sendo desenvolvida pela Associação Internacional para Cooperação Popular (Baobá), numa parceria com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a Marcha Mundial das Mulheres (MMM).
Segundo o coordenador para a América
Latina da Baobá, Luiz Zarref, a Iaraa nasceu do entendimento de que a
inteligência artificial é um desenvolvimento da humanidade que deve estar a
serviço da classe trabalhadora e do campesinato, e não apenas do lucro das big
techs estadunidenses, que tem um vínculo direto com o agronegócio.
Tecnologia
chinesa com DNA brasileiro
Embora a Iaraa tenha o que Zarref descreve
como um “pezinho na tecnologia chinesa”, sua construção é essencialmente
brasileira. A parceria com a China surgiu pela
possibilidade de intercâmbio com a “nova qualidade das forças produtivas”
defendida pelo país asiático, buscando aplicar essa efervescência digital às
necessidades da agroecologia no Brasil.
“A Baobá tem o papel de construir um
intercâmbio internacional, um internacionalismo tecnológico entre os países do
Sul Global. Por nós estarmos com o escritório na China, tivemos a possibilidade
de nos aproximar de toda essa efervescência do mundo digital na sociedade chinesa,
a partir de uma definição do próprio Partido Comunista Chinês, de que nós
estamos na era da nova qualidade das forças produtivas. E uma delas é a
inteligência artificial”, explicou.
O núcleo central da IA está sendo
alimentado com uma base de conhecimento robusta, que inclui livros, cartilhas e
documentos técnicos internos dos movimentos populares, produções de
universidades, ONGs e instituições de pesquisa. Além disso, pretende buscar
acordos futuros para integrar dados de órgãos como a Empresa Brasileira de
Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
Funcionalidades:
Do combate a pragas à consciência de classe
A Iaraa não se limita a respostas
genéricas. Ela está sendo treinada por meio de engenharia de prompts (comandos)
para interagir de forma específica com diferentes públicos, como famílias
assentadas, técnicos e dirigentes de cooperativas. A ferramenta terá três eixos
de entrada: para quem está diretamente no campo (semeadura), para o trabalho em
grupo (mutirão) e para assistência técnica.
Na prática, a IA poderá resolver desde
questões cotidianas, como o combate a pulgões ou a construção de agroflorestas, até elaborar
estudos aprofundados sobre o papel da agroecologia na construção da consciência
de classe sob uma perspectiva marxista.
O desafio da
massificação
O investimento do MST nesta tecnologia faz
parte da estratégia da Reforma Agrária Popular, que coloca a agroecologia no
centro da produção de comida saudável para as cidades.
Para Zarref, o grande desafio atual é a
escala. “Massificação é escala. Temos que sair das experiências piloto para
todas as cadeias produtivas e biomas brasileiros”, afirma o coordenador.
Segundo ele, a Iaraa surge como uma
ferramenta de apoio para superar “gargalos tecnológicos”, ajudando a
sistematizar milhares de artigos, relatos de experiências e teses do MST no
Instituto Técnico de Capacitação e Pesquisa da Reforma Agrária (Iterra) e no
Instituto Educacional Josué de Castro (IEJC) que seriam impossíveis de serem
lidos por uma única pessoa. A ideia é que a IA sirva de suporte para a
assistência técnica, e não como sua substituta.
Lançamento e
próximos passos
Atualmente, a Iaraa está em fase de testes
e desenho de arquitetura. O processo de construção da base de dados seguirá de
forma orgânica junto aos movimentos até maio, mês previsto para o lançamento
oficial na Feira Nacional da Reforma Agrária, em São Paulo.
O acesso inicial deverá ser gratuito, via
celular ou computador, embora possa começar de forma limitada a cooperativas e
associações devido a restrições de infraestrutura tecnológica. O objetivo final
é consolidar a ferramenta como um meio para modernizar a estratégia de produção
em escala da agroecologia brasileira.
(Brasil de Fato)
.webp)
Nenhum comentário:
Postar um comentário