De 1995 a 2025, a Comissão Pastoral da
Terra contabilizou 2.692 casos como esse, de trabalhadores resgatados em
atividades de desmatamento, o que corresponde a 4% do total de pessoas
encontradas em condições análogas à escravidão no Brasil.
Somada com outras atividades, como a
pecuária, carvoaria, mineração e o cultivo de cana-de-açúcar, a porcentagem de
registros de trabalho escravo relacionadas a atividades que provocam forte
degradação ambiental chega a 57% dos 67.058 trabalhadores resgatados nos
últimos 30 anos, considerando as atividades do meio urbano e rural.
No topo da lista, está a pecuária, que
corresponde a 26% dos casos de trabalhadores resgatados, de acordo com a CPT.
Essa é, também, a atividade mais devastadora para as matas brasileiras. Dados
da plataforma Mapbiomas indicam que a Amazônia perdeu 9 milhões de hectares de
florestas para as pastagens nos últimos dez anos.
“Atividades que envolvem supressão vegetal
ilícita normalmente estão ligadas a casos de submissão de trabalhadores a
condições análogas à escravidão”, informa o Ministério Público do Trabalho
(MPT), por meio de nota. Os números, segundo o MPT, podem ser maiores devido à
subnotificação e às dificuldades na fiscalização nessas áreas, frequentemente
de difícil acesso.
“A destruição do meio ambiente tem uma
raiz relacionada com a questão do crime de trabalho escravo no Brasil”, alerta
o assistente social Francisco Alan Santos Lima, que trabalha junto à CPT,
acompanhando denúncias de trabalho escravo há 15 anos.
Foi ele quem recebeu o pedido de ajuda dos
três trabalhadores isolados em uma fazenda em São Félix do Xingu. “Um deles, já
de idade avançada, com seus 65 anos, adquiriu um problema de saúde. Além de
derrubar a mata, ele soltava veneno com aquela bombinha”, conta Lima.
A aplicação do agrotóxico para preparar a
área da pastagem era feita sem os equipamentos adequados, o que levou o
trabalhador ao adoecimento. Os homens haviam saído do Maranhão, para onde
conseguiram retornar após o resgate.
Poucos tempo depois, em agosto de 2025,
outra fazenda em São Félix do Xingu foi alvo de uma ação
do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), com o MPT e a Polícia Federal,
resultando no resgate de 17 trabalhadores. Sem registro de trabalho e sem
controle de jornada, eles viviam alojados embaixo de lonas e árvores. Um deles
dormia em um galinheiro.
Segundo nota publicada pelo MPT, embora a
fazenda dispusesse de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) novos, não eram
fornecidos aos trabalhadores, que aplicavam veneno sem qualquer proteção.
Os dados da pastoral indicam São Félix do
Xingu como o município paraense com mais registros de pessoas em condições de
trabalho escravo, com 1.704 casos nos últimos 30 anos.
São Félix é um lugar de números vultosos.
O município, localizado no sul do Pará, tem o tamanho da Áustria e soma o maior
rebanho bovino do país, com mais de 2 milhões de cabeças de gado. Isso
representa uma média de 38 bois por habitantes.
Outras
atividades
Depois da pecuária, que fica no topo da
lista de atividades com registro de trabalho escravo, vem o cultivo de cana-de-açúcar,
com 8% dos casos no período de 30 anos.
“Alguns programas de certificação tentam
criar padrões de elegibilidade de cana sem desmatamento para tentar restringir
um pouco essa prática. Mas ainda é bastante recorrente”, informa Marcelo de
Aguiar Pereira, coordenador de Agro ESG do Instituto de Manejo e Certificação
Florestal (Imaflora), que soma 30 anos de trabalho na implementação de boas
práticas no uso dos recursos naturais.
As carvoarias, atividade bastante poluente
que utiliza madeira como matéria-prima, respondeu por 7% do total de caso em
três décadas de levantamento.
Por fim, a reportagem do Brasil de Fato considerou
ainda o setor da mineração, que responde a 2% do total
de casos de trabalho escravo entre 1995 e 2025 e é uma das atividades mais
devastadoras para a floresta. Dados do MapBiomas apontam que, nos pontos onde a
floresta Amazônica foi reduzida, o uso do solo para mineração legal e ilegal
cresceu em 1.063% entre 1985 e 2024.
As áreas remotas onde são realizadas essas
atividades são um dos fatores favoráveis à exploração dos trabalhadores.
Isolados, eles têm mais dificuldade de pedir ajuda, ou mesmo de serem vistos
por outras pessoas, conforme explica a assistente social Brígida Rocha dos
Santos, agente da CPT no Maranhão, que acompanha denúncias de trabalho escravo
desde 2002.
Outro elemento, segundo ela, é a
incidência de fiscalização nas áreas rurais, tanto no combate ao trabalho
escravo quanto no desmatamento.
“Essas fiscalizações, tanto de combate ao
trabalho escravo, quanto no âmbito ambiental, elas se dão muito mais frequentes
na área rural, que é onde estão áreas de fazendas, de carvoarias, de
mineração”, diz.
Outro dado do levantamento mostra que 10%
dos trabalhadores em condição análoga à escravidão encontrados estavam
prestando serviço nas lavouras temporárias, contudo o levantamento
da pastoral não detalha que tipos de lavouras são essas, podendo ser soja, milho, algodão e outras culturas menos
impactantes ao ambiente.
Na lista de categorias apontada pela CPT
constam, no meio rural, desmatamento, pecuária, monocultivo de árvores,
extrativismo vegetal, cana-de-açúcar, lavouras temporárias e permanentes,
carvoarias e mineração. No meio urbano, as atividades estão separadas entre
construção civil, confecção e outros.
Devastação
da floresta e dos modos de vida
Conforme avançam contra as matas, as
atividades devastadoras destroem também modos de vida de povos e comunidades tradicionais, como pescadores,
ribeirinhos e indígenas. Apartados dos seus saberes e sem a fonte tradicional
do seu sustento, essas populações ficam vulneráveis aos trabalhos degradantes.
“Isso irá impulsionar, por exemplo, as
migrações forçadas para quem trabalha no campo”, avalia Lima, que cita o
exemplo das populações ribeirinhas, vítimas da exploração das suas áreas de
sustento e dos eventos climáticos extremos.
Com o avanço da crise climática, muitas
dessas comunidades podem perder seus territórios. “Sofrerão com aumento dos
níveis de rios ou a presença de empreendimentos que afetam o modo de vida
dessas populações, empurrando eles para alternativas de trabalho muitas vezes
precarizadas, que poderão ser em espaços rurais ou urbanos”, diz.
Durante a 30ª Conferência das Nações
Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém, no Pará, o Ministério
Público do Trabalho lançou a publicação Mudanças Climáticas e a Proteção do
Meio do Trabalho, que alerta para a relação entre crise climática e as relações de trabalho.
Em um dos artigos, que trata do trabalho
escravo, a autora Luciana Paula Conforti destaca que “as atividades econômicas
que adotam práticas ilegais, sem a devida repressão pelo Estado brasileiro, são
o motor de uma combinação altamente nociva, que desumaniza trabalhadores e
degrada o meio ambiente”.
Lista
suja
No fim de 2025, o MTE publicou a
atualização do Cadastro de Empregadores que tenham submetido trabalhadores a
condições análogas à escravidão, conhecido como “Lista Suja” – um documento
público e mecanismo de transparência. A nova versão inclui 159 empregadores,
sendo 101 pessoas físicas e 58 pessoas jurídicas, um aumento de 20% em relação
à atualização anterior.
De acordo com a Auditoria Fiscal do
Trabalho, os casos registrados nesta atualização ocorreram entre 2020 e 2025,
totalizando 1.530 trabalhadores resgatados da exploração.
Entre as atividades econômicas,
destacam-se a criação de bovinos, com 20 casos, os serviços domésticos, com 15,
o cultivo de café, com nove e a construção civil, com oito. Do total, 84% das
inclusões estão relacionadas a atividades econômicas do meio rural.
Para
fazer uma denúncia
Denúncias de trabalho análogo à escravidão
podem ser feitas de maneira sigilosa por meio do Sistema Ipê, lançado em 15 de
maio de 2020 pela Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT), em parceria com a
Organização Internacional do Trabalho (OIT).
O Sistema Ipê é a única plataforma
exclusiva para o recebimento de denúncias relacionadas a condições análogas à
escravidão e está totalmente integrado ao Fluxo Nacional de Atendimento às
Vítimas do Trabalho Escravo.
(Brasil de Fato)


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