Seis
de oito grupos de espécies estão mais vulneráveis aos
níveis crescentes de toxicidade. São eles: artrópodes terrestres (como insetos,
aracnídeos e lacraias), cuja toxicidade aumentou 6,4% ao ano; organismos do
solo (4,6%), peixes (4,4%); invertebrados aquáticos (2,9%), polinizadores
(2,3%) e plantas terrestres (1,9%).
O
TAT global diminuiu apenas para plantas aquáticas (−1,7%) e vertebrados
terrestres (−0,5% ao ano). Humanos fazem parte desse último grupo.
“O
aumento das tendências globais de TAT representa um desafio para o alcance da
meta de redução de risco de pesticidas da ONU e demonstra a presença de ameaças
à biodiversidade em nível global”, diz um dos trechos do estudo.
Brasil
em destaque
O Brasil aparece como um dos principais protagonistas desse
cenário. O estudo identifica o país como detentor de uma das maiores
intensidades de toxicidade por área agrícola em todo o planeta, ao lado de
China, Argentina, Estados Unidos e Ucrânia.
Além
disso, Brasil, China, Estados Unidos e Índia respondem juntos por 53% a 68% da
toxicidade total aplicada no mundo.
A relevância brasileira está diretamente
ligada ao peso do agronegócio, especialmente de culturas
extensivas. Embora cereais tradicionais e frutas ocupem grandes áreas, a
toxicidade associada a culturas como soja, algodão e milho exerce impacto
significativamente maior em relação à extensão cultivada.
Tipos
de pesticidas
Um
dos achados mais relevantes do estudo indica que o problema é altamente
concentrado: em média, apenas 20 pesticidas por país respondem por mais de 90%
da toxicidade total aplicada.
O
levantamento aponta que diferentes classes químicas dominam os impactos.
Classes de inseticidas, como piretroides e organofosforados, contribuíram com
mais de 80% do TAT de invertebrados aquáticos, peixes e artrópodes terrestres.
Neonicotinoides, organofosforados e lactonas representaram mais de 80% do TAT
de polinizadores.
Organofosforados,
juntamente com outras classes de inseticidas, foram os que mais contribuíram
para os TATs de vertebrados terrestres. Herbicidas acetamida e bipiridil
contribuíram com mais de 80% para o TAT das plantas aquáticas, enquanto uma
mistura mais ampla de herbicidas (incluindo acetamida, sulfonilureia e outros)
definiu o TAT das plantas terrestres. Herbicidas de alto volume, como
acetoclor, paraquat e glifosato, pertencem a essas classes e têm
sido associados a riscos ambientais e à saúde humana.
Fungicidas
conazol e benzimidazol, juntamente com os inseticidas neonicotinoides,
aplicados no revestimento de sementes, contribuíram principalmente para o TAT
dos organismos do solo.
Meta
global distante
O
estudo também avaliou a trajetória de 65 países. O diagnóstico é de que, sem
mudanças estruturais, apenas um país (Chile) atingirá a meta da ONU de redução
de 50% da toxicidade dos pesticidas até 2030.
Segundo
os pesquisadores, China, Japão e Venezuela estão no caminho para atingir a meta
e apresentam tendências de queda em todos os indicadores. Mas precisam de uma
aceleração nas mudanças de uso de agrotóxicos.
Tailândia,
Dinamarca, Equador e Guatemala estão se afastando da meta, com pelo menos um
indicador dobrando nos últimos 15 anos. Eles precisam reverter as tendências de
rápido aumento para voltar a trajetória anterior.
Todos
os outros países do estudo, o que inclui o Brasil, precisam retornar os riscos
de pesticidas aos níveis de mais de 15 anos atrás. O que significa reverter
padrões de uso das substâncias consolidadas há décadas, em termos de volume e
toxicidade das misturas.
Os
pesquisadores indicam três frentes principais para conter a escalada dos
riscos: substituição de pesticidas altamente tóxicos, expansão da agricultura
orgânica e adoção de alternativas não químicas. Tecnologias de controle
biológico, diversificação agrícola e manejo mais preciso são apontadas como
estratégias capazes de reduzir impactos sem comprometer produtividade.
(Brasil de Fato)

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